quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Absurdolândia 39

A Absurdolândia adora vender a imagem de ser o país onde, dada a grande miscigenação que através dos tempos compôs o seu povo, brancos e negros melhor convivem no mundo. Uma vez mais, contudo, como bem sinaliza a bandeira, trata-se de pura hipocrisia. Não apenas a realidade lá é o extremo oposto de tal falso auto-retrato, como, de maneira ainda mais hipócrita, o racismo lá, mesmo gigantesco e onipresente, opera-se de um modo subliminar, de um modo velado, camuflado. É, no preciso dizer de alguns que bem observam, um racismo quase que cordial. Então, na Absurdolândia ninguém é assumidamente racista. Não. Tal coisa, aliás, irônica e hipocritamente, o papel amarelo em losango até prevê como crime inafiançável. O racismo absurdo está muito mais nas atitudes, nos pensamentos, nos comentários, nas piadas, nos olhares, nos hábitos. Ele não se dá através de ofensas claras e diretas, até porque, crime, qual dito, ninguém o assume. Dá-se, isso sim, numa peculiar e ácida mistura de sutileza e crueldade, na exclusão, na indiferença, no esnobismo e, sobretudo, nos números. Sim. Se os negros, ou mulatos, os afrodescendentes, enfim, como se diz, na Absurdolândia são cerca de metade da população, rarissimamente se vê um deles entre os representados pela estrela de cima. Quase apenas esportistas e artistas o conseguem. É bastante incomum, sobretudo em se considerando que, como dito, eles são a metade da população do país, que negros absurdos tornem-se médicos, ou engenheiros, ou advogados, ou sejam aprovados em concursos públicos de bom nível, até porque, proporcionalmente em relação aos brancos, pouquíssimos chegam ao ensino superior. Os que o conseguem, ademais, dentro do espírito acima referido, freqüentemente viram alvo de uma zombaria crônica e perversa que, pelas suas costas, nos ambientes privados sai sem piedade de muitas bocas comandadas por cérebros moldados com a mentalidade cara-de-pau, sendo que, quando alguém lembra que tal conduta é inafiançavelmente criminosa, não raro, com muito mais ironia, faz-se ainda outra piada em cima. Por outro lado, se os afrodescendentes são a metade do povo absurdo, basta ver a sua proporção entre os famintos, entre os moradores de rua, entre os que não têm acesso à educação, ao saneamento básico, entre os analfabetos, os presos, os mortos pela polícia, os suspeitos levados para averiguação, os excluídos, enfim, de um modo geral, e tem-se que, aí sim, essa metade não apenas aparece, como torna-se sempre a grande maioria. Na Absurdolândia é assim. Na imagem que se vende, raças múltiplas integradas em perfeita confraternização. Na verdade do dia a dia, racismo velado e deslavada desunião.

Gugu Keller

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