sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Absurdolândia 45

Árdua tarefa é, e, modestamente se espera, este breve trabalho a seu respeito já o mostrou, na Absurdolândia, assim como no caso do não menos do absurdo, identificar-se qual o melhor exemplo do sempre fiel cumprimento por parte do seu povo do inexorável princípio da hipocrisia. Se não, de todo modo, o melhor, a sua religiosidade constitui a respeito inquivocamente um capítulo relevante. Sim. Como já aludido muitas linhas atrás, predominantemente católico, a nação absurda é um ente político de grande religiosidade. De fato, trata-se de  um dos maiores países do mundo católico, com a grande maioria de sua população católica se afirmando e uma gigantesca quantidade de templos católicos por toda parte, não havendo uma única cidade absurda, por menor que seja, em que não se encontre uma igreja ou capela na praça central. Ademais, nessa Absurdolândia tão católica pulula uma infindável variedade de santos de devoção, pelos quais ardorosas demonstrações de fé eclodem em várias datas do ano. Sim. O povo absurdo é profícuo na realização festiva de procissões, rezas, romarias, homenagens a padroeiros e padroeiras, sacrifícios, oferendas, pagamentos de promessas etc, havendo lá, também, em conseqüência disso tudo, uma ingerência permanente de autoridades clericais na política, apesar de o país oficialmente se definir como laico. É uma igreja católica, enfim, realmente grande e presente nação afora. Por outro lado, em se tomando o cristianismo de um modo geral, isso fica ainda maior na medida em que, mesmo por ora em menor quantidade numérica, vertiginoso tem sido em terras absurdas o crescimento das igrejas evangélicas, com seus cultos e dízimos, já também angariando em seu rebanho uma considerável fatia da população do país. Pois bem. Para com clareza se compreender o fiel cumprimento do princípio da hipocrisia neste campo, basta imaginar como reagiria o criador do cristianismo, ou aquele por quem se o criou, que supostamente morreu na cruz para depois ressuscitar e subir aos céus, se de lá ele descesse e tomasse pé de como vive e, sobretudo, como age esse povo que tanto e com tanta energia invoca o seu nome... Tamanha é a indiferença, tamanho é o descaso, o desamor, o desrespeito entre as pessoas que ele encontraria, tamanha é a falta de piedade, de compaixão e de solidariedade que veria, tamanho é o grau de preconceito, de discriminação, de exploração, de manipulação que testemunharia, tanta é a mentira, a corrupção, a ganância, o egoísmo que observaria, tal é o nível da violência, do sarcasmo, da tortura com que se depararia, tão pesado é o ódio no ar que respiraria, que decerto copiosamente ele choraria. Sim. Derramarria lágrimas de sangue ao ter que, justamente onde os que o dizem seguir são tão absoluta maioria, praticamente ninguém entendeu nada da sua lição, ou, pior, entenderam, hipocritamente falam dela o tempo todo, juram por ela o tempo todo, e o tempo todo tanto lhes dão as costas. Sim. Diante de tão absurda hipocrisia, o sangue decerto correria de seus olhos muito mais do que o feito brotar por uma coroa de espinhos na cabeça encravada. Ele, que, ao menos o afirmam as escrituras tão alardeadas pelos que o seguem, ou, no caso da Absurdolândia, fingem seguir, tantas vezes teria dito "hipócritas, ai de vós...".

Gugu Keller

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