domingo, 6 de outubro de 2013

Absurdolândia 35

Sendo a corrupção na Absurdolândia, como claramente é, o principal conceito através do qual lá se exerce o princípio da hipocrisia e se estabelece o do absurdo, é óbvio que, hipocritamente, para uma vez mais esbofetear o rosto de quem, ao contrário da corrente que corre forte, tenta pensar o país com algum bom senso, ela, na letra da lei, a feita para ser descumprida lei absurda, é prevista como crime. Sim. E é óbvio também, que, para de novo indignar quem se atreve a pensar com bom senso, é o lá mais grave, na medida em que salta aos olhos ser ela, a corrupção, o crime matriz de praticamente todos os outros, afinal, se à população absurda em geral fosse oferecido um mínimo em termos de educação e de outros direitos básicos, o que não acontece justamente em razão da corrupção, a criminalidade lá não seria o absurdo que é. Em outras palavras, não é nenhum exagero afirmar-se que 99% dos (pseudo) cidadãos absurdos que praticam crimes diversos da corrupção são primeiro vítimas dela, e são conseqüência dela, corolário lógico da sua prática sistemática. Contudo, em perfeita sintonia com a mentalidade basilarmente hipócrita que lá impera, a corrupção, apesar do sobredito, é um crime rarissimamente punido em terras absurdas. Visando-o, inclusive, claramente há toda uma uma manipulação sensacionalista, bastante bem pensada e operada, que faz despertar o ódio represado do povo absurdo muito mais contra os autores de crimes violentos. Lá, assim, faz-se dos assaltantes à mão armada, dos seqüestradores, dos cafetões, dos estupradores ou pedófilos os grandes vilões da sociedade, e, como se nisso estivesse a solução das tantas mazelas do país, tais são caçados impetuosamente, não raro linchados e executados em praça pública. Já os corruptos, ululantemente o elemento matricial do gigantesco e sanguinolento submundo que há na Absurdolândia, quase nunca sofrem algum tipo de punição minimamente séria por seus contínuos atos semeadores da tragédia coletiva. Ao contrário, como se disse acima, são festejados, admirados, aplaudidos, eleitos, reeleitos e, como lá hodiernamente se costuma dizer, sempre blindados pelo odioso corporativismo dos caras-de-pau em praticamente todas as esferas. Nas pouquíssimas vezes em que algum corrupto tem problemas com a polícia ou a justiça na Absurdolândia, no mais das vezes graças à imprensa, com a aplicação do princípio da hipocrisia através de esfarrapadas desculpas e deslavadas mentiras, e contando ainda com o simbolizado pelo losango amarelo da bandeira, em regra, não apenas escapa impune, como, ainda, moralmente, no tortuoso ver de uma moral hipócrita e doente, com freqüência torna-se a vítima. Na Absurdolândia é assim.

Gugu Keller   

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