sábado, 16 de novembro de 2013

Absurdolândia 59

Sendo árduo apurar onde o fenômeno começou antes, possivelmente em ambos os países na mesma época, omitir-se-á aqui esta informação menos relevante quanto aos chamados "guardadores de carros". O fato é que no Brasil, noutra coincidência sua com a Absurdolândia, sobretudo nas grandes cidades, igualmente há a sua incômoda presença, decerto fruto de dificuldades relativas à educação pública e à criação de empregos dignos para todos. Contudo, novamente, é visceral a diferença entre os dois países no que toca a como lidam com o problema. Enquanto na Absurdolândia as coisas são as que vimos, no Brasil, qual é lá peculiar, as autoridades são absolutamente irredutíveis na constante repressão a esse tipo de atividade, claramente uma extorsão odiosamente disfarçada contra os motoristas que, de modo sacrificado, pagam os seus não poucos tributos financiadores dos entes estatais. Assim, se, como é fato, os guardadores de carros agem em grandes metrópoles brasileiras, como São Paulo, Rio de Janeiro e outras, o fazem apenas porque, infeliz mas compreensivelmente, o estado não tem como estar presente em toda parte o tempo todo. Quando, de qualquer modo, tal tipo de ação é interceptada, seja através de alguma denúncia, seja por um flagrante obtida durante algum patrulhamento de rotina, os criminosos, ou infratores, já que, tristemente, há muitos menores de idade nisso envolvidos, são imediatamente encaminhados para que com rigor se cumpra o que de direito. Sim. Como no Brasil, de modo transversalmente diverso do papel amarelo absurdo, a lei é coisa muito séria, não há nunca nenhum tipo de conivência do estado com qualquer atividade clandestina. Não. As que excepcionalmente sobrevivem, como esta que agora aqui se aborda, o logram apenas em virtude da poucas linhas acima referida impossibilidade de onipresença da autoridade. De toda sorte, outra vez, notório é o extremo respeito das instituições brasileiras ao seu cidadão de bem, já que o seu extremo respeito à lei, como sempre se dá, é, em última instância, a mesma coisa. No Brasil, então, até acontece de eventualmente as autoridades tomarem conhecimento de alguma prática ilegal apenas a partir do trabalho da imprensa, já que, em tão plena democracia, esta realiza um trabalho fiscalizatório de relevantíssima importância. O que não há, nem de longe, de forma alguma, é aquela situação inequivocamente absurda que vimos amiúde dar-se na Absurdolândia, em que inúmeros atentados contra a lei acontecem às claras, nas barbas de todos, das autoridades inclusive, com flagrante prejuízo para o povo absurdo, que, como bem vimos, também com extrema dificuldade paga seus não poucos impostos, sem que se tome qualquer providência repressora, a menos que a imprensa, lá hipocritamente sensacionalista, e que não costuma prezar por nenhum senso de ética quando o assunto é angariar audiência, em tom de cobrança o denuncie. Ademais, se lá, em terras absurdas, mesmo então, no mais das vezes, por amor coletivo aos princípios básicos, dificilmente alguma coisa dá em alguma coisa, no Brasil, onde a lei, como deve ser nos verdadeiros estados de direito, é algo que beira o sagrado, ao contrário, a impunidade é que não tem vez, ao menos no que tange ao que é ilegal e que chega ao conhecimento de suas sempre compenetradas autoridades, sabedoras e cumpridoras fiéis de suas obrigações e severamente avessas a quaisquer acomodações ou panos quentes.

Gugu Keller  

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