sábado, 5 de outubro de 2013

Absurdolândia 34

De novo com aquele quê de humor negro, de sadismo, com que os caras-de-pau costumam praticar a sua constante obediência ao princípio da hipocrisia, a sua contumaz conduta corrupta faz da Absurdolândia, meio como que a estapear o rosto da enorme maioria renegada, o país do mundo onde mais os agentes públicos em geral ostentam patrimônios absolutamente incompatíveis com os seus ganhos oficiais. Então, num crudelíssimo e odioso esnobismo hipócrita, temos com exatidão o oposto do que ocorre aos das estrelas de baixo, que, com seus salários de fome, o mínimo, vimos, inconstitucionalmente de fome, frio e sarjeta, são obrigados a operar sacrificadas mágicas para sobreviver, já que, no caso dos primeiros, caras-de-pau, estrela superior, o já muito que ganham parece magicamente se multiplicar, de sorte que, lá, um deputado, ou um fiscal de rendas, ou um secretário de estado, com extrema facilidade e naturalidade adquire bens que são dez, vinte, cem, quinhentas vezes mais valiosos do que os seus ganhos legais, justificando-o, nas raríssimas vezes em que necessário, com as mais hipócritas e esfarrapadas desculpas. Isso sem falar no também contínuo cumprimento do que reza o verde da bandeira, ou seja, incalculável é a quantia que, fruto da corrupção, da Absurdolândia sangra, e este é termo, "sangra", rumo ao exterior. E, como, em regra, é a outros caras-de-pau que compete fiscalizar os caras-de-pau, um patrimônio escandalosamente incompatível com o salário a ninguém compromete. Muito ao contrário, na eterna festa da hipocrisia absurda, é, isso sim, sinal de status, de capacidade, de inteligência de alguém que soube aproveitar as oportunidades da vida para progredir e se tornar um vencedor. Na Absurdolândia, se um agente público, diretor de um hospital público, por exemplo, adquire um patrimônio imobiliário cujo valor com o seu líqüido no holerite ele levaria trezentos anos para perceber, palmas para ele. Trata-se de um vencedor, de um grande homem, um winner, arrojado e competente. Sim. Na Absurdolândia é assim. Enquanto isso, aos 26/27 sub faixa, não raro tidos como folgados, vagabundos, encostados, burros, iletrados, pedintes, analfabetos, paraíbas, molengas, bêbados, bandidos ou ignorantes, como se, quando esses adjetivos até são verdades, fosse culpa deles, a eles, jumentos a seguir cenouras móveis, migalhas, esmolas, promessas, privação. Hipocrisia. Absurdo.

Gugu Keller   

2 comentários:

  1. Obrigado pelo comentário, Sônia! ! Está acompanhando o texto? Em caso positivo, fico honrado e feliz!
    GK

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