segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Absurdolândia 36

Tendo sido citados como bodes expiatórios da tragédia absurda seqüestradores, assaltantes à mão armada, cafetões, estupradores e pedófilos, prositadamente se omitiu, para os abordar num capítulo à parte, os traficantes de drogas. Sim. Sobre os ombros destes, mais do que dos de ninguém, num claro desviar de foco planejado e efetivado com maestria, todo o peso de na Absurdolândia hipocritamente imperar a crença de que são eles, e não os corruptos, os grandes responsáveis pela generalizada hecatombe social, de que, é claro, excetuam-se estes últimos, caras-de-pau da estrela de cima, por acaso, ao menos à luz do óbvio, os verdadeiros culpados. Assim, se nas cadeias absurdas não há nenhum corrupto, e tal é, há traficantes a superlotá-las a ponto de as tornar verdadeiros infernos na terra, fato orinudo de uma mentalidade que, sempre fomentada por discursos inflamados cheios da moral torta a que se referiu, parece ignorar a incômoda obviedade de que jovens que nascem na miséria e na privação, sem acesso à educação, à cidadania e muito menos aos bens materiais que uma sociedade extremamente consumista o tempo todo lhes esfrega na cara, acabam inevitavelmente encontrando no tráfico de drogas o único caminho. Ignora também que a busca de uma determinada porcentagem da população pelo entorpecente é uma constante antropológica, algo que faz parte da natureza humana, que sempre ocorreu e sempre ocorrerá em todas as sociedades mundo afora. Assim, em outras palavras, considerando-se as necessidades de parte a parte, fala-se de um comércio simplesmente irreprimível, que sempre existirá, e muito mais em situação de tamanha desigualdade social como se dá na Absurdolândia. Condená-lo como lá se faz equivale a punir seres que vivem no deserto por beberem água num oásis. Mas, conforme sobredito, em domínios absurdos muito interessa não apenas que o tráfico de drogas seja tratado como um crime bárbaro, mas também, e principalmente, cultivar a imagem do traficante como sendo o grande crápula da sociedade. Qualquer pessoa que tenha um mínimo de massa cinzenta dentro do crânio percebe que um político que desvia milhões da saúde e da educação públicas é muito mais nocivo para uma sociedade do que um jovem que vende cigarros de maconha numa esquina. Mas na Absurdolândia, de moral torta e hipócrita, sempre impera o absurdo. Lá o inimigo oficial é o maconheiro, o "nóia", o "olheiro", o "avião", o traficante enfim. Ignora-se a obviedade de que quem se droga é porque quer. Divulga-se, isso sim, a infantil idéia de que os traficantes fazem a pessoas se drogarem à força para depois as viciar e explorar. Assim, com tal tipo de raciocínio conto da carochinha, temos o perfeito boi-de-piranha para desviar a atenção dos caras-de-pau que se lambuzam a roubar o povo, e, graças a tanto, estes eis a desfilar sobre tapetes vermelhos e em seus carros de luxo a prova de balas, ao passo que aqueles amontoam-se em celas imundas, que nada ficam devendo a fornos nazistas. Na Absurdolândia é assim. Aos hipócritas causadores do mal, piscinas, praias, festas e grand monde. Às vítimas que de algum modo se rebelam, muros, grades, correntes e cassetetes.

Gugu Keller  

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