sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Absurdolândia 40

Assim como os nobres ingleses do polo a cavalo, os caras-de-pau detentores do poder na Absurdolândia são fanáticos entusiastas de um jogo por eles praticado em grande difusão país afora, sendo que, curiosamente, também aqui há embutida uma reverente referência aos princípios contidos no lábaro nacional, já que a vexilologia, como temos visto, de fato espelha a realidade absurda com uma fidedignidade sem par no planeta. Trata-se de um jogo que não constitui em verdade um esporte ou um passatempo, mas também uma outra prática lá comum a corroborar com a hipócrita mantença das aparências institucionais quando estas são de algum modo ameaçadas... Falamos do na Absurdolândia muito comum "jogo de empurra". Funciona da seguinte forma... As autoridades absurdas sempre chamam para si a responsabilidade sobre os diferentes âmbitos da gestão pública quando se trata de através dela de alguma forma arrecadar, tributar, locupletar-se, vampirizar, enfim, os representados pelas estrelas abaixo da faixa. Por outro lado, sempre fazem de tudo para livrarem-se dela quando algo causado pela sua contínua omissão redunda em algum dano midiaticamente bombástico. Ocorre amiúde quando de grandes catástrofes, como desastres aéreos, explosões em instalações industriais, desabamentos ou incêndios, qual recentemente ocorreu numa boate no sul do país, vitimando fatalmente centenas de jovens. Então, como as fiscalizações na Absurdolândia não têm a mínima seriedade, são apenas, em regra, encenações que servem de pretexto para o bom funcionamento da nacionalmente sempre celebrada indústria da corrupção, sobretudo quando o que se busca com elas preservar é a vida humana, que lá não vale nada, quando alguma tragédia, como o referido incêndio, ocorre e a imprensa se mobiliza de uma maneira que pode manchar a aparência de algum cara-de-pau ou grupo deles, é aí que começa o jogo de empurra. E como ele se dá? Simples... As autoridades municipais dizem que a responsabilidade é das estaduais, as estaduais dizem que é das federais, a polícia diz é dos bombeiros, os bombeiros dizem que é do conselho regional, e assim um vai empurrando para o outro sem que ninguém seja de fato responsabilizado por nada. Aliás, nas mazelas das saúde e da educação públicas na Absurdolândia, de que no presente trabalho já tanto se falou, também muito ocorre este entre os lá "nobres" festejado jogo de empurra. Quando candidatos a cargos públicos, quaisquer que sejam, os caras-de-pau sempre chamam para si a responsabilidade. Uma vez eleitos, e absurdamente sempre se elegem, começam o jogo de empurra, que normalmente praticam até o fim de seus mandatos. E se empurra, se empurra, se empurra e se empurra. Voltando às tantas tragédias anunciadas que igualmente dão ensejo ao jogo de empurra, joga-se em regra até que elas sejam esquecidas pela mídia, que naturalmente logo já se interessa por outras mais atuais, e tragédia na Absurdolândia é o que não falta, até que as responsabilidades, sejam afinal de quem forem, estejam juridicamente prescritas. Ademais, ainda durante a prática do jogo de empurra nessas situações, muito comumente surgem, em regra com extremo sucesso, advogados a afirmar que tudo não passou de uma terrível fatalidade. Sim. O único jogo que em terras absurdas se pratica tanto quanto o de empurra é o futebol.

Gugu Keller 

Nenhum comentário:

Postar um comentário