segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Absurdolândia 22

Não menos comum nos telejornais a que se assiste na Absurdolândia é ouvir que o preço do feijão subiu 8% por causa da entressafra, o dos combustíveis 10% em razão da crise em tal país do Oriente Médio e o dos automóveis 7,5% devido ao aumento da alíquota de determinado imposto, que tem efeito cascata. Depois, duas ou três reportagens adiante, mostra-se que o ministério da fazenda calculou a inflação oficial mensal em 0,3%, sendo que, em algumas capitais, houve deflação. Ou seja, como bem se vê, a aplicação do princípio da hipocrisia, sobretudo nessa área das mentiras governamentais que trazem em si esse tom meio que de gozação, de humor negro, de tripudiação, não respeita sequer a matemática. Na Absurdolândia, quando interessa aos caras-de-pau detentores do poder que dois mais dois sejam cinco, assim é e está acabado. Por mais que alguma lei, seja a constituição, seja qualquer outra, afirme que dois e dois são quatro, a lei é apenas papel amarelado, para fazer pipa, e, hipocritamente, não há nenhum problema em interpretá-la ao completo avesso do que ela diz se for do gosto dos da estrela de cima. Também comum, aliás, ainda quanto às peripécias governamentais no que tange aos números, é, ao mesmo tempo em que a indigência, a miséria, a fome, o endividamento das famílias, o desemprego etc saltam aos olhos dos cidadãos absurdos o tempo todo, não apenas através dos jornais mas também no cotidiano das cidades a poucos palmos de seus narizes, o governo divulgar, incessantemente e aos quatro ventos, o quanto o país, de modo sistemático nos últimos anos, vem crescendo em termos econômicos. Sim. A Absurdolândia tem ocupado posições cada vez mais auspiciosas no ranking mundial referente à riqueza de cada país. Mesmo com toda a fome, todo o analfabetismo, toda a indigência e toda a privação que em praça pública atinge grande parte de sua população, ela é hoje uma das maiores economias do mundo. Altíssimas autoridades o adoram comentar com sorrisos de orelha a orelha. Os problemas citados, como com hipocrisia se costuma dizer, são apenas pontuais, e decerto proximamente desaparecerão. No próximo 30 de fevereiro, já bem se sabe, aliás. Até lá, pontual mas absurdamente, nada disso, dessa riqueza toda que tanto tem elevado o nome do país em termos estatísticos, reverte para os seus excluídos, os na bandeira representados pelos 26 astros abaixo da faixa, que, hipocritamente, de todo modo, novamente abraçando com quase orgulho os dois princípios basilares que lhes guiam, conseguem, principalmente quando seus clubes de coração conquistam o campeonato nacional ou algum outro título expressivo, sentirem-se algo esperançosos diante de tamanho feito. Jumento e cenoura. País do futuro.

Gugu Keller

Nenhum comentário:

Postar um comentário