quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Absurdolândia 43

Tamanho é o preconceito a imperar na Absurdolândia que, voltando a ele, há lá uma figura cotidianamente presente nos jornais que dão ênfase às notícias de cunho policial: o suspeito. Sim. Sobretudo nas vastas e pobres periferias das metrópoles absurdas, as autoridades policiais dedicam boa parte de suas ações à abordagem e revista de suspeitos e, com considerável freqüência, à sua prisão para averiguações. Pois bem. Considerando-se que esse rotineiro procedimento do aparato de segurança do estado absurdo também, como não poderia deixar de ser, com requinte homenageia ambos os princípios basilares  nacionais, temos, a respeito, dois importantes aspectos que se destacam no o explicar... O primeiro é que, de modo bastante curioso, na Absurdolândia, grande parte desses "suspeitos" contra quem o estado opera essa sua corriqueira peneira preventiva o são de um modo intransitivo, ou seja, não são suspeitos de terem cometido algo, algum crime ou infração, mas apenas suspeitos. Intransitivamente suspeitos. E a explicação desse absurdo não apenas é simples como de conhecimento de qualquer cidadão absurdo minimamente informado... É que, na Absurdolândia, como se disse acima, tamanho é, em nome do princípio do absurdo, o preconceito que se respira por toda parte, que é a aparência da pessoa, onde ela mora, por onde transita, como fala, como se veste e, sobretudo, a cor da sua pele, o que a torna suspeita, passível de abordagens imotivadas, incoerentes e muitas vezes humilhantes pelos beleguins dessa mentalidade que impera a serviço. Então, em terras absurdas, se alguém é negro, se se veste com simplicidade, se tem um linguajar ruim, se vive numa favela ou sequer moradia tem, é suspeita, visto como uma constante ameaça aos cidadãos de bem. O segundo aspecto, de não menos curiosidade, diz respeito ao fato de, agora de modo mais diretamente ligado ao outro princípio, o da hipocrisia, a constituição absurda, expressão maior do lúdico losango amarelo, além de garantir a todos, entre muitos outros, o pleno direito à intimidade e à dignidade, afirmar claramente, de novo com aquele já explicado espírito de humor negro, que ninguém pode ser preso a não ser em flagrante delito ou mediante mandado judicial. Diz outra importante lei local, ainda, que alguém só pode ser revistado quando houver uma fundada suspeita que o justifique. Será a cor da pele de alguém ou seu modo de se vestir ou falar fundamento para uma suspeita? Poucos dentes na boca talvez? De todo modo, em fidedigno cumprimento dos princípios maiores, bem como em respeito ao amarelo da bandeira, vê-se nos jornais todos os dias que suspeitos foram abordados e detidos para averiguações. Os próprios agentes públicos, sem nenhuma cerimônia, o declaram diante de quaisquer microfones ou lentes. A lei? A constituição? Sobretudo para quem está representado pelas 26 estrelas abaixo da faixa naquele céu tão azul, mero papel para fazer pipa que o envolve. Na Absurdolândia é assim. Preconceito 10 X 0 Dignidade Humana. Em tempo, outra grande curiosidade relativa a esse tema é o fato de, apesar de ser gritantemente óbvio que os piores criminosos absurdos, os mais nocivos, os mais covardes, os mais vis, são justamente os caras-de-pau praticantes da corrupção, o de tudo crime-matriz, não se tem qualquer notícia de que eles sejam abordados, revistados e levados para averiguações em chiqueirinhos de camburões. É como se, além de todo o preconceito que na Absurdolândia absurdamente há, existisse ainda um seu avesso de certo modo até mais perverso em termos de conseqüências, na medida em que lá se tende a ver o bem nascido, por mais que baixo e sujo seja, como alguém a ser sempre reverencialmente respeitado.

Gugu Keller

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