quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Absurdolândia 38

Voltando à corrupção, prática que sistematicamente melhor garante o perene cumprimento do sagrado princípio da hipocrisia na Absurdolândia, temos, com relação a ela, um interessantíssimo expediente de defesa da imagem das instituições, claramente também baseado no mesmo princípio, de que, quando necessário, igualmente de modo sistemático se lança mão... Trata-se da aos quatro ventos alegada "impossibilidade de generalização". Assim, lá, por mais que, como com freqüência ocorre, notoriamente se saiba que determinada instituição, ou classe, ou partido, ou grupo, esteja até o pescoço afundada(o) em práticas corruptas, e tal por alguma conjuntura midiática venha à tona, sempre se ergue alguma voz austera para defensivamente a todos fazer lembrar que nunca se pode generalizar, afinal, como bem se sabe, em todo seguimento há os bons e os maus profissionais e a generalização de qualquer má conduta é sempre leviana e perigosa, podendo injustamente jogar na lama o nome de pessoas sérias e honradas. É claro que, muitas vezes, a alegação não deixa de ser verdadeira. Contudo, na Absurdolândia, principalmente através do ululante fenômeno do chamado corporativismo que predomina em todas as esferas onde prevalece a mentalidade cara-de-pau, é curiosíssimo o quanto os que não estão diretamente envolvidos com a corrupção em qualquer seara, e que por isso mesmo a bater no peito exigem a não generalização, acabam sendo hipocritamente tolerantes com os que estão. Curiosíssimo e estranhíssimo, na medida em que, por bom senso, caberia àqueles mais do que a ninguém pretender uma severa e exemplar punição destes para que de vez se limpasse o nome da instituição ou classe em pauta. Mas não. Ao contrário. Meio por medo, meio por comodismo, até porque o medo é sempre meio cômodo, ao mesmo tempo em que invariavelmente se invoca essa sempre tão providencial impossibilidade de generalização, jamais se vê as pedras supostamente legítimas intressadas em fazer passar a peneira de um modo efetivo para que a areia suja se vá com a corrente. Não. Nunca se pode generalizar e ponto. Pára-se por aí. Assim é e assim fica. Para se poupar o pouco trigo de acusações levianas, poupa-se, em nome da gloriosa plantação, também o gigantesco joio, afinal, bem já o sabemos, a Absurdolândia é um país onde a regra e a exceção são sempre invertidas, e, absurdamente, ainda quanto a joio e trigo, não parece haver qualquer disposição lavoura adentro em se os separar. De todo modo, como mais uma obviedade clandestina e incômoda, fica a pergunta... Até que ponto a conivência não é também uma forma de participação? Sendo, como nessas situações parece óbvio, sequer procederia, novamente em se pensando com bom senso, essa tão alegada "impossibilidade de generalização". Mas bom senso? Não. A Absurdolândia é a Absurdolândia. Não se pode generalizar e ponto. Finge-se, isso sim, que a regra é exceção que deveria ser e ponto. E vice-versa. E ponto. Ademais, como, por outro lado, criticar a hipocrisia dos coniventes específicos quando tamanha e tão absurda é a não menos hipócrita conivência geral?

Gugu Keller

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