domingo, 10 de novembro de 2013

Absurdolândia 54

Durante mais de vinte anos, entre as décadas de 60 e 80 do século XX, a Absurdolândia viveu sob o crivo de uma tenebrosa ditadura militar, que teve como uma de suas principais características uma rigorosa censura à imprensa e à manifestação do pensamento em geral. De um modo curiosamente interessante, mas depois extremamente frustrante, tal fato criou em toda uma geração, a mesma do autor destas linhas, que, daqui de fora, do Brasil, tanto quanto possível o apurou, uma razoável expectativa de que, findo tal período, em que, ilustre-se, os princípios básicos estampados na bandeira, hipocrisia e absurdo, foram, com a extrema dureza ditatorial, rigorosamente cumpridos, a coisa de algum modo se revertesse. E o esperançoso raciocínio tinha, sim, sua razão... É que, naqueles tempos difíceis, enquanto os absurdos afloravam e proliferavam país afora o tempo todo, a hipocrisia por deles detrás perpetuava-se justa, ou principalmente, através da referida censura de tudo. Perseguia-se, torturava-se, fazia-se sumir, corrompia-se e com a corrupção capitalizava-se, e nada se podia falar ou escrever a respeito. Justificando-o com a extrema necessidade de se eliminar um inimigo absolutamente obscuro, que a rigor jamais existiu, mediante uma violência desproporcional e sanguinária afirmou-se naqueles dias mais do que nunca o capitalismo continuador do absolutismo medieval que tanto até hoje, já o dissemos, tão forte na Absurdolândia impera. Foram duas plúmbeas décadas em que, como jamais, a mentalidade cara-de-pau fez suas raízes fincarem-se profundas no cerne do cotidiano absurdo. Pois bem. Como, qual dito, a hipocrisia se impunha primordialmente pela censura, já que os absurdos por todos sabidos não podiam ser postos à luz, havia essa ingênua crença de que, finda a ditadura, e, com ela, a censura, o princípio hipócrita, ainda que isso significasse mexer na sagrada bandeira, não teria como perdurar. Se, pensava-se, tudo afinal fosse dito às claras, desmascarados e desmoralizados, os caras-de-pau haveriam de de algum modo se acuar. A hipocrisia diminuiria drasticamente, e, no mesmo passo, o absurdo, já que ambos estão sempre necessária e intimamente atrelados. Podendo ser denunciadas, a tortura haveria de diminuir, a corrupção haveria de diminuir, a injustiça haveria de diminuir, a crônica falta de contrapartida estatal às fortunas que a título de tributos o povo absurdo já então pagava haveria de diminuir. De modo que, quando, enfim, após aquelas duas longas décadas, esse difícil período da história do país chegou ao termo, com o fim da ditadura militar e a pretensa volta da democracia, e o conseqüente fim daquela tão entrevadora censura, muita gente, que ingenuamente decerto não concebia o quanto os princípios maiores contidos na faixa da bandeira estão lá sempre acima de quaisquer circunstâncias, teve, sim, a infantil esperança de que tal momento histórico possibilitaria uma afinal mudança no aviltante estado de coisas que temos estudado nestes capítulos modestamente descritores da vida em terras absurdas. Mas, tristemente, óbvio era, deu-se desde logo o extremo contrário. Sim. Tamanha é a força do princípio da hipocrisia no inconsciente coletivo daquele povo, tamanho é o seu enraizamento, que o que então se viu foi, isso sim, o seu, ao lado do do absurdo, ainda aumento, na medida em que tudo aquilo que não podia ser dito, todas as clandestinas verdades apenas sussurradas em clima de medo, de repente passaram a se escancarar sem que nada a rigor mudasse. Paralisantemente, os absurdos antes silenciosos explicitaram-se todos e ainda assim continuaram, ou mesmo aumentaram. Sim. Numa espécie de pesadelo real, com o fim da censura, aumentou a informação, aumentou a crítica, aumentou a denúncia, aumentou a ironia, e, mesmo assim, paradoxal e lastimavelmente, coisas da Absurdolândia, aumentou a injustiça, aumentou a indiferença, aumentou a impunidade, aumentou a corrupção, aumentou a tortura, aumentou a cara-de-pau, aumentou a hipocrisia, aumentou o absurdo. E desaguou, enfim, a referida geração no tristíssimo perceber que, na Absurdolândia, a implacável ditadura dos dois princípios que a tudo abarcam é muito mais poderosa do que quiasquer outras, militares ou não, que podem, mais ou menos censoras dos fatos, história adentro vir e ir sem que ela jamais se abale.     

Gugu Keller

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