domingo, 30 de junho de 2013

sábado, 29 de junho de 2013

sexta-feira, 28 de junho de 2013

A Esquina - Capítulo 43

Com voracidade Rodrigo chupa Natália que, enlouquecida de desejo, cinco anos, treme, geme e se contorce. Três minutos, cinco, sete, e ela leva as mãos à cabeça dele, e, segurando-o pelos cabelos, exclama...

- Ai, que língua é essa??? Como você chupa gostoso, seu puto!

E ele...

- É? Você gosta?

E ela...

- Nunca ninguém me chupou assim...!

Rodrigo chupa. E treme, e geme, e se contorce, cinco anos. Mas ainda pensa em Raquel, e, triste, chupando, imagina que, se não estivesse tão igualmente de desejo enlouquecido, talvez derramasse lágrimas sobre aquela, depois de tanto tempo, nova boceta em sua vida.

E ele chupa, e lambe, e suga, e saliva, e baba, e mordisca, e mastiga, e sibila, e degusta, e ela se entrega, e se esfrega, e se integra, até que, dez minutos de cunilíngua, sentindo que ela vai gozar, ele pára e levanta o tronco, secreção e saliva a lhe pingarem pelo queixo. Mutuamente, por um instante, eles se chupam com os olhos, retino-iridiana felação, e, perdendo-os, os olhos, os seus, a seguir para o pênis dele, ela lhe pede-ordena-implora-determina...

- Vem! Me fode!

Agora apenas com os dois lábios, tendo novamente baixado seu tronco, Rodrigo dá um beijo de três segundos na vagina flor aberta diante de si, e, lentamente, como um semi-morto que deixa para trás vários dias de um deserto escaldante rumo ao curso d´água a enfim meio metro, põe-se a rastejar cama e corpo dela acima. Novamente usando a língua, vem então com sua boca rumo ao norte, pêlos, púbis, cintura, ventre, deixando em linha reta um tênue rastro de umidade. Chegando ao umbigo, oásis num novo deserto, este lunar e de mansidão, explora-o em busca de um misterioso tudo, de um frutuoso fundo, de um caudaloso mundo.

Devagar, devagar, devagar, Rodrigo continua subindo, subindo, subindo, ventre, barriga, pele, peitos. Por seu turno, qual filhotes de pássaro recém-nascidos abrem afoitos o bico ao perceber a chegada da mãe ao ninho, Natália arreganha suas pernas à espera do primeiro toque da ponta do para ela agora vital alimento. Segundos, segundos, segundos e, sim, a cabeça do pênis toca a vulva, a já muito pouco do encaixe perfeito. Um choque sobe pelas espinhas de ambos e, quando, entrementes, de novo os olhares se cruzam, ei-los transbordantes de uma sincera gratidão, qual diante dos assassinos de seus assassinos.

Como se de certo modo toureasse o monstruoso búfalo de seu infortúnio, Rodrigo mostra uma habilidade incrível em manter-se naquele devagar. A lubrificação vaginal de Natália é tamanha, a boceta literalmente baba, que de pronto a introdução se mostra extremamente fácil. Mas ele segue lento. Lento, lento, lento, lento. Sempre lento, penetra. Vai, vai, vai, indo, indo, indo. Milímetro a milímetro, pouco a pouco, nada a nada. Um minuto, dois, três, e sequer um quarto do membro dentro eis.

Ao mesmo tempo, ele dela lambe os peitos, o colo, pescoço, queixo, e, a cada milímetro, também as bocas novamente se aproximam. Pele, pêlos, poros, puto, pinto. Bicos, Baco, bocas. Mais, mais, mais. Ainda entrando ele, ainda o recebendo ela, beijam-se. Sorvem-se, mordem-se, devoram-se. E três quartos do pau enfim lá vão. Natália geme, treme e a Rodrigo envolve pelas costas, e nuca, e cabelos. Ele então recua pela primeira vez. Ainda lento, de novo a seguir empurra-se para dentro. E recua. E empurra. Recua, empurra, recua, empurra e recua. E o vai-e-vem aos poucos se acelera. Do devagar vai devagar ao depressa. Loucura, entrega, vertigem, viagem. Como tanta dor em sua vida, Raquel etc, o pênis dele dentro dela vai e vem. Como tanta na sua, Fernando etc, na xana dela o dele pênis vem e vai.

Minutos e, com agora alguma velocidade, eis o monjolo da vida em seu de sempre lá e cá. A tocar o colo do útero, o pênis, a cada estocada, já vai inteiro adentro. Sim. Membro, centro, dentro. Ventre, quente, mantra, mente. É todo o dele no tudo dela, que balbucia...

- Isso, querido! Me fode! Mete tudo!

Cinco anos depois, Natália dando eis. Cinco anos depois, metendo eis Rodrigo. 12° andar. Tarde cinza. Sábado. São Paulo. 19 de julho. 2008.

Gugu Keller

quinta-feira, 27 de junho de 2013

terça-feira, 25 de junho de 2013

segunda-feira, 24 de junho de 2013

domingo, 23 de junho de 2013

sexta-feira, 21 de junho de 2013

A Esquina - Capítulo 42

- ... e, aí, nós nos afastamos um pouco da sede do sítio, onde estava sendo o churrasco, e começamos a andar por um bosque que havia ali...

- Sei...

- Aí, uma hora, ela se encostou numa árvore e ficou me olhando... Parece que ainda posso ver aquela cena... Só nós dois ali... Ela me olhando... 

- Ham-ram...

- Aí, ela disse... "Posso te fazer uma pergunta?"... Eu disse... "Pode!"... "Por que você olha tanto para os meus peitos?"... Eu levei um susto, né? Jamais esperaria que ela perguntasse aquilo, assim, daquele jeito...

- Hã...

- Aí, eu falei... "Você reparou que eu faço isso?"... E ela... "Seu bobo! Toda mulher repara nessas coisas!"...

- E você olhava mesmo?

- Muito! Estava fascinado pelos peitos dela!

- São grandes?

- Nem tanto! Mas, sei lá... São perfeitos, sabe?

- Sei...

- Aí, eu disse... "Você quer saber mesmo por que eu olho?"... E ela... "Claro!"... E eu... "Porque eles são a coisa mais linda que eu já vi!"... Então, ela sorriu e disse... "Mas você nunca viu!"... E eu respondi... "Mas pelo pouco que eu consegui ver, sei que eles são!"

Uma pausa se faz. Rodrigo deixa cair uma lágrima. Alguns segundos e é instigado a continuar...

- E o que aconteceu então?

- Ela ficou me olhando por um tempo... Sorrindo... Estava tão linda... Aí, eu mal pude acreditar... Ela abriu a blusa...! E, depois, abriu o sutiã...! O sutiã dela tinha uma coisa diferente, sabe?

- O que?

- O fecho era na frente, entre os peitos!

- Sei...

- Aí, o abriu... E continuou sorrindo... O meu coração parecia que ia saltar pela boca... Eu nunca tinha visto nada mais lindo... E eu fui chegando perto... Chegando perto... E então ela me abraçou e levou o meu rosto aos seus peitos...

- E você os beijou? Os chupou?

- Não! Naquele primeiro momento, não! Eu apenas deixei o meu rosto encostar neles, e fiquei sentindo a pele, a textura, o calor daquilo, sabe? Foi uma sensação tão intensa, tão mágica... Jamais me esquecerei daquele momento... Era um sonho... O sonho mais lindo da minha vida...!

- E aí?

- E aí, ela puxou carinhosamente o meu rosto contra o rosto dela e nós nos beijamos por vários minutos...!

Foi Dudú quem, após quase cinco anos daquela tresloucada e infrutífera busca por sua amada Europa afora, onde além de ter passado fome e frio, ele chegou a enfrentar problemas com autoridades por ter estado em situação ilegal, literalmente resgatou Rodrigo de volta para o Brasil, arrumando-lhe um novo emprego e o encaminhando para um seríssimo tratamento com um respeitado profissional, o dr. Clóvis Hernandez, ao mesmo tempo psiquiatra e psicólogo. Diagnosticado com depressão, Rodrigo passou a fazer uso de um medicamento e a ter sessões semanais com o médico. Nesta, a nona, no dia 11 de julho de 2008, em que Rodrigo rememorou o início de seu namoro com Raquel, o dr. Clóvis recomendou-lhe tentar investir num novo relacionamento, mesmo que apenas, como por tanto tempo antes dessa crise foi-lhe comum, com o intuito de fazer sexo.

- Talvez eu pudesse ligar para a Natália...

- Natália? A da festa? A que era casada com o teu ex-colega que brigou com você por causa da intercambista?

- Ela mesma! A da festa na mansão do Dudú na véspera do meu encontro com o dr. João Silas! Eu fiquei sabendo que o marido dela, o meu ex-colega, morreu...

- Morreu?

- Sim! Em 2006! Uma morte horrível! Ele tinha ficado tetraplégico num acidente e morreu sufocado com o próprio vômito...

- Então ela está viúva?

- Ficou viúva, né? Não sei se atualmente ela tem alguém...

- Você achava ela atraente?

- Muito! Tanto que, como eu te contei, quase aconteceu naquela festa...

- Pois então procure-a! Quem sabe vocês vocês possam ter um reencontro...

- Vou ver se eu acho o telefone dela... Ou se consigo com alguém...

- Faça isso, Rodrigo! Mesmo que ainda pense na Raquel, é muito importante que, neste momento, você se dê a chance de voltar a ter relações com mulheres...!

Gugu Keller

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Desilusão

Às vezes o fim que mais dói é o do que, na verdade, nem sequer começou.

Gugu Keller

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Revolucionando

Não importa o na praça, diante das lentes, tanto quanto o que passa no instante nas mentes.

Gugu Keller

terça-feira, 18 de junho de 2013

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Junho/2013

Acredito que a famosa frase "o povo unido jamais será vencido" é absolutamente verdadeira. O problema é que, entre nós, praticamente nunca, a não ser para esporadicamente a entoar, o povo de fato se uniu. Torçamos para que este momento seja a marca de uma afinal mudança neste sentido, e, sobretudo, que essa necessária união, crendo que venha, articule-se de uma maneira minimamente inteligente e organizada de modo a obter os resultados práticos por que tanto há tanto tempo ansiamos.

Gugu Keller

domingo, 16 de junho de 2013

Ordem & Progresso

As absurdas ações policiais durante os protestos desta semana em São Paulo com extrema clareza evidenciaram a  pior face da nossa tragédia institucional, que é vivermos sob a tutela de um estado que nos pretende impor a lei quando, sistemática, acintosa e vergonhosamente, ele próprio a ignora e descumpre.
 
Gugu Keller

sábado, 15 de junho de 2013

sexta-feira, 14 de junho de 2013

A Esquina - Capítulo 41

O tio Custódio, a rigor tio de Fernando mas a quem Natália, àquela altura, já há muito se habituara a, como o marido, assim chamar, sempre foi um homem de vocabulário castiço, imponente e impressionantemente vasto, a ponto de muitas pessoas de sua cidade, São João da Boa Vista, o considerarem por isso um sujeito pernóstico, um pedante, um exagerado esnobe das letras. E foi justamente por ela ter saído de sua boca, da do tio Custódio, quando, naquele fatídico abril, ele telefonou para noticiar o terrível acontecido, que Natália pela primeira vez ouviu aquela palavra nefasta, pesada, horrenda, que tanto, por algum motivo que jamais ela própria entenderia, doravante pulularia em sua mente, meio que a assombrá-la, persegui-la, condená-la, crucificá-la impetuosa em sua própria férrea e vítrea cruz-esquina. De fato, como numa espécie de agourenta predição, desde então, de 2002 ainda o abril, sem que, repise-se, nem de longe concebesse o porquê, passaria a insistentemente ecoar em seu íntimo a para ela nova e traumatizante palavra... "Morgue".

- Alô!

- Alô! Boa noite!

- Boa noite!

- É Natália quem fala?

- Sim!

- Natália... Aqui é Custódio, de São João!

- Oi, tio Custódio!!! Que surpresa!!!

- Desgraçadamente, Natália, estou ligando por conta de um acontecimento pavoroso...! O Fernando se encontra aí?

- Não, tio! Ele ainda não chegou do trabalho, mas - nossa! - o senhor está me assustando assim...! O quê que aconteceu?

- É trágico, Natália! Incomensuravelmente trágico!

- Fala, tio Custódio! Pelo amor de deus...!

- Sabe o Carlos Aloísio?

- Carlos Aloísio? O Calú? Filho da Sâmia?

- Sim, ele mesmo!

- O quê que aconteceu com ele?

- Inacreditavelmente ele veio a falecer...!

- Como é que é???

- Eu compreendo o seu espanto, minha cara... É, de fato, dantescamente trágico...!

- Mas como isso aconteceu, tio Custódio??? Foi um acidente??? Ele estava doente???

- Chega a ser revoltante, Natália... O menino sufocou-se com o seu próprio vômito...!

- Meu deus, tio Custódio!!! Que horror!!! Foi em casa?

- Não, não! Foi na creche! Ou seja, um desleixo imperdoável, abominável! Alguém certamente prevaricou de modo flagrante! Um crime! Uma situação insuportável!

- Meu deus... E a Sâmia??? Eu imagino como ela deve estar...

- Está sedada! Medicada e sedada!

- Que horror, tio Custódio! Que horror!

- Bem... Eu telefonei para dar a notícia ao Fernando e a você... O sepultamento será amanhã às dezessete horas...

- O Fernando deve estar chegando, tio Custódio... Se não formos ainda hoje, amanhã de manhã com certeza estaremos aí!

- Está bem! O velório deve daqui a pouco dar início aos funerais...

- Ah! Não está velando ainda?

- Não! O corpo ainda está na morgue!

- Está onde???

- Na morgue!

Natália não conhece a palavra, mas acanha-se em, sobretudo num momento como aquele, perguntar o que ela quer dizer...

- Ah, sei... Com quanto anos o Calú estava, tio Custódio? Três?

- Faria três no mês que vem...

- Nossa! Que coisa horrível! Eu nem sei o que dizer...

- É horroroso, Natália! Uma hecatombe paralisante, decerto fruto de um comportamento omissivo abominável e execrável!

- Bem... Estaremos aí logo mais então... Obrigada por ter nos avisado!

- Por nada! Boa noite!

- Boa noite, tio Custódio!

Morgue, morgue, morgue... O que diabos será isso? Apenas no dia seguinte ao enterro, já de volta a São Paulo com o marido, Natália procuraria no dicionário aquela palavra que tanto e tão estranhamente a incomodava, que, sobretudo após os acontecimentos protagonizados por Sâmia, a mãe, prima de Fernando, durante o velório, tão terríveis e tenebrosos quanto a morte da criança em si, parecia, numa premonição que apenas a partir do ano seguinte começaria a angariar sentido, dançar num ritmo a um só tempo frenético e fúnebre por seus pensamentos. Ao ter que "morgue" nada mais é do que "necrotério", Natália pensa que, pelo contexto, já deveria ter desde logo o entendido. Mas, de todo modo, agora já sabe. E desde logo ela passaria a fazer estranhas associações, conexões com outras palavras... Morgue, morte, amor, morrer, motor, matar, amar. Vômito, túmlo, creche, colher. Cadeira, rodas, planta, plano, pau. Associações que, com Fernando agora ali morto ao seu lado, 36 anos do parto ao porto, hoje, mais do que nunca, conectar-se-iam, e, mais do que nunca, amargo morgue seu quarto eis.

Mas, como pode, Natália ainda tenta se defender, e, quase com sua voz, diz para si mesma a mesma frase de há pouco diante do espelho...

- Era o que ele queria!

Eis Natália no escuro. Deitada ao lado do corpo. De muitos modos quase também só corpo. Parto, quarto, morte, morgue, planta. Ao lado. Necrotério.

Gugu Keller 

quinta-feira, 13 de junho de 2013

quarta-feira, 12 de junho de 2013

3,20

Os manifestantes que, obviamente cobertos de razão, têm organizado protestos contra o absurdo aumento da tarifa dos transportes de R$3,00 para R$3,20 aqui em São Paulo, acabam se perdendo na medida em que, como aconteceu na noite de ontem, usam de violência. Coisas assim têm de ser feitas com inteligência e criatividade. Que tal, por exemplo, se as pessoas se articulassem e, doravante, sempre que tomassem um ônibus deixassem para pagar apenas quando estivessem próximas do seu destino e dissessem para o cobrador que têm apenas os três reais, que não podem, portanto, pagar os vinte centavos? Será que o cobrador chamaria a polícia? Quem fizesse isso seria preso? E se dezenas ou centenas de milhares de pessoas fizessem a mesma coisa simultaneamente? Todos os cobradores de todos os ônibus chamariam a polícia? E eles, os ônibus, ficariam todos eles parados até que ela chegasse a cada um? Podem imaginar o tumulto no trânsito, ou a ira de quem pagou os R$3,20? E se a polícia vier e resolver prender que fez a viagem e diz ter apenas R$3,00 para pagar a tarifa, o que aconteceria? Será que os delegados cidade afora mandariam prender todos em flagrante? Mas onde prender centenas de milhares de pessoas, se as delegacias e presídios já estão como estão? Abrir inquéritos? Novos processos para uma justiça abarrotada? Além disso, e se a polícia prender alguém num determinado ônibus e, logo depois, outras pessoas, no mesmo ônibus, fizerem o mesmo? Iria começar tudo de novo em cada ônibus? Não é preciso pensar muito para observarmos que, com um pouco de criatividade e inteligência, desde que, é claro, haja também um mínimo de articulação, organização, e, sobretudo, união, entre nós, cidadãos tão fartos desses tantos descalábrios governamentais, poderíamos, sem praticar qualquer ato de vandalismo ou violência, fazer com que esse tipo de coisa rapidamente se revertesse, já que seria por óbvio impraticável, numa situação assim, que a reivindicação, absolutamente justa, insista-se, sobretudo em se considerando a qualidade do serviço prestado, não fosse de pronto revista pelas autoridades, que, do contrário, decerto sofreriam um desgaste sem precedentes.
 
Gugu Keller

terça-feira, 11 de junho de 2013

A Vida é Bela

Considerando coisas como a assustadora escalada da violência em nosso país, a calamidade na saúde pública, na educação pública, nos transportes públicos, o estado crítico das nossas estradas, das nossas cidades, a população de rua, os mendigos e viciados abandonados à própria sorte, os pedintes nos faróis, o sub-emprego e o tanto trabalho escravo, a fome, a exclusão, a privação, a elitização, a abissal injustiça social, a corrupção sem limites, os esquemas, as milícias, as quadrilhas infiltradas nas instituições, os impostos absurdos quase sem qualquer contrapartida que de algum modo os justifique etc, etc, etc, ao mesmo tempo em que vemos e ouvimos as nossas principais autoridades insistente e eloqüentemente falando do quanto o país avançou, que nunca estivemos tão bem, que somos hoje um exemplo para o mundo, que erradicamos a miséria e a pobreza, que a nossa democracia é sólida e inabalável, etc, etc, etc, tive a clara percepção de que a nossa situação é extremamente similar à que vemos retratada no consagrado filme "A Vida é Bela", de Roberto Benigni. É ou não é, meus amigos, praticamente a mesma coisa? Hum? O único problema, ao menos é o meu caso, é que nem todos somos tão ingênuos quanto o garoto da história para acreditar... Ou será que somos?

Gugu Keller

segunda-feira, 10 de junho de 2013

domingo, 9 de junho de 2013

sábado, 8 de junho de 2013

Darkness

Se há sempre uma luz no fim do túnel, não raro há túneis sem fim.

Gugu Keller

sexta-feira, 7 de junho de 2013

A Esquina - Capítulo 40

Terça-feira, 29 de julho. Quatro horas da tarde.

Como quem, de certo modo, o faz para para sempre nele ficar, Natália cruza o portão e adentra o cemitério. Numa espécie de auto-cortejo fúnebre, mais solitária do que jamais concebeu, caminha lenta pela larga alameda central. Rasgada, arrasada, resto, a cada passo muda de idéia sobre a viver haver ou não algum sentido em continuar. A certa altura, já há muitos segundos mas poucos passos alameda adentro, ela repara no quão o lugar é belamente arborizado. Sim. É o verde das plantas dando, pensa, vida à morte. Caminhando como quem já não quer ir, Natália não imagina o quanto a palavra "planta" será perto dela pronunciada nos próximos três anos, sempre com um irônico sentido que tudo terá a ver com a divagação vida-morte do momento. Caminha. A tarde é fria. O vento espatifa-se gelado no seu rosto. Duas mulheres vêm adiante em sentido contrário. Tanto quanto, e é pouco, pode, ela tenta se orientar a partir das informações passadas na ante-véspera pelo tal dr. Clóvis Hernandez, quadra 13, túmulo 27. Pequenas tabuletas, afinal ela observa, mostram o número de cada quadra. Como se, numa estranha espécie de escuro turvo, tateasse uma realidade disforme, Natália continua lentamente caminhando. Passo com a perna direita e nada mais vale a pena. Passo com a esquerda e é preciso ser forte. Com a direita e, não, não vale. Com a esquerda e, sim, "força!", "coragem!", até que, quando procura com os olhos já nublados de pesadas perspectivas lacrimais o número da próxima quadra, Natália pisa num buraco e, torcendo contundentemente o tornozelo direito, cai com um grito de dor e susto...

- Aaaaiii!!!

Sem saber devido a qual das dores, a da já tomada de inchaço torção ou a de todo o contexto, Natália, oculares nuvens negro-avermelhadas, chora. As duas mulheres se aproximam e a acodem. Quando uma delas, jovem, morena e bela, dirige-lhe a palavra, a voz lhe soa extremamente estranha...

- Se machucou?

Atinando que aquele dolorido contato com o chão cinza e duro de um cemitério pode ser um sinal de que melhor seria estar debaixo dele, Natália responde às lágrimas...

- Acho que torci o pé...

Com a mesma voz estranha, rachada, desafinada, a morena bonita diz para a outra...

- Mércia, me ajuda aqui a levantar ela!

A outra ajuda e ambas pelos braços amparam Natália, que assim se levanta.

- Obrigada! Muito obrigada!

A de que ela agora sabe o nome, Mércia, abaixa-se a seguir e apanha o buquê de flores que Natália trazia, e que ficou caído no chão.

- Ó! Toma aqui as suas flores! Nossa! Sabe que nós compramos um buquê igualzinho a este agora há pouco...?

Estranhamente, também esta, a tal Mércia, tem uma voz bastante incomum, meio que fora de tom. Finalmente, podendo-as então observar um pouco melhor, Natália entende o porquê. Não são, na verdade, duas mulheres, mas dois travestis, o primeiro, o que não é a Mércia, impressionantemente belo e feminino, mas decerto claramente um travesti.

Natália agradece pela gentileza e experimenta o pé torcido com um pouco mais de peso de seu corpo. A dor é grande mas ela acha que dá para andar.

- Tudo bem? - pergunta ainda o travesti bonito, que, tanto quanto Natália consegue observar, parece há pouco haver também chorado.

- Acho que sim... Podem deixar que eu me viro... Obrigada!

- Talvez fosse bom você ir a um hospital...

Os dois travestis se vão. Natália pensa em Fernando, ainda internado com seu definitivo quadro de tetraplegia, e conclui que, fora "cemitério", "hospital" é a última palavra do mundo que ela gostaria de ouvir. Mas logo lhe vem à mente a prima Sâmia e o velório de Calú, e, com eles, aquela palavra "morgue", aquela maldita nefasta palavra, "morgue", e, agora, como Fernando naquela noite, futebol maldito e nefasto, razão de tudo talvez decerto, Natália eis mancando cheia de dor, esquina, hospital, cemitério, túmulos, tombo, e, examinando drogada de pranto os recentes instantes, tabuletas, buraco, queda, torção, travestis, ela a chorar se sente ali perdida como Alice, a do "País das Maravilhas", mas numa versão que não há, underground, depressiva e noir.

Passo, dor, passo, medo, passo, lágrimas, passo, desespero. Eis enfim a tabuleta com o número 13. Natália manca e chora. E anda e ora. Lágrimas, lápides, labirinto. Lado ímpar. Passo, passo, passo. 1, 3, 5, 7, 9, 11, 13, 15, 17, 19, 21, 23, 25, 27. Sim. É. Eis. Como disse o dr. Clóvis, pelo recente do acontecido, ainda não deveria haver, e não há, entre as placas de bronze a com o nome da nova ocupante, mas, sim, é, eis, lá está no túmulo, sobre o qual há um buquê de flores parecidíssimo com o que Natália traz, aparentemente ali recém-depositado, o nome da família. Eis. É ali que ela jaz.

Como se por um instante não sentisse o tornozelo inchado, Natália, após depositar sobre o mármore também o seu buquê, deixa, tanto quanto mais e mais lágrimas pelo rosto, a si mesma cair sobre os seus joelhos diante do jazigo, os braços agora a sobre ele se apoiarem enquanto os peitos quase tocam a portinhola, e uma palavra então ecoa sem parar de sua boca, que perdigoteja trêmula, além das lágrimas, uma densa, fosca e ungüenta baba branca...

- Perdão!... Perdão!... Perdão!... Perdão!... Perdão!...

Os minutos se passam. Frio do vento, quente das lágrimas. Natália ergue o rosto e olha para o céu cinzento. A seguir fecha os olhos, que então ardem de sal, e aos pedidos de perdão acrescenta uma promessa...

- Eu juro!... Eu juro!... Nunca mais eu vou trair!... Juro pela minha vida!... Juro pela tua vida!... Eu quero estar aí embaixo, com você, se eu voltar a trair!... Nunca!... Nunca mais!... Eu sei que foi você quem disse para eu ir lá, para ver o que acontecia... Mas eu não podia ter feito o que eu fiz!... Eu não podia!...Olha aí o resultado!... Eu te perdi!... Eu te perdi para sempre!... Por minha culpa!... É!... Eu te matei!... Assassina!... É isso que eu sou!... Uma assassina!... Eu não podia ter feito aquilo!... Eu não podia!... E ainda bebi daquele jeito!... Eu sou uma vaca!... Uma assassina!... Uma filha da puta!... Eu estraguei tudo!... Eu fodi com tudo!... Eu te matei!... Eu te mateeeeeeeeiii!... E o Fernando?... Olha só o que eu fiz com ele!... Que merda!... Que merda, meu deus do céu!... É minha culpa!... É minha culpa!... É tudo minha culpa!... Me perdoa, pelo amor de deus!!!... Eu juro!... Eu juro!... Eu juro que nunca mais!...

Apoiando-se com as mãos no túmulo e sobre o pé bom, Natália se levanta mas subitamente sente-se tonta. Ela ainda se sustenta no mármore mas agora tudo gira. Eis o cinza entrecortado de verde da quadra 13 a girar feito um carrossel, santos e anjos de concreto qual cavalos de cowboys. Um nó no estômago, pontadas na nuca, náusea, embriaguez e, numa repentina espécie de implosão explosiva, eis Natália, gêiser magmático de seu angustiado esgotamento, a caudalosamente vomitar sobre o túmulo. Culpa, bile, arrependimento e suco gástrico. Mármore, flores e a poça morna amarelada.

27. Náufraga do navio da vida, Natália eis sentada no chão diante do túmulo. Dez segundos, vinte, trinta, tontura ainda. Decide. Como um soldado a avançar na guerra, ali, no piso abrigo do cemitério, rasteja. Sim, restou-lhe, rasteja. 25. Não, nunca mais! Reage. Agora engatinha. 23. Seu tornozelo dói. Continua. Lentamente avança em retirada. 21. Levanta-se afinal. Trôpega, caminha trapo. 19, 17, 15, 13. Manca, dói, treme, tonteia, tateia, escuro, disforme. 11, 9, 7, 5, 3, 1. Alameda central. Manca, Natália anda. Panda, Natália manca. Perda. Passa pelo ponto onde pisou em falso e caiu. Observa no chão uma flor igual às do seu buquê, e às do outro que no túmulo havia, que decerto naquele momento despercebida ficou para trás. Apanha-a e pensa em Fernando, que sempre lhe presenteou com flores durante o namoro, e durante o noivado, e também nas datas importantes após o casamento. Leva a flor aos lábios e com eles a toca de leve. O gesto, entretanto, a faz subitamente pensar em Rodrigo, novamente e sempre desde já com o pênis em ereção, o que, já no segundo seguinte, a faz sentir uma nova ânsia e mais do que nunca odiar a si mesma. Vazio, contudo, o oco do estômago, o vômito já não vem. Ela anda. Manca. Num cesto de lixo que vê já ao lado do portão, repetindo em voz baixa para si mesma que, não, nunca mais, joga, e com ela Rodrigo, a flor. Também ali, numa providencialíssima torneira que encontra, lava o rosto e bochecha a tirar o amargor biliar de sua boca. Levantando a seguir a barra de sua calça, avalia um pouco mais pausadamente a contusão.

São quase cinco quando Natália deixa o cemitério. Pé torcido, tombo, desespero, vômito. Sem ainda nem de longe imaginar que o pesadelo que para Fernando começou com um pé torcido terminará um dia com um vômito, ela novamente pensa nele, a quem pretende ainda hoje ir ver no hospital, onde, talvez, afinal, conforme sugeriu o travesti, mande examinar o seu tornozelo. A caminho de um ponto de táxi algumas dezenas de metros adiante, Natália manca.

Gugu Keller

quinta-feira, 6 de junho de 2013

quarta-feira, 5 de junho de 2013

terça-feira, 4 de junho de 2013

segunda-feira, 3 de junho de 2013

domingo, 2 de junho de 2013

Eco

Quem julga pela aparência decerto reprova o seu próprio conteúdo.

Gugu Keller

sábado, 1 de junho de 2013