domingo, 29 de setembro de 2013

Absurdolândia 28

Hodiernamente, numa espécie de glamourização da defesa do princípio do absurdo com tanta efetividade operada pelos chamados "guardadores de carros", tem igualmente proliferado, sobretudo nos grandes centros da Absurdolândia, uma versão dessa modalidade de extorsão bastante mais elegante e organizada, e, também, por outro lado, muito mais cara, ainda mais lesiva, portanto, aos (pseudo) cidadãos absurdos. É que, absurdamente, os comerciantes que atuam em bares, restaurantes, boates, estabelecimentos, enfim, destinados à diversão pública em cujo entorno, como se disse, os "guardadores" mais agem, pereceberam que, mais até do que estes, também eles podem lucrar expressivamente com esse tipo de desrespeito àquele que com suor paga tantos tributos para ter o seu veículo. Sim. Criou-se assim um serviço conhecido como "valet", que consiste em se manter uma equipe de "guardadores de carros" bem vestidos, engravatos, habilitados para dirigir e que trabalham mantendo vínculo com esses estabelecimentos. Ilegalmente, até porque isso na Absurdolândia é irrelevante, colocam uma mesinha na calçada e distribuem senhas para os "clientes" que aos seus cuidados, obviamente por total falta de opção, deixam os seus automóveis. É claro que, assim como no caso dos "guardadores", a imprensa amiúde o mostra, trata-se de um aviltante e deslavado engodo. Convictamente promete-se ao proprietário que o carro será guardado numa garagem coberta quando todo mundo sabe que ficará na rua, não raro em local irregular, sobre calçadas até às vezes, com o risco de vir uma multa, muito se dá, sujeito a ser furtado, comumente também acontece, e a sofrer todos os tipos de avaria a que estaria sujeito se ninguém fingisse estar "tomando conta", restando ao dono, que tantos impostos pagou para o comprar, e que tanto ainda paga para o ter, já que com alguma mínima contrapartida pelo que sistematicamente lhe é às claras surrupiado ele não pode contar, fazê-lo com a sorte. Quanto às autoridades absurdas, que pelo que paga o contribuinte são sustentadas, no que se refere aos tais "valets", sempre em nome do princípio da hipocrisia, procedem à mesma encenação... Numa determinada noite, como se tivessem acabado de descobrir o covarde e lucrativo esquema, fazem, em regra diante de câmeras televisivas, uma barulhenta blitz diante de alguns estabelecimentos onde a extrosão ocorre, prometendo doravante intolerância contínua quanto ao assunto. Mas, invariavelmente, já no dia seguinte tudo volta a como era antes.

Gugu Keller  

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