sábado, 21 de setembro de 2013

Absurdolândia 20

Mas, por outro lado, paradoxalmente, e a Absurdolândia é sempre pródiga em paradoxos, a imprensa absurda em absoluto não está errada em o tempo todo noticiar o absurdo que lá impera na medida que, hipocritamente, já que nunca faz a respeito nada para que tal de algum modo mude, o povo absurdo adora assistir, ou ler, ou ouvir, consumir, enfim, o que desde sempre já sabe sobre o constante absurdo ao seu redor para, ao menos, e apenas, enquanto o assiste, ou lê, ou ouve, reagir, e eis por que isso também é hipócrita, com uma estridente indignação que, respeitando os princípios, jamais põe em prática em termos de algo concreto. E eis de novo a questão... Vítimas ou hipócritas passivos? De todo modo, sob este aspecto, sim, a imprensa está corretíssima. Se os veículos de imprensa são empresas como quaisquer outras, por óbvio visam o lucro, e, sim, sendo a denúncia para nada dos constantes e sempre bombásticos absurdos de todos os dias na Absurdolândia de um hipócrita e estranho mas extremo agrado do público, é, também, sem dúvida, algo altamente lucrativo. Até porque, vá lá que freqüentemente com personagens e cenários diversos, o roteiro básico é meio que sempre o mesmo... Toma-se o princípio matriz da hipocrisia rumo ao princípio fim do absurdo e em regra via corrupção, desunião, indiferença e desrespeito para com o próximo, temos um vibrante leque que se abre nas inúmeras modalidades de iniqüidade que, dia após dia, povoam os noticiários consumidos com volúpia pelos pseudo-cidadãos absurdos... Violência, roubo, indigência, descaso, injustiça, tragédia, desespero, ganância, mentira, desfaçatez, desvio, impunidade, e eis, repetindo-o, o flagrante paradoxo de um povo que adora olhar num gigantesco espelho em que só enxerga um grande e degradante absurdo, e que nele com raivosa vontade cospe como se não fosse, devido à sua hipócrita omissão doentia, o seu próprio rosto sob a absurdidade ali refletido. É meio como nunca fazer nada diante de algo terrível mais do que sabido, que justamente por esse nada fazer é causado, e de que, num perene ato de hipocrisia masoquista, busca-se sempre saber mais a respeito, para se indignar, e xingar, e cuspir, e, ao mesmo tempo, continuar a, cada vez mais, não fazer absolutamente nada.

Gugu Keller

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