sábado, 2 de novembro de 2013

Absurdolândia 46

De mãos dadas com o mesmo tipo de hipocrisia retratada no capítulo anterior, a religiosa, com que tão fielmente na Absurdolândia se cumpre esse lá básico e sagrado princípio prescrito no seu manto maior, deparamo-nos naquele país, diferente não se esperaria, com uma moral extremamente torta, hipócrita e absurda. Em terras absurdas, assim, novamente, já que exemplos são sempre o que melhor ilustra, apenas para o exemplificar, temos que nenhuma ofensa pode ser maior do que se classificar alguém como rebento de uma meretriz. Sim. Ainda que, bem sabemos, este seja um xingamento mundialmente consagrado, na Absurdolândia mais do que em qualquer parte, nada pode ser pior do que ser chamado de "filho da puta". Contudo, pensando-o novamente com o no país de que trata este humilde trabalho tão defenestrado bom senso, que mal fazem essas pessoas, em regra, e lá sobretudo, extremamente sofridas, a quem quer que seja? O que fazem de tão errado para sofrerem tamanha rejeição moral? Não roubam, não machucam, não iludem, não enganam ninguém. Os que as procuram, afinal, óbvio parece, hão de saber muito bem o que estão fazendo. Definitivamente, não há na atividade, a, segundo tanto consta, mais antiga das profissões, nenhum tipo de engodo ou golpe contra quem quer que seja. Muito ao contrário, trata-se de um contrato claro, cristalino, de inequívoco interesse mútuo entre as partes contratantes. Então, principalmente em termos de Absurdolândia, ao menos, insista-se, à luz do lá sempre estrangeiro bom senso, como julgar mulheres que, muitas vezes mães sozinhas, tiram o sustento, seu e de sua prole, de vender seus corpos já tão doloridos, opção não raro única no meio de tanta injustiça, tanta desigualdade, tanto desemprego, tanto sub-emprego, tanta falta de perspectiva, tanta carência educacional, tantos salários de fome, tanta escravidão disfarçada e tanta hipocrisia institucional e social? Mas, como se disse, a impetuosa moral absurda é torta, astigmática, como tudo lá, invertida... Na Absurdolândia, não é vergonha ser filho de alguma autoridade fiscal ou policial envolvida com extorsão, ou de algum político corrupto que na televisão exibe sorridente suas belas e superfaturadas obras pela saúde pública ao mesmo tempo em que os jornais mostram o povo morrendo nas filas ou à espera de uma ambulância, ou, ainda, de alguma autoridade judiciária que adora invocar com palavras difícies as diretrizes democráticas contidas na constituição absurda mas que é totalmente conivente em suas decisões com a acintosa falta de contrapartida aos escorchantes impostos que no país se paga. Não. Na Absurdolândia, como já mencionado, os lá dito caras-de-pau são winners. Caminham sobre tapetes vermelhos com pompa e circunstância, são chamados de "excelência" e cercados por sorrisos, apertos de mão e tapinhas nas costas. Na distorcida moral absurda, as "putas" é que são a escória. Esfolam-se de sofrimento para ao menos sobreviveram sem precisar chegar ao crime, sem ferir nem enganar ninguém, comumente até tornando-se um importante esteio para muitas vítimas da solidão urbana, como bem se sabe, e, mesmo assim, são, elas e não os mantenedores de toda a injustiça social que ironicamente é afinal o que para isso as empurra, o lixo humano, a degradação, as em que se deve cuspir, as decerto culpadas de tudo. Sim. Na Absurdolândia é assim. Lá impera implacável uma sólida moral. Uma sólida, hipócrita, míope, disforme, invertida, mentirosa e absurda moral. Uma moral que inapelavelmente condena vítimas e entusiasticamente festeja malfeitores. Sim. Na Absurdolâdia é assim.

Gugu Keller    

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