sábado, 28 de setembro de 2013

Absurdolândia 27

Os "guardadores de carros" são grandes e fiéis defensores do princípio do absurdo que infestam as grandes cidades da Absurdolândia. Trata-se de uma ocupação extremamente comum e rentável, e em franco crescimento a despeito de qualquer crise. Funicona da seguinte forma... Um cidadão absurdo qualquer, esfolado pelos tantos impostos que tem de pagar, estaciona seu carro, que, como já vimos, é o principal fator que a esses tantos impostos o obriga, na vida pública de sua cidade, num ponto onde tal é permitido. Pois bem. Assim que ele conclui a manobra de estacionamento, aparece um "guardador de carros" e lhe cobra uma determinada quantia para "tomar conta" do veículo. Mesmo que o motorista pague o valor solicitado, ele sabe muito bem, todo mundo sabe, que o "guardador", em absoluto, não irá "tomar conta" de nada, até porque, é também notório, a quantidade de furtos de automóveis no país é, não poderia deixar de ser, algo absurdo. Cuida-se, isso sim, numa verdade de conhecimento amplo, geral e irrestrito, de uma descarada extorsão: ou o motorista paga ou tem o carro danificado. Sim. Pinturas riscadas, pneus furados e espelhos retrovisores arrebentados são os danos mais comumente sofridos pelos que ousam deixar de pagar. E os "guardadores" estão em toda parte. Em Paulópolis, por exemplo, conseguir estacionar numa rua livre deles é algo que beira o impossível. Se for à noite, então, em regiões onde haja bares, boates, restaurantes, diversão em geral, pior ainda. Em eventos públicos concorridos, como shows ou jogos de futebol, os preços cobrados costumam disparar. E com dois detalhes... Nesses casos o pagamento é exigido adiantadamente e, tão bem eles "tomam conta" dos carros, que já estão muito longe quando os proprietários os vão buscar para irem embora. Ironizando a sua impotência diante do absurdo, inclusive, muitos motoristas costumam referir-se aos guardadores com "os donos da rua", e é, de fato, exatamente como se o fossem. Mas o mais interessante é como o estado, por sua vez, cumpre o seu papel de fiel defensor do princípio da hipocrisia, na medida em que, sistematicamente, as autoridades afirmam através da imprensa que estão sempre atentas na prevenção e repressão dessa atividade tão flagrantemente ilegal. Os "guardadores" estão em toda parte, sobretudo onde o estacionamento é mais difícil e concorrido, comumente o mesmo "guardador" no mesmo lugar, já que os pontos são disputados e loteados, mas as autoridades, por algum motivo que não se entende, mesmo se dizendo sempre tão atentas, não conseguem fazer com que a coisa diminua. Ao contrário, com o passar do tempo, ela só aumenta. Aliás, mais interessante ainda, numa situação que se pode classificar como "encenação celebrativa da hipocrisia", eventualmente se vê, de fato, a imprensa o registra, algumas operações de combate a essa tão proliferada atividade, em que, diante das lentes televisivas, "guardadores" são detidos, vítimas ouvidas e advertências feitas. Pois bem. O que ocorre na seqüência? Nada. Os mesmos "guardadores" voltam aos mesmos lugares e tudo continua como antes. Como contrapartida aos tantos impostos que paga, ou o motorista paga também o valor cobrado pela extorsão informalmente institucionalizada, ou o prejuízo será ainda maior no reparo de seu veículo. Considerando situações como esta, não parece exagerada a conclusão de que, na Absurdolândia, os impostos são também, qual a ação dos "guardadores de carros", uma extorsão institucionalizada, neste caso dentro da formalidade.

Gugu Keller

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