sexta-feira, 29 de março de 2013

A Esquina - Capítulo 30

Com o passar do tempo, já mais de três anos, Natália meio que se condicionou a fingir que não ouve o quase diário choro de Fernando, sobretudo à noite, na cama, quando ao lado dele se deita para dormir. Não que ela não se importe com a sua dor. Ao contrário, tamanhos são a culpa e o sofrimento que lhe corróem por ter sido ela quem dirigia o carro naquela noite fatídica, que cada lágrima que corre dos olhos dele cai como uma gota de ácido sobre a cansada musculatura do seu tão auto-condenado coração. O que ocorre é que ela simplesmente já não sabe o que fazer ou dizer. O que talvez tirasse um pouco do peso do mundo de cima de si, ela não lhe diria. Não, jamais mencionaria que houve no acidente um quê de adultério. Já disse inúmeras vezes que a culpa foi dela, que a culpa é dela, que culpa sempre será dela, e Fernando, também inúmeras vezes, até já a perdoou. Mas, não, ela nunca disse, não, não o diria, e nem dirá, e por isso ei-la mais e mais culpada, que bebeu tanto naquela festa em função do que sente por Rodrigo, e muito menos que quase então a ele se entregou, a ponto de, por alguns segundos, ter-lhe chupado o pênis. E nos pesadelos que, por seu turno em contrapartida ao choro dele, quase diariamente tem, ela o chupa, a Rodrigo, até que ele goza na sua boca, e aquele esperma, que ela engole com o supremo prazer da extrema submissão, tem para ela, de um estranho onírico modo que jamais a ninguém saberia explicar, sequer à outra vítima, a falecida, o triste e indescritível gosto da tetraplegia do marido, qual se palatável de algum modo tal coisa fosse. Contudo, como se esta noite ele não aceitasse o ela fingir que não o ouve, Fernando, que desse fingimento, ela até já o atinou, decerto sempe soube, e nunca disse nada porque, igualmente, bem sabe que, a rigor, não há de parte a parte o que ser feito, ou dito, decide desta feita chamá-la entre lágrimas com insistência...

- Natália... Natália... Você está acordada, Natália?

Com os olhos abertos para o lado inverso a encarar as escuridões, a do quarto, relativa, e a da sua vida no último triênio, absoluta, e lidando com a recente culpa de crer que toda a sua culpa não é ainda culpa o bastante diante do que aconteceu, Natália se mantêm quieta por alguns instantes, numa evasiva expectativa de que ele desista do que quer que seja, até porque, sem se dar conta do quanto isso é triste, ela inconscientemente já se condicionou de que a cutucar ele afinal não tem como. Mas, a prantear hoje bem mais do que o de costume, ele insiste...

- Natália... Acorda, Natália, por favor!

Desejando ainda, como tanto tem desejado, apenas ter freado antes daquela esquina, Natália se vira e, fingindo uma vez mais, como tanto tem fingido, que a vida não se tornou para ela uma constante concessão, ela enfim responde com o já peculiar desespero travestido de doçura em sua voz, que decerto só um surdo não percebe...

- O que foi, meu amor? Não está conseguindo dormir?

- Eu não agüento mais, Natália! Eu não agüento mais!

Ele chora com profusão. Como sempre, sem saber o que dizer, ela diz a única coisa que lhe parece possível, dizível naquele momento...

- Quer tomar um pouco mais do seu calmante? Talvez seja melhor falar com o médico e aumentar um pouco a dose...

A mover a cabeça de um lado para o outro, a cabeça é tudo o que pode mover, ele se mostra arredio...

- Não! Eu não quero mais calmante! Eu não quero mais nada, Natália! Eu não agüento mais ser uma estátua! Eu não agüento mais ser um vegetal, um repolho, uma planta! Não agüento mais ser um objeto, um estorvo para o mundo!

- Não fale assim, meu amor! A medicina tem avançado tão depressa... Quem sabe logo logo haja um jeito de você recuperar os movimentos...

- Não me chame de "meu amor"! Eu sei que você me odeia! Todo mundo odeia quem está como eu estou! Eu só existo para atrapalhar! Atrapalhar e causar piedade! Esta é que é a verdade!

- Que besteira, Fernando! Eu amo você! Foi você quem eu escolhi para ficar junto para sempre, não se lembra?

- Mas quando você me escolheu eu era gente! Eu vivia, andava, trabalhava, jogava futebol! Eu podia comer sozinho, beber água sozinho, tomar banho sozinho! Cagar, mijar, limpar a minha bunda, tudo sozinho! E eu te fodia, lembra? Lembra que eu te fodia gostoso? Lembra? Agora isso acabou! Agora eu sou um objeto! Um traste! Um pedaço de ferro velho! Vocês têm que trocar as minhas fraldas, limpar o meu cu e vestir as minhas cuecas! E eu não agüento mais isso, você entende? Eu não agüento mais!!!

Natália, que não o fazia havia quase uma semana, praticamente um recorde para ela nesses últimos três anos, também já chora.

- Não fala assim, meu querido! Pelo amor de deus!

Ele fecha os olhos. As lágrimas brotam quentes e salgadas a os fazer arder. Do nariz, corre-lhe um catarro líqüido. Se pudesse, ele se coçaria ali.

- Você me ama? Jura que ainda me ama?

Ela mente sem crer na mentira sequer ela própria...

- É claro que te amo! Te amo e vou te amar para sempre!

- Então faz uma coisa por mim...! Pelo amor de deus...!

- O que?

- É a última coisa que eu vou te pedir...

- Eu sou a tua mulher! Você pode sempre me pedir o que quiser...

- Se você fizer isso por mim, Natália, aí, sim, eu vou acreditar que você ainda me ama...

- Fala! Fala, meu amor, que eu faço...!

Pausa. O pouco de luz que entra pelos fiapos da janela proprociona uma penumbra em que, com os olhos acostumados, ambos se vêem com razoável nitidez. Ele ainda não sabe se pede o que pretende pedir. Sim, o quer. Muito tem pensado a respeito, dias, meses, três anos, e definitvamente o quer. Mas não, não crê que ela o faça. Tem que ser ela, só ela o pode, mas definitivamente não crê. Dez infindáveis segundos de à penumbra olhos nos olhos e, sempre e ainda chorando, ele lhe diz...

- Você sabe o que é o pior, minha querida, de se ficar aleijado como eu fiquei?

Ela também ainda chora. Faz que não com a cabeça. Pausadamente agora, ele segue...

- Não é nada do que eu te falei... Não é o precisar de alguém para tudo... Não ter autonomia nem para comer, ou beber, ou andar, ou ir ao banheiro, ou ligar a televisão, nada disso... O pior de tudo, minha querida, é que eu não posso nem me suicidar...!

Agora ajoelhada na cama de frente para ele, ela chora mais. E treme. E, quando abre a boca para falar, sente uma saliva espessa grudada qual um fio em ambos os seus lábios...

- Não fala isso, Fernando, pelo amor de deus... Você não sabe a culpa que eu sinto aqui dentro por te ver assim... Quem dera fosse eu que tivesse ficado na sua situação... Era o que eu merecia... A culpada de tudo isso fui eu... A culpada sou eu...!

Ela chora. Ele acrescenta...

- Para que tudo estivesse bem, minha querida, você não precisava estar na minha situação... Bastava que eu tivesse morrido naquela noite, em vez de ter ficado assim, tetraplégico, aleijado, inutilizado, incapacitado... Aí, sim, tudo estaria bem...! Mais sorte do que eu teve aquela psicóloga...! Ah, como eu a invejo...! A cada segundo eu me consumo de inveja dela...! Eu e ela somos a mesma coisa, sabe? Somos objetos, detritos, entulho! Somos ambos cadáveres! A única diferença é que ela morreu! Ela teve mais sorte! Já não sente nada! E eu aqui estou... Cadáver, mas ainda com vida!

- Não fala isso, Fernando! Não fala! Pelo amor de deus!

Trêmula de desespero e culpa, ela acende o abajur sobre o criado-mudo.

- Abre o meu armário! - diz Fernando.

Natália vai. Faz. Ele a guia...

- Abre a última gaveta da esquerda! A de baixo! Isso! Agora procura no fundo dela uma caixa verde!

Pausa. Pegou.

- Esta?

- É! Essa! Abre!

Natália sente um tranco na boca do estômago. Suas pernas bambeiam e ela quase não se sustenta. Reluzentemente niquelado, é um revólver o que há ali.

Gugu Keller

quinta-feira, 28 de março de 2013

quarta-feira, 27 de março de 2013

segunda-feira, 25 de março de 2013

Agradecimento

Com muita alegria, tenho recebido nos últimos dias várias visitas aqui no blog de pessoas que participam da CVC (Campanha Visite e Comente). Agradeço imensamente a todos. É uma honra para mim. Sejam sempre muito bem-vindos! Oportunamente retribuirei a todas as visitas.
Abraços!

Gugu Keller

sexta-feira, 22 de março de 2013

A Esquina - Capítulo 29

Eram quinze para as oito da noite quando Raquel abriu a porta da frente e entrou no apartamento. Deu com um Rodrigo que de cara estranhou muito. Sentado no sofá, ele vestia uma calça de moleton cinza e uma velha camiseta do time de futebol para que torce. Diante dele, uma garrafa de uísque pela metade, mas sem nenhum copo por perto, ao menos que ela pudesse ver. O mais intrigante, contudo, era o olhar. Vermelhos e grudentos, seus olhos tinham um quê de distância, de ausência, de embaçamento, meio que parecendo de vidro, plástico ou porcelana. Celulose talvez. Estranhando muito a cena, também porque ele nada fazia, não lia, não ouvia música, nem assistia televisão ou falava ao telefone, ela o cumprimentou com interrogação...

- Querido? Está tudo bem...?

Raquel se aproximou do marido, que para ela olhou com aqueles olhos de nada, ou, se de algo, nada de que se saiba o nome, e com um rosto suado, abatido e sem cor. Por três longos e para ela já ansiosos segundos, ele a encarou sem dizer qualquer coisa. Limitou-se a, a seguir, esticar a mão até a garrafa de uísque e a trazer aos seus lábios, dela bebendo no gargalo. Raquel sente forte o cheiro da bebida, menos vindo da garrafa do que dos poros de Rodrigo. Num segundo gole, ele deixa boa parte do líqüido entornado escorrer-lhe até o queixo. Babando, olha-a de novo bem dentro dos olhos e a vê assustada.

- Rodrigo...! O quê que está acontecendo? Por que você está bebendo assim, desse jeito, sem copo?

Ele ergue a outra mão, a que não tem a garrafa, com que segura o controle do aparelho de dvd, deixando claro para ela que o vai acionar. Faz e a gravação começa a se desenrolar. Aparece na tela da tv o quarto de hotel. Alguns instantes e entra o senhor de cabelos brancos, terno cinza e gravata azul.

Entendendo a situação ao cabo de poucos segundos, até porque agora já pode ver a si própria entrando em cena, Raquel sente um golpe no peito qual a da bola de ferro de uma máquina demolidora contra a parede condenada. Tanto que dá de susto um passo para trás e tropeça em si mesma com os calcanhares, caindo com a cabeça sobre o revisteiro de madeira logo ali. Chega a abrir um corte, que sangra, mas nem o sente. Como se fizesse algum sentido, levanta-se depressa para o que quer que seja. Babando já também mas não uísque, lágrimas, volta a encarar o marido, que toma da garrafa outro gole. Qual se de pé no convés de um barco durante uma súbita procela em alto mar, ela meio que cambaleia. Tonta, zonza, ondas, abismo, precipício. Decide então dizer palavras que não saem, de que, já em seguida, por isso mesmo, desiste. Resta-lhe, lágrimas no queixo e sangue nos cabelos, ir de novo na direção destes, para trás, marcha à ré, talvez esperando novos tropeço e queda, ou, quem dera, que o tempo voltasse e nada daquilo fosse nada daquilo. Mas não. Chega à cadeira onde deixou a bolsa assim que entrou e a apanha. Prende no ombro a sua alça e continua, instintivamente, regredindo rumo à porta. É quando, com uma voz reveladora de que decerto não foi pouco o que bebeu, diz Rodrigo...

- Assiste mais um pouco, meu amor! Ó... Ele já está tirando a roupa... Já vai aparecer você chupando o pau dele...!

Novamente ela falaria mas nada sai. Recua, acua-se na crua nudez de seu desmascaro. Como explicar o inexplicável? Sim, há uma explicação. Mas não, não o explicaria. Mais um passo. Para trás. Para trás. Para trás. Kamikaze que outrem traz na cabine do avião, Rodrigo, já de mãos dadas com o consolo manjedôurico da bebedeira, destila um pouco mais daquela por isso doce ironia...

- Vem, meu amor! Assiste! Depois que você chupa, ele te chupa... Daí, tem você dando de frente, dando de quatro, de conchinha... E aí, no fim, ele goza na tua cara...! Vem ver, vem!

As pernas bambeiam e Raquel se deixa cair de joelhos. Seu choro agora é ruidoso. Ainda que o corte na cabeça seja considerável, a escorrer pouco é o sangue e muita é a lágrima. E quem dera na mão dela estivesse a garrafa. Ela beberia o que resta do uísque e a quebraria de modo que da parte mais alta se fizesse uma arma, que fincaria forte em seu peito, bem sobre o coração, e, aí sim, em prantos sangraria até o fim tudo o que, pensa, merece. Mas é Rodrigo quem dá outro gole, depois do qual, babando bêbado, diz...

- Eu só não vi se você deu o cu para ele... Deu?

Raquel chora de joelhos. Eis, para sempre, o fim de um grande amor. Para sempre eis o fim do seu amor. Para sempre, nunca mais. Nunca mais o de até ontem para sempre. E Rodrigo bebe. E baba. E bebe. E baba. Até que, ao som do choro dela, no momento em que na imagem ela senta sobre o pênis, ele se levanta do sofá, e tonto, mareado sobre o mesmo trêmulo convés ao vento, atira com extrema violência a garrafa contra a televisão, ao mesmo tempo em que, com o máximo de uma voz amarga e embargada, põe para fora a maior dor de toda sua vida...

- Aaaaaaahhhhhhh!!!!!!!

A duras penas Raquel se levanta e, sempre de ré, avança em retrocesso rumo à porta. Trôpega, alcança-a enfim. E já não ousa olhar para Rodrigo. Gira a maçaneta e, chorando de cabeça baixa, deixa o apartamento, aonde jamais voltaria. Uma semana depois, Priscilla, sua melhor amiga, viria buscar alguns de seus pertences.

É Rodrigo quem agora cai sobre os joelhos. E, diante dos cacos da tv e da garrafa espatifadas, um dos quais fez-lhe um corte numa das mãos, sobre o chão da sala é ele quem agora chora. E, pelo corte, quem agora sangra.

Gugu Keller

quinta-feira, 21 de março de 2013

quarta-feira, 20 de março de 2013

terça-feira, 19 de março de 2013

segunda-feira, 18 de março de 2013

Wolf

Por teu corpo lua cheia, meu desejo lobisomem
E, liqüefeita, ventre em veia, a bala prata quente escorre

Gugu Keller

domingo, 17 de março de 2013

sábado, 16 de março de 2013

sexta-feira, 15 de março de 2013

A Esquina - Capítulo 28

Com as pernas trêmulas e o coração disparado pelo pânico conseqüente da, tanto quanto desmoralizante, já óbvia queda da sua máscara, Gladston ainda tenta, como que num último suspiro do hipócrita enfim nu de qualquer farsa, refugiar-se em sua viciosa canastrice, de, agora ele o se sabe, péssimo ator...

- Que papo de louco é esse, Ana Cláudia?!? Pelo amor de deus!!! Andréa que não é mulher?!? O que isso quer dizer, afinal?!? Eu não estou entendendo nada...!

Ressecada de tanto verter lágrimas, Ana permite-se um meio sorriso de ironia. Custa-lhe crer que ele ainda se insiste como desentendido. No mar de ódio em que ela navega, uma pequena alga de piedade chega a lhe grudar no casco do barco, tamanho é já o desprezo que sente por aquela criatura diante de si, até outro dia tão íntima e querida, e agora tão definitivamente estranha e desprezível.

- Ah... Você não está entendendo nada...?

Com a boca seca e em fel, ele tenta ainda se manter de pé. Sim, ela sabe, óbvio já está. Mas coube soube? Talvez não tenha provas...

- Mas é claro que não! Você andou bebendo, Ana Cláudia?

O sorriso irônico, mesmo atravessado num rosto revelador da maior dor de uma vida, agora é inteiro. Entre o mundo de raiva e o asteróide de pena que por ele há nela, passa um pequeno e incandescente meteoro de estupefação por tamanha desfaçatez. Ela então, tentando equacionar as palavras à ironia daquele seu sorriso tiro, diz-lhe, já meio a se permitir os próximos momentos de uma tortura vingativa e consagradora...

- Ahhh... Você acha que eu bebi? Que estou louca? Tendo alucinações? É isso, Gladston?

- Você quer que eu pense o quê? Além de eu te encontrar nesse estado, você não fala coisa com coisa...! Que papo é esse de Andréa, que não é mulher??? Que merda é essa???

Ela deixa passar um, dois segundos, e lhe diz...

- Faz uma coisa, Gladston: senta aí!

- Sentar?

- É! Por favor!

- Eu tô nervoso! Não quero sentar! Eu quero é entender qual é a tua, afinal!

- Senta, por favor! Eu vou te mostrar uma coisa...

- O quê?

- Senta, que eu te mostro! É uma coisa para você ver que eu não bebi e que eu estou, sim, falando coisa com coisa...!

Gladston se senta numa poltrona a um metro e meio dela, que está no sofá. Eles trocam um olhar como o entre o caçador que caiu na sua própria armadilha e a caça que o viu e agora o tem à mercê. Quando Ana Cláudia leva a mão direita ao controle do aparelho de dvd, ele sente um frio lhe correr pela espinha. Não, não pode ser. Mas é.

As cenas gravadas por Sidney começam a fluir na tela. Gladston em seu carro a esperar Andréa, a chegada desta, o beijo na boca, o segundo beijo na boca, este mais longo, quando na parada no semáforo, e a entrada no hotel. Depois, a saída do hotel até o momento em que ele a deixa perto de onde ela se prostitui. Ana Cláudia pára o dvd. Numa cena indescritível, ambos choram copiosamente sem se olharem. Após alguns segundos, entre soluços, ela balbucia...

- Eu te amava, seu filho de uma puta!

- Me perdoa, por favor...! Me perdoa...!

Pausa. Lágrimas. Desespero.

- Te perdoar...? Perdoar o meu marido porque ele gosta de dar o cu...? E mesmo assim se casou comigo...!

- Que negócio é esse, Ana Cláudia...? O quê que você está falando, deus do céu...?

Com os dentes incisivos a brilhar em função das lágrimas que os molham, Ana Cláudia sorri o sorriso vitorioso do derrotado que para o precipício leva junto o vencedor. Encara-o e lhe diz devagar...

- A tua hipocrisia, Gladston, é a coisa mais assustadora que eu já vi...!

Mas ele não desiste...

- Tudo bem, Ana Cláudia! Tudo bem! Você me pegou! Não sei como você conseguiu essas imagens, mas você me pegou... É... Eu te trai, sim...! De fato, eu me envolvi com essa mulher...

- Seu cínico, filho de uma puta! Doente! Você ainda vai tentar mentir, seu monstro???

- Não! Tudo bem! Tá tudo aí mesmo...! As imagens mostram! O quê que eu posso dizer? Eu saí com ela, sim! Infelizmente, Ana Cláudia, eu te traí com outra mulher...

Como se de algum modo experimentasse os sentidos para checar se ainda está na realidade, ela fecha os olhos por cerca de três segundos. Reabre-os e tenta respirar fundo.

- Gladston, seu desgraçado... Você está me traindo, seu filho de uma puta, com um travesti!!!

- Que travesti, o quê?!? Você tá louca, Ana Cláudia!!! É uma mulher, porra!!!

Ana Cláudia reaciona o dvd e vem a parte final, em que Sidney aborda Andréa...

- Oi!

- Oi!

- Como é o seu nome?

- Andréa!

- Quanto está o programa, Andréa?

- Cinqüenta!

- Você faz ativo, Andréa?

- Claro! Sem problema! É a minha especialidade!

Acabou. Não há mais mentira que se sustente por sequer uma fração de segundo. Tremendo e chorando num desespero para si inédito, Gladston se levanta e encosta a testa numa das paredes, dando as costas para a esposa. Caudalosos rios que não se cruzam, Lena ela, Nilo ele, choram ambos. Ódio, desgosto, desilusão. Vergonha, desmoralização, fim. Holocausto mútuo, apocalipse a dois. Um minuto se passa e é ela quem, com uma voz cansada, embargada de tanta tristeza, rompe, numa fala lenta e pesada, aquele silêncio típico de um sombrio cemitério de vivos...

- Eu... Eu podia te perguntar se ao menos você usou camisinha quando deu para ela... Mas pra quê...? É claro que você vai dizer que sim... E também vai dizer que não deu... Que só comeu... Mas é claro que eu não vou acreditar... E pensar que um dia eu acreditei... Acreditei que você me amasse... Acreditei que nós éramos uma família... Que você, mesmo que tivesse seus defeitos, era um homem decente...

Gladston chora copiosamente. Ela continua...

- Faz o seguinte, Gladston... Eu te dou quinze minutos para você pegar o que quiser das tuas coisas... Depois, você sai por aquela porta... E não volta nunca mais...!

Ele chora, e chora, e chora. Ela conclui...

- Só mais uma coisa, Gladston... Acho que agora você entendeu, não? Eu não bebi! E estou, sim, falando coisa com coisa! Andréa, a tua amante, como se vê muito bem nesse vídeo, não é mulher! Ela tem um pinto no meio das pernas! Coisa que você, Gladston, pelo jeito, adora...!

Gugu Keller

quarta-feira, 13 de março de 2013

terça-feira, 12 de março de 2013

domingo, 10 de março de 2013

Irresponsáveis

Em nossa cômoda conivência, nossa crônica tragicômica inconseqüência.

Gugu Keller

sexta-feira, 8 de março de 2013

A Esquina - Capítulo 27

Naquela fria e cinzenta terça-feira, Natália e Fernando passaram o dia a pensar que o acidente completava um ano. Sim, era 20 de julho novamente. Nenhum dos dois, contudo, teve coragem de o comentar com o outro. No caso dele, várias vezes durante o dia, mais um dos seus, como ele próprio auto-ironicamente dizia, "dias de estátua", veio-lhe o impulso de o mencionar ao menos para a enfermeira. Quase o fez durante a sua diária volta no quarteirão, quando pôde sentir aquele que agora é indubitavelmente o seu maior prazer, o vento no rosto, fiapo de exceção em sua hoje pela primeira vez aniversariante vida de não vida. Mas, quando ia pronunciar o primeiro fonema da frase, sentiu a voz refugar contida por um já claro prenúncio de choro. Não, não valia mesmo a pena falar sobre aquilo. Um ano. Um ano desde o fim. Para Fernando, convictamente em seu íntimo, o pior dos fins... O fim em que o finado continua, testemunha doravante permanente do que lhe é findo.

Natália tentou trabalhar mas não conseguiu. Desde a manhã até a tarde, andou a esmo, pensou a esmo, sentiu a esmo. Um ano. Pensou em passar pela esquina, o que nunca mais fez desde aquela madrugada. Não. A disfarçar de si mesma um medo estranho, argumentou sozinha não haver sentido. Pensou depois na terapeuta e em ir ao cemitério, onde também não mais esteve. Mas uma assassina, como se considerou, como considera-se desde o julho anterior, visitar a sua vítima? Não. É que queria, admite-se, sonha, ao menos mais uma sessão. Ao menos, admite-se, sonha, para poder pedir perdão. Foram apenas três! Mas como foram ricas! Mudaram-lhe a vida! Mas três sessões de terapia numa vida? Pouco, muito pouco! Sobretudo para alguém tão culpada. Culpa, culpa, culpa. Bêbada, mesmo que por sequer um minuto, ela de certo modo ainda chupa o pênis de Rodrigo, o último que, culpada e a se querer auto-vingada o prometeu, para sempre, pelo resto de seus dias, terá chupado. Chupa. Culpa. Dirige a esmo. Um ano. Assassina e mutiladora, odeia-se.

São cinco e meia da tarde quando, por pura falta de qualquer outra opção, Natália entra em casa. Tendo saído às nove da manhã e não tendo almoçado, não seria capaz de dizer o que fez durante todo o tempo. A rigor, tirante a data que a cada segundo soca-lhe a cara, foi mais um dia em que, como todos os dias neste último ano, ela viveu a esmo. Ou não. Não viveu. Apenas testemunhou distante a sua vida que, já sem ela, concessivamente segue. Melhor seria, pensa agora, ter afinal ido ao cemitério. Mas não em visita. Para ficar. Sim, e quem dera ao lado de sua vítima fatal. Não. Isso significaria, pensa em seguida, já o pensou inúmeras vezes, deixar sem amparo sua outra vítima, a não fatal, a que costuma chamar na intimidade silente de seu pensamento sua "vítima fetal". Ou quando lhe troca as fraldas, "fecal". Sim. Assassina e mutiladora. Vítima fatal e "vítima fetal". "Vítima fecal". Pênis, álcool, esquina, hospital. Cemitério. Morgue, hospício, estátua, vegetal. Entrando em casa, Natália cruza com a enfermeira, que está de saída...

- Boa tarde, dona Natália! Eu estou indo...

- Obrigada, Rosa! Como ele está?

- Está ouvindo música no escritório!

Natália passa pela porta do cômodo referido e observa o marido. Ele ouve a canção "Bad", do U2. Alguns segundos e ela observa que ele chora. Qual um vômito repentino, também para ela lágrimas vêm num impulso estranho. Sem que ele tenha percebido a sua presença ali, ela corre para o banheiro. Tranca a porta por dentro e, desprovida de qualquer porquê minimamente racional, põe-se a se despir, até que, nua, ainda chorando, fica a se encarar no espelho. Um ano. 20 de julho de 2003, 20 de julho de 2004. E agora o seu casamento é cuidar de um tetraplégico. Dar-lhe banho, vestir-lhe, pentear-lhe, barbear-lhe, escovar-lhe os dentes, trocar-lhe as fraldas, dar-lhe de comer, de beber, empurrar-lhe na cadeira de rodas, voltas diárias no quarteirão, e depender da ajuda financeira dos pais e dos sogros, e comprar vários remédios, e ajudá-lo a ler, a olhar pela janela, a mudar o canal da tv, e nunca, nunca, nunca, nunca mais ter qualquer perspectiva de sexo. E a culpa, ela bem o sabe, é toda dela! Sexo, sua assassina, nunca mais! Felicidade, sua mutiladora? Esquece! Acabou! E é bem feito, sua vadia! Sua puta! Sua adúltera sem vergonha! Além de chupar aquele pau maldito, ainda foi encher a cara...! Sua vaca! Cretina! Irresponsável! Taí! Colha o que plantou, dona Natália Sanches Santos!

Nua e de olhos fechados diante do espelho, Natália chora, assim ela o sente, todas as lágrimas do mundo. Pênis, álcool, cemitério, cadeira de rodas. Fernando, Dudu, Ana Clara, ninguém. Quando, entretanto, a profusão do pranto quente atinge-lhe e estranhamente meio que acaricia-lhe os peitos, ela, como se por um momento perdesse o controle sobre si, leva a mão direita à vagina, onde, com quase fúria, introduz o dedo médio. Um, dois, três segundos e agora ela se odeia ainda mais por ter sentido um intruso prazer naquilo, e em seguida ainda mais, tanto quanto alguém pode odiar a si mesmo, cemitério, para ficar, por, ao reabrir os olhos, ter visto, numa ínfima fração de segundo, antes de a si mesma, Rodrigo no espelho. Odeia-se. E o choro profuso agora é ruidoso. E ela corre para o vaso. Senta-se e começa a fazer força para urinar. Chora e faz força. Chora e faz força. Chora e faz força. Dez minutos e lágrimas e urina correm quentes e simultâneas.

Gugu Keller

quinta-feira, 7 de março de 2013

quarta-feira, 6 de março de 2013

terça-feira, 5 de março de 2013

domingo, 3 de março de 2013

Lar, Doce Lar

O coração é a única casa onde quem mais traz bagunça é sempre bem-vindo.

Gugu Keller

sábado, 2 de março de 2013

Metade

Queridos amigos...

Como já mencionei algumas vezes, meu projeto de escrever um romance aqui no blog (A Esquina), de modo que todos o possam acompanhar durante o seu desenvolvimento e fazer sugestões e críticas, prevê que sejam 52 capítulos, o que quer dizer que ontem, tendo postado o 26º, com muita alegria cheguei à metade. Então, neste momento, que é importante para mim, agradeço uma vez mais a todos os que têm acompanhado e me incentivado na realização desta minha (nossa) pequena obra! Obrigadíssimo!
 
Bjs a todos!
 
Gugu Keller

sexta-feira, 1 de março de 2013

A Esquina - Capítulo 26

Domingo, 20 de julho de 2003.

Rodrigo chupa a boceta de Flávia. Ao mesmo tempo em que, pela primeira vez, depois de tantas nos últimos tempos ter chupado e penetrado, experimenta a sensação de chupar uma que na seqüência não penetrará, ele sequer imagina que será a última que, por força do que lhe dirá o dr. João Silas ao cabo de agora menos de três horas, terá chupado por quase exatos cinco anos. Aliás, mais de cinco anos. Cinco anos e dois dias, em exatidão, Rodrigo ficará sem penetrar uma vagina, já que a última, a da estagiária Taynara, ele o fez, após um rápido "happy hour", na noite de quinta-feira, antevéspera da festa do Dudu. Quanto a receber sexo oral, aí sim, considerando o quase minuto em que na mansão Natália o chupou, serão, de tão devastadora para ele a notícia que receberá do ex-sogro, exatos cinco anos de abstinência.

Sábado, 18 de julho de 2008.

- Ai, que língua é essa?!? Como você chupa gostoso, seu puto!

Rodrigo chupa a boceta de Natália. E treme, e geme, e se contorce, cinco anos. Mas ainda pensa em Raquel, e, triste, chupando, imagina que, se não estivesse tão enlouquecido de desejo, talvez derramasse lágrimas sobre aquela nova boceta em sua vida. Contudo, ao mesmo tempo, por pensar também em Flávia, dona da última que chupou, quando, tendo se masturbado pouco antes naquela manhã, a do maldito domingo, pela primeira vez chupou sem na seqüência penetrar, ele sente, por saber que desta vez, com Natália, penetrará, vir-lhe um estado de excitação como jamais antes. Pétreo, paralelepípedeo, rochedoso, é como se seu pênis tivesse uma ereção dentro de uma ereção. Intrusa na cena, aparece agora a estagiária Taynara em sua mente, a última, ele bem se lembra, a quem fodeu. Mas hoje, daqui a pouco, ao cabo de poucos minutos, ele foderá Natália, a última que, exatos cinco anos atrás, na mansão do Dudu, havia-lhe chupado por quase um minuto, e que hoje, ainda há pouco, minutos atrás, depois de cinco anos chupou-lhe novamente, desta feita de verdade, voraz, vibrante, sedenta, faminta, mendiga por sexo. E que fim, chupando ele ainda pensa, terá levado a estagiária, que talvez já nem se chame Taynara, mas Tayane? Como todas, apaixonou-se por ele naquela quinta-feira. Não. Apaixonada já estava, tanto que, logo no primeiro "happy hour", já foi com ele para a cama, depois do que, por ele, literalmente enlouqueceu. Mas veio o que ele ouviu do dr. João Silas naquele maldito domingo, e a depressão, e a abstinência, e, também em depressão, ela saiu da empresa de computação, e nunca mais ele dela nada ouviu.

Domingo, 20 de julho de 2003.

Rodrigo chupa a boceta de Flávia. Primeiro, bem de leve, passeia com a ponta da língua pela virilha esquerda, onde deixa propositadamente um tênue rastro de saliva. Depois, fazendo seus lábios roçarem devagar os pêlos ruivos, muda de lado e repete a operação. A seguir, ainda apenas com o menos possível da ponta da língua, ele toca também o menos possível do cume clitoriano. Flávia estremece e sente um choque cruzar-lhe a espinha. Mais de 80% da pele do seu corpo arrepiada eis. Ele então começa a mover a língua lentamente. Lambe os grandes lábios e toda a mucosa voltada para o externo. Aos poucos e simultaneamente, Rodrigo deixa sua boca abrir-se sobre a vulva, e vai acelerando a língua, e lambe, lambe, e logo já suga, chupa, e se deixa salivar, e vai invadindo o vão, e ela se arreganha ainda mais, e ele invade, e ela aceita, e ele entra, e ela recebe, e ele explora, e ela geme, e já alguns centímetros eis a língua adentro, e ela treme, e ofega, e revira os olhos, e os fecha, e os reabre, e olha para o teto, e afunda, e flutua.

Sábado, 19 de julho de 2008.

Com ferocidade Rodrigo chupa Natália, que, ensandecida de desejo, cinco anos, culpa, cadeira de rodas, grunhe e se contorce. Três minutos, cinco, sete, e ela leva as mâos à cabeça dele e, agarrando-o pelos cabelos, exclama...

- Ai, que língua é essa?!? Como você chupa gostoso, seu puto!

Ele levanta a cabeça que ela segura e, com saliva e secreção vaginal a correr pelo queixo, pergunta...

- É? Você gosta?

Ela lhe atravessa os olhos com um olhar de faca e diz...

- Nunca ninguém me chupou assim...!

E ele chupa, e suga, e mordisca, e lambe, e saliva, e baba, e mastiga, e sibila, e destila sílabas, e degusta, e ela se entrega, e se integra, e se esfrega, até que, sentindo que ela vai gozar, ele pára e levanta o tronco. Mutuamente, por um instante, eles se chupam com os olhos, 69 ocular, e, perdendo-os, os olhos, os seus, a seguir para o pênis dele já de chumbo, ela diz, ainda em mendicância...

- Vem! Me fode!

Domingo, 20 de julho de 2003.

Rodrigo chupa a boceta de Flávia, e tamanho é o prazer que ele sente, comparável apenas ao prazer de observar o prazer que ela sente, que, mesmo diante da ansiedade frente ao nada aprazível compromisso de dali a pouco, e, principalmente, mesmo depois da masturbação anti-aquela-ansiedade de então há pouco, ele tem seu pênis em novo estado de ereção. É uma espécie de pró-ego ereção pós-ereção, ou, chulamente, pela cabeça dele isso passa, repaudurecência pós-punheta. Mas Rodrigo não cogita penetrar Flávia nesta manhã. Sem imaginar o hiato depressivo que a notícia de logo mais lhe custará, agrada-lhe já a idéia de hoje apenas chupar. E ele a chupa, e a lambe, e a digere, e a excita, e a incita, e a agita, bomba, pomba, nitroglicerina, líqüido, loucura, explosão...

Flávia goza na boca de Rodrigo. Goza um gozo grato, um gozo grito, um gozo farto. Se já estava apaixonada, ei-la agora enlouquecida diante dele, que sorri e baba gozo de pau duro. Também ela então sorri mas ele diz que agora não. O compromisso. À noite, talvez. Não. Ela estará com os pais na avó. Amanhã então. Tampouco. Ele ouvirá o que lhe dirá o ex-sogro, maldito domingo, e já não mais comerá Flávia, ou a chupará. E dificilmente voltará a ser por ela encontrado. Ao menos pelos próximos cinco anos.

Gugu Keller