quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Absurdolândia 42

O sistema eleitoral absurdo é tão absurdo que nele há várias armadilhas criadas com o literal propósito de enganar o eleitor, já sempre tão enganado no tanto que o estado absurdo de modo sistemático lhe surrupia. Então, apenas para dar um exemplo, lá é extremamente comum que partidos comandados por políticos já desgastados perante a opinião pública após décadas de contínua prática corrupta, lancem, paralelamente às destes, candidaturas de figuras populares folclóricas, como dançarinas eróticas, mágicos ilusionistas ou palhaços de circo, ou, ainda, não raro, apresentadores de programas televisivos, sambistas e jogadores de futebol. O que se dá é que, na infantil crença de que o voto é afinal o único meio de se mudar alguma coisa na Absurdolândia, muitas pessoas votam nesses candidatos exóticos justamente como uma forma de protestar contra aqueles primeiros, sem saber que, com isso, numa espécie de carona eleitoral em que essa armadilha consiste, continuam a reeleger aqueles seus mesmos carrascos de sempre, contra quem pensavam estar protestando ao votar dessa forma. Sim. Na Absurdolândia é assim. Ademais, num dos mais solenes dentre os vários brindes que, conforme temos nos referido, perenemente se faz país afora ao seu tão cultuado princípio da hipocrisia, imortalizado ao lado do outro, o de absurdo, na bandeira nacional, as épocas que precedem os pleitos eleitorais são lá, sem sombra de dúvida, o maior desfile de mentiras deslavadas de que na história da humanidade alguma vez se teve notícia. Sim. A capacidade dos caras-de-pau de nesses momentos mentir com ainda maior convicção é, ao menos para quem, novamente se em termos de Absurdolândia, de modo ingênuo ainda acredita que a espécie humana possa se caracterizar por um mínimo de ética para com o próximo, para com o coletivo, algo simplesmente assustador. E não menos assustador é que, inexplicável e absurdamente, dá resultado. Sim. Por incrível que a olhos estrangeiros possa parecer, as vítimas, ou hipócritas passivos, não importa, mantêm-se sempre a passivamente seguir a cenoura sustentada pela vara de pescar. E nesses engodos eleitorais, pasme-se, mais ainda! É meio como se houvesse, e muitos até o afirmam, uma espécie de mística em tudo o que a bandeira absurda simboliza que faz com que, talvez numa espécie de transe a dominar o inconsciente coletivo daquele povo, tudo sempre se mantenha como é, perenize-se, recuse-se a evoluir. Tudo lá se mantém hipócrita. Tudo lá se mantém absurdo. Sempre perdem a esperança, a perspectiva e o trabalho. Sempre vencem a promessa, a manipulação e a exploração. Corrupção. Sempre triunfa a corrupção. Corrupção hipócrita, corrupção absurda. E, enquanto isso, no embalo do multicolorido mentiroshow pré-eleitoral local, com seus comícios, debates, jingles e bordões, sem falar na tragipatética propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão, a grande maioria dos 26/27 do sul celeste, ou seja, a grande maioria da grande maioria, crendo sorridentes com seus poucos dentes estar decisivamente participando da grande e cívica festa da democracia, exercem, como gado de tração, o seu obrigatório direito de voto, legitimando enganados a continuidade de sua prórpria ruína, comumente incentivados ainda por presentes de grande valia, como bonés, chinelos, camisetas, canetas, cestas básicas, quentinhas, café, queijadinhas, fatias de pudim ou maria-mole, ou, ainda, principalmente, transporte em caminhões do tipo pau-de-arara no dia do pleito, benesses que fazem não restar dúvida de que, de fato, pessoa boníssima, aquele é o melhor candidato, até porque, num seu raciocínio típico, é inteligentíssimo votar em quem decerto vai ganhar. Grande e cívica festa. Cínica festa. Na Absurdolândia é assim.

Gugu Keller 

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