sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Absurdolândia 44

Ainda sobre essas tão discriminatórias abordagens, costumeiras em bairros pobres, periferias, favelas, conjuntos habitacionais desestruturados etc, a primeira coisa que a autoridade policial solicita ao "suspeito" abordado após o revistar é um documento, sendo a eventual falta deste um dos principais pretextos para a chamada "detenção para averiguações". Contudo, curiosamente, não há na lei absurda nenhum dispositivo que obrigue alguém a, a menos que esteja na condução de um veículo, portar documentos, sendo que, outra vez naquele hipócrita espírito de humor negro, a constituição local com todas as letras afirma que "ninguém é obrigado a nada senão em virtude de lei", ou seja, de novo, flagrantemente, no com perfeição simbolizado na bandeira, papel amarelo para se fazer pipa. De um modo resumido, aliás, em clara reverência a ambos os princípios alicerces, pode-se dizer que, na Absurdolândia, a lei que pune, que condena, que cobra, vale apenas para os representados pelas estrelas inferiores, ao passo que a que protege, que garante direitos e prerrogativas, apenas para a minoria oposta, os caras-de-pau e afins em geral. Assim, em larga escala, para os socialmente oprimidos que, muitas vezes por razões famélicas, arriscam-se em condutas criminosas, como o furto, o roubo ou o tráfico de entorpecentes, o inferno dos campos de concentração travestidos de penitenciárias onde se buscaria ressocializar o ser humano. Já para os do polo inverso, velejadores no mar de corrupção que a tudo destrutivamente inunda país afora, claramente, porque matricial, ao menos aos olhos do bom senso, o mais grave dos crimes, uma infinidade de artifícios e prerrogativas legais que tornam raríssima a prisão de algum deles. Apenas para se ilustrar o nível de absurdidade a tal respeito, a lei, e esta vale, e como vale, garante aos acusados de alguma conduta criminosa que possuam diploma em curso superior o direito a uma cela especial, apartada, portanto, dos referidos fornos nazistas. Parece absurdo? Odioso até? Na Absurdolândia é assim. E a explicação é extremamente simples... Os caras-de-pau que legislam no país, muito bem sabedores das condições das suas cadeias, preferiram proteger-se, e aos seus companheiros de estrela, de qualquer risco de vir a cair numa delas, até porque, no fundo, hipócritas, são também muito bem sabedores de o seu crime, a corrupção, efetiva ou por conivência, é, como a grande matriz de todo o absurdo, a rigor o mais grave. Noutro exemplo fantástico, na Absurdoândia magistrados que são condenados por corrupção praticada através da venda de sentenças, habeas corpus etc, como se isso não fosse a pior e mais torpe das ofensas a um sistema que se pretende democrático de direito, ao menos, novamente, ressalta-se, aos olhos do velho, pobre e tão surrado bom senso, recebem como punição legalmente prevista uma gorda aposentadoria compulsória. Absurdo? Aviltante? Pois lá é assim. De modo que, de novo ressaltando-se a precisão com que esta pitoresca nação é simbolizada em sua bandeira, é como se a lei-pipa na Absurdolândia sempre e hipocritamente se empinasse alta, podendo assim, ser vista e invocada apenas por quem, na mesma bandeira, alto eis no céu.

Gugu Keller

Nenhum comentário:

Postar um comentário