quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Desmascaro

Neste mundo de quase sempre hipocrisia, a verdade, quando vem, desmoraliza.

Gugu Keller

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Quente

Meu coração sempre bicho acuado em teu abraço enfim eis entocado.

Gugu Keller

domingo, 27 de janeiro de 2013

Boate Kiss

Eu ia escrever um texto sobre a tragédia da última madrugada em Santa Maria-RS referindo-me ao quanto esse tipo de acontecimento acaba sendo um óbvio corolário de fatores que tanto e tão tristemente compõem a nossa mentalidade coletiva, como a ganância, a corrupção, a indiferença, o desrespeito, a irresponsabilidade ou a incivilidade. Mas, depois pensei, para quê? É tão óbvio, né? Estamos todos tão fartos de saber disso! É tão cristalinamente visível, não é mesmo? Quanto a mim, mesmo durante a enorme comoção que nos abate quando damos de cara com as dantescas conseqüências deste nosso modo conivente e omisso de ser, não sou ingênuo o bastante para crer isso mude. Se, tomara, um dia acontecer, provavelmente não viverei para testemunhar.

Gugu Keller

sábado, 26 de janeiro de 2013

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

A Esquina - Capítulo 21

Desde a primeira semana após o carnaval de 1993, mais de dez anos, portanto, naquele fatídico domingo de julho já fazia, "seu" Nésio, apelido de Genésio, biscateava naquela esquina. Tendo tanto a rua Hermann quanto a Violeta um razoável movimento, o cruzamento com farol e pouca concorrência ambulante de pronto paraceu-lhe promissor. No começo ele se limitava a esmolar. Com o tempo, passou a vender coisas. Balas, chicletes, água, refrigerantes, flanelas, adesivos, bichos de pelúcia, alho. Em certa fase angariava trocados lavando pára-brisas. Noutra, usava muletas para melhor tentar apiedar os passantes. Quando não mais as agüentou, já que, mesmo velho e cansado, a rigor delas não precisava, e também porque, tendo sido encontradas no lixo já bastante usadas, encontravam-se elas agora em lamentável estado de podridão, explicou aos muitos que ali já o conheciam que havia conseguido realizar uma milagrosa cirurgia num hospital municipal, a qual, com a bênção do senhor, trouxe-lhe de volta o movimento das pernas. Para o bem de sua reputação, teve a sorte de praticamente ninguém ter reparado que, ainda quando ele usava as muletas, durante um assalto, com tiroteio e tudo, ali acontecido em 99, ele, de tanto medo, as deixou para trás quando saiu correndo. De todo modo, talvez inconscientemente influenciado pela constante lembrança do vexatório episódio, foi justamente algum tempo depois disso que ele, também, como se disse, reconhecendo a sua referida podridão, fartou-se delas e inventou a referida cirurgia que as aposentou.

Piauiense, nascido no ano de 1922, "seu" Nésio chegou a São Paulo na década de 60. Trabalhou como porteiro de prédio, jardineiro, pedreiro, lixeiro e numa padaria, para mencionar apenas os empregos em que logrou manter-se por mais de três meses. Contando os demais, mais de trinta ele teve. A custar-lhe qualquer possibilidade de sucesso profissional, o álcool sempre foi a sua tragédia. Viu sua esposa morrer atropelada em 1971 e um de seus filhos, numa briga de bar, a facadas em 1973. Seus outros três filhos, um filho e duas filhas, já há muito perdeu de vista. O rapaz, de que soube pela última vez já faz vinte anos, encontrava-se preso então. A mais velha das moças casou-se e voltou para o Nordeste, ele não sabe bem se Pernambuco ou Paraíba, e a mais nova ele sequer chegou a ter ciência de que se enveredou pela prostituição e de que foi morta por um cafetão num desentendimento financeiro, também, como o irmão, a golpes de faca.

Tendo já vivido em muitos barracos de favela e passado inúmeras noites em albergues públicos ou sob viadutos, foi para o "seu" Nésio um golpe de sorte da vida a dona Escolástica ter-lhe cedido aquele quarto no fundo do cortiço, a três quarteirões daquela esquina, sem qualquer custo. Com a metragem de dois por dois metros, ali ele tem uma cama, um armário velho e uma pequena mesa onde pode deixar os seus poucos pertences, entre eles o precioso rádio de pilhas com que, sem quase entender nada devido à rapidez dos locutores, ele gosta de acompanhar os jogos do Corínthians. Seu coração ainda é do Ríver de Teresina, mas já há décadas não tem qualquer notícia do campeonato piauiense, razão porque acabou escolhendo o alvi-negro paulistano. Chegou a ter uma antiga televisão, com que, com um pedaço de bombril na ponta da antena, conseguia às vezes assistir alguma coisa. Gostava muito do programa Sílvio Santos. Numa época de poucos ganhos na esquina, entretanto, acabou vendendo o aparelho para comprar bebida, gênero de que, definitivamente, nunca pode abrir mão para se manter. Pelo quanto bebe, a rigor, muito mais do que a operação de que fala e que jamais houve, ele estar vivo e razoavelmente lúcido, a ponto de montar quebra-cabeças, passatempo por que é apaixonado desde moço, é, indubitavelmente, um verdadeiro milagre.

Sim, o "seu" Nésio sempre teve essa paixão por quebra-cabeças. Mesmo nunca tendo tido o prazer de entrar numa loja de brinquedos para comprar um, possui dezenas deles em seu pequeno quarto. Sempre já usados, alguns, como as muletas, achou no lixo, e vários outros ganhou de presente, inclusive, naquele julho de 2003, um da dona Escolástica, uma bucólica paisagem de montanha que havia sido de um de seus netos, com que este já não brincava.

Naquela madrugada fatídica, domingo, dia 20, "seu" Nésio ainda estava na esquina. Frio que fazia, havia tomado uns goles de pinga, mas não o bastante para lhe tirar a razoável lucidez. Tanto que, cansado de por horas ter vendido balas, ele estava sentado no seu caixote, diante do qual, num outro caixote, sob a luz do poste, lentamente montava o quebra-cabeça recém ganho de sua benfeitora. Aos poucos ia-lhe surgindo a bela paisagem. Montanha, verde, flores, um lago, céu azul, pássaros, árvores, pôr do sol. "Lindo", pensou o "seu" Nésio. Quando ele encaixou a última peça, sorriu com seus apenas cinco dentes e levantou a cabeça. Foi quando observou os dois carros vindo em altíssima velocidade. O que vinha pela rua Hermann tinha o farol aberto para si. Entretanto, mudando o farol para o amarelo quando se encontrava a poucos metros do cruzamento, ele não fez menção de tentar parar. Ao contrário, acelerou ainda mais. O que vinha pela rua Violeta até pareceu diminuir um pouco a velocidade, já que o farol estava fechado para ele, mas, vendo-o abrir conforme se aproximava da esquina, novamente forte acelerou. Eram 3:53 daquele domingo, 20 de julho de 2003.

Gugu Keller    

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Bomba

Coração de poeta é qual panela de pressão: sem externar versos, grande é o risco de explosão.

Gugu Keller

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

domingo, 20 de janeiro de 2013

Consulta Aos Meus Seguidores

Pois é, amigos... Com muita alegria, anteontem cheguei ao 20° capítulo do romance "A Esquina". Como a previsão é de que sejam 52, estou quase na metade. Quanto a mim, tenho estado bastante feliz com o resultado, já que muitas idéias têm surgido em minha mente para o desdobramento da história e as costuras entre os personagens. De todo modo, gostaria muito de saber o que estão achando até aqui os amigos que têm acompanhado. Conforme eu disse desde o início, este é um projeto meu que tem por objetivo ser escrito, na medida do possível, meio que "junto com os leitores". Ficarei muito grato a quem comentar, criticar, opinar ou sugerir.

Bjs a todos!

Gugu Keller

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

A Esquina - Capítulo 20

A ponta da língua toca o clitóris. Devagar, devagar, devagar. Mexe-se, circunda, molha. Devagar, bem devagar. Bêbado do tanto que lhe bombeia o coração, Rodrigo baba. Saliva, selva, secreção. Secreta clitoriana ereção. Língua, lambida, lábios, labareda. Mel, céu, quarto de hotel.

Agora ele a lambe um pouco mais depressa. O ritmo cresce em P.A.. Abrindo um pouco mais as suas pernas, meio que com elas o envolvendo, Natália Rodrigo melhor aceita, melhor o ajeita a lhe chupar. Entrementes, a língua dele já passeia mais. Sempre a relar no pequeno cume, ela ao seu lado agora dança pela mucosa. Rósea, flórea, sumosa. Saborosa. Os lábios da boca aberta tocam a vulva e sentem os pêlos, o aroma, o hálito, o cálido. Sentem os lábios. Os lábios sentem os lábios e vice-versa. Com os braços, também ele a envolve no crescente do momento. Movimento. Suas mãos vão sob e por detrás da cintura e a apalpam forte quase no alto das nádegas. Cóccix. E ele chupa. Rodrigo chupa Natália. Lambe, sorve, suga, saliva. Suaviza. E, aos poucos, e cada vez mais, a vagina dela se abre, se entrega, se escancara, floresce, oferece. Beijo, boca, barba, baba, boceta.

Mas não, Rodrigo não está só ali. Sim, depois daqueles cinco anos, dor, dor, dor, dor, dor, eis, praticamente dentro da sua boca, uma boceta. Afinal, depois da de Flávia, na manhã daquele domingo, o maldito domingo, hoje a de Natália, uma boceta. Xana, xereca, chavasca, periquita. Sim, um lindo e delicioso capô de fusca. E Rodrigo chupa, e chupa, e chupa. Mas não. Definitivamente não está só ali. Não é só aquele o quarto de hotel. Não é só aquela a boceta. E ele se odeia por alguns segundos pelo fato de que, por mais que o tentasse evitar, chupando, chupando, chupando, eis de novo o passado chegando. Chegou. Empurrando o presente para o futuro, para um sempre longínquo futuro, um futuro por que Rodrigo já não suporta esperar, chegou. Maldito domingo, 20 de julho. E Rodrigo, chupando, de olhos entreabertos a milímetros do lindo púbis, vê tudo de novo vir vindo. Tentar não pensar é pensar mais. E ele pensa em Flávia, a última, o maldito domingo. E pensa em Luciana, e em Samanta, e em Inah, e em Débora, em Karina, e em tantas outras, muitas, inúmeras, dezenas, cujos nomes ele já nem lembra. São bocetas, bocetas, bocetas, até que, chupando a de Natália com cada vez mais fúria, ele chega em Raquel. E, mesmo sem ter tido qualquer culpa, ele se sente, de novo e como sempre desde então, culpado. Culpado sem culpa pela culpa que tampouco ela teve, mas que a ela ele tanto sem ter culpa atribuiu. Sim, Rodrigo perdoou-se. Sim, o dr. Clóvis Hernandez conseguiu. Ele entendeu que não há porque ter qualquer culpa. Perdoou-se pela sua demora em a perdoar pelo que ela não tinha feito. Mas, neste instante, mesmo chupando Natália vorazmente, sente-se culpado, agora apenas por ainda estar tão triste, agora apenas por ainda ser tão triste. E, triste, culpado sem culpa de volta ao presente, chupa. E Rodrigo compreende que não importa quantas sejam as bocetas, ou as Natálias, ou os perdões, ou os drs. Clóvis, ele jamais deixará de amar a sua Raquel, a sua tão amada e adorada esposa Raquel. 

Com voracidade Rodrigo chupa Natália, que, enlouquecida de desejo, cinco anos, treme, geme e se contorce. Três minutos, quatro, sete, e ela leva as mãos à cabeça dele, e, segurando-o pelos cabelos, exclama...

- Ai, que língua é essa?!? Como você chupa gostoso, seu puto!

Rodrigo chupa. E treme, e geme, e se contorce, cinco anos. Mas ainda pensa em Raquel, e, triste, chupando, imagina que, se não estivesse tão enlouquecido de desejo, o ritmo cresce em P.G., talvez derramasse lágrimas sobre aquela nova boceta em sua vida.

Gugu Keller 
 

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Ampla Defesa

A todo crime violento cometido por alguém abastado segue-se um advogado a eloqüentemente o afirmar uma fatalidade.

Gugu Keller

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

sábado, 12 de janeiro de 2013

Mambembe

E aqui eis que estamos
No triste da vida enredo
Sobre o palco em cena insanos
Marionetes do medo

Gugu Keller

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

A Esquina - Capítulo 19

Logo em seguida ao telefonema do marido, às quatro da tarde, em que, como vinha sendo cada vez mais freqüente, ele dera uma desculpa descaradamente esfarrada para justificar que chegaria mais tarde em casa, Ana Cláudia ligou para o detetive com quem se acertara na véspera, Sidney, e lhe disse que o momento era propício para que entrasse em ação. Eficiente, e até por já ter sido previamente muito bem pago, ei-lo, o detetive, duas horas depois, a, com extrema discrição e uma câmera filmadora a postos, seguir Gladston desde o momento em que este deixou a empresa onde trabalha.

O trânsito do fim de tarde paulistano faz com que o Gol preto trafegue devagar. A dirigir sua motocicleta, Sidney, com razoável experiência na atividade, é hábil em manter-se a uma distância segura. Cerca de quarenta e cinco minutos se passam naquilo, até que o carro estaciona numa rua de um bairro residencial de classe média. Também já estacionado, e sempre discreto, Sidney aciona a câmera cujo zoom lhe permite melhor observar Gladston, que não desceu do carro, e percebe que ele faz um telefonema pelo celular. Parece claro que veio apanhar alguém. Dito e feito, cinco minutos se passam e uma mulher sai de um prédio e se encaminha para o Gol preto. Abre a porta e entra. Gladston e ela beijam-se na boca. O motor do carro é ligado. Pisca-pisca e o casal sai dali. Eis o marido de Ana Cláudia, diante dos olhos do profissonal da investigação por ela contratado, claramente a caminho de de novo a trair. Bem filmado o referido beijo, o material a rigor até já seria suficiente para um grande estrago na vida conjugal da contratante do serviço. Mas, até, repita-se, por ter sido com antecedência bastante bem pago, Sidney prometera um trabalho completo. E assim seria...

Seis minutos após Gladston ter apanhado a acompanhante, enquanto estão parados num semáforo, novamente, por clara inicitiva dele, o casal se beija, este um beijo mais longo, oito segundos. De novo Sidney com clareza o registra. O trânsito segue, mais alguns minutos, e eis o Gol preto, cuja placa, como se isso ainda fosse necessário, o detetive faz aparecer com clareza nas imagens, a entrar num hotel, cuja fachada é também fartamente bem registrada. Sidney desliga a câmera, estaciona a uma distância segura e põe-se a esperar.

Não demoram muito. Uma hora mais ou menos se passa e lá vem o Gol garagem afora. Sidney anota o horário para o relatório, religa a câmera e vai para a parte final da diligência. Mas havia um detalhe no caso, até aqui despercebido, que, ao cabo de mais alguns minutos, viria-lhe à tona...

Em sua moto, sempre a uma distância calculadamente preventiva, Sidney segue Gladston e logo fica claro que este não deixará a pessoa com quem está no mesmo endereço onde a apanhou. Ele agora tomou o rumo do centro da cidade. Mais alguns instantes e se descortinaria para o detetive o detalhe acima referido, que, diga-se de passagem, tornaria tudo mais dramaticamente bombástico... É que Gladston, após lhe dar um novo longo beijo na boca, deixa a acompanhante, agora cerca de nove horas da noite, no começo de um quarteirão famoso por ser um ponto de prostituição. Mas não prostituição feminina. Prostituição de travestis. Sidney intriga-se. Será? Gladston se vai com o Gol preto. Já não mais a o seguir, Sidney avança devagar e observa a acompanhante na calçada. Sim, parece ser um travesti. Bastante belo, feminino, mas, também por ter ficado ali, bem naquele lugar, sim, é quase certo de um travesti se tratar. Sidney passa ao largo e decide... O trabalho, para ser bem feito, ainda requeria um último passo...

O detetive vai até seu escritório, onde deixa a moto e a câmera manual. E ei-lo, agora de carro e com uma microcâmera, que também capta som, imperceptivelmente acoplada na gola de sua camisa, de volta ao mesmo quarteirão no centro da cidade. Dá uma volta. Duas. Olha. Procura. Onde está ela? Vê. Aproxima-se. Abre o vidro do carro e se faz passar por um potencial cliente...

- Oi!

- Oi! - responde a sorrir Andréa, com uma voz que deixa absolutamente claro de fato não se tratar de uma mulher.

- Como é o seu nome?

- Andréa!

- Quanto está o programa, Andréa?

- Cinqüenta!

Conforme já observado por Sidney, disse-se, ela é bastante feminina e tem belos traços. Mas percebe-se inequivocamente, sobretudo, repita-se, pela voz, que é um travesti. De todo modo, sempre profissional, o detetive faz-lhe uma pergunta para que, sob hipótese alguma, não reste dúvida de nada...

- Você faz ativo, Andréa?

- Claro! Sem problema! É a minha especialidade!

- E o seu dote? É grande?

Andréa sorri.

- É... Dizem que sim...

Sidney dá uma desculpa e vai embora. Diz a Andréa que talvez apareça amanhã. Agora pensando na sua cliente, a dirigir, ele murmura consigo...   

- Pobre mulher...

O trabalho estava feito. Restava apenas editar as imagens numa media de dvd. No dia seguinte, o celular de Ana Cláudia tocaria e ela seria convidada por Sidney ao seu escritório. Seria o pior dia da vida dela. Mas logo superado por um outro, ainda pior, ao cabo de algumas semanas...

Gugu Keller 

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Protetor Solar

Principalmente nesses dias de verão, devido à sua grande importância na prevenção do câncer de pele e de outras doenças que a acometem, é comum ouvirmos falar em "protetor solar". Todos conhecemos bem esse tipo de produto e, certamente, a maioria usa. Creio, contudo, equivocada a expressão. Se pararmos para pensar, temos que "protetor solar" seria algo que protegeria o sol, e não do sol. Assim, do mesmo modo que, a título de exemplo, o protetor labial protege os lábios e o protetor bucal, do tipo dos que usam os boxeadores, protege a boca, para proteger a pele teríamos o "protetor dérmico", ou mesmo, apenas, simplesmente, "protetor para a pele". Acredito que o sol, mesmo tantas sendo as agressões humanas à natureza, ainda não precisa de nenhuma proteção, não é mesmo?

Gugu Keller

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Aprimoramento

Não tente ser melhor do que você é. Tente ser melhor o que você é.

Gugu Keller

domingo, 6 de janeiro de 2013

sábado, 5 de janeiro de 2013

Depressão

A nossa dor sem igual, num putativo calvário, vem do medo real de um perigo imaginário.

Gugu Keller

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

A Esquina - Capítulo 18

Rodrigo estranhou muito encontrar o carro com a porta destravada. Ainda que uma distração obviamente seja sempre possível, ele se lembrava bem de a ter trancado por fora como era, sempre foi e ainda é, de  seu hábito. Por um instante, creu que a preguiça que teve de retirar o cd player lhe o havia custado. Não se pode bobear aqui em São Paulo, pensou. Basta deixar o carro na rua dez minutos e os ladrões já dão o bote. Mas não. O aparelho ainda estava lá. O carro havia, sim, sido arrombado, mas a finalidade, agora que abriu a porta ele o apurou, havia sido outra... Uma tão surpreendente quanto estranha finalidade...

"Rodrigo, assista este vídeo e você saberá quem é a sua mulher." era o que se lia, em uma letra de forma que certamente ele não conhecia, no envelope pardo deixado sobre o assento do motorista. Dentro dele, uma media de dvd sem nada nela escrito. O que diabos seria aquilo? Nervosismo, medo, conjecturas. Sendo Raquel filha de um homem poderoso, político conhecido e abastado, poderia ter sido seqüestrada? Eles tomaram café da manhã juntos naquele dia mas, quatro da tarde agora, não haviam mais se falado. Seria possível? Rodrigo leva a mão ao celular e faz menção de ligar para esposa. Mas pára. Desiste. O que está escrito no envelope, afinal, não sugere um seqüestro. Rodrigo pensa. Hesita. Chega a olhar em volta para ver se ninguém o observa. Ninguém. Depois pensa em desfazer-se de pronto do envelope com a media dentro. Talvez uma brincadeira, a que nem vale a pena se dar atenção. Conjecturas, hesitação. Finalmente ele decide. Após mais uma olhada à sua volta, liga o carro e toma o rumo de sua casa. Raquel só deve chegar depois das sete da noite.

Quatro e quarenta. A empregada está em casa mas cuida da roupa suja na área de serviço. Rodrigo vai ao pequeno escritório que Raquel e ele têm no apartamento, onde há um computador onde pode assistir ao dvd, e se tranca por dentro. Ainda hesita. Pensa, examina, conjectura. Chega a questionar de si próprio se não está cometendo um erro, na medida em que a media possa conter algo que de algum modo lhe comprometa o aparelho. Ele não faz nenhuma idéia da procedência daquilo afinal. Mas conclui que o novo temor não faz sentido. Melhor ver logo o que há ali para acabar com aquela ansiedade. Rodrigo insere a media no computador e clica no "play". Três segundos, cinco, e eis o seu pesadelo começando...

O vídeo mostra a imagem de um quarto, aparentemente de hotel. Vê-se bem a cama, um espelho na parede atrás dela e o criado-mudo com um telefone e os típicos botões de controle de som e tv. No início, o quarto está vazio, até que, passados os referidos segundos, alguém abre a porta e entra. Trata-se de um homem de certa idade, uns 65 anos talvez. Tem os cabelos brancos algo prejudicados por um pouco de calvície e usa um terno cinza com uma gravata azul. É um senhor, percebe-se, de considerável elegância. Mais uns dois ou três segundos depois que este entrou, então, recebe o intrigado espectador um violento baque em seu peito. A acompanhar o homem, surge pela porta uma mulher, que, antes de qualquer coisa, parece observar bem o ambiente... É Raquel, a esposa de Rodrigo, a tão amada e adorada esposa de Rodrigo.

Gugu Keller

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

De Que Importa?

De que importa, afinal, a nossa realidade? A festa de reveillon foi linda! Praia, fogos, luzes, música! Ano novo, esperança renovada! Tudo recomeça, um grande ano, todos cremos! De que interessam os horrores que nos cercam? As mentiras deslavadas que engolimos, as falácias, as promessas, as desculpas? De que tudo isso importa? De que interessa toda essa ladainha? Que relevância tem a fome, a indigência, a violência? O preconceito, a indiferença, a matança? Chacinas? Que temos nós com isso? Pistolagem? Milícias? O que é que a gente tem a ver? Queremos mais é festejar o ano novo! Sim, claro! De que importa toda essa hipocrisia, todo esse cinismo, essa névoa de podridão que nos envolve? É! A festa foi tão linda! Sorrisos, abraços, lágrimas, emoção! E cerveja! Muita cerveja! Vem com tudo, 2013! Seja bem-vindo! Sim, acreditamos que será um grande ano! E pouco importa toda essa corrupção, toda essa desfaçatez, todos esses tantos privilégios! De que interessam as propinas, as mesadas, negociatas? As fraudes licitatórias, as vendas de sentenças e habeas corpus? De que interessa a impunidade, o trânsito assassino, os fiscais extorsionários? De que importa o nepotismo ou os concursos de fachada? Que relevância têm os poderosos que são condenados a uma gorda aposentadoria compulsória? Que temos nós com os cambistas, os cafetões e os guardadores de carros? De que nos interessa a prostituição infantil, a mendicância nos faróis, o craque ou a cola? Temos mais é que comemorar! Sim! Viva! 2012 se foi! Viva! 2013 chegou! Viva! A falência do sistema prisional? Condenados cumprindo penas em ambientes que em nada ficam devendo às masmorras medievais? De que importa isso? De nada! Tortura? Injustiça? Não importa em nada! Não, não estamos nem aí! Queremos é gritar a alegria da virada! De que interessa, afinal, a clara e contínua elitização dos direitos mais básicos? De que importa o sucateamento das escolas públicas? De nada, é claro! Afinal, agora há vagas garantidas nas universidades, não é mesmo? Para que se preocupar com os que nelas ingressarão semi-analfabetos? Não, não é problema nosso! O que importa é a festa, o confete, a serpentina! Viva Ivete! Viva Cláudia! Viva Teló! E o que nos interessa se depender da saúde pública é no mais das vezes uma sentença de morte? E isso num país com o maior carga tributária do mundo? Hein? Ah, não interessa em nada! Morte na fila? Falta de médico e de remédio? Consulta para daqui a um ano e meio? Dane-se! Hoje é dia de alegria! Primeiro de janeiro, meu povo! Vamos pular! É! Sai do chão! De que importa a burocracia que inviabiliza direitos? De que importam tantas denúncias, inquéritos e processos que não dão em nada? De que interessa tanta desigualdade e tanto esnobismo? O desperdício diante da miséria? A sonegação por parte dos poderosos diante do esfolamento dos oprimidos? De que importa tanta humilhação e tanto engodo? Que temos a ver com o crescimento vertiginoso das igrejas predadoras, ou da agiotagem institucionalizada disfarçada de sistema bancário, ou, ainda, da especulação imobiliária em detrimento da função social da propriedade constitucionalmente prevista? Não temos nada a ver, meu povo! É tudo bobagem! Não interessa, não importa, não releva! Hoje é alegria! É festa, confraternização, champagne e muito branco! Para que nos preocuparmos com tanta coisa com que nada temos a ver? Vivemos num país que se diz uma democracia onde o estado é o primeiro a desrespeitar sistematicamente a lei? E daí? De que isso nos interessa? Queremos mais é comemorar! Muito, muito, muito! Pula! Sai do chão! 2013 chegou! Carnaval já vem aí! Copa no próximo ano! É hexa, Brasil! Alegria, minha a gente! E viva o ano novo! O resto, de que importa?   

Gugu Keller