quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Absurdolândia 4

Apenas para ilustrar o explicado no capítulo anterior quanto ao, conforme simbolizado no amarelo da bandeira, total aviltamento das leis na Absurdolândia por parte do próprio estado, que é por óbvio quem pretensamente a impõe, podemos dar um exemplo bastante básico, banal até, mas que com precisão o faz... A constituição absurda, e todos bem sabemos que a constituição é a mais alta e importante lei de um país, determina que todo trabalhador tem direito a um salário mínimo capaz de satisfazer as suas necessidades e as de sua família no que diz respeito a alimentação, saúde, higiene, transporte, vestuário, moradia e lazer. Pois bem. O salário mínimo absurdo, sempre, frise-se, fixado pelo governo, é hoje de 600 pau (o dinheiro absurdo é o pau, sendo que não se põe a palavra no plural, ou seja, diz-se um pau, dois pau, três pau etc). Imaginemos um trabalhador que viva em Paulópolis, a maior cidade absurda, onde a tarifa de ônibus é três pau, e que ganhe um salário mínimo. Suponhamos que esse trabalhador tenha três filhos em idade escolar, e que tanto ele para o seu trabalho quanto os filhos para a escola usem um ônibus para ir e um para voltar. Serão oito passagens por dia, ou seja, 24 pau. Se um mês tem 22 dias úteis, a despesa dessa família apenas com o item transporte será de 528 pau mensais, ou 88% do salário! Será que os 12% restantes, 72 pau, bastarão para os demais itens previstos constitucionalmente como direitos do trabalhador e de sua família? Aliás, para se ilustrar ainda melhor o absurdo da coisa, em Paulópolis, por 600 pau mensais não aluga nem barraco em favela. Ou seja, a lei, mesmo a maior e mais importante delas, aquela a que em tese mais se deve respeito, é, como bem simboliza a bandeira absurda, apenas papel velho, sujo, amarelado, enlameado, que, quando muito, serve para se fazer pipa. Alguns estudiosos da Absurdolândia, vale o mencionar como último detalhe desta pequena e básica ilustração, costumam chamar a atenção para o fato de um dos itens elencados no texto constitucional absurdo como direito do trabalhador a ser considerado no poder aquisitivo do salário mínimo é justamente o lazer. Lazer??? Para uma família??? Com 600 pau por mês??? Para tais estudiosos, com probabilíssima razão, a inclusão desse item sugere um elemento de sarcasmo, de humor negro, de ironia esnobe diante da desgraça coletiva, algo que, veremos melhor adiante, faz muito parte da mentalidade na Absurdolândia, onde, como princípio, a hipocrisia é sempre levada ao extremo, ao máximo, às últimas conseqüências, sobretudo, novamente, entre os caras-de-pau.

Gugu Keller   

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