sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Absurdolândia 58

País que, como dito, orgulha-se de ser, no exato sentido da palvra, uma verdadeira nação, o preconceito, de qualquer espécie, é algo que no Brasil simplesmente não tem vez, sendo intransigente a intolerância, tanto pública quanto, e principalmente, institucional, contra os poucos que de algum modo, na total contramão da sua hoje invejável evolução civil, ainda o praticam. O racismo, por exemplo, e o Brasil sempre foi um país de forte miscigenação ao longo da sua história, é lá considerado um crime gravíssimo, por exceção constitucionalmente previsto e processualmente inafiançável, sendo que, independente da posição social de quem o pratica, as autoridades locais são inflexíveis na sua repressão, até porque, quanto a este último aspecto, reza também a lei maior brasileira, em solidíssima cláusula pétrea, que "todos são iguais perante a lei", igualdade essa fielmente consagrada em todos os setores do seu cotidiano. Se é certo que, como explicado no capítulo acima, trata-se de um país que, ainda no curso de seu processo evolutivo sempre norteado pela busca incansável da ordem e do progresso em seu lábaro estampados, tem ainda muito a caminhar, haja vista ter passado por dificuldades históricas não poucas, em nada isso impede, insista-se, que questões como as que se referem à igualdade entre as pessoas e ao total repúdio a qualquer tipo de preconceito sejam tratadas de modo tão fanático quanto na Absurdolândia se vê no que tange aos lá princípios da hipocrisia e do absurdo. Então, se a constituição brasileira, a quem o estado brasileiro incondicionalmente se curva como um servo diante de seu mestre, diz que todos são iguais perante a lei, assim é até as últimas conseqüências. De modo que, se no Brasil, assim como na Absurdolândia, os números da violência são, é fato, consideravelmente altos, as autoridades do primeiro não fazem nenhum diferença quanto à condição, a origem ou o habitat de quem em cada circunstância se investiga. Não. Não existe no Brasil, por exemplo, aquele humilhante procedimento de se abordar e revistar pessoas apenas porque são pobres, mal vestidas ou negras. Tal absurdo, comum por princípio na Absurdolândia, é pesadamente repudiado, sobretudo pelo estado. O código de processo penal brasileiro diz que uma revista deve ser sempre precedida de uma fundada suspeita, e religiosamente assim é. Se algum agente público, num insano e injustificável excesso, comete alguma arbitrariedade relativa a esse tipo de situação e preconceituosamente destrata o cidadão, no republicano Brasil sempre a razão de tudo, dura e imediata é a reprimenda que sofre. Em outras palavras, na nação brasileira, estado democrático de direito exemplo para todo o globo, não há aquela coisa absurda que se dá, por exemplo novamente, em terras absurdas de se hostilizar suspeitos intransitivos. Nunca. Jamais. Impensável. De modo algum. No Brasil pós-ditadura militar, da por seu povo orgulhosamente chamada constituição-cidadã, todos são, de modo literal, cabal e inexorável, iguais, sim, perante a lei, e, se ao estado brasileiro ainda não é possível, por fatores que escapam ao claro ansiar benfazejo de seus governantes, atender de forma integral a todos os direitos coletivos que em contrapartida aos tributos que lá se paga seriam natural e legalmente devidos, ao menos, outra vez se insista, o respeito do estado por seus jurisdiconados, todos sem exceção, é sempre algo digno de contínuos e rendidos aplausos, em clima de ordem e de progresso.         

Gugu Keller

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