terça-feira, 8 de outubro de 2013

Absurdolândia 37

Não. As prisões absurdas em nada ficam devendo a fornos nazistas, ou a porões de navios negreiros, ou a masmorras medievais. São, em sua grande maioria, constituídas de cubículos fétidos, úmidos e desprovidos de ventilação adequada onde, como ratos, seres humanos são trancafiados por anos, às vezes décadas, numa escancarada situação de tortura contínua, sob o cínico pretexto de que com isso se busca a sua ressocialização. Prende-se quarenta onde cabem cinco, serve-se uma lavagem como refeição e, ao invés de vasos sanitários, há apenas um buraco no chão. Isso sem falar na gigantesca violência entre os próprios detidos, que mata e sevicia da forma mais brutal os que no ambiente são mais fracos, ou, por qualquer motivo, perseguidos, com a total conivência do estado que lhes custodia. Os que são presos por crimes sexuais, inclusive, por exemplo, de modo absolutamente claro, ostensivo e até estimulado por bocas amiúde que se dizem zeladoras de um igualitário estado de direito, têm como destino serem sodomizados à exaustão e depois mortos de maneira lenta e cruel, não raro com canetas até o fim fincadas em seu duto auditivo. Ademais, além da inequívoca tortura que, qual acima dito, caracteriza-se com a mera estadia numa dessas autênticas sucursais do inferno, há, ainda, em nome do princípio do absurdo, muitas outras formas de tortura mais assumidas, efetivas, diretas, como o emprego do chamado "pau-de-arara", os choques elétricos, as surras com barras de ferro, o arrancamento de unhas, a introdução de toda sorte de objetos no ânus do torturado, golpes violentos em sua genitália, o afogamento, tudo, enfim, que o mais primitivo sadismo humano possa conceber. Enquanto isso, hipocritamente, é claro, as autoridades do país, mesmo tratando-se de algo absolutamente notório e apregoado aos quatro ventos, negam veementemente que tal tipo de coisa ocorra na Absurdolândia, e, conforme se viu alguns capítulos atrás, afirmam-se extremamente surpresas e indignadas quando algum veículo de imprensa mostra alguma imagem que o comprova. São, então, aplicando-se de pronto o princípio da hipocrisia, prometidas providências enérgicas contra os responsáveis. Qual se disse, petições são protocoladas, diligências efetuadas e diretrizes revisadas. Ações que, invariavelmente, com o passar dos dias, das semanas, não dão em nada. Teatro, pantomima, encenação. Ode à hipocrisia. Tudo, jumentos, cenouras, tortura, tertúlia, sempre continua na mesma. Na Absurdolândia absurda e hipócrita, relembra-se com freqüência, enaltecendo-se a importância de tal lembrança com o firme propósito de que nunca mais se repita, o tempo em que o país era uma ditadura militar e os presos políticos eram barbaramente torturados, mortos e tinham seus corpos desaparecidos, ao mesmo tempo em que, e todos disso sabem, o presidente sabe, os governadores sabem, os ministros de estado sabem, os secretários de segurança sabem, os juízes e promotores públicos sabem, hoje, agora, neste exato momento, enquanto o travesti da democracia desfila rebolativo e purpurinado pela passarela da aparência, tais coisas acontece com muito mais freqüência e intensidade, com a única diferença de que não mais contra artistas e intelectuais questionadores da ideologia, mas contra os representados pelas estrelas abaixo da faixa que de algum modo não baixaram sua cabeça diante da grande farsa. Sim. Hoje muito mais do que ontem, na Absurdolândia é assim.

Gugu Keller  

Nenhum comentário:

Postar um comentário