sábado, 9 de novembro de 2013

Absurdolândia 53

Mas tal violência tão absurdamente impune tem também uma nefasta conseqüência bastante mais sutil, e por isso mesmo mais hipócrita, que, do ponto de vista institucional quanto à contínua aplicação dos dois princípios, é claramente mantenedora perene da mentalidade cara-de-pau prevalente no já tão neste trabalho descrito estado de coisas absurdo... É que, sendo o dia a dia na Absurdolândia o absurdo que é em termos de violência, com tanto sangue a todo o tempo impunemente correr nos noticiários televisivos através de roubos, seqüestros, homicídios, latrocínios, guerras entre quadrilhas, pessoas feitas de tochas e, sobretudo, chacinas, tal coisa reflete no inconsciente popular, ainda mais por ser esse lado do absurdo sempre tão bradado por comunicadores populistas que com ferocidade o reverberam em tom de encolerizada indignação, fazendo com que se lance sobre a lesmaticamente rastejante justiça absurda uma constante e não sem razão descrença no que se refere a essas questões de cunho sanguinolentamente criminal, desviando, assim, a atenção sobre ela quanto àquilo em que ela mais, e de um modo ainda mais prejudicial do ponto de vista do que seria um efetivo estado democrático de direito, como a Absurdolândia hipocritamente se afirma, absurdamente se omite, qual seja, uma efetiva fiscalização e imposição do estritamente legal no que se refere a uma mínima contrapartida ao que o povo tanto, e de modo tão sacrificado, contribui através de pesados tributos, os mais aviltantes do globo. Assim, nos bares, mercados, pontos de taxi, escolas e fábricas, nas mentes e bocas passivamente hipócritas em geral, a jumentice que segue a cenoura muito mais, de modo efervescente até, discute o estupro seguido de morte que vitimou a enteada adolescente do acusado, ou o quanto era perigoso o pedófilo que rondava a escola primária, ou o tiroteio que exterminou doze num baile funk na madrugada anterior do que a contínua omissão estatal quanto à educação pública, à saúde pública, a absurda injustiça social cujo combate é tido na constituição do país como seu norteador objetivo, coisas que, obviamente, ao menos, de novo, em se pensando com o lá tão surrado objetivo, constituem a matriz, a raiz, o primeiro porquê de tantas vidas perdidas, de tantas balas perdidas, do perder perene da dignidade humana para essa tão cruel e hipócrita absurdidade, para essa tão cruel e absurda hipocrisia. Fala-se, assim, o tempo todo sobre o quanto a justiça absurda é complacente com marginais assassinos. Dizem que a polícia os prende para que ela os solte, e muito também se fala da já referida lentidão dessa justiça, onde, de fato, absurda e corriqueiramente, uma ação leva décadas para ser julgada. Mas, de modo bastante conveniente, muito pouco se menciona a sua hipócrita conivência com a ilegalidade, inconstitucionalidade aliás, do próprio estado que, nessa mesma toada de hipocrisia, diz-se aos quatro ventos garantidor intransigente da república democrática, claramente o pior dos seus pecados, ou, do ponto de vista do simbolizado na bandeira, a maior das suas virtudes. Na Absurdolândia, assim, se buscar direitos na justiça é certeza de demora, a ponto de ser comum que devedores que não pretendem saldar suas dívidas ironicamente sugiram a seus redores que nela as vão cobrar, se a causa for contra o estado, por mais que o direito seja, como lá se diz, líqüido e certo, líqüida e certa é também a certeza de  não se os conseguir fazer valer. Inclusive, com decerto inspiração no juízo final cristão, soa lá amiúde, sempre acompanhada de sorrisos acomodadamente hipócritas, uma velha frase que diz que "a justiça tarda mas não falha", e a pseudo-cidadania em geral, tão acostumada a tantas mentiras que, de tão ditas, praticamente tornaram-se verdades, já sequer percebe o quanto, sobretudo nisso, o tardar é uma grave falha. E tudo, não apenas a justiça, que na Absurdolândia é prometido para não falhar mesmo que tarde, segue tardando, até, provavelmente, o próximo 30 de fevereiro, quando, com a bênção de São Nunca, tudo enfim será diferente.

Gugu Keller     

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