terça-feira, 12 de novembro de 2013

Absurdolândia 55

E acaba que, sendo ela, logo e em definitivo se o percebeu, não apenas perfeitamente compatível com os princípios da hipocrisia e do absurdo, mas, mais ainda, do primeiro até estimulante, a liberdade de expressão é a única peça de real democracia com que o travesti democrático absurdo tanto desfila pelas ilusórias passarelas da falsidade institucional. Sim. Chegando-se lá, numa espécie de insaciável uroboros, ao absurdamente hipócrita, depois da ditadura militar, nesta, que, não militar, já bem vimos, a rigor também o é, todas as escabrosas verdades estão afinal escancaradas ao alcance de todos os olhos e ouvidos e, mesmo assim, hipocrisia até a morte, os caras-de-pau se mantêm a convicta e ininterruptamente as negar, a agir como se elas simplesmente não fossem o que são. Assim, de novo o exemplificando, todos na Absurdolândia sabem que a saúde pública lá é a que é, mas, mesmo diante de irrefutáveis imagens, depoimentos e números que tanto o tempo todo o evidenciam, sim, hipocritamente os caras-de-pau o negam. Mais do que isso, mitômanos incontroláveis, juram o contrário. A quem preso já sem ar debaixo d'água afirmam sorridentes estar tranqüilo o respirar. E o que se dá a despeito? Continuam, na grande vitória do princípio da hipocrisia sobre tudo, o do absurdo, sempre atrelado, igualmente vitorioso, prestigiados, tratados com tapetes vermelhos, tapinhas nas costas e o pronome "excelência", e, sobretudo, sistematicamente eleitos, reeleitos, empossados e reempossados pelos fiéis seguidores da cenoura, meio como se estes confiassem mais em belas palavras vazias do que nos seus próprios sentidos. Educação pública? A mesma coisa. Conforme só piora, e todos o vêem, e, principalmente, o sentem, só se diz que melhora. E, novamente, como se o engole, assim segue. Violência? Enquanto nos jornais só aumenta e a todos cada vez mais assusta, oficialmente só diminui. Mais balas perdidas, mais vidas perdidas, mais absurdos reluzentes, mais mentiras panos quentes. E, assim, de fato, temos que, inegavelmente, como se explicou, no tempo da censura ditatorial, por paradoxal que isso soe, a hipocrisia acabava sendo bem menor. E como ela, a censura, era, explicou-se, o principal garantidor desse princípio naqueles tempos, o seu fim de certo modo fez com que tudo perfeita, triste e ainda mais paradoxalmente, se encaixasse, ou seja, fez-se com que, qual dito, por já não haver censura, a hipocrisia hipocritamente, se é que assim se o pode dizer, pudesse agora ser ainda mais negada, como em essência lhe é peculiar, e ainda mais, se é que, novamente, assim se o pode dizer, se hipocritizasse. Em outras palavras, mesmo que explicitamente tanto desfile com o seu enorme falo plutocrata-absolutista pelas mencionadas passarelas do ilusionismo, o referido travesti hipocritamente agora defende-se de tudo alegando que essa liberdade de expressão pós ditadura garante-lhe a feminilidade democrática que todos bem sabem nele só existir da boca para fora. Em ainda outras palavras, hoje na Absurdolândia todos os inúmeros absurdos podem à vontade ser denunciados que a hipocrisia cara-de-pau sempre apenas e tão somente limitar-se-á a os negar, por mais que escancarados eles  sejam, ou os minimizar, ou, quando muito, a mentirosamente se comprometer a os reverter. E é o que basta. Hipocrisia e absurdo. De sorte que o tempo passa, o segundo continua, a primeira, que continuamente o nega ou afirma sob combate, também, e eis aplicação dos princípios perpetuadas com orgulho. E como, noutra importante maquiagem de que esse hábil transformista lança mão para se passar por um estado de direito, as eleições na Absurdolândia são a farsa que são, com as regras sendo as que são, as propagandas sendo as que são, os candidatos sendo sempre quem são e, sobretudo, os seguidores de cenoura neles votando como votam, eis, cada vez mais, a nação absurda orgulhosa de sua plástica aparência democrática ao mesmo tempo em que, vampiros felizes os da estrela de cima e anêmicos paralisados os da de baixo, com não menos orgulho mantem-se vivos os dizeres e cores da sua bandeira, tão bela a se desfraldar nos alvissareiros ventos do cone sul.

Gugu Keller  

Nenhum comentário:

Postar um comentário