domingo, 3 de novembro de 2013

Absurdolândia 47

Na Absurdolândia o empréstimo de dinheiro a juros abusivos é pela lei considerado uma atividade criminosa, ditos agiotas os que a praticam. Entretanto, como a lei lá, bem já o sabemos, é mero papel amarelado para se fazer pipas, todas as instituições financeiras que no país operam, tanto as domésticas quanto as multinacionais nele instaladas, são, mais do que clara, acintosamente, empresas de agiotagem travestidas de bancos, que, praticando, de um modo não menos do que vampiresco, e com a total conivência do estado, os juros mais altos e imorais do mundo, sugam sem limites até as suas últimas gotas o sofrido sangue da tão perenemente desrespeitada classe média absurda. E, bem ilustrando quão oficial é o absurdo, interessantíssimo é observar como, ininterruptamente no dia a dia midiático absurdo, essas insaciáveis instituições, como que a espalhar cheias de apetitosas iscas suas armadilhas coloridas mentes mais frágeis adentro, apregoam seus valorosos préstimos através de propagandas absurdamente enganosas, em que, sempre com a conivente e lucrativa omissão das autoridades que entrementes se gabam a enaltecer o democrático estado de direito que no país pretendem fazer crer imperar, prometem, pela boca de artistas sorridentes quase que a exibir auréolas divinas sobre seus rostos plásticos de perfeição estética, um falso mundo de vantagens para aqueles que aderirem a seus leoninos contratos covardes e anatocistas. Assim, através desse sistema tão revelador do ser a Absurdolândia possivelmente o maior paraíso terrestre para os que com veemência crêem no capitalismo, esse tão conveniente disfarce com que o absolutismo medieval ainda tão claramente perdura, e como perdura, em pleno século XXI, e, por óbvio, é exatamente esse o caso dos caras-de-pau absurdos, não bastasse os amputantes e inecoantes tributos que lhes são impostos, eis grande parte do povo absurdo afundada em dividas impagáveis que decerto lhes tomarão até o último centavo de seus espólios de miséria para, mais e mais e mais, enriquecer os da estrela mais alta. Na Absurdolândia é assim. Mas tais fatos não se limitam a esses bancos de fachada... Praticamente toda propaganda que lá convida o consumidor de menor poder aquisitivo a financiar algo como se vantagem fosse tem em si embutida uma descarada tentativa de dissimular os referidos juros campeões mundiais. Sim. Tamanha é a coisa que, temente ao princípio do absurdo, há lá, sabe-se, e estes com empregos sempre garantidos, um verdadeiro exército de cérebros especializados em arquitetar tal tipo de engodo. Ademais, e pior ainda, uma vez preso nas redes tecidas dessa violenta fúria creditícia, dessa doentia necessidade cara-de-pau de sugar o próximo muito além da pífia contrapartida que se presta, e isso numa terra que hipocritamente se orgulha de tão cristã, vê-se a vítima, o pobre pseudo-cidadão absurdo sub-estrelado no céu da sua pátria, mergulhada numa literal e gigantesca poça de areia movediça, em que, quanto mais tenta sair, mais afunda, e, quanto mais tenta ainda respirar, mais se sufoca. Na Absurdolândia é assim. Escravidão disfarçada. Extorsão camuflada. Exclusão generalizada.

Gugu Keller

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