quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Absurdolândia 64

A nós, brasileiros, nos cabe então, tende este humilde autor a crer, em coerência com a inerente atitude cristã de respeito e amor ao próximo que, por natureza, tanto nos caracteriza, rezar pelos povos que, retrógados decerto na roda da história, não têm tido a sorte de experimentar o quanto é gratificante fazer parte de uma nação de verdade, de uma democracia republicana de que se possa sentir orgulho, de um autêntico estado de direito que proporciona aos seus indivíduos a cidadania em seu estrito conceito, como, bem vimos neste pequeno trabalho, de modo tão estranhamente peculiar, é o caso do absurdo. Oremos, pois, nós, que tão bem louvamos ao fundador do cristianismo seguindo com humildade e submissão extremas as suas palavras de compartilhamento e compaixão, para que a Absurdolândia, terra, como a nossa, tão cheia de uma riqueza humana incomensurável, descubra um dia que as palavras de sua bandeira, a que lá com tanto ardor se devota, não constituem, com o devido respeito, o melhor caminho para a plenitude de sua gente. Sim. Façamos nossas poderosas preces para que lhes chegue o nosso exemplo ordeiro e progressista. Saibamos, estendendo-lhes nossas mãos amorosas sempre abertas para os mais fracos, fazê-los ver que, de braços dados com aqueles a quem representam, instituições públicas sérias e escorreitas, como as que honrada e felizmente temos aqui, são o único caminho para se construir um país pleno, um país que, a despeito de quaisquer dificuldades históricas, pode hoje posicionar-se diante do mundo como um grande e triunfante exemplo a ser seguido, exatamente o caso do Brasil. Se a Absurdolândia, aos quatro ventos, amiúde se apregoa uma nação vitoriosa, celeiro do mundo, o país de um futuro que já começou, o faz, como se mostrou capítulo a capítulo nestas páginas, apenas pelo incondicional fanatismo do seu em grande maioria tão sofrido povo àqueles dois princípios deveras lá festejados, que, contudo, além de dela fazer, qual já nas primeiras linhas atrás se o disse, um verdadeiro paraíso para os vexilologistas, torna-a, a rigor, país de terras tão belas e tão absurdamente o tempo todo vilipendiadas, não mais do que um fantoche grotesco de hipocrisia e mentira. Que deus, este deus tão brasileiro, abençoe também nossos irmãos absurdos e faça com que, se necessário para a lá tão necessária mudança for, numa espécie de reconstrução simbólica, a deles tão sagrada bandeira sofra uma completa revolução na interpretação mítica de seus significados, passando o verde a representar tão somente a riqueza de suas florestas, o amarelo, a de seus inesgotáveis recursos minerais, e o azul não mais um mar refletido, mas apenas o seu lindo céu predominantemente meridional. E que, por fim, as duas palavras, três se com o "e", "hipocrisia e absurdo", sejam trocadas, se não, vez que estas já são nossas, por "ordem e progresso", ao menos por, talvez, "sinceridade e respeito". Sim. Assim seja. Que o bom deus, que tanto abençoa o Brasil, igualmente abençoe a Absurdolândia. Assim seja.

Gugu Keller

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