segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Absurdolândia 48

Nas raríssimas vezes em que um cara-de-pau vai preso na Absurdolândia por alguma prática corrupta, em regra devido a alguma denúncia midiática, já que, misterosamente, lá a imprensa parece ter muito mais capacidade investigativa a tais fatos relativa do que as autoridades a quem tanto teoricamente caberia, quase nunca ele permanece na cadeia mais do que poucos dias. De início, numa básica aplicação do princípio da hipocrisia de que nessas ocasiões não se pode abrir mão, faz-se todo um estardalhaço nos jornais para se passar uma falsa impressão de que o país está mudado e de que a corrupção lá já não tem mais vez. São apresentadas para o público as contas de quanto o estado foi lesado com a vil conduta do acusado, ou acusados, e, num tom de indignação desforrada, os heróicos agentes responsáveis pela prisão vivem o seu momento de salvadores da pátria. Contudo, com o passar dos dias logo se observa, a farsa é sempre a mesma. O papel amarelo, claramente para isso mesmo assim elaborado, oferece uma série de complicações burocráticas multi-interpretáveis que muito favorecem a atuação advocatícia, e, bem pagos, estes profissionais dificilmente deixam de conseguir que seus clientes logo recuperem a liberdade, não raro, com seus discursos alquímicos a transformar verdades óbvias em mentiras caluniosas apenas por eventuais ausências de formalidades irrelevantes, deles fazendo afinal vítimas da situação. Perseguição política, anote-se, alega-se muito e com muita ênfase. Ademais, o hipócrita e evidente medo de que o acusado, se acuado, explique-se apenas uma pequena ponta de um gigatesco iceberg, como em regra ocorre, igualmente muito conta. De modo que, na corriqueira prática, lograda a festiva farsa hipocritamente ilustrativa de que a nação absurda enfim acordou disposta a intoxicar de alho os seus vampiros, dá-se que o acusado passa uns poucos dias numa cela especial, já que, em regra possuindo diploma superior, é beneficiado por aquela odiosa disposição legal aqui já explicada, decerto elaborada em grande celebração do princípio do absurdo que no país vigora e assim reza, e, favorecido por algum habeas corpus que não tarda a vir, logo eis solto, de volta a seus afazeres a, agora vítima, apregoar pelos microfones contra a sua boca estendidos o quanto confia na justiça. Quelonicamente lenta, nesta então passa a correr um processo que, enquanto o episódio é rapidamente esquecido o caso pela dinâmica da mídia e, sobretudo, pela atrás tão referida cenourófila jumentice da gigantesca hipocrisia passiva coletiva, arrastar-se-á por anos a fio, o papel amarelo, que sempre prevê recursos e mais recursos e mais recursos, aliado ao absurdo entulhamento dos tribunais locais hipocritamente promovido pelo próprio estado contumaz descumpridor das leis que diz impor, assim garante, e que dificilmente desaguará em algo que não o vasto oceano da impunidade que caudalosamente banha a Absurdolândia. Nos raríssimos entre raríssimos casos em que alguma condenação definitiva há, ou seu cumprimento efetivo acaba prejudicado pelo decurso de algum lapso prescricional, ou aplica-se alguma pena alternativa, talvez uma prisão domiciliar numa mansão com piscina, ou, quem sabe, já vimos lá haver, uma gorda aposentadoria compulsória, tudo sempre garantido pelos contitucionalíssimos habeas corpus. Com referência a estes, aliás, inclusive, apenas como uma a título de curiosidade última notícia, alguns renomados juristas absurdos, em respeito ao princípios maiores que os regem, defendem a distinção legal no país do "habeas corruptus", na prática dentro da denominação genérica de habeas corpus já tão aplicado nessas situações específicas com muito maior amplitude garantista do que ocorre noutros casos, quando o paciente não é cara-de-pau, não vem da estrela de cima e o crime não é de corrupção, nisto o porquê da proposta especificação.

Gugu Keller 

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