domingo, 22 de setembro de 2013

Absurdolândia 21

Na Absurdolândia é muito comum então, ainda no gancho dos capítulos anteriores, estar-se assistindo ao telejornal e se ver matérias sobre a sempre calamitosa situação dos hospitais públicos do país, sobretudo os que atendem às regiões metropolitanas mais carentes e populosas. Eis então, como em regra, e em respeito ao princípio do absurdo, é, pessoas doentes a esperar por horas e horas, às vezes dias, em filas lentas e intermináveis e sendo tratadas com desdém e desinformação pelos funcionários, uma flagrante ausência de médicos e enfermeiros, escassez completa de remédios e de aparelhos necessários para diagnósticos e tratamentos, pacientes internados com moléstias graves em macas espalhadas pelos corredores sem nenhuma condição de higiene, feridos trazidos por ambulâncias, não raro baleados, a às vezes também por horas nas próprias esperar por uma vaga, cardíacos com sintomas de infarto sendo dispensados com consultas marcadas para meses adiante, vítimas de coisas simples como apendicite morrendo nas filas por falta de atendimento, ou seja, uma verdadeira e literal situação de guerra. Aí, no intervalo do telejornal, entra no ar uma propaganda política do governo daquele mesmo estado onde fica o hospital que acaba de ser mostrado, e vê-se o sorridente governador, cara-de-pau convicto, a, cumprindo com afinco o princípio da hipocrisia, mostrar os importantes avanços realizados na saúde pública durante a sua gestão. Aparece então um hospital público numa situação maravilhosa. Tudo limpíssimo, brilhando, as coisas funcionando perfeitamente, nenhuma fila, os funcionários felizes, os pacientes dando depoimentos entusiasmados sobre a qualidade do atendimento, e, por fim, ele, o governador, diz que é tudo fruto de um árduo trabalho, mas que muito está valendo a pena, pois ver a alegria dos cidadãos estampada em seus rostos compensa qualquer esforço, já que a sua prioridade como administrador é, mais do que cuidar do estado, cuidar das pessoas com carinho, amor e dignidade. Sim, Exatamente. Ou seja, a coisa parece ter mesmo um certo tom de gozação. Humor negro. E o que faz o povo absurdo diante da aviltante mentira? Em também claro acatamento a ambos os princípios básicos, no máximo externa algumas momentâneas palavras de indignação, comumente autoirônicas, o outro lado da hipocrisia, enquanto continua a, anos afora, compactuar com a permanência perene desses mesmos caras-de-pau no poder, elegendo-os e reelegendo-os de modo contínuo, ou, no mínimo, omitindo-se de qualquer ação minimanente efetiva contra eles.

Gugu Keller

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