quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Absurdolândia 32

Outra literal encenação que, novamente num autêntico ode ao princípio da hipocrisia, é com freqüência protagonizada pelas autoridades na Absurdolândia relaciona-se com a questão dos chamados "produtos piratas", que são produtos falsificados ou copiados, às vezes contrabandeados de outros países, às vezes de modo clandestino feitos lá mesmo... Preocupadas sobretudo com o que deixam de arrecadar com essa "pirataria", as autoridades absurdas sistematicamente apregoam o quanto tais produtos são nocivos não apenas à economia local, inclusive, e principalmente, no que tange à criação e manutenção de empregos, mas também à saúde e à segurança do consumidor. Como, clandestinas, essas mercadorias estão livres dos absurdos impostos absurdos, mesmo em se considerando a qualidade inferior, elas são absurdamente mais baratas, o que, por óbvio, as fazem as preferidas de grande parte dos representados pelas estrelas de baixo da bandeira, ou mesmo, já que o salário mínimo absurdo é o que já vimos, as únicas àqueles acessíveis. Contudo, absurda e curiosamente, numa espécie de, qual diz uma antiga expressão absurda, "samba do crioulo doido", ao mesmo tempo em que são à exaustão condenados via mídia, inclusive, no caso dos cds e dvds, com a participação incisiva de artistas que apelam aos seus fãs para que não comprem essas cópias a todos tão prejudiciais, a venda desses "produtos piratas" é feita absolutamente às claras, em plena luz do dia, nos centros de praticamente todas as cidades do país, com fiscais e policiais hipócrita e passivamente perambulando o tempo entre os vendedores, quase que tropeçando em suas barracas, esteiras, mesas e mostruários. Em Paulópolis, tomando a maior cidade absurda de novo como exemplo, há, inclusive, ruas  conhecidas nacionalmente pelo fartíssimo comércio de produtos piratas, com lojas e galerias que já chegam a ser tradicionais. Mas aí é que vem a grande encenação, o grande número do teatro oficial da hipocrisia que o país domina... De tempos em tempos, num dia qualquer, liga-se a televisão na Absurdolândia e dá-se com a notícia de que autoridades fiscais e policiais, como se tivessem acabado de ficar sabendo da sua existência, fazem uma blitz num desses centros populares de pirataria, apreendendo toneladas de mercadorias e detendo dezenas de pessoas envolvidas. Pois bem. Algum estrangeiro que, de passagem pela Absurdolândia, visse esse noticiário, imaginaria decerto que, ao menos ali, onde deu-se a tal tão rigorosa blitz, a pirataria acabou para sempre. Mas qual nada. Hipócrita, absurda e, para quem não é de lá e não está acostumado com essa maneira de ser das coisas, inconcebivelmente, no dia seguinte tudo volta ao que era. Nos mesmos lugares, nas mesmas condições, com as mesmas pessoas e a mesma visibilidade, segue próspero o comércio pirata, que, aliás, apenas como uma última pertinente observação para que se entenda o tamanho do contrasenso, na Absurdolândia, nos termos do papel amarelado, constitui crime. E todo mundo, ou ao menos os com um mínimo de discernimento, sabe que o elemento através do qual a hipocrisia e o absurdo, como sempre lá atrelados, fazem-se princípios tão presentes nesse tipo de situação, bem como na dos "gaurdadores de carros", "de rua" ou "valets", atrás citados, é a corrupção. Sim. A na Absurdolândia tão básica, essencial e onipresente corrupção, tão hipócrita e absurdamente praticada, tão hipócrita e absurdamente aceita.

Gugu Keller

Nenhum comentário:

Postar um comentário