terça-feira, 30 de abril de 2013

domingo, 28 de abril de 2013

sexta-feira, 26 de abril de 2013

A Esquina - Capítulo 34

1998

Rodrigo cai sobre os seus joelhos. Diante dos cacos da tv e da garrafa espatifadas, um dos quais lhe fez um corte numa das mãos, no chão da sala sangra e chora. Raquel se foi. A vida se foi. O sentido se foi. A porta do apartamento se fechou por fora e ele mesmo, Rodrigo, de algum modo, de muitos modos, também se foi. Foi-se, vai-se em sangue. Foi-se, vai-se em lágrimas. Trama, transa, tensão, traição. Vai-se, foi-se, foice, fim.

2003

Rodrigo dirige seu carro. Cinco minutos e pára. Não há sentido em continuar. Não vai mesmo, percebe, a lugar nenhum. Estaciona, desce e põe-se a andar pela calçada. Mais cinco minutos e de novo pára. Continua, dá-se conta, agora a pé, indo sem ir. Olha então para o meio-fio e nele se senta. Na tarde fria, parado ali, chora. Quando o mundo virou do avesso, ele entre cacos e cortes se revestiu. Agora o mundo voltou à posição inicial, e ei-lo, mais do que nunca, todo ao contrário, perdido, contorcido, invertido, apenas a, decerto para sempre, sentado naquele meio-fio, chorar, ou, pelos olhos um sangue incolor, sangrar.

1998

Ainda chorando sentado na sala, com os olhos por ainda chorar embaçados, Rodrigo olha perdido para a mão que sangra. Por alguns longos e estranhos segundos, indescritíveis segundos, fica a observar o sangue escorrer pela pele da palma. Há naquilo um quê de lágrima, um quê de lava e um quê de lama. Lavar. Sim, é preciso ir ao banheiro lavar aquela mão. Mas, antes de se levantar, naquela mão, Rodrigo atina... A aliança! Sim, naquela aliança, Raquel ainda está ali. Não, não se foi, ei-la. E, também, naquele exato momento, de um modo estranho e indescritível, ei-lo, Rodrigo, sanguinolento, sanguinário quase, a si de volta. É. Reagir, reação, resposta. Rodrigo decide. Levanta-se e vai até o banheiro. Ainda sangra. E vulcaneia lágrimas. Mas já não chora.

Rodrigo lava a mão cortada com água e sabonete. Facilitada a operação pela espuma, tira lentamente do anular a até ontem mais preciosa jóia do mundo, hoje algema. Pára, pensa, pergunta-se em silêncio enquanto fecha a torneira e, a encarar-se no espelho, enxuga as mãos, o anel descansando sobre a pia. Rodrigo se vira. Olha para o vaso sanitário. Será? Sim, e melhor já, sem qualquer hesitar. É. Reagir, reação, resposta. Rápido. Decidiu. Apanha a aliança e, qual fosse ela um atestado de sua completa imbecilidade por ter acreditado em algo torpe como é o amor, atira-a dentro da privada. A seguir, baixa o moleton e com o pênis faz pontaria. Alguns segundos e ei-lo a urinar sobre a aliança, sobre a traidora, sobre a hipocrisia humana, sobre a ilusão de que haja qualquer ética entre as pessoas, sobre o seu casamento de merda, sobre a merda toda, sobre o mundo.

Rodrigo dá a descarga e olha para dentro do vaso. Sim, a aliança se foi com a urina. Esgoto. Ele ainda cospe sobre a água agora limpa no fundo e, dirigindo-se, já sem lágrimas, a Raquel, diz...

- Vai se foder, piranha!

Voltando para a sala e observando a bagunça, Rodrigo pensa. Do aparelho de dvd faz ejetar a maldita media. Apanha-a. Pensa. Decide. Vai à pia agora da cozinha e, com um isqueiro, põe-se a queimá-la até que se derreta e entorte, deixando-a para sempre certamente imprestável. A seguir, após o deixar esfriar um pouco, novamente apanha o agora disforme e inútil objeto e vai até a janela da sala, que abre, inspirando fundo o ar da noite que sopra ameno.

Para melhor sentir em si a brisa noturna, ele tira a camiseta que usa, a do seu time de coração, que agora tem uma mancha de sangue que ele ainda não viu, e, com a media retorcida em sua mão, faz um solene juramento, que, por deus, muito mais do que o que fez na igreja para Raquel diante do padre e de todos os convidados, haverá de cumprir à risca pelo resto de seus dias... Jamais voltará a amar alguém e, tanto quanto possível, ele que sempre foi por elas muito assediado, seduzirá e fará sexo com todas as mulheres atraentes que doravante aparecerem em sua vida, sem para os seus sentimentos dar a mínima!

E Rodrigo atira a media pela janela enquanto diz para si mesmo...

- Vou foder vocês todas, suas piranhas!

2003

Ainda chorando sentado no meio-fio, com os olhos por ainda chorar desfocados, Rodrigo olha para a mão em que usava a sua aliança de casamento, a mesma mão que naquela noite sangrava, a mesma aliança que, junto com a sua urina, se foi, naquela noite, pela privada, rumo ao esgoto. A seguir, a tarde é fria, ele se lembra sem camisa a jurar diante da janela o que há cerca de uma hora já não faz mais sentido. A sangrar sem sangue, Rodrigo sente novamente, e novamente às avessas, um estranho, e indescritível, "déjà vu". Sim. Ele fecha os olhos e se vê no espelho a enxugar as mãos, e de repente parece-lhe claro o quanto ele ainda ama Raquel, o quanto ele foi um completo imbecil por, naquela noite, bêbado e irônico, sequer ter dado a ela a chance de explicar o que só agora ele sabe, e o quanto o amor, em que tanto ele sempre acreditou, e, sim, ainda acredita, é uma dádiva divina para ser vivida em sua total plenitude. E, ainda com os olhos fechados, ele deseja haver uma privada atrás de si, onde, com a bexiga no máximo do que lhe cabe, ele possa urinar sobre a sua burrice, sobre a sua precipitação, sobre a sua vida vazia de "comedor" inconseqüente, em que tanto, qual a "tigreza", tem espalhado prazer e dor, e sobre a sua tristeza tão bem camuflada, e sobre a merda que é fazer sexo com tantas e sempre pensar em Raquel, e sobre a merda toda, toda essa merda.

A temperatura vai caindo e Rodrigo sente a brisa da tarde contra si, e, ali mesmo, sentado a já não chorar lava petrificada naquele meio-fio, faz solene um juramento que, por deus, muito mais do que o que fizera naquel noite naquela janela, haverá de cumprir, nem que custe o resto de seus dias... Encontrará Raquel onde quer que ela esteja e lhe dirá que a ama, que a perdoa, até porque, agora que ele sabe como tudo aconteceu, nem há o que perdoar, e que a quer de volta para, como jurou para ela na igreja diante do padre e dos convidados, ficar para sempre ao seu lado.

1998 / 2003

Adriane, Bárbara, Fernanda, Tânia, Beatriz, Rebeca, Ana Maria, Carla, Paula, Flávia, Samanta, Inah, Débora, Karina, Taynara... Rodrigo não saberia dizer um terço dos nomes das mulheres com quem ele fez sexo durante os cinco anos que sucederam a sua separação. Muitas delas, tal o nível a que a coisa chegou, ele sequer reconheceria se passassem ao seu lado. Conforme jurou sem camisa na janela de seu apartamento naquela noite, foi, enquanto fez sentido, uma vida sexo sem fim. Sexo, sexo, sexo, sexo, sexo. Vaginas, peitos, ânus, línguas, lábios. Corpos. Houve fases em que ele fazia sexo com cinco mulheres diferentes numa mesma semana. Desde a primeira, Mariana, dez dias depois da separação, até a última, Taynara, ou Tayane, ou Flávia, com quem aconteceu dezenas de vezes, mas que na última, se assim esta puder ser considerada a última, ele fez apenas sexo oral já na manhã em que tudo se inverteu, mais de trezentas mulheres ele penetrou. E muitas, a grande maioria, perdidamente por ele se apaixonaram, mas, cumprindo à risca a sua promessa, com nenhuma delas ele sentimentalmente se envolveu. 

2003 / 2008

Inglaterra, França, Espanha, Portugal, Itália, Alemanha, Áustria, Suíça, Holanda, Bélgica, Dinamarca, Suécia, Noruega, Finlândia, Rússia... Como Priscilla, a quem Rodrigo várias vezes procurou antes de partir, jamais concordou em lhe dizer o paradeiro de Raquel, não que ele tivesse certeza de que ela o soubesse, mas a única que poderia saber era ela, ele, num misto insano de esperança e desespero, largou seu emprego, vendeu tudo o que tinha e foi para a Europa à procura da amada. Sim, pois que ela havia ido para aquele continente era a única informação que ele tinha, se é que verdadeira era, sequer disso ele tinha segurança. Mas foi. Procurando-a literalmente a esmo, por mais de quinze países perambulou. Andava a olhar cada rosto com que cruzava, sentava em praças e estações e ficava por horas a observar os passantes, mostrava fotos a pessoas em bares, cafés, empresas e consulados. Caminhou por terminais rodoviários, aeroportos, universidades e museus. Interpelava gente que encontrava em agências de emprego, em recepções de hotéis, em teatros, cinemas e nos principais pontos turísticos de cada cidade onde esteve. Ficou quase cinco anos a, para incredulidade e extrema preocupação de seus familiares e amigos, procurar por Raquel na Europa, como quem procura alguém de quem se perdeu numa praia ou num parque de diversões. 

Durante todo esse tempo, cinco anos, registre-se, em completo oposto ao que haviam para ele sido os cinco anteriores, Rodrigo não teve nenhuma relação sexual. Foram cinco anos de total abstinência. Não que ele a isso se houvesse proposto. É que na cabeça dele só havia uma coisa... Cumprir seu juramento. Encontrar Raquel. Nas raras vezes em que, durante esse período, sentiu necessidade de se masturbar, a despeito das tantas pessoas, mais de três centenas, com quem tanto se lambuzara, pensou apenas nela. Só ela. Sempre ela. Apenas ela. Para sempre. Raquel.

Gastou todo o seu dinheiro. Perdeu mais de dez quilos. Chegou a passar frio e fome em sua tresloucada busca. E jamais encontrou nenhuma pista.

Gugu Keller

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Chapmen

A inveja é a metralhadora giratória com que o derrotado pretende-se em glória.

Gugu Keller

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Refrão de Bolero 2

Por teus verticais lindos lábios eis frontais meus instintos mais sábios.

Gugu Keller

terça-feira, 23 de abril de 2013

segunda-feira, 22 de abril de 2013

sexta-feira, 19 de abril de 2013

A Esquina - Capítulo 33

- Abre o meu armário! Abre a última gaveta da esquerda! A de baixo! Isso! Agora procura no fundo dela uma caixa verde!

- Esta?

- É! Essa! Abre!

Natália abre a caixa e sente um tranco na boca do estômago. Suas pernas bambeiam e ela quase não se sustenta. Brilhante e niquelado, é um revólver o que há ali. Temendo o que sabe estar prestes a ouvir ao cabo de segundos, o contexto é inequívoco, resta-lhe, com o corpo a exalar adrenalina, exclamar ao marido...

- Meu deus, Fernando!!! O quê que isto está fazendo aqui???

- Eu nunca comentei com você, mas sempre tive isso guardado!

- Mas para quê???

- Ué... Um dia a gente pode precisar... - Pausa. - Como agora eu estou precisando!

Ela tenta não entender...

- Como é que é???

- Eu preciso que você use isso, Natália, e ponha um fim neste meu sofrimento! Porque eu não agüento mais, meu amor! Eu simplesmente não agüento mais!

Ele chora de desespero por sua impotência. Ela, de impotência quanto ao seu desespero.

- Pelo amor de deus, Fernando! Você sabe que eu não posso fazer isso...!

- É claro que pode! É só apontar para mim e puxar o gatilho! Pode ser no peito, pode ser na cabeça, dentro da minha boca...

Ambos choram copiosamente.

- Você está louco, Fernando! Eu não posso fazer isso!

- Você tem que fazer isso por mim, Natália! Pelo amor de deus! Você já não me disse várias vezes que sente uma culpa enorme pela minha situação?

- É claro, pô! Era eu quem estava dirigindo aquele maldito carro naquela maldita noite...! Naquela maldita esquina...!

- Pois então... Esta é a tua chance de consertar o que você fez! Me livra deste inferno, pelo amor de deus! Eu juro que vou em paz! E te perdôo por tudo! Eu só não quero mais ser este objeto que eu sou, que sente, que pensa, que sofre, mas que é só um objeto! Um traste, uma coisa, uma planta! Me livra disto, pelo amor de deus! É só apontar e puxar e o gatilho! Pelo amor de deus, Natália! Eu te imploro! Me mata, por favor! Me mata!

O choro de ambos chega ao soluço. Dá-se um pausa.

- Fernando... Esta coisa está carregada?

- Na última vez em que eu mexi, deixei carregado! É só você apontar e puxar o gatilho! Não tem o que errar!

Ela pensa. Odeia-se por pensar mas pensa. Afinal pondera com ele...

- Fernando... Vamos que eu tivesse coragem de fazer o que você está me pedindo... Porque é claro que eu te entendo... Não pense que não! Todos os dias da minha vida eu penso no quanto você sofre... Deve ser simplesmente horrível estar na sua situação...

- Você não faz idéia, meu amor... Você não faz a menor idéia idéia... Eu me sinto um cadáver enterrado mas com a cabeça para fora...!

- O que eu quero dizer, meu amor... É que, mesmo que eu tivesse coragem, se eu fizesse isso, eu seria presa, Fernando...!

- Eles te perdoam, meu amor! Já te perdoaram uma vez! Tem o dr. Renato! Ele é um grande advogado! Ele te livra! Pelo amor de deus, faz isso por mim! Meu corpo já está morto! Eu só preciso que você me dê um tiro para livrar de vez a minha alma!

Ela chora. Olha. Pensa. Considera. Quer. Teme. Faria. Odeia. Deseja. Odeia-se porque deseja. E porque faria. E porque não faz. E odeia-se porque teme. Porque se culpa. Porque fez o que fez. Porque fez o que fez por conta do que, naquela noite, havia feito. E, sobretudo, por ainda desejar tanto o que naquela noite havia feito, que a fez fazer o que fez, e pelo tanto que ao mesmo tempo ainda o teme, ao desejo, odeia-se.

- Eu vou te dizer, meu amor, - continua Fernando - uma coisa muito louca em que eu tenho pensado muito...

Ela olha. Ele segue...

- Você acredita em vida depois da morte, Natália?

Ela não sabe o que dizer. Ele continua...

- Tudo bem! Não precisa responder... Isso é complicado mesmo... Eu também não sei se acredito, ou como acredito, ou no que exatamente acredito... Mas sabe a que conclusão eu cheguei?

Ela continua olhando. Ele, falando...

- A de que morrer, Natália, é a minha única chance de vida!

As lágrimas que ela derrama, sem que saiba por quê, de algum modo parecem ficar mais ácidas, ou mais salgadas, e os seus olhos agora ardem em meio ao choro contínuo e compulsivo. Fernando ainda conclui...

- Eu sei que soa estranho... Mas é isso, meu amor! Vivo assim, eu estou morto! Talvez morto, Natália, em algum lugar, não sei, eu possa voltar a viver...! Você entende? É a minha única chance...!

Pausa. Ela diz enfim...

- Fernando... Se eu fizer isso, é capaz até de me acusarem de ter te matado só para ficar livre de você... Para ficar livre de ter que cuidar de você... Você sabe como são as coisas, meu amor... As pessoas são assim...!

Outra pausa. Ele pensa.

- Faz uma coisa então... Pega a filmadora!

- A filmadora??? Pra quê???

- Você me filma dizendo que eu quero que você me mate!

- Como é que é???

- É isso mesmo que você ouviu! Você registra a minha vontade de morrer, e aí ninguém vai te condenar...!

- Isso não mudaria nada, Fernando! Pelo amor de deus! Você nunca ouviu falar em eutanásia?!? É crime do mesmo jeito, você sabe!

Mais uma pausa. Ele pensa de novo.

- Tudo bem, Natália! Já que você está falando nessas questões legais, deixe-me dizer...

Ela se apruma para ouvir. Ele segue...

- Vamos que você seja condenada... Pegará o quê? Uns 15, 20 anos de cadeia? Você cumpre cinco, vai para o regime semi-aberto, bom comportamento, etc... Em menos de dez anos com certeza estará livre... Você está com 33... Aos 43 estará livre, cheia de vida pela frente... E você terá, de onde quer que eu esteja, o meu eterno perdão, o meu eterno amor, a minha eterna gratidão...! - Pausa. - Faz isso por mim, meu amor! Pelo amor de deus! Me mata! E me devolve a vida que eu perdi naquela noite!

Ela olha. Pensa. Treme. Teme. Sua. Sente. Faz a caixa verde descansar sobre a cômoda ao seu lado e dela apanha a arma. Sente-se estranha ao tê-la na mão. Se há três anos considera-se uma assassina, ei-la-o agora mais do que nunca. Com Fernando na cama ela ali de pé troca um olhar. Executores e executados um do outro ambos eis. Movendo o pescoço, é só dele para cima o que move, ele faz um aceno afirmativo com a cabeça. Ela vem se aproximando. Devagar, devagar, devagar. Passo, pausa, passo, pausa, cadafalso. Ei-la nele.

A trêmula mão direita que segura o revólver ainda o aponta para o chão. Ela põe o joelho esquerdo sobre a cama, ao lado de onde Fernando está deitado e, ainda lenta, sempre lenta, como se aquela fosse uma cena de que não participa mas a que assiste de longe em câmera lenta, ela move o braço e traz a arma. Tremendo de um modo tão frenético que a algum eventual observador talvez até parecesse proposital, ela aponta o cano para o peito dele. E treme. Sua. Pensa. Dedo no gatilho, farol, brecada. Muro, escuro, morte, morgue.

- Vai, Natália! Atira! Vai! Me mata! Me salva! Atira! Vai! Atira logo! Atira, porra! Pelo amor de deus, Natália! Atira, porraaaaaaaaa!!!

Natália ofega. Com ambos os joelhos já sobre a cama, deixa seu tronco baixar sobre o corpo de Fernando. Toca-lhe entrementes com a ponta do cano no peito.

- Atira, Natália! Atira!

Ela lhe leva a mão esquerda aos cabelos. Afaga-os. Depois a testa suada e o rosto úmido de lágrimas quentes. E vem aos poucos subindo com o revólver encostado no corpo dele. Peito, coração, pescoço, queixo...

- Atira! Pelo amor de deus, Natália, atira!

Eis o cano diante da boca. Ele de novo diz "atira" e a abre. Lentamente, como naquela noite o pênis de Rodrigo na sua, ela faz entrar o cano, que toca o céu. Fernando fecha os olhos. Ela sente o gatilho no indicador. Um segundo, dois, três, cinco, dez, vinte. Ele morde a arma e faz soar um grunhido, como se dissesse...

- Atiraaaaaaaa!!!

Natália se sente cair num choro dentro do choro. Fosso fossa fóssil. Qual vinda de um sonho pesadelo acordada, desaba sobre si mesma num duro chão de realidade. Medo, morte, morgue. Cadeado, cadeia, cadê? No limite do seu longínquo pós-limite, ela tira o cano do revólver do interior da boca de seu cônjuge e, desesperadamente impotente, diz-lhe a perdigotejar lágrimas em seu ouvido...

- Desculpe... Eu não posso...

E se afasta dele rumo ao refúgio do seu lado da cama, repetindo baixo entre soluços...

- Eu não posso... Eu não posso... Eu não posso fazer isso...

É ele quem agora sente que tem as lágrimas mais ácidas. Um minuto e ela volta com seu rosto perto do dele e diz-lhe em conclusão, repetindo a grande mentira...

- Eu não posso, Fernando! Eu te amo!

E, para uma confusa surpresa de Fernando, pela primeira vez desde que tudo aconteceu, ela calorosamente por vários segundos o beija na boca, até que de novo, virando-se, fugindo, furtando-se, ruindo, deita-se.

A ponto de chorar sangue, assim ele o sente, por tamanho stress, Fernando, não obstante o nostálgico sabor ao mesmo tempo doce e amargo daquele beijo, enfrenta o maior desespero de sua vida. Ei-lo, é como o vê, abortado a um passo do renascimento. E oxalá, pensa agora, tivesse sua mãe o abortado. Sim. Jamais ter existido o teria poupado de tanta dor. Meia hora se passa e ele já não ouve o choro de Natália, que, virada para o outro lado da cama, talvez, ele não sabe, tenha adormecido. Ei-lo então a, num desespero de tartaruga de ponta-cabeça, tentar alcançar o revólver, que ficou sobre a cama, entre ele e ela, a bem pouco de seu rosto. Virando o pescoço para o lado direito, busca-o com a boca, a língua principalmente. Ele o toca mas não tem como o posicionar do modo necessário para o que pretende. Ademais, logo parece certo que jamais teria como acionar o gatilho. Mas continua tentando. Como quem luta pela sobrevivência, luta pela morte. Tenta, insiste, por horas e horas, até que os poucos músculos que mexe chegam à exaustão. Fracasso. O dia já amanhece quando enfim reconhece que só lhe resta desistir. E Fernando sente uma enorme vontade de gritar. Gritar, gritar, gritar, gritar, gritar. Gritar o maior grito que algum dia alguém terá gritado. Um grito do tamanho da sua dor, do tamanho do seu desespero, do tamanho da sua indescritivelmente sincera vontade de morrer.

Mas ele não grita. A uma, afinal não faz sentido. A duas, plantas não gritam.

Gugu Keller

quinta-feira, 18 de abril de 2013

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Ferozes

Se és tu quem estúpida estupras-me, sou eu que em teu vértice inverto-te.

Gugu Keller

segunda-feira, 15 de abril de 2013

domingo, 14 de abril de 2013

Nautilus

Meu membro dentro dela é o periscópio através do qual do fundo de um mar negro eu vejo lindo o céu azul.

Gugu Keller

sexta-feira, 12 de abril de 2013

A Esquina - Capítulo 32

- Faz o seguinte, Gladston... Eu te dou quinze minutos para você pegar o que quiser das tuas coisas... Depois você sai por aquela porta... E não volta nunca mais...!

Ele chora, e chora, e chora. Ela conclui...

- Só mais uma coisa, Gladston... Acho que agora você entendeu, não? Eu não bebi! E estou, sim, falando coisa com coisa! Andréa, como se vê muito bem nesse vídeo, não é mulher!

Faz-se uma longa pausa. Gladston tenta se refazer. Ana Cláudia, ao contrário, por mais que já tenha chorado, a mais lágrimas prefere se deixar. Tomara, pensa, chore todas as possíveis hoje, para já amanhã, quem sabe, começar uma vida nova, ou, ao menos, fazer algo de novo, e construtivo, com a sua tão dolorida, e lacrimejante, vida velha. É Gladston quem, tendo respirado fundo, rompe o silêncio de quase um minuto...

- Espera, meu amor! Vamos conversar um pouco...

Num riso choro irônico e autopiedoso, Ana mostra os dentes a exclamar em interrogação meio que para ele e meio que para si mesma...

-"Meu amor"...? Você ainda tem coragem de me chamar de "meu amor"...?

- Eu amo você, Ana Cláudia! Sempre amei e sempre vou amar!

- É? Só falta você dizer que pensava em mim quando transava com esse travesti...

- Olha... Eu admito que errei... Mas vamos conversar! Não tem sentido a gente terminar assim, meu amor...!

Incrédula com o que ouve, Ana Cláudia olha agora fixamente para o marido e lhe pergunta com extrema seriedade...

- Gladston... Será que você faz idéia do que significa para uma mulher descobrir o que eu descobri?

- Eu entendo que você esteja magoada, meu amor...

- Magoada??? Eu estou dilacerada, arrebentada, sangrando no coração!!! Se ao menos tivesse sido com uma mulher, Gladston...

- Ah, Ana Cláudia! Isso não faz tanta diferença, vai...!

Esta última fala dele a faz começar a tremer. Tamanhos são o ódio e o desprezo que ela sente por aquele agora traste ali diante, que Ana Cláudia começa a sentir medo do que a partir daqui possa vir a fazer. Babando pelos cantos da boca, ela o fuzila com um olhar de fera ferida, acuada e faminta. Seu peito agora é um barril de pólvora, e com o que, a cada dizer revelando mais e mais da sua incomensurável insensibilidade, Gladston tentará a seguir, eis riscado o fósforo no pavio.

- Você quer saber, Ana Cláudia? - diz ele - Você quer saber mesmo?

Ela olha. Treme, baba, chora e sua. Ele segue...

- Isso aí que você viu nesse vídeo em boa parte é culpa sua!

Sentindo o coração bater na garganta, como se estivesse a internamente lhe subir pelo pescoço, ela pergunta pasma...

- Como é que é, Gladston???

- É isso mesmo! Em boa parte a culpa é sua!

- Seu desgraçado, calhorda, filho de uma puta!!! Como é que você ainda tem a coragem de me dizer isso??? Seu monstro doente!!!

- Quer que eu te diga por quê que a culpa é sua?

Ela começa a se sentir tonta. A sala do apartamento agora é um submarino e o mar está agitado. Terremoto sub-aquático, tsunami.

- Por que, Gladston? Por quê que a culpa é minha?

Pausa. Ele olha para ela. Seu cinismo vai pedir truco numa jogada já perdida. Pensa ainda. E tenta...

- Há quanto tempo, Ana Cláudia, nós não fazemos sexo anal?

Tranco. Tudo balança. O submarino parece ter batido em algo.

- Não, Gladston... Não... Você não me fez essa pergunta... Eu me recuso a acreditar que você me fez essa pergunta...!

Mas ele insiste...

- Faz muito tempo! Faz muito tempo, Ana Cláudia, que você tem me negado isso! E você sabe como eu gosto!

Decerto foi um rochedo no fundo do mar. Tudo gira. As luzes piscam.

- Filho da puta! Cafajeste! Desgraçado! Eu matar você, sabia? Eu vou matar você!

Para agravar, ele grita com ela...

- Pois é isso mesmo!!! Você sabe que eu gosto e, mesmo assim, me nega!!! Resultado... Tive que procurar na rua!!! A culpa é sua, sim!!!

O submarino foi a pique. De cabeça para baixo, ei-lo no fundo do mar. E, com a vida a pique, de cabeça para baixo, eis Ana Cláudia levantando-se do sofá, ou do fundo do mar, trazendo consigo o abajur ao seu lado e o atirando violentamente contra Gladston, enquanto grita...

- Você gosta de sexo anal, sim!!! Só que é no seu cu!!! Seu veado, filho de uma puta!!!

O abajur o atinge meio de lado e se espatifa na parede. Ela continua gritando...

- Veado!!! Bichona louca!!! Você gosta de chupar rola, né??? Gosta de um caralho enfiado no cu, não é isso???

- Calma, Ana Cláudia! Vamos conversar, meu amor... ! Pelo amor de deus...!

- Meu amor, o caralho! Sai daqui agora, seu veado filho de uma puta!!!

Pausa. Tensão. Ele ainda apela...

- Mas este apartamento também é meu!

- Saaaaiiiiii!!! Eu te odeeeeeeeeio!!! Seu porco imundo!!!

Outra idéia torpe...

- E a Manú? Eu quero ver a minha filha!

- Ela está com minha mãe!

- Então vamos buscar! Se for para eu sair daqui, eu levo ela...

- Leva ela, o caralho!

Ele sobe o tom...

- Eu não saio daqui sem a minha filha!

Ana Cláudia descontrola-se de vez. Parte para cima de Gladston a socos e pontapés. Chegar a fincar as unhas de sua mão direita no rosto dele, que começa a sangrar. Ele então a empurra. Ela vem para trás e tropeça, caindo de costas sobre uma pequena mesa de canto, de onde um cinzeiro, um porta-retrato e outros objetos caem e se espalhem pelo chão. Mas ela levanta rápido e, tomada de um estranho impulso que jamais a ninguém saberia descrever, deixa a sala e se dirige para o quarto do casal. Gladston volta a chorar. Passa a mão pela face e sente as lágrimas que se misturam com o sangue. O que fazer? O que dizer? Como recuperar a sua máscara, no chão ali espatifada ao lado do abajur?

Um minuto, um e meio, e Ana Cláudia reaparece. Vem andando devagar e tem algo nas mãos. Alguns segundos e Gladston não pode crer no que vê. É um revólver o que ela traz. Negro, ei-lo, o revólver, que ela agora ergue, apontado na sua direção. Gladston chora, sangra, treme e sua. 

- Que é isso, Ana Cláudia??? Onde foi que você arrumou isso???

- Era do meu pai!

- Abaixa isso, pelo amor de deus!!!

- Sai daqui agora, Gladston! Sai daqui agora e não volta nunca mais!

Pausa. Medo. Ódio.

- Mas Ana... Eu... Eu...

Ela grita...

- Saaaiiiii!

Ele chora. Ela está a um metro dele. Ele olha. Ela engatilha o revólver. Medo. Ódio. Medo. Ódio. Ele vai recuando devagar rumo à porta. Ainda olha para ela tentando provocar pena. Mas é dela mesma que ela sente pena agora. Dele, só ódio. Um ódio que jamais ela se soube capaz de odiar. E, agora baixo, quase soprada, ela repete...

- Sai!

Ele abre a porta. Ainda olha para ela a com os olhos pedir piedade. Um segundo, dois, três, e, mesmo com a boca seca, ela consegue ainda reunir saliva para, com a maior convicção de sua vida, cuspir-lhe na cara.

Depois que ele enfim se vai, oxalá para sempre, Ana tranca a porta por dentro e se deixa desabar a ela encostada. De um modo surpreendente para si mesma, descobre que ainda tem lágrimas suficientes para chorar uma cascata. Frágil, chora ali, junto à porta numa posição meio que fetal, o duro golpe que levou do destino. Segura o revólver e chora. A certa altura, deixa o posterior de sua cabeça se encostar na porta atrás de si e, perdida no labirinto da vida, leva arma atá a boca, onde introduz o cano até tocar o céu. É puxar o gatilho e, daquele cano com um quê do pênis duro de Andréa, a porra de uma bala daria um jeito na porra toda. Mas não. Um segundo, cinco, dez. Ana Cláudia pensa em Manuela e compreende que não pode. O pior do labirinto da vida, conclui, é que já sequer faz sentido dele sair. Depois de uns cinco minutos ali, sempre a segurar o revólver, põe-se a, como uma criança fingindo-se de bicho, andar de quatro na direção do quarto. Lá, ajoelha-se diante de seu armário, onde, na gaveta em que sempre esteve desde que a herdou do pai, Gladston jamais o soube, guarda a arma. Depois, cão sem dono com fome e frio, segue de quatro de volta para a sala e vai ao telefone. Tecla. Ana Clara atende...  

- Alô! Claudinha??? O quê que foi??? O quê que você tem???

O dr. Clóvis acompanha preocupado. Ana Clara olha para ele enquanto fala...

- Calma, Claudinha!!! Fica calma!!! É algum problema com a Manú??? Não, tudo bem! Tá, eu tô indo! Em meia hora eu tô aí! Mas fica calma, pelo amor de deus!!!

Desliga.

- Meu deus do céu, Clóvis!!!

- O quê que aconteceu???

- Ela não disse! Mas estava em prantos! Pediu para eu ir para lá agora!

Gugu Keller

quinta-feira, 11 de abril de 2013

quarta-feira, 10 de abril de 2013

sábado, 6 de abril de 2013

sexta-feira, 5 de abril de 2013

A Esquina - Capítulo 31

É meio-dia quando, mais apaixonada do que nunca, Flávia se vai. Ainda com o pênis ereto, Rodrigo entra no já segundo banho desta manhã. Passa-lhe pela cabeça, com o peculiar gosto da vagina da jovem vizinha ainda forte em sua boca, a língua meio que amortecida de tanto a chupar, masturbar-se, talvez de novo pensando em Natália, até gozar também já nesta manhã pela segunda vez. Mas não. A desagradável perspectiva do encontro de daqui a pouco com o dr. João Silas com ansiedade prevalece e o pênis descansa. Depois do banho e de estar vestido, café da manhã e eis Rodrigo a dirigir a caminho do nefasto endereço, que, desgraçadamente, ele na mente ainda guarda de cor.

É claro que, quando o assessor do seu ex-sogro o procurou solicitando o inesperado encontro, pela cabeça cabeça de Rodrigo passou a possibilidade de Raquel estar presente, ou mesmo por detrás daquilo, e desde logo ele claro deixou que não, não a queria ver. Se ela lá estiver, asseverou, ele, Rodrigo, irá embora imediatamente. Já são cinco anos desde que a viu pela última vez, naquele maldito princípio de noite, quando ela saiu pela porta do não menos maldito apartamento em que moraram enquanto casados, e não é neste domingo, o maldito, que ele, ao menos até aqui, a pretende ver. Tomara, aliás, pensa então, dirigindo, ele continue sem a ver por mais cinco anos, e mais cinco, e mais cinco, lustro, lustro, dez, cinqüenta, até o fim da sua vida. A separação, inclusive, depois de tudo aquilo, todo aquele pesadelo, chupando, de quatro, gozo na cara, foi assinada por ambos através de seus respectivos advogados. Tendo tomado a rua Hermann, Rodrigo pára no farol da esquina com a rua Violeta e, observando uma considerável quantidade de cacos espalhados pelo chão, pensa no quanto o casamento com Raquel foi um desastre em sua vida, e não evita lembrar-se bêbado naquela noite, a chorar de desespero e desilusão enquanto sangrava numa das mãos, cortada por um dos cacos da tela da televisão.

Estacionar defronte daquela casa, ei-lo lá no horário marcado, traz a Rodrigo uma espécie de déjà vu às avessas. É meio como lembrar-se de algo de que nunca esqueceu mas fingiu esquecer, e essa lembrança de certo modo agora o denuncia a si mesmo pelo flagrante fracasso do fingimento. Tentando pensar o menos possível, esperando apenas que, o que quer que o ex-sogro queira, custe-lhe o menos possível de tempo ali, ele se aproxima do portão e pede ao segurança na guarita que o anuncie. Um minuto e surge o mordomo, que o faz entrar e o conduz ao escritório, ao lado da sala de estar, onde, a o aguardar, sentado numa poltrona metido num hobby de chambre, com meias grossas, chinelos, um cachecol a envolver o pescoço e um cobertor sobre o colo, está, enfim, o dr. João Silas do Amaral Torres, seu ex-sogro, se é que sogros podem ser ex, pai de Raquel, ex-deputado federal e ex-secretário de estado. Dela, Raquel, conforme garantiu o assessor, felizmente, Rodrigo o pensa, nem sinal.

- Boa tarde, Rodrigo! Obrigado por ter vindo!

- Boa tarde, dr. João!

- Sente-se, por favor! Toma alguma coisa?

- Não, obrigado!

Pausa. Rodrigo sentou-se numa cadeira a cerca de um metro e meio do interlocutor.

- Eu imagino, Rodrigo, que você tenha ficado surpreso com o meu chamado para esta conversa...

- Sim, de fato! O senhor há de convir que não era de se esperar... Depois de todo esse tempo, depois de tudo o que aconteceu...

- Pois bem... Então vamos ao assunto sem rodeios...

Rodrigo se apruma. O dr. João Silas segue...

- Você falou em tempo... Eu o chamei aqui para esta conversa porque já não tenho muito tempo... Estou doente, Rodrigo... Estou muito fraco... Sei que me resta pouco tempo...

- Eu... Eu não sei o que dizer, dr....

- Tudo bem! Não precisa dizer nada! Sou eu quem tem algo a lhe dizer... Algo que você precisa saber e que eu tenho a obrigação de lhe dizer antes de morrer...

Extremamente atento, Rodrigo ouve. O ex-sogro segue...

- As coisas não se passaram, Rodrigo, exatamente como você imagina que tenham se passado... Ou como os fatos lhe fizeram crer que tenham se passado...

- A que o senhor se refere, dr. João?

Pausa. É o velho quem agora melhor se apruma na poltrona.

- Você sabe quem foi Arthur Alípio?

- Arthur Alípio...? Não me soa estranho...

- Foi um político! Durante algum tempo, deputado federal, como eu!

- Foi? Já morreu?

- Sim! Morreu no ano passado!

- Sei... E o que tem ele?

- Você sabe, Rodrigo, que na política às vezes a gente mete os pés pelas mãos... Acabamos fazendo coisas de que depois nos arrependemos e tal... Bem... Para resumir... O Alípio era um adversário meu, sabe? Na verdade, ele me odiava... Desde muito jovens travamos uma espécie de guerra na política um contra o outro, sabe?

- Sei...

- Por outro lado, Rodrigo, houve algo que ninguém nunca soube que marcou demais esta nossa, digamos, rixa...

- O que?

Pausa.

- Uma vez, Rodrigo, nós nos encontramos num restaurante e a Raquel estava comigo... Ela devia ter uns 17 anos... Era dia dos pais...

Rodrigo se apruma mais. É 100% atenção.

- E o que ocorreu, Rodrigo, naquele domingo - segue o dr. João Silas. - foi que, assim que a viu, o Alípio se apaixonou por ela...!

- Como é?!?

- Sim! Isso mesmo! Mesmo sendo oito anos mais velho do que eu, um senhor já então portanto, ele ficou transtornado quando viu a minha filha! Foi uma espécie de tara à primeira vista! Ele simplesmente enlouqueceu! Passou a assediá-la de diversas formas e a fazer, inclusive para mim, propostas absolutamente indecorosas das mais diversas...!

- Que coisa louca, dr. João! Ela jamais me falou sobre isso...

- Ela tinha muito medo! Muito medo e muita raiva! E nunca ninguém soube! Ela nunca falou sobre isso com ninguém além de mim! Nem mesmo a minha esposa soube disso...

- Mas por que o senhor quis que eu soubesse disso agora, se esse tal Alípio até já morreu...?

- Como eu disse, Rodrigo, na política muitas vezes a gente mete os pés pelas mãos... E o fato é que o desgraçado conseguiu reuniu provas contra mim...

- Provas?

- Sim! Provas que me incriminavam! Provas irrefutáveis de atos ilícitos que eu cometi na vida pública! Coisas que, se viessem à tona, seriam a minha ruína! Eu estaria perdido... Certamente seria cassado e preso... E sabe o quê que ele fez com essas provas? Montou um dossiê!

- Dossiê?!?

- Exatamente! Um dossiê que acabaria comigo se viesse a público...!

- O senhor chegou a ver esse dossiê?

- Sim! Ele me deu uma cópia!

- E aí?

- E aí, ele foi claro... Só tinha uma jeito de ele não tornar público o dossiê...

Pausa. Rodrigo sente um golpe no peito. O coração dispara. As reticências já eram claras. Mas, a esta altura, ele precisava ouvir com todas as letras...

- O senhor está querendo me dizer, dr. João, que...

Outra pausa. Um olhar severo e enfim é dito...

- É isso mesmo que você já entendeu, Rodrigo! Ele só não tornaria público o dossiê se a Raquel fizesse sexo com ele...!

Mesmo sentindo-se tonto, Rodrigo tem o ímpeto de se levantar. Exatamente como aquela sala naquela noite, o escritório é agora o convés de um barco durante uma tempestade em alto mar. Tudo gira, oscila, treme, range. Sim, estamos indo a pique!

- Então quer dizer que... Que... Que...?

- Sim, Rodrigo! Você já entendeu! A Raquel nunca quis te trair! Ela te amava muito! Ainda te ama, posso garantir! Ela só fez aquilo para me salvar! E você não faz idéia do quanto foi custoso para ela... Ela tinha verdadeiro asco, verdadeira repugnância daquele maldito...

Rodrigo tem a boca seca e o coração a palpitar. Treme, sua e chora. Diz-lhe ainda o dr. João Silas...

- O desgraçado cumpriu a palavra! O dossiê jamais veio a público! Mas, por maldade, por pura maldade, ele filmou tudo e fez as imagens chegarem até você...! Por pura maldade! Ela te ama, Rodrigo! Ela só se entregou a ele para me livrar daquela chantagem!

Sobre uma mesa ali há uma garrafa com água e copos. Sem sequer pedir licença, e com as mãos trêmulas, Rodrigo se serve e bebe. Chora, sua, soluça.

- Sabe há quanto tempo eu não vejo a minha filha, Rodrigo?

Rodrigo não responde. O ex-sogro continua...

- Cinco anos! Sim, cinco anos! Naquela mesma noite em que você brigaram porque você viu aquelas cenas terríveis, ela esteve aqui... Estava arrasada, desesperada, desfigurada... Disse que me odiava... Que, com as minhas falcatruas, eu havia destruído a vida dela... E eu só pude ficar quieto... Ela estava certa, não é mesmo? Certíssima! E aí, ela saiu pela porta da frente e nunca mais voltou... Eu nunca mais vi a minha filha, Rodrigo... Nunca mais... Tudo o que sei é que ela foi para a Europa... Mas nem sei para que país...

Rodrigo dirige seu carro. Cinco minutos e pára. Não faz sentido continuar. Não está indo mesmo, percebe, para lugar nenhum. Estaciona e desce. Põe-se a andar pela calçada. Outros cinco minutos e de novo pára. Continua, atina, indo sem ir. Olha então para o meio-fio e decide se sentar. Faz. Na tarde fria, parado ali, apenas se deixa chorar. Quando o mundo virou de cabeça para baixo, ele, entre cacos e cortes, se reequilibrou. Agora o mundo voltou à posição inicial, e ei-lo, mais do que nunca, de cabeça para baixo, apenas a, provavelmente para sempre, sentado no meio-fio, deixar-se chorar.

Gugu Keller

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Comentário / Dica

A quem, como eu, ama a banda britânica Depeche Mode, recomendo o seu novo trabalho, o recém-lançado "Delta Machine". É maravilhoso! Simplesmente não consigo parar de ouvir. Desde "Violator" eles não faziam algo tão bom.

Gugu Keller

quarta-feira, 3 de abril de 2013

terça-feira, 2 de abril de 2013

Vida

As melhores teorias são impraticáveis. As melhores práticas, inteorizáveis.

Gugu Keller

segunda-feira, 1 de abril de 2013