quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Absurdolândia 56

Conforme mencionado dois capítulos atrás, o autor destas modestas linhas descritivas da Absurdolândia, cuja motivação, qual dito em seu início, foi apenas o tratar-se de um país fascinantemente pitoresco, tem a sorte de viver no Brasil, nação daquela bastante diversa, sobretudo em termos de mentalidade coletiva, ainda que uma ou outra coincidência valha entre ambas destacar... A maior delas talvez seja a que justamente diz respeito ao aspecto vexilológico, na medida em que, se, qual já sabemos, são pouquíssimos os países do globo que, como a Absurdolândia, têm palavras estampadas em sua bandeira, é também este o caso do Brasil. Sim. Com inspiração no positivismo liderado pelo filósofo Augusto Comte, que, à época da sua adoção, era visto como a corrente ideológica a ser seguida, a bandeira brasileira traz também três palavras em si escritas, igualmente sendo duas se desconsiderarmos a partícula aditiva "e" que liga a primeira à terceira, que são as que de fato têm importância. "Ordem e progresso" é o que eis escrito na bandeira do Brasil, dizer que, ainda que não com o mesmo fanatismo que se vê na Absurdolândia, onde as palavras do lábaro são, como tanto vimos, verdadeiros princípios, constitui um importante norte pelo qual se guia a nação brasileira, esta sim, verdadeiramente, uma nação, sobretudo após o regime militar sob o qual, numa outra coincidência com a Absurdolândia,o país viveu na segunda metade do século XX. De um modo diametralmente contrário ao que se deu com os absurdos, até porque, bem já o sabemos, na terra destes o absurdo é princípio, o regime militar no Brasil transitoriamente instalou-se a partir de uma revolução de cunho absolutamente legítimo. Àquela altura, primeira metade dos anos 60, o país estava à beira de ser entregue aos comunistas, diabólicos malfeitores que, entre outra atrocidades, chegavam, é fato notório, a comer criancinhas. De sorte que, para evitar o pior e, sobretudo, a despeito de qualquer influência externa, fazer valer acima de tudo a vontade do povo, deu-se a vitoriosa revolução, injustamente ainda hoje chamada de golpe por ignorantes da história, desde sempre interessada apenas em afastar o claro e dantesco perigo leninista e, tão logo quanto possível, reestabelecer a ordem, o progresso e a verdadeira democracia. Foi uma transição gradativa, lenta talvez até, mas apenas porque de modo extrema e inequivocamente responsável e equilibrado. Nunca houve, por exemplo, como tanto e tão injustamente alguns acusam, maus tratos contra os opositores que, tresloucadamente, insistiam em manter-se contra o tão popular e justo movimento revolucionário. Se um caso ou outro em que se empregou alguma energia menos moderada excepcionalmente houve, foi por absoluta necessidade relativa à segurança nacional, até porque, honrado signatário do tratado de 1948, o Brasil é desde sempre um país que se orgulha de seu intransigente respeito aos direitos humanos. Foi um período de alguma dificuldade, não se o negue, mas também de uma importantíssima reciclagem após a qual a geração deste autor, a mesma que na Absurdolândia tanto se iludiu por esperanças vãs, foi, sobretudo com a constituição promulgada três anos depois dele findo, presenteada com uma nação de que pode se orgulhar, com um legítimo e verdadeiro estado democrático de direito.

Gugu Keller  

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