quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Absurdolândia 50

Decerto mantido em respeito aos correlatos princípios contidos na bandeira nacional, esse hipócrita e absurdo estado de coisas no capítulo anterior abordado ainda por cima em nada diminui a gigantesca violência que de modo assustador assola a Absurdolândia, onde, por exemplo, o número de mortes causadas por homicídios é, conforme neste trabalho já se referiu, suficiente para se classificar o país como em meio a uma perene e sangrenta guerra civil. Para se ter uma idéia, tanto quanto para o espanhol a tourada ou para o norte-americano o rodeio, a chacina, assassinato de várias pessoas ao mesmo tempo, é hoje um consagrado elemento cultural do povo absurdo a mundo afora ao país aludir. Sim. Na Absurdolândia, conforme também já dito, a vida não vale nada. Lá se mata por uma carteira com uns poucos pau, dez pau, vinte pau, cinqüenta pau, ou por uma corrente de ouro, ou mesmo de bijuteria, por um anel, um par de brincos, um par de tênis, por um telefone celular, por dívidas irrisórias, por ciúme, para não se pagar pensão alimentícia, por vingança, por capricho, por um olhar mal dirigido, um sorriso para a namorada alheia, uma palavra mal colocada, por futebol, por um pisão no pé, um tropeço, um esbarrão, por tirar se alguém para dançar. Mata-se. Mata-se farta, fácil e futilmente. Ademais, com absurda freqüência lá se morre assassinado por se estar, conforme eles próprios dizem, no lugar errado na hora errada. Sim. É que, por essa lá tradicional cultura da chacina, quando se quer matar alguém, por praticidade mata-se também quem eventualmente estiver junto. Até porque, apesar de tudo o que se falou sobre o inferno das prisões absurdas, autênticas sucursais do inferno na terra, a possibilidade de o autor de um homicídio lá cumprir alguma pena é tão pequena, que a coisa é meio como uma roleta russa com uma única bala num tambor de cem buracos. Aliás, é esta mesma a porcentagem dos homicídios lá cometidos que redundam em cumprimento de pena, 1%. O que se deve sublinhar para um melhor entendimento de mais este absurdo aspecto da nação absurda, é que, hipocritamente, o estado lá parece não perceber que, ao fingir combater essa violência com uma violência ainda maior, e quase sempre mal dirigida, e, sobretudo, descumprindo, com essa sua violência rebote de rebote, de um modo ainda pior do que aqueles a quem a dirige, porque mais hipócrita, fala-se, é claro, novamente, da lei, do papel amarelo, ele a acaba, a toda essa desmedida violência, claramente incitando ainda mais, a uma por em progressão geométrica desmoralizar-se ao pregar o que de forma tão flagrante contraria e, a duas, por, em sempre inflexível respeito ao princípio do absurdo, nada fazer para mudar a situação das estrelas no céu do círculo azul, obviamente a primordial razão de tanta violência, agravada, ainda, aliás, já bem vimos, pela facílima percepção de que lá os crimes mais graves, os matriciais de todo o absurdo, de um modo ainda muito mais acintoso, porque proposital, ficam sempre impunes. De modo que salta aos olhos, e aos ouvidos, ao menos aos de quem não tem o hábito de, como na Absurdolândia é comum, fingir-se de cego, ou de surdo, que toda essa violência que lá impera nada mais é do que um claro grito, mistura de ódio e revolta, que, sendo afinal espalhar sangue a sua única voz, sai das gargantas dos tantos a quem  no país é negado o direito de existir com um mínimo de dignidade. Sim. A violência, infeliz e inegavelmente acaba sendo a única maneira daqueles a quem a sociedade absurda de modo tão triste e hipócrita exclui terem alguma percepção de que dela de alguma forma fazem parte, de que dela de alguma forma, mesmo que definitivamente destrutiva, podem participar. Na Absurdolândia, reverberam salivantes os apresentadores dos noticiários policiais que lá proliferam pelos canais de tv, hoje se mata pelo puro prazer de matar. Mas é mais do que isso... Claramente hoje lá se mata para se existir. E, enquanto a resposta da hipocrisia "high star" for de ainda mais exclusão e violência, tortura, preconceito, humilhação etc, de ainda mais e mais mortes haverá de ser a réplica. Enquanto esse ciclo não se romper, a guerra civil absurda perdurará. Desgraçadamente, para um contínuo custo diário de muitas vidas inocentes, mas, decerto, ao menos, para grande orgulho dos fiéis patriotas cumpridores dos lá princípios maiores, tal rompimento não parece contar com nenhuma perspectiva. Na Absurdolândia é assim. Pátria mãe da chacina. Hipocrisia e absurdo.  

Gugu Keller

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