terça-feira, 10 de setembro de 2013

Absurdolândia 9

Também, e não se pode olvidar, o povo absurdo passa para o mundo uma imagem de unido e solidário, além de extremamente alegre, quando o assunto é festa. Neste ponto, definitivamente, a Absurdolândia é imbatível. O vacarnal, famosíssima festa celebrada no mês de fevereiro, às vezes chegando ao começo de março, é, para muitos, em termos não apenas de entusiasmo e participação popular mas também de organização, o maior espetáculo da terra. Os chamados "colégios do ritmo", agremiações que nessa oportunidade desfilam temas alegóricos competindo entre si pela melhor performance, são entidades quase que sagradas na cultura popular absurda. Trata-se, sem dúvida, de um grande mistério que desafia a compreensão dos estudiosos desse tão pitoresco lugar. Como pode a terra onde o absudo é a regra posar para o mundo de tão feliz? Só o outro princípio que lhes é norte o explica, a hipocrisia, sempre a hipocrisia, a incomensurável hipocrisia do povo absurdo. Sim, pois qualquer país que tivesse os gigantescos potenciais que a Absurdolândia tem e deles construísse apenas o que ela constrói, o completo absurdo, deveria, no mínimo, envergonhar-se diante do resto da humanidade, esconder-se, abster-se, recolher-se num recôndito silêncio que ao menos pudesse disfarçar a sua tão estarrecedora e, aos olhos do bom senso, aviltante realidade. O que será afinal que comemoram tanto? A corrupção desenfreada que os vampiriza? Os caras-de-pau ininterruptamente no poder? A fome que os dizima quando poderiam facilmente produzir o décuplo do que a sua população necessita para se alimentar? O fao de para tanto já produzirem o triplo e a maior parte ser desperdiçada, não chegando às bocas dos famintos? A violência urbana que os condena a um não assumido porém contínuo estado de guerra civil? A completa elitização da saúde e da educação? O completo sucateamento do transporte público, que leva como gado os que ao menos ainda tem a sorte de conseguir embarcar, pagando caro, já o vimos, para tanto? As estradas esburacadas? A merenda escolar apodrecida? Os seus tantos impostos a troco de nada? A tortura que corre solta? O preconceito desenfreado? Os tantos pedintes? Os tantos analfabetos? Os tantos semi-escravos? O coronelismo? Os latifúndios? A pistolagem? É. Eis o mistério. Pois o fato é que, sim, comemoram, e muito. Vacarnal, picareta, meu-bom-boi, São Jasão, parapatins. O mesmo país que sangra, agoniza, rasteja-se e apodrece, ao mesmo tempo dança, rebola, batuca, canta e pula para o mundo ver. É. Bem vindos ao maior show da terra! Loucura? Contrassenso? Absurdo? Na Absurdolândia é assim. E tampouco se olvide que o povo absurdo é apaixonado por futebol. Sim. É absolutamente claro, qualquer um com um mínimo de discernimento sabe, que lá os campeonatos são arranjados, os resultados são manipulados, as arbitragens são mal intencionadas, os interesses das televisões são prioritários, o dinheiro é o que decide e os clubes de maior torcida são descaradamente favorecidos, mas, mesmo assim, o povo absurdo ama incondicionalmente o esporte bretão. São fanáticos a ponto de ser comum que brigas terminem em mortes quando dos grandes jogos, se bem que, a rigor, isso não significa tanto na Absurdolândia, na medida em que lá a vida humana não vale praticamente nada, o abordaremos adiante. Mas, falou em futebol, assim como em vacarnal, falou em Absurdolândia. Sim. Quando o assunto é festa, animação, alegria, comemoração, o princípio da hipocrisia é, de fato, uma vez mais, com decisão levado a cabo naquele país, na medida em que, cheios de alegria, os absurdos negam com admirável desfaçatez a sua flagrante e fatal desunião que, naquele redondo oceano azul, a sua bandeira nacional tão bem simboliza.

Gugu Keller

2 comentários:

  1. Esse é um dos pensamentos que sempre me passa pela cabeça quando vejo festas tradicionais brasileiras. As pessoas estão tão cegas em mostrar o quanto somos "unidos" que esquecem que não dá pra viver de aparências...Esse é o nosso Brasil!

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  2. Obrigadíssimo pelo comentário, Andressa!
    Espero que esteja gostando do texto...
    GK

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