terça-feira, 5 de novembro de 2013

Absurdolândia 49

Já quando, por outro lado, são presos na Absurdolândia acusados advindos da camada pobre da população, moradores de periferias, de favelas, de cortiços, pessoas sem estudo, mal vestidas, mal articuladas e, sobretudo, de pele escura, o não cumprimento da lei sofre, com base em ambos os princípios, uma curiosa inversão... É meio como se a pipa, que, no momento da sua aplicação para os caras-de-pau, ascendia no céu, de repente, por força de um golpe do vento do mais injusto preconceito, subitamente mudasse de direção e começasse a cair... Então, a lei que para os caras-de-pau vale quase apenas em seus aspectos garantistas quanto à liberdade do cidadão, quando para os das estrelas de baixo, pseudo-cidadãos,  sabemos, estes, passa a valer apenas no seu aspecto inverso, o acusador, o incriminatório, o repressor. Ou seja, é extremamente curioso, precioso retrato da tão hipócrita mentalidade absurda, o quanto o aparato legal do país pode ser sistematicamente violado, mas, como uma gangorra, de formas diversas dependendo do a quem favorece ou prejudica. Assim, acusado um pseudo-cidadão absurdo de baixa estrela do cometimento de algum crime, não importando o quanto ele seja, porque sempre é, menos lesivo para a comunidade do que o matricial de corrupção, contumazmente o praticado pelos caras-de-pau, ele, que por óbvio não terá diploma em curso superior, já que, sequer, em regra, tem o da educação mais básica, é de pronto jogado numa jaula imunda e superlotada, em condições similares, como já vimos, às de um campo de concentração nazista. Pobre demais para o custear, dificilmente terá algum advogado que o defenda, já que, mesmo a lei local obrigando o estado a nesses casos nomear-lhe um dativo, a completa falta de estrutura institucional faz com que isso em regra não ocorra, ou demore muito para ocorrer. De modo que, na Absurdolândia, muito comumente, a despeito de o acusado ser culpado ou não do que se lhe imputa, por ser pobre, do céu de baixo, ele fica jogado à própria sorte, dependendo de fatores quase que aleatórios para lograr livrar-se de um literal inferno imundo de cimento e ferro, mesmo que legalmente a tanto desde logo tenha direito. Ademais, como acima já se abordou, se a acusação contra o infeliz for de algum crime de cunho sexual, tanto será, no mais das vezes pelos próprios agentes que representam o estado que pretende impor a lei, comunicado a seus companheiros de cela, que, com grande incentivo daqueles, providenciarão uma reprimenda à altura, potencializada conforme a quantidade de justiceiros eretamente prontos para, nesse propício clima caligulesco, despejar seu ódio fruto do ódio fruto do ódio e fazer cumprir a lei não escrita que todos sabem que é a que naquela terra realmente vale. Habeas corpus? Para pobres? Pretos? Maloqueiros? Traficantes? Não. A moral absurda, hipócrita e absurda, há de, um dia, dentro dos lá fingidos preceitos republicanos do direito e da democracia, livrar definitivamente o país dessas tenebrosas chagas humanas que à sociedade tanto afligem, essa maldita bandidagem tão cruel e sem limites. Cadeia neles! Na Absurdolândia é assim.

Gugu Keller

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