sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Absurdolândia 52

Como natural corolário de toda essa absurda violência hipocritamente impune, temos que a Absurdolândia, como poucos lugares no mundo, é uma terra em que se vive com medo. Sim. Medo, medo, medo, medo, medo. Anda-se com medo, mora-se com medo, respira-se medo, transpira-se medo. Medo de abrir as portas, de abrir as janelas, de atravessar as cancelas e guaritas, de caminhar pelas ruas, pelas praças, de parar nas esquinas, nos semáforos, de viajar pelas estradas, medo do próximo passante em sentido contrário. Sim. A violência assaltante, seqüestradora, homicida ou latrocida eis por lá em toda parte. Entra-se com medo em ônibus e trens. Rodoviárias, parques e banheiros públicos. Sai-se com medo de bancos, lojas e mercados. Estaciona-se o carro com medo e com medo se o apanha para ir embora. É a violência dos tantos excluídos que em seu grito de desespero e ódio descambam para a criminalidade de sangue contra a do estado que a ela responde com a sua ainda mais criminosa, porque hipocritamente afrontadora da lei que ele pretende impor. Algo meio como, pensando-o com vagar, uma guerra sem trégua entre o crime assumido e o dissimulado, o matricial corrupto, respondendo este ao primeiro com as suas mesmas armas de fogo e a sua mesma sêde de sangue, e eis o povo absurdo, pseudo-cidadão, absurdamente acuado no meio do campo de batalha, temendo não raro do mesmo modo os dois lados. Sim. É que, na Absurdolândia, principalmente em grandes cidades como Ribeirão de Março ou Paulópolis, o crime por estratégia infiltra-se nas comunidades de baixa renda, favelas sobretudo, até porque em grande parte de lá brota, de modo a fazer a população descomprometida de escudo protetor, já que o óbvio bom senso imperaria ao estado conter-se diante do claro risco que tal coisa representa. Mas o bom senso, qual tantas vezes acima dito, não costuma ter vez em terras absurdas, e eis a deles literal guerra civil travada em plena rua, em plena luz do dia, ao mesmo tempo em que crianças brincam, mulheres vão às compras e idosos fazem suas caminhadas. E qual o óbvio custo? Mortes e mais mortes e mais mortes e mais mortes. Números para estatística necrológica da em regra impune violência terceiro-mundista. Pessoas que, como explicado, estavam no lugar errado na hora errada. Muito provavelmente também no país errado. Do ponto de vista oficial, de todo modo, quase sempre, ainda que em uníssono toda a comunidade local grite o contrário, criminosos perigosíssimos, mesmo que impúberes. Ou então, na hedionda hipocrisia da auto-impunidade de um estado que, no pouco que age, faz ainda muito pior do que no muito em que se omite, as vítimas vão para a larga conta das balas perdidas. Sim. Em nenhum lugar do mundo há mais balas que voam perdidas até se alojarem em corpos inocentes. Ademais, decerto por obra de uma indústria bélica que religiosamente atende a ambos os princípios maiores lá norte, também nos gatilhos algo de muito errado há, na medida em que o país é também, estranhamente, o lugar no mundo onde mais armas disparam acidentalmente, conforme convictos sempre afirmam os advogados. E eventuais excessos ficam para serem apurados. Sim. Lá é assim. Balas perdidas, gatilhos insubordinados e corpos pelo chão. Sangue, bangue-bangue, morte, chacina. Medo. Hipocrisia, absurdo e medo.

Gugu Keller 

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