sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Absurdolândia 5

A expressão "cara-de-pau", vale o esclarecer antes de seguirmos com as explicações acerca da simbologia da bandeira absurda, já que tanto nos capítulos anteriores ela apareceu, é algo que remonta a cerca de cinco séculos atrás, época do pós-descobrimento da Absurdolândia, lá pelo século XVI... É que havia naquela época nas terras absurdas com extrema abundância uma árvore chamada "pau-de-coral", que, além de ser uma madeira muito nobre, fornecia uma tinta de cor avermelhada bastante peculiar, muito usada pelos indígenas autóctones em suas pinturas típicas. Até o descobrimento da Absurdolândia, em 1500, uma árvore consideravelmente rara. Jamais até então se a havia visto em tamanha abundância. Pois bem. Esses indígenas, numa tradução literal de seus idiomas, chamavam essa árvore de "pau-brasa", já que a cor da referida tinta que dela se fazia era de um vermelho bastante forte, vivo, meio como brasa mesmo, e muitos deles tinham enorme dificuldade em pronunciar o nome do vegetal no idioma dos descobridores, "pau-de-coral", como se disse. Acabavam falando "pau-de-caral", ou, às vezes, "pau-de-cara", e, curiosissimamente, foi a partir disso que surgiu a expressão "cara-de-pau", que seria, a princípio, o cidadão absurdo, o, como a árvore, natural da Absurdolândia enfim. Contudo, com o passar do tempo, a expressão evoluiu, passando a designar aquele que é absurdo demais, que tem as características absurdas enfatizadas demais em seu modo de proceder. Assim, se a hipocrisia, conforme já se referiu e ver-se-á melhor adiante ainda quanto à simbologia da bandeira, é uma característica onipresente na mentalidade do povo absurdo, nas situações em que o sujeito é tão hipócrita que ultrapassa todos os limites, encarnando, assim, digamos, um, mais do que típico, fanático cidadão absurdo, aí diz-se que ele é um "cara-de-pau". Podemos, assim, dizer que os "caras-de-pau" na Absurdolândia são pessoas que amam demais a sua pátria, a ponto de incorporarem esse princípio moral que com tanta força nela vige, a hipocrisia, de uma maneira praticamente constante em suas vidas. 99%, por exemplo, dos políticos absurdos são caras-de-pau, tanto que Hipocrisília, a capital absurda, costuma-se dizer, é a cidade onde há mais caras-de-pau por metro quadrado em todo o país. Mas eles não são essa gigantesca maioria apenas no campo da política propriamente dita. Todas as funções públicas na Absurdolândia são ocupadas em grande parte por caras-de-pau, o que é de se compreender, já que são, por natureza, pessoas tão patriotas. No empresariado em geral, e em algumas nobilíssimas profissões liberais, como a advocacia ou a medicina, os caras-de-pau compõem também uma boa parcela dos que no país atuam. Pode-se dizer, em resumo, que, no exato sentido do termo, o "cara-de-pau" na Absurdolândia é, de um modo geral, o típico cidadão de classe média/alta que em tudo prestigia os sagrados princípios que o país tem como seu norte. Por fim, por curiosidade vale a notícia de que o pau-de-coral é hoje uma árvore raríssima mesmo na Absurdolândia, praticamente à beira da extinção. É que, ainda que a natureza lá seja, como se disse, em tudo absolutamente exuberante, eles absurdamente a agridem de modo sistemático, de sorte que muitas espécies de animais e plantas, como é o caso do pau-de-coral, já se encontram, sim, infelizmente, quase que de todo extintas.

Gugu Keller

2 comentários:

  1. Estou adorando o "Absurdolândia". Li esse e o 4. Quero ler todos desde o começo, mas não pude deixar de ler esses dois. Beijos.

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  2. Obrigadíssimo, Aline! Esteja à vontade! Creio que está fluindo legal, não?
    Bj!
    GK

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