quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Absurdolândia 51

Conforme esse tão óbvio grito por justiça e igualdade é cada vez menos ouvido, até porque, hipócrita e principalmente, sequer pela torta moral local é entendido como tal, a violência na Absurdolândia só faz aumentar. Quase tanto quanto, qual no capítulo anterior se pincelou, os que praticam os lá piores crimes, os matriciais de tudo, ficam impunes porque não se os quer punir, os criminosos de sangue o ficam pela total falta de estrutura institucional para se aplicar a sempre amarelada lei em que o estado, seu maior descumpridor, da boca para fora tanto diz de modo intransigente se pautar. Absurdamente truculento e despreparado, limita-se ele a, como explicado, com sua desordem falsa imponente da ordem, desrespeitar ainda mais os direitos daqueles a quem desde sempre disso só resta um fiapo, agravando cada vez mais a situação qual se apagasse um incêndio nele jogando gasolina. Trocando em miúdos, no hipócrita cotidiano absurdo, é com violência que tenta combater a violência, gerando ainda mais violência, que de, por essa mentalidade, ainda mais precisará para ser combatida, e eis o ciclo a que acima se referiu. De modo que, cada vez mais, crimes cruéis povoam incessantes os noticiários país afora. Ultimamente, apenas para se ilustrar, até por se falar em gasolina e incêndio, a onda lá é se queimar vivas as pessoas. Sim. Encharca-se de gasolina e ateia-se fogo. Queima-se rivais no tráfico de drogas, queima-se devedores inadimplentes,  credores impacientes, queima-se testemunhas, namoradas traidoras, mulheres adúlteras ou que pedem divórcio a seus companheiros, queima-se putas, queima-se mendigos. Tal como quanto ao absolutismo que lá insiste em imperar, a Absurdolândia mantem-se medieval também nessa lá horrenda volta das fogueiras executórias. Sim. O pseudo-cidadão absurdo hoje literalmente pega fogo. E, em contraponto a esse tão claro grito que, ao mesmo tempo em que exala ódio, inequivocamente pede socorro, pede a enfim extinção do magmático vulcão de iniqüidade de onde jorra incandescente a lava imunda que a todos indistintamente transforma em cinzas, o que se ouve dos caras-de-pau no poder são propostas de ainda mais repressão. É o ódio contra o ódio jogando tênis. Fala-se em pena de morte, que na prática muito já há, fala-se em redução da maioridade penal, como se as entidades onde se recolhe os menores infratores já não fossem, falou-se, postos avançados do inferno que com louvor decerto aprovados por Lúcifer seriam, em prisão perpétua, como se alguém sobrevivesse minimamente são do ponto de vista mental a quinze ou vinte anos numa cadeia absurda, onde um torturante sofrimento como vingança de uma sociedade hipocritamente excludente a quem o condenado ousou desafiar é a única possibilidade no lá dentro tão lento passar do tempo, e outras tantas propostas resgatadas da, na Absurdolândia certamente para muitos saudosa, lei de Talião. Mudar a distribuição das estrelas no céu da pátria? Não. Impensável. Dar educação? Saúde? Igualdade? Oportunidade? Inexeqüível. Violaria o sagrado princípio do absurdo. Cumprir as promessas políticas há tantas décadas  sistematicamente aos quatro ventos apregoadas no triste engodo da farsa eleitoral? Tampouco. Bateria de frente com o da hipocrisia. Combater de um modo minimamente sério a corrupção, o por óbvio mais hediondo dos crimes, para ao menos se ter condições morais de classificar como hediondos os praticados por quem de todo esse odioso contexto inequivocamente primeiro é vítima? Nunca. Na Absurdolândia não é assim que funciona. Lá, hipocrisia e absurdo. Exclusão, sangua, chacina e dor. Círculo, gangorra, espelho, moto perpétuo.

Gugu Keller

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