segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Absurdolândia 8

Mas é claro que, por completa hipocrisia, princípio para ele indelével, o povo absurdo faz-se de extremamente unido e solidário para com o seu patrício, e as catástrofes, quando ocorrem na Absurdolândia, quase sempre motivadas pela absurda omissão de suas autoridades em todos os campos relativos a uma mínima política de prevenção, costuma  ser o momento em que os absurdos mais se lançam a esse tipo de fingimento, sempre mandando grandes quantidades de donativos (em regra coisas que não lhes farão nenhuma falta) acompanhados de mensagens cheias de emoção e de preces pelos flagelados atingidos. No verão, por exemplo, quando fortes chuvas atingem muitas regiões do país, e como, ao contrário do que hipocritamente sempre se promete, nada nunca se faz a respeito para o evitar ou minimizar, é bastante comum haver grandes enchentes e devastadores deslizamentos de terra em encostas indevidamente habitadas, que amiúde matam e mutilam centenas de pessoas, além de a milhares desabrigarem e destruírem os seus poucos bens. São esses os momentos que, por óbvio à posteriori, invariavelmente motivam esse tipo de manisfestação, numa clara ação tardia de compensação autodesculposa coletiva diante de uma viciosa omissão flagrantemente matricial. Contudo, sempre de modo hipócrita, é princípio, essas pessoas naturais da Absurdolândia parecem não se dar conta, ou pior, certamente se dão mas fingem que não, de que a verdadeira solidariedade, o verdadeiro espírito de união, de respeito e amor ao próximo, de nação no exato sentido da palavra, de mínima consideração para com o bem estar coletivo jamais será atingido através de esmolas para os menos favorecidos ou de donativos para as vítimas de uma determinada catástrofe, ainda que, como na Absurdolândia em regra é, anunciada, mas, sim, com uma busca contínua e participativa daquilo que legalmente, constitucionalmente lhes é de direito, já que, mesmo lhes sendo as leis, inclusive a maior delas, papel para pipa, eles pagam seus impostos, e como pagam, falar-se-á a respeito adiante. Mas não. Definitivamente não. Nesse tipo de atitude, o povo absurdo é absurdamente tendente ao zero. Não se respeitam, não se unem, não se solidarizam e não cooperam uns com os outros, não se dão as mãos na construção de uma sociedade minimamente digna. São, "da boca pra fora", no chamado "oba-oba", sim, simpáticos, dados, receptivos e calorosos, mas, no fundo, ao mesmo tempo, como diz a referida frase popular, cada um "quer sempre levar vantagem em tudo". Aí, quando ocorrem as grandes tragédias, como incêndios, desabamentos, inundações ou o que seja, em 99% dos casos em razão da mencionada omissão sistemática das autoridades, que, por sua vez, são afinal respaldadas por esse povo já tão afeito ao absurdo, esse mesmo povo, então pretendendo-se solidáiro, humano, unido e patriota, mobiliza-se de imediato num hipocritamente aflito ímpeto de minimizar o que facilmente, desde que houvesse uma mínima preocupação e ação prévia a respeito, poderia ter sido evitado. Sim. Na Absurdolândia é assim. É um povo que, sobretudo motivado pelo calor dos acontecimentos através da sua imprensa absurdamente imediatista, une-se fraternalmente nas tragédias, e daí, hipocritamente, pretende-se solidário, mas é por completo desunido no seu cotidiano, quando poderia, através de uma cultura mínima de respeito ao coletivo, construir uma nação onde esmolas não fossem tão comuns, e nem donativos tão dramaticamente necessários. Eis o oceano no círculo azul da bandeira, com suas ilhas e seus náufragos tão distantes uns dos outros. Eis. Em tempo, nessas ocasiões de catástrofes em que há esse referido grande fluxo de donativos para os necessitados a título de alívio para as consciências, boa parte deles são, em nome do princípio do absurdo, desviados de seu destino, via de regra pelos agentes público que têm a função de os fazer chegar a quem precisa. Sim. Na Absurdolândia é assim.

Gugu Keller

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