domingo, 17 de novembro de 2013

Absurdolândia 60

Por outro lado, mesmo que a sua natural impossibilidade de onipresença, somada às ainda deficiências, às vezes técnicas, às vezes humanas, que o estado brasileiro enfrenta no combate aos que cá margeiam a lei façam, como se disse, com que haja um caminho ainda relativamente longo a se percorrer na sua incansável busca pelo ideal positivista de ordem e progresso, se há uma conduta contra a qual a intolerância é total, é a corrupção. Sim. No Brasil estado democrático de direito pós ditadura militar, sob a égide de sua acima aludida constituição-cidadã, o crime do corrupção, tanto a ativa, cometida por quem corrompe, quanto a pior delas, a passiva, cometida pelo agente público que se deixa corromper, ou acena com a disso possibilidade, ou mesmo, pior ainda, de algum modo impõe a sua prática, é execrado e punido quando à tona sempre de maneira severa e exemplar. É que o moderno modo de pensar do brasileiro compreende com clareza que o crime de corrupção é a matriz de todos os outros, e por isso, sabiamente, o abomina como o pior dos cânceres que consomem o seu corpo. Sim, lúcido, o brasileiro indigna-se com o homicídio, o estupro, o latrocínio ou o seqüestro, mas nada golpeia-lhe mais os brios do que a corrupção. No Brasil, definitivamente, não há, e nem funcionaria, aquele providencial desviar de atenção pública que hipocritamente se faz na Absurdolândia para os crimes de sangue em propositado detrimento da para os chamados do colarinho branco. Não. Tanto que, na política brasileira, assim como no seu funcionalismo, aquele que com isso se envolve vê-se definitivamente arruinado. Sendo o brasileiro um povo esclarecido, bem informado e dotado de um senso crítico extremamente apurado, e somando-se a isso o fato de as regras eleitorais no país serem justas, límpidas e impetuosamente democráticas, nos pleitos eleitorais, sempre precedidos de campanhas de altíssimo nível, em que as campanhas dos candidatos são rigorosamente fiscalizadas pelas autoridades competentes de modo a jamais serem enganosas ou ilusórias, dificilmente alguém que um dia tenha se enveredado pelo torpe caminho da corrupção logra alcançar alguma possibilidade de ressurreição moral que lhe traga de volta ao cargo público. Dificílimo. Se, assim como se deu com a Absurdolândia, o Brasil experimentou durante a sua ditadura governos de certo modo escusos sob o ponto de vista democrático, que, mesmo, como vimos, com bom e justo propósito, a história oficial o diz e dela não se duvida, agiam por vezes à margem da lisura sem que, por força da censura, nada se pudesse falar a respeito, ao contrário do que se deu lá, já que são outros os seus princípios, o brasileiro soube fazer da lição um dos motes do seu definitvo despertar ideológico, de modo a, ciente como ninguém do potencial que a mente corrupta tem de solapar o que a duras penas foi conquistado por um povo unido e que sabe o que quer, um povo que não se faz de jumentos a seguir cenouras seguras por varas de pescar nas mãos do quem os monta, em regra nababos tiranos de um absolutismo capitalista covardemente travestido de democracia, não mais permitir que esse tipo de figura tão medievalmente tóxica para o bem estar coletivo volte a de algum modo exercer o seu dantesco e doentio parasitismo.

Gugu Keller

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