domingo, 8 de setembro de 2013

Absurdolândia 7

Voltando à bandeira da Absurdolândia, o grande símbolo que tão bem espelha a realidade daquela nação, temos, inserido, por sua vez, dentro do losango amarelo, um círculo azul, em em cujo interior há vinte e sete estrelas. O primeiro engano que aqui o exegeta iniciante da vexilologia costuma cometer é o de pensar tratar-se de uma reresentação do céu, já que, conforme dito, o círculo é azul e contém estrelas. Mas é, na verdade, um erro a que prositadamente se induz, já havendo nisso um relevante significado. É que na Absurdolândia existe, também com base no pricípio da hipocrisia, uma extremamente presente cultura da aparência. Sim. Lá tudo tende a ostentar, principalmente no que diz respeito ao oficial, uma aparência de correto, de sério, de democrático e republicano, de, enfim, algo exatamente oposto ao que de fato é, sempre a rigor um acintoso absurdo. Assim, o fato é que o azul dentro do círculo da bandeira é na verdade um oceano, que fidedignamente representa o imenso mar de desunião que há entre as pessoas na Absurdolândia. Mas alguém perguntará... Se é mar, por que tem estrelas? Porque, justamente simbolizando essa mentalidade de culto à aparência, as estrelas estão apenas refletidas, como se deliberadamente se pretendesse fazer crer que é céu o que em realidade é mar. Em outras palavras, num flagrante paradoxo que novamente muito bem descreve a mentalidade absurda, se todos olharem para o lábaro e acreditarem que o mar é céu, ele terá muito bem cumprido a sua implícita função hipócrita. Pois bem. Os absurdos, então, gozam de uma fama internacional de serem um povo alegre, caloroso, receptivo, cheio de esperança e religiosidade, um povo amigo, simpático e hospitaleiro, e, sob muitos aspectos, todos hipócritas, de fato, ingavelmente, assim é. Contudo, em sua essência, basta um olhar minimamente mais detido para se o perceber, são pessoas totalmente avessas a qualquer senso de nação, que "não estão nem aí" umas para as outras, que são desunidas, egoístas e indeiferentes, e, sobretudo, que não se respeitam mutuamente quanto a seus direitos mais básicos. Numa frase típica por eles mesmos amiúde dita, é uma coletividade onde cada um gosta mesmo é de "levar vantagem em tudo", em nada importando o geral, o coletivo, o nacional, a pátria, o próximo. Na esteira do que hipocritamente primeiro faz o próprio estado, não respeitam as suas leis mas com veemência exigem o seu respeito quando em seu favor. São, em resumo, sempre famintos credores de um todo para o qual nunca fazem a sua parte. Assim, numa feliz interpretação feita por um grande pensador local, os absurdos são, em essência, no meio do oceano que eis no azul na bandeira, "pessoas-ilhas", náufragos em pequenos arquipélagos isolados, em longínquos entre si atóis, tal o nível de sua desunião, tamanha a sua ausência de solidariedade e de respeito para com cidadania alheia.

Gugu Keller

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