sábado, 31 de agosto de 2013

Obrigadíssimo!

Queridos amigos...
 
Ontem, conforme planejado, com muita alegria e emoção postei aqui o 52° e último capítulo de meu romance "A Esquina".  Uma vez mais, agradeço imensamente a todos os o que me incentivaram nesse projeto. Agradeço a todos comentários, críticas  e sugestões, tanto os feitos aqui, através do blog, quanto os pessoalmente. Aliás, mesmo o tendo concluído, continuo sempre receptivo a essas sugestões e críticas, até porque, após uma revisão que farei no texto, ele será publicado em livro no Clube de Autores. Muito obrigado! Obrigadíssimo mesmo a todos! Vocês não imaginam o quanto estou feliz com este momento... E é maravilhoso o poder compartilhar com vocês...
 
Muitos beijos!
 
Gugu Keller

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

A Esquina - Capítulo 52

Segunda-feira, 1° de setembro de 2008.

07:00

O despertador tocou sem cumprir aquela que "ao pé da letra" seria a sua função, já que, afinal, não se desperta o que há muito está desperto, e a verdade é que Natália, desde que se deitou, por volta da uma hora, não chegou a dormir um instante sequer. A pizza de comemoração pela data na véspera, mesmo com a presença de amigos queridos, como Camila, Carolina, Hugo e alguns outros, foi para ela não mais do que uma obrigação desprovida de qualquer sentido. Mexia muito com as suas emoções o fato de ela agora ter 36 anos, a mesma idade que Fernando completava quando ela o matou, somado à falta que, apesar de terem sido com ela apenas três as sessões, e já há cinco anos, a dra. Ana Clara, a quem também matou, insistia em lhe fazer. Ademais, e talvez sobretudo, pesava-lhe insuportável a recente decepção com Rodrigo. Sim, e, relembrando ainda e sempre a terapeuta, e tudo o que acontecera naquele tão louco e fatídico julho de 2003, e, agora, principalmente, aquela tarde, aquela única tarde/noite com ele, Rodrigo, já num outro julho, este bastante recente, seis semanas atrás, Natália, às lágrimas, como jamais antes admitiu nada, admitia enfim para si mesma que, sim, tanto quanto já o odiava, apaixonadamente amava aquele homem. E nisso tudo, sem lograr pegar no sono por sequer um instante, ficou a pensar noite adentro, até que o som de alguns passarinhos anunciasse a proximidade do amanhecer, e o despertador, um pouco depois, a sua chegada, segunda-feira, o seu de fato primeiro dia aos 36.

07:15

Quinze minutos mais na cama e está decidido: Natália não vai ao trabalho hoje. Não, não tem condições. Aproveitará o seu aniversário na véspera para alegar excessos que na verdade não ocorreram e dizer-se indisposta. Há muito não falta afinal. Ninguém haverá de reclamar. Sim, tirará a segunda-feira para si, para pensar, refletir, relembrar, eventualmente, se possível for, planejar o porvir, quem sabe procurar uma nova, ou um novo, terapeuta, tentar, enfim, a partir de hoje, idade nova, virar a página, deixar, tomara apenas por ainda hoje, primeiro dia, 36 anos, e dor há, como há, ela a negar não se atreve, doer tudo o que de doer tiver. Natália vai até a cozinha e toma uma xícara de café. A manhã é fria. Ela volta para a cama. Programa o despertador para as nove horas e se deita. Cobertores, pensamentos, lembranças. Crimes, culpa, desejo. Uísque, esquina, hotel. Café.

09:00

- Jurídico, bom dia!

- Quem está falando?

- Francisco!

- Ô, Chico... Aqui é a Natália...

- Natália!!! A aniversariante!!! Onde você está? Pensamos que já estava chegando com o bolo...! E para a gente dar os parabéns, é claro...!

- Obrigada! Mas é que eu não acordei muito bem, Chico...

- O quê? Vai dar o cano? Deve ser para não trazer o bolo...!

- Amanhã eu levo... Prometo...!

- Já sei! Abusou na comemoração?

- É... Foi por aí mesmo...

- Tá! Tudo bem! A gente entende...

- Você avisa a Elisa?

- Pode deixar!

- Amanhã eu tô aí...

- Vê se se cuida, hein? Vai ver que é idade que já está pesando...!

- Tudo bem... Obrigada, Chico!

- Beijão! Melhoras! E parabéns por ontem!

- Obrigada!

09:05

Eis Natália de volta à proteção de seus cobertores. Para um algo que ela ainda não sabe o que é, mas que é o que quer, o que precisa, o que de muitos modos necessita fazer, o dia está garantido. Trabalho só amanhã.

09:15

Com o seu corpo de meio que entorpecido embaixo das cobertas, algo na mente de Natália insiste em não a deixar dormir. Segundos, minutos, lembranças, meses, anos, culpa, desejo. A culpa pelo desejo, o desejo por, apesar do desejo, superar a culpa. Vida que correu na reta, vida que cruzou a esquina, vida em que o tempo corre, parece-lhe claro agora, sempre de volta ao momento em que, naquela esquina, de certo modo, de muitos modos, do mais triste e aniquilador dos modos, parou no outrora. Pisar fundo, psicoterapia.

09:30

Aceitando que o sono não virá, e que ainda não sabe do que se trata o algo que hoje decerto fará, Natália se levanta e vai de novo até a cozinha, onde apanha o aparelho de som microsistem que lá costuma deixar, já que é normalmente quando está cozinhando que o usa. Pluga-o na tomada ao lado da cama e o põe sobre o criado-mudo. A seguir, vai até a sala e pega alguns cds no ármario onde os guarda. Pega vários das bandas surgidas nos anos 80 que, qual Fernando igualmente amava, tanto ama. U2, New Order, Tears For Fears, The Cure, Smiths. Sente um baque no peito quando se depara com o "Music For The Masses", do Depeche Mode. Nunca mais, desde aquela noite, atina, ela voltou a ouvir Depeche Mode. Ademais, apenas agora atina também, jamais pensou no que teria acontecido com o exemplar do "Violator" que Fernando e ela, muito tempo depois ela disso se lembrou, ouviam no carro no momento do acidente. Teria o cd se quebrado com o impacto? Jamais, óbvio é, saberia. Após hesitar, ela deixa o "Music For The Masses" no armário da sala e vem com os outros para o quarto. No meio do caminho muda de idéia e pára. Volta e o apanha. Ajeita-se então novamente na cama e, justamente por ele, o "Music For The Masses", começa a ouvir os cds.

13:15

Depois de, do Depeche, o "Music For The Masses", Natália ouviu, do The Cure, o "Desintegration", dos Smiths, o "Meat Is Murder", do New Order, o "Low-life" e, do Tears For Fears, o "Songs From The Big Chair", após o que decidiu voltar ao primeiro. Sim. Eis Depeche Mode, a banda que tocava, e com quem ela cantava junto naquela madrugada, alcoolizada, angustiada, culpada e a segundos de, para muito mais culpa, mudar para sempre a sua vida, novamente a embalar seus pensamentos. Ouviu a primeira faixa, "Never Let Me Down Again", a segunda, "The Things You Said", até que, no meio da terceira, "Strangelove", ela repentinamente se levanta, desliga o aparelho e vai até o banheiro, onde lava o rosto e escova os dentes. A seguir, rapidamente escolhe uma roupa e se veste para sair.

13:22

Natália esquenta água para fazer mais um café. Solúvel, é só misturar, adoçar e está feito. Mas, uma vez pronto, desiste. Joga o café na pia e vai até o bar na sala, ao lado do armário onde guarda seus cds. 

13:24

Natália apanha uma garrafa de uísque. Pensa, hesita, decide, volta atrás, retome, decide, estorna, rasga-se, emenda-se, desiste. Devolve a garrafa ao bar e vai sair. Ei-la na porta.

13:25

Da porta, Natália volta ao bar. Faz com o uísque o mesmo que há poucas horas fez com o cd do Depeche Mode. Sim, volta à idéia. Abre a garrafa e dá alguns goles no gargalo. Devolve a garrafa ao bar e volta para a porta. Sai. 

13:37

Natália dirige. Faz sol mas frio no começo de tarde. Quase ainda sem acreditar que é para lá, afinal ela sabe aonde vai. A cada quarteirão que vence, pensa várias vezes em desistir, do que, de desistir, sempre desiste todas as vezes. Vai em frente. Ruas, esquinas, semáforos, vendedores de balas. Nunca mais, pensa, ela viu Dudú. Onde andará? Dirige.

13:55

A segunda-feira é de trânsito intenso. Mas Natália não se importa. Pressa não há. Ruas, esquinas, semáforos e já venceu metade do caminho. Dirige. De repente, contudo, uma nova idéia. Natália pensa. Decide. Sim. Mas onde? Uma loja... Uma loja... Uma loja... Sim. Lembra-se. Muda o caminho. Não, não é longe. Dirige.

14:12

Assistida por um guardador de carros, Natália estaciona no quarteirão seguinte à loja. Dá um trocado ao sujeito e caminha. Faz sol mas venta forte e frio. Passo, passo, passo. Entra na loja.

- Boa tarde!

- Boa tarde! Posso ver o que você tem aí de Depeche Mode?

14:27

Natália entra no carro e abre o pacote com o cd. Além do plástico com o nome da loja, há um outro que a protegê-lo o envolve. Ela tira ambos e os joga no lixo. Abre a caixa e vai pôr o cd para tocar no som do carro. Não. Pára. Ainda não. Deixa o cd na caixa e o guarda no porta-luvas. Liga o carro e toca. Ruas, esquinas, semáforos. Dirige.

14:49

Área estritamente residencial, ali não há trânsito. Mas Natália vem devagar. Ei-la diante da mansão. Será ainda da família de Dudú? Nunca mais ela foi a outra festa ali. Mas sim. O provável é que sim. São tão ricos. Por que a venderiam? Natália segue. Dirige devagar. Um quarteirão e eis local exato onde estacionou o Peogeot naquela noite. Ela manobra e no mesmo local estaciona o Renault que agora tem. Desliga o motor. Pensa, reflete, relembra, planeja. Lembranças, crimes, culpa, desejo. Uísque, esquina, julho, 2003.

14:53

Natália apanha o celular em sua bolsa. Tecla o número da dra. Ana Clara, que nada, nem o acidente, nem a notícia dada naquele telefonema pelo tal dr. Clóvis Hernandez, nem todo o tempo que desde então se passou, nada permitiu que ela esquecesse. Segundos e uma gravação diz que o número não existe. Amarga, ela pensa que, de fato, por sua culpa, não, a dra. Ana Clara não mais existe mesmo. Ela desliga o aparelho. Pensa, reflete, culpa-se e liga o carro.

14:55

Novamente Natália passa lenta diante da mansão. Olha, espreita, examina, observa. Tudo quieto. As janelas, todas fechadas, do segundo andar, fazem  com que ela pense em Rodrigo. Ama-o. Odeia-o. Deseja-o. Odeia-se. Ela pára o carro e tira o "Violator" do porta-luvas. Mete-o no cd player e eis a primeira canção tocando, "World in my Eyes". Natália fecha os olhos ao ouvir o primeiro verso... "Let me take you on a trip..." 

14:59

Natália desce devagar a rua Christie. Relembra o sábado, seis semanas antes, e tem vontade de chorar. Sim, ela ama Rodrigo, a quem também odeia, e, sim, odeia Heather, a quem, mesmo sem conhecer, apenas odeia. Conjectura, a certa altura, se, aproveitando a ladeira que segue abaixo, não faria mais sentido pisar fundo como naquela noite, tobogã, mergulho, chupar, e chega até a imaginar que poderia, do outro lado, decerto com muito mais paz, continuar o seu trabalho com a dra. Ana Clara. Mas não. Pensa na cadeira de rodas, cuja manopla foi a única coisa além daquele pênis maravilhoso, o daquele seu amor a quem agora tanto odeia, que entrou em seu ânus, e, mesmo que aquilo, já a manopla mas sobretudo o pênis, tenha lhe trazido tanto prazer, ela sente um medo horrível, um medo culpado, Fernando, vômito, aniversário, 36, colher de pau, e ela então segue dirigindo devagar. Natália ouve agora, lenta ladeira abaixo, a segunda faixa do "Violator", "Sweetest Perfection". 

15:01

Pela rua Violeta Natália segue dirigindo devagar. Observa as casas, as lojas, os pedestres, os outros veículos. De certo modo indo para não chegar, dirige. A certa altura, imagina se algum dia viajará para a Austrália, mas, no segundo seguinte a o imaginar, com veemência recusa a idéia, já que, muito provavelmente, o faria por ele, a quem odeia, despreza, abomina. Sim, ama-o, adora-o, deseja-o com loucura, mas, é, odeia-o, despreza-o e o abomina. Já não rumo à Austrália, mas, abominável aborígene do amor agora admite, à esquina pouco adiante, Natália dirige. Devagar.

15:04

Ouvindo ela "Personal Jesus", o Renault de Natália é o quarto carro parado na fila do semáforo, esquina da rua Violeta com a rua Laufen. Olhando à volta enquanto quase cantarola, ela observa que ali há uma sex shop. Vem-lhe à mente uma idéia. Vem-lhe, aliás, não. Volta-lhe. Sim. Desde o acidente em que Fernando ficou tetraplégico, é-lhe uma idéia recorrente, a que ela jamais se permitiu. Não. Melhor não. Até porque o sinal abriu e ela tem que tocar, sem falar que ali, observa-se, é difícil estacionar, melhor ir em frente. Ela engata primeira e vai. Segue dirigindo. Passa pelo McDonald´s no quarteirão seguinte. São agora poucos mais atá a esquina com a Hermann.

15:13

Um engarrafamento faz com que Natália leve quase dez minutos para chegar até a esquina da rua Violeta com a rua Hermann. No aparelho de som, já a sexta música do cd, "Enjoy the Silence". Ali novamente ela pára no semáforo, mas desta vez não é um semáforo qualquer. Não. É aquele, ela realiza, em que, se  tivesse parado ao vê-lo amarelo naquela noite, tudo teria sido completamente diferente. Acima de tudo, ela não seria uma dupla assassina. Morgue. Mas talvez mais estranha das múltiplas sensações simultâneas que o lugar lhe traz, é que, a rigor, trata-se apenas de uma esquina como outra qualquer. Um minuto e o sinal ainda não abriu. Natália sente que uma lágrima vai correr de seus olhos, o que só não acontece porque um ambulante, a aparentar razoável idade, vem à janela do carro e lhe oferece balas a módico preço. Voltando a si de um estranho sepulcro automotivo, ela recusa.

15:18

Natália encontra uma vaga onde estaciona o Renault a cerca de cinqüenta metros da esquina. Ela ainda não sabe ao certo o que significa estar lá de volta mais de cinco anos depois, até porque a única que poderia ajudá-la a o compreender ela matou justamente ali, naquela noite. De todo modo, ela desliga o motor e o som e abre a porta. Desce e a tranca por fora. E eis Natália a pé, a poucos passos do lugar onde, no que se refere à sua vida, e ambos então se fundiram, o tudo se encontrou com o nada.

15:21

Natália está na esquina da rua Violeta com a rua Hermann. Atravessando aquela quando o semáforo muda, ela vai até o muro contra o qual os carros foram atirados depois que se chocaram naquela noite. Cinza, ela o toca com as mãos e agora já não segura as lágrimas. A seguir, um minuto, um e meio, ela dá as costas para o muro e fica a observar tudo. Sinal que abre, sinal que fecha, carros, ônibus, motos, pessoas, passantes. Para lá a para cá pela esquina entre as duas ruas, conforme o semáforo se alterna, ela vê aquele mesmo senhor que lhe ofereceu balas. Além dele um outro ambulante, este jovem numa cadeira de rodas, buquês de flores comercializa junto aos motoristas. Natália olha, assiste, lembra, sofre, chora. Sente vir-lhe a dor e, como nunca, deixa-a doer. Ei-la pedaços no mesmo local em que em pedaços fez sua existência. Ei-la peças, ela pensa, de um complicado quebra-cabeças que, oxalá, hoje, aproveitando a nova idade, a partir deste seu tão louco ritual, se é que assim o pode chamar, ela consiga, mesmo sem a agora impossível ajuda de quem decerto a tanto tanto a ajudaria, ela consiga ao menos começar a aos poucos encaixar.

15:22

Mas, ao mesmo tempo, para sua mais completa e absoluta surpresa, numa decerto complexíssima reação psicofísica ao extremo do momento que ela própria jamais entenderia ou a quem quer que fosse, mesmo à dra. Ana Clara, saberia explicar, eis, após vários e vários dias, ela nem se lembra, sua vagina lubrificada. É. Como às vezes, sem razão consciente ei-la excitada. E, como quase sempre, por exatamente ali estar excitada, ei-la culpada. Mais e mais culpada.

15:23

Mas não. Sincronicamente algo acontece. O farol estava aberto para a Violeta e fechado para a Hermann. Quando mudou, um carro que vinha pela primeira passou no amarelo e quase colidiu com outro, que estava parado na outra e arrancou apressadamente. Uma brecada e xingamentos de parte a parte se ouviu. O coração de Natália deu um tranco e, com ele, veio-lhe uma estranha compreensão. Sim. De repente pareceu-lhe com clareza que quem vinha, quem sempre veio, quem continua vindo desembestada pela rua Violeta é a sua culpa, a sua absurda culpa, a sua tão gigantesca culpa, sempre em rota de colisão com, vindo pela Hermann, também a toda velocidade, o seu desejo, o seu tão louco desejo, o seu também gigantesco mas acima de tudo tão humano desejo. E ei-los ali, naquela tão para ela simbólica esquina, decerto desde muito antes daquele fatídico 2003, a o tempo todo destrutivamente se chocarem. Sim. É. Claro. Bem ao lado do muro cinza há uma árvore bela e cheia de verde. Natália a observa. Sim. É. O espírito da dra. Ana Clara está ali. Sim. Está. É. Ela entendeu. Psicoterapia. Insight. Quebra-cabeças. Esquina. 

15:24

Se já o fez com o "Music For The Masses" e com o uísque, por que não mais uma vez? Sim. Mudou de idéia. Natália olha então para a sua direita. A cinqüenta metros vê o Renault estacionado. Pensa. Decide. Melhor não. O trânsito continua pesado. Vira-se para o outro lado e põe-se a andar no sentido contrário do de que veio. Caminha. Um quarterão. Caminha. Pensa em como é bom poder fazer algo tão simples como caminhar, e caminha. Dois quarteirões. Três. Caminha. Vento frio. Lágrimas secas. McDonald´s. Caminha. Rua Laufen. Procura. Lá eis. Entra.

- Boa tarde!

- Boa tarde!

- Posso ajudar?

15:41

Natália deixa a loja com as duas compras numa sacola. Mais tarde, de volta à privacidade de sua casa, fará, planejou, uso de ambas. Caminha novamente no sentido da esquina. Atravessa a rua Laufen e passa na frente do McDonald´s. Passos, passos, passos. De repente, sua vagina insistindo em manter-se melada, e agora mais ainda tendo estado naquela loja, uma nova idéia. Uma idéia definitivamente louca o bastante para ser levada à cabo hoje, nesta para Natália tão definitvamente louca segunda-feira. Ela pensa de novo na dra. Ana Clara e intui que, sorrindo, ela o aprovaria. E também ela, Natália, sorri cúmplice de si mesma, a melhor e mais gratificante, observa de pronto, cumplicidade que pode haver, enquanto volta para trás e entra na unidade da rua Violeta da lanchonete mais famosa do mundo.

15:43

Natália entra no McDonald´s. É uma loja de porte médio e, naquele horário de uma segunda-feira, está consideravelmente vazia. A uma funcionária que recolhe bandejas de sobre as lixeiras, ela pergunta onde fica o banheiro.

- Subindo aquela escada, à direita!

- Obrigada!

15:44

Ei-la no banheiro. Ninguém lá. Perfeito. Ainda não acredita que fará o que fará, mas, sim, como tudo o que não acreditaria fazer e já fez hoje, fará. Para ajudar, lembra-se de olhar rapidamente no espelho e procurar Sâmia. Ei-la lá. E, relembrando com dor o seu estranho telefonema de despedida alguns dias atrás, ela aceita que, ao mesmo tempo em que o odeia, será, sim, pensando em Rodrigo, o único com quem até hoje já o fez de verdade, que fará o que fará, e, no espelho, a mostrar os peitos sorrindo apesar do luto, novamente Sâmia lhe diz... "Dá o cu pra ele, Natália!"

15:45

Há três cabines de vasos sanitários. Natália escolhe a do canto mais longe da entrada do banheiro. Confere se está bem limpa, e está, adentra-a e tranca o fecho por dentro. A seguir, fecha a tampa do vaso e sobre ele põe a sua bolsa. Tira então o par de sapatos que usa, a calça e a calcinha. Ainda não crê que o fará, mas, sim, fará, até porque, a esta altura, o melado enre as suas pernas literal e invencivelmente a obriga. Ademais, atina, tampouco creria no que fez com a manopla da cadeira de rodas do marido, e rapidamente questiona de si mesma se teria coragem de o revelar mesmo para a dra. Ana Clara, e o fez. Imagina depois se, dos milhões, talvez bilhões de freqüentadores do McDonald's mundo afora alguém já entrou numa de suas lojas com o própósito específico de fazer o que ela está por fazer. Desejo, medo, culpa, crime. Esquina, insight, sex shop, libertação. Eis Natália a pouco de sua louca e libertária fast-food masturbação.

15:47

Natália desembrulha as duas compras. Primeiro, o pênis de borracha. Depois, o pequeno tubo de lubrificante íntimo. Abre a tampa deste e aplica uma boa quantidade na cabeça do instrumento. Sobre a tampa da privada, ao lado da bolsa, deixa o tubo a descansar, e, a seguir, levanta a perna esquerda e lá também eis o respectivo pé, o direito no chão, e ei-la assim com as intimidades posicionadas para o quanto pretende. Leva então, com a mão direita, o pênis ao ânus e lentamente o começa a introduzir. Devagar, devagar, devagar, entrou. O lubrificante, nota de pronto, não apenas facilita a operação como a torna ainda mais prazerosa. Excitadíssima, Natália leva o dedo médio da mão esquerda à vagina, toca o clitóris e passa a o acariciar. E aos poucos acelera. Mais, mais, mais, mais. Um minuto, um e meio, dois, três, Rodrigo na sua boca, Rodrigo na sua boceta, Rodrigo no seu cu, desejo, desejo, desejo, medo, desejo, esquina, esporrou.

16:05

De volta à esquina, tendo gozado o gozo pleno de quem recém aprendeu a rir sem medo da própria culpa, Natália, já sem sequer se preocupar com o que a respeito possam pensar os passantes, encosta as mãos e depois a testa na árvore Ana Clara, ao mesmo tempo em que, grata de prazer a quem tanto odeia, descobre que masturbar-se daquela forma, com um pênis de borracha e uma boa dose de lubrificante, deixa em seu ânus, graças ao último, uma agradável sensação de que lá eis, ainda a escorrer melado, o esperma daquele por quem se fantasiou. Um minuto, dois, três. Ainda tocando a árvore com as mãos, acariciando-a, Natália volta a observar a esquina. Farol abre, farol fecha, carros, ônibus, motos, o velho vendedor de balas, o cadeirante que vende flores. Flores? Sim, é isso! Natália olha para árvore e tem uma outra idéia. Pensa. Decide. Sim. Não, definitivamente jamais procurará outro terapeuta, como em alguns momentos, e ainda nesta manhã, chegou a cogitar. Não. Sim. Sua terapeuta é a dra. Ana Clara, em cujo espírito naquela árvore, através do seu tronco, ela agora dá um beijo antes de ir fazer mais uma compra.

16:11

- Boa tarde!

- Boa tarde, madame! Leva flores hoje?

- Este buquê está quanto?

- Este pra senhora eu faço quinze reais!

16:52

Com nas mãos o buquê de flores comprado na esquina, Natália caminha cemitério adentro. A tarde é fria. O vento vem gelado em seu rosto. Passando pelo ponto onde cinco anos antes torceu o pé e levou um tombo, ela agora anda com cuidado. Lembra-se das duas mulheres que vinham em sentido contrário, uma delas bastante bela, que a acudiram e que, de perto, pareciam travestis. Seriam mesmo? Por que não? Travestis, afinal, conclui, também hão de freqüentar cemitérios, sobretudo sendo vítimas contumazes de tanta violência preconceituosa e de doenças como a aids. Natália caminha. Passos, passos, passos. Pelas tabuletas orienta-se em busca das coordenadas que, tanto quanto de seu próprio nome, jamais se esquecerá, quadra 13, túmulo 27. Passos, minutos, passos. Caminha.

16:55

Eis a tabuleta com o número 13. Natália caminha. Lápides, lápides, lápides. Lado ímpar. 1, 3, 5, 7, 9, 11, 13, 15, 17, 19, 21, 23, 25, 27. Eis. Sim. Chegou. Além do nome da família no jazigo, ao contrário da primeira vez em que ela lá esteve, quando o enterro era muito recente e tal ainda não havia sido fixada, vê-se, entre outras, uma placa de bronze com o nome dela e as duas datas que ponteiam uma existência humana neste mundo...

Ana Clara Wilson
*12-09-1969
+20-07-2003 

17:00

Exatamente no mesmo ponto sobre o túmulo onde cinco anos antes vomitou, ela se lembra bem, Natália deposita o buquê de flores. Depois pensa, olha, observa, planeja, calcula, conjectura, considera. Olha à volta, o vento frio batendo em seu rosto, e nota que ninguém há por perto, e, ainda sentindo no ânus o agradável trauma da emborrachada introdução masturbatória, bem como a melhor ainda lubrificação do esperma fantasioso, ela se senta diante do túmulo, bem perto da portinhola, com as pernas cruzadas na popular posição de lótus, seus joelhos chegando a tocar o metal trabalhado. Um minuto, dois e, após respirar fundo, Natália começa a falar...

17:03

- Boa tarde, dra.! Bom... Faz cinco anos que eu te matei naquela coincidência tão trágica e - nossa! - tanta coisa aconteceu de lá para cá... Você sabe que o Fernando, meu marido, ficou tetraplégico naquela batida... Acho que você se lembra que era a festa do Dudú naquela noite... É... Muitas coisas aconteceram...

17:08

- ... e aí eu acabei matando o Fernando desse jeito, sufocado com vômito, ajudando com a colher de pau... E nunca ninguém imaginou que não tivesse sido um acidente... Ai, dra.... Foi tão horrível aquilo tudo...   

17:15

- ... e eu nunca mais o havia visto, até que, um mês e meio atrás, assim, do nada, ele me procurou... Quando ele disse no telefone que era ele, Rodrigo, eu mal pude acreditar...

17:17

- ... é, eu tinha feito aquele juramento pra você aqui mesmo, de que nunca mais eu iria trair o Fernando... Mas acho que a minha vida sempre foi isso... Sempre voltar atrás naquilo a que eu me proponho e acabar me sentindo culpada... Sempre culpada... Culpa, culpa, culpa, culpa...

17:21

- ... a gente se encontrou num quarto de hotel... Foi num sábado, 19 de julho... É... Por coincidência, no quinto aniversário do acidente, no quinto aniversário da tua morte...

17:24

- ... foi maravilhoso! Simplesmente maravilhoso!

17:30

- ... e a gente tinha ficado de se ver no fim de semana seguinte... Mas ele não ligou... Aí eu acabei ligando... Liguei várias vezes, um dia, outro dia, deixei vários recados, mas ele não retornava... Eu fiquei muito mal... Ai, no começo de agosto, ele me ligou...

17:33

- ... e eu disse: Como é que é??? Austrália??? Você está indo para a Austrália???

17:35

- ... é claro que eu não acreditei nesse papo de reencontro com a ex-mulher... Ele deve é ter ido atrás daquela maldita intercambista... Que dizer, no fim das contas, o Fernando não estava errado... O Rodrigo teve, sim, alguma coisa com a desgraçada... E deve ter até hoje, né? Foi pra lá atrás dela...

17:38

- ... é, tem um cara que tá me ligando... É que outro dia eu estava meio entediada e acabei entrando numa dessas salas de bate-papo da internet, e conheci esse cara, o Gladston...

17:41

- ... nas fotos na internet ele parecia com um pouco mais de corpo... De perto pareceu tão magro...!

17:42

- ... é um cara meio sem naipe, entende? Não sei se dá para ter alguma coisa séria... Mas sei lá... Hoje eu percebi tanta coisa, dra.... Talvez valha a pena dar uma chance pra ele, mesmo que seja só para "ficar"...

17:45

- ... então eu te agradeço por tudo, dra....! Muito obrigada mesmo! No sábado eu volto para a gente continuar...! Como durante a semana eu trabalho e à noite, obviamente, o cemitério está fechado, vamos fazer as nossas sessões aos sábados pela manhã, ok?

17:48

Natália abre a bolsa sobre o túmulo e dela tira o seu talão de cheques. Preenche um cheque no valor de R$300,00, nominal a Ana Clara Wilson, e o destaca.

- Olha... Eu tava te devendo três sessões... Com a de hoje são quatro... Vou deixar pago, tá?

17:50

Natália dobra o cheque e, por um vão na portinhola, atira-o dentro do túmulo.

- Tchau, dra.! Até sábado!

17:55

Naquela mesma torneira ao lado do portão principal do cemitério em que, cinco anos atrás, bochechou para tirar o amargor do vômito de sua boca, Natália lava o rosto e toma alguns goles d'água. A seguir, cruza o portão e põe-se a caminhar até o Renault, estacionado a cerca de cem metros, um pouco depois de uma banca de jornal que se situa na calçada rente ao muro amarelo. Passo, passo, passo. Frio. Natália caminha.

17:57

Natália passa pela banca e, dois passos dela adiante, toma um susto e pára. Tendo olhado de soslaio, tem a sensação de, numa manchete de uma revista com a capa exposta, ter lido a palavra "MORGUE". Um segundo, dois, três. Ela volta e vai conferir. Na verdade, apura, trata-se de uma revista especializada em veículos esportivos, e o que está lá escrito em letras grandes é "MORGAN", uma luxuosíssima marca inglesa, segundo lê embaixo. De todo modo, Natália sente algo estranho. O que mais quer dela esta segunda-feira? Natália caminha e eis seu carro logo adiante.

19:05

O Renault dobra a esquina e eis Natália no quarteirão de sua casa. Aquela sensação estranha, contudo, persiste e faz com que ela passe diante e não entre. Hoje, percebe e aceita, ela é toda instintos, toda a sua afinal vitória do desejo sobre a culpa. Ei-la já na esquina seguinte e ela atina que, desde a esquina, aquela esquina, mesmo tendo levado mais de uma hora no trânsito após deixar o cemitério, ela não acionou mais o cd player, o que faz então. Está tocando a parte final da sexta faixa do "Violator", "Enjoy the Silence". Natália dirige. É. Já sabe para onde vai. "Enjoy the Silence" termina e ela ouve a faixa 7, "Policy of Truth", após o que, por não gostar tanto das duas últimas músicas do cd, que tem 9, ela dá três toques no jump forward e volta à primeira, "World in my Eyes". Noite, trânsito, carros, faróis, esquinas. Natália dirige.  

19:53

Natália embica o carro na garagem do hotel e o entrega para o manobrista, que acaba de trazer para o dono um luxuoso carro esportivo. Ela imagina se não seria um Morgan, mas não entende de carros para saber e não vê sentido em o indagar, seja do dono, seja do manobrista. Na recepção, pergunta se está vago aquele mesmo quarto no 12° andar em que ela esteve com Rodrigo quarenta dias antes. A resposta é positiva e ela o pede.

20:08

Nua e só, Natália olha pela janela do 12° andar. Através do vidro, observa a cidade iluminada, seca e fria numa noite típica de inverno. Pensa. Relembra aquela noite fatídica e, autopiedosa, analisa num amargo flashback a vida que levou nos últimos cinco anos. Mas agora, pensa e sorri pensando, que retomou sua terapia, sim, de algum modo, de muitos modos, tudo, sim, tudo começa a fazer algum sentido. Natália pensa. Deseja, depura-se, decide.

20:11

Pelo interfone do hotel, Natália liga para a recepção e pede um uísque.

20:15

Natália tira o pênis de borracha de sua bolsa e com ele vai até o banheiro, onde cuidadosamente o lava com água a sabonete. A seguir, toma um longo banho quente, lavando também com extremo cuidado, ânus e vagina. Enxuga-se depois diante do espelho com todas luzes do banheiro acesas. Quando acaba, pendura toalha e mantêm-se toda nua, ainda a se olhar no espelho. Segundos e Sâmia aparece sorrindo. Mas Natália desta vez se antecipa. É ela quem agora, peitos à mostra, diz à prima de seu marido... "Tudo bem! Eu sei o que fazer!"

21:04

Após bebericar do uísque, sempre nua Natália se deita na cama, o pênis de borracha qual um bicho de pelúcia descansando sob a sua axila esquerda. Por um instante, indaga de si mesma se seu novo pretendente haverá de gostar de práticas sexuais tidas como menos ortodoxas. O provável é que sim, pensa. Todo homem, afinal, dizem, gosta. Ela apanha o seu celular, que já havia tirado da bolsa e deixado sobre o criado-mudo, e disca. Dois segundos, três, cinco. A pessoa atende do outro lado...

- Alô!

- Gladston? Sou eu! Natália!

FIM

Gugu Keller 

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Último

Com muita alegria, desde que nenhum imprevisto me impeça, amanhã, sexta-feira, dia 30, postarei o 52° e último capítulo do meu romance "A Esquina". Agradeço imensamente a todos que acompanharam, tanto quem comentou quanto quem não. Muitíssimo obrigado! Foi maravilhoso levar a cabo este projeto junto a vocês! E como passou rápido, não é mesmo? Puxa vida! Parece que foi ontem que comecei...
Bjs a todos!
 
Gugu Keller
 

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

terça-feira, 27 de agosto de 2013

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

domingo, 25 de agosto de 2013

sábado, 24 de agosto de 2013

Sensibilidade

O belo depende menos do o ser do que do de quem o admira saber ver.

Gugu Keller

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

A Esquina - Capítulo 51

Do U2, principalmente "Bad", "40" e "Where the Streets Have No Name"; do New Order, sobretudo "This Time of Night", "True Faith" e "Confusion"; do Tears For Fears, várias vezes "Shout", "Woman in Chains" e "Memories Fade"; do The Cure, incansavelmente "A Night Like This", "The Kiss" e "Pictures of You"; e, por fim, do Depeche Mode, sem parar "Somebody", "I Feel You" e World in my Eyes". Desde o telefonema de Dudú com aquela notícia, por volta de dez da noite de sexta-feira, avançando pela madrugada de sábado até o dia raiar, com um par de fones Rodrigo ficou ouvindo em bom volume todas aquelas canções daquelas bandas surgidas nos anos 80 que ele sempre tanto amou. E, ainda e mais do que nunca, sentindo-o, amando-a, ele pensou no seu grande amor, com quem tantas vezes ouviu todas aquelas músicas que agora tanto a tudo aquilo o remetiam. Haveria, com aquela notícia de morte, chegado, viva, enfim, a grande chance? Depois de tantas andanças, Inglaterra, França, Espanha, Portugal, Itália, Alemanha, Áustria, Suiça, Holanda, Bélgica, Dinamarca, Suécia, Noruega, Finlândia, Rússia, era uma sensação indescritível saber que ela estava em São Paulo, perto, acessível, localizável, táctil, ao alcance. Com uma garrafa de uísque cheia ao seu lado, Rodrigo ficou ouvindo todas aquelas músicas, e pensando, meditando, calculando, esperando, planejando, relembrando, conjecturando, arrependendo-se, culpando-se, chorando, sofrendo. E bebendo. Bebendo, bebendo, bebendo, bebendo. Raiava o dia, U2, Depeche, New Order, e eis a garrafa vazia. Por volta da meia-noite, o telefone tocou de novo, mas, vendo pela bina que era Natália, ele não atendeu. Preferiu ficar bebendo. Bebendo. E pensando. Derretendo, desmanchando, desfazendo-se, doendo. Raiava o dia, The Cure, Tears For Fears, e eis a garrafa vazia.

Despertador programado, Rodrigo ficou na cama das sete da manhã até as duas da tarde, mas, mesmo bêbado, de tão ansioso não chegou a dormir um segundo sequer. Quanto ao telefone, que tocou outras quatro vezes, ele não atendeu. Nada, nem Natália, nem Flávia, nem Inah, nem mulher nenhuma no mundo, nem nenhuma outra notícia de morte, ou de extrema sorte, nada, nada mudaria os seus planos. No horário marcado, e era melhor, pensou, que chegasse justamente no momento do enterro, quando se encerra todo o ritual funerário iniciado no velório, sim, no horário marcado, nem que fosse a última coisa que fizesse, ele estaria lá. Apurou, antes de entrar no banho, que as ligações eram todas de Natália. Não importa. Nada importa. Se alguém que fora tão parte daquilo tudo havia morrido ontem, hoje tudo aquilo haveria de renascer.     

Eram cinco da tarde em ponto, exatamente segundo Dudú o horário marcado, quando Rodrigo adentrou o cemitério. Que todo o passado, pensou ele adentro dando os primeiros passos, aqui hoje fique, qual seu sogro, para sempre enterrado. Passos, passos, passos. Coração, compassos, passos. Golpes, coração, galope. Dudú informara tudo. A quadra era a 27. O túmulo, o 13. Pelas pequenas tabuletas, que logo observou, Rodrigo orientava-se pelo cinza arborizado. Segundos, sístoles, segundos e em seu bolso o celular vibra. Ele o apanha e vê que novamente é Natália. Sem atender, desliga o aparelho e segue caminhando. Cinza, passos, cinza, passos, cinza. Numa estranha espécie de auto-cortejo ao contrário, de volta à vida cemitério adentro Rodrigo caminha. A garrafa de uísque, entrementes, ele então sente, com uma certa ânsia cobra o preço de seu fígado. Pouco importa. Ei-lo, afinal, que assim seja, ele pensa, no seu, se é que deste modo o pode dizer, desenterro. É. Exitosa, espera, exumação. Passos, passos, procura. 27, 13.

Mas não. Já nem precisa procurar. Da capela amarela bem pouco adiante, ele vê sair em lenta comitiva uma pequena e silenciosa multidão. Rodrigo observa. Sim só pode ser. A quantidade de pessoas, sua faixa etária e elegância, o clima, a pompa, a circunstância. Sim, só pode ser. Dos homens talvez o único a não trajar terno, ele adere ao grupo. Observa alguns rostos que já viu antes. Políticos, atina. Vereadores, ex-vereadores, deputados, ex-deputados, lideranças partidárias, empresários, secretários de estado. Também, aqui e ali, agora ele vê, alguns parentes dela de que se recorda. Sim, definitivamente Rodrigo eis no enterro do dr. João Silas do Amaral Torres. Definitivamente, ela, a quem procurou por tantos países, estações, praças, cafés, consulados, haverá de estar agora a poucos metros dele, decerto na dianteira do grupo, ao lado do esquife. Passos lentos. Cortejo, corpse, cripta. Coração que corre. Treme, tremula, tamborila.

Segundos, passos, segundos, passos, segundos, meses, anos, países. Psicoterapia. Periférico naquela pequena multidão, Rodrigo a vai seguindo até que percebe que houve uma parada e que todos agora procuram posição meio que a circundar o centro dos acontecimentos. Decerto, conclui, chegou-se ao túmulo 13 da quadra 27 e os presentes se ajeitam para o sepultamento. Ato contínuo, uma voz masculina se levanta sobre o silêncio geral e começa a emitir palavras augustas em tom solene. Sem dúvida, um discurso de última homenagem àquele homem que Rodrigo tão bem sabia ter sido extremamente corrupto em sua autoprofícua vida pública. Mas isso pouco importa agora. Sem sequer ouvir as palavras, Rodrigo fica  atento à fala apenas na expectativa de que ela logo se encerre, o que, seguida por uma salva de palmas, ocorre ao cabo de um minuto e meio, e, afinal, como se de certo modo elas revolvessem a sua própria história de vida, começa a se fazer ouvir o típico barulho das pás na cal. Com o coração freneticamente disparado, qual o de um cataléptico recém desperto em adrenalina no lacrado e escuro interior de seu sepulcro acimentado, Rodrigo tenta abrir caminho entre os presentes para se aproximar. Criança perdida em praia lotada, procura, pede licença, pede desculpas, espreita, esgueira-se, até que, agora a talvez cinco metros de si, ele vê, ao lado do túmulo, não túmulo mas mausoléu, de costas, abraçada a uma outra mulher que a ampara, sim, ele vê, sim, só pode ser ela, sim, sim, é ela, sim, sim, sim, só pode ser, sim, Raquel, a sua tão amada e saudosa Raquel. Coração, cinza, voz que não sai, ânsia, cimento. Domingo, maldito domingo, domingo bendito, 20 de julho, 2003, dr. João Silas, Europa, cinco anos, Dudú, psicoterapia, sexta-feira, 25 de julho, 2008, telefone, Dudú, notícia, dr. João Silas, cemitério, cinza, cortejo, eis.

O enterro está concluído. Vagarosamente as pessoas começam a se dispersar. Alguns fazem uma rápida prece, outros se socorrem de lenços e outros, ainda, gesticulam o sinal da cruz. Quatro, Rodrigo agora vê melhor, são os ainda mais próximos do mausoléu da família. Quando, aqui e ali assistidos por outras pessoas, os dois primeiros se viram, eis que são, ele de pronto os reconhece, sua sogra e seu cunhado, mãe e irmão de Raquel. E, ao lado, ainda de costas, ainda amparada por outra mulher, sim, Rodrigo agora tem certeza absoluta, ela, sim, ela.

A dispersão aumenta. A absurda freqüência cardíaca de Rodrigo idem. Conforme todos aos poucos vão se afastando, ele dá mais dois passos adiante. Sogra e cunhado, e ele crê melhor assim, passam ao largo sem o notarem. Foram. Segundo, segundo, segundo, e eis Rodrigo, coração solo de bumbo, a dois metros de Raquel, ela ainda de costas para ele, jogando, com a mão direita, num último gesto de despedida de seu pai, uma flor branca jazigo adentro. Um quinto de segundo, um quarto, meio, dois terços e, puxada pela que lhe ampara, ela vai se virar. As pernas dele bambeiam e, mesmo a duras penas mantendo-se de pé, de certo modo, de muitos modos, ele se sente cair de joelhos sobre o cimento cinza, e sobre os cacos da tv e da garrafa espatifadas, e, com as mãos por cacos cortadas, sem sangue ele sangra, e, sangrando em lágrimas, chora. Raquel e Priscilla afinal se viram. Ei-los, dez anos se passaram, frente a frente.

Catatonia recíproca. O bombardeiro se afastou e a bomba o chão beijou. Devastação. É Priscilla quem toma a primeira iniciativa. Fala algo no ouvido direito da melhor amiga e sai da cena, deixando ali, diante do mausoléu, todos os demais assistentes igualmente já se afastaram, apenas os dois ex-cônjuges. Frio. Vento. Cinza. Cimento. Um segundo, dois, três, vinte. Vento, vídeo, cacos de vidro.

Com a boca cheia de um arame farpado feito de cabos de uísque amargo e solidificado, Rodrigo enfim balbucia...

- Eu... Eu sinto muito pelo seu pai...

Com os lábios mornos de sal glandular, ela responde semi-gaga em palavras trêmulas...

- Obrigada... Não foi o melhor pai do mundo... Mas era o meu pai...

Ele heista. Pensa. Considera. Analisa. Até que, enfim, decide falar logo antes que do sonho, se um sonho for, parece provável, acorde...

- Eu não sei se você sabe, mas ele teve um gesto muito bonito...

Ela chora com os olhos. Com os órgãos. Com os poros. Chora toda.

- O que?

Pausa.

- Foi em 2003...

Outra pausa.

- 2003?

Outra.

- Sim... 2003... Ele... Ele me chamou... Me procurou... Aí, eu fui lá na casa de vocês... E ele me contou tudo...!

A conversa segue pausada, lenta, medida, estudada. É meio como se não fossem duas pessoas ali. Duas bocas e quatro ouvidos ali. Em pleno cemitério, cinco e meia da tarde quase agora, são, isso sim, duas almas que, seus corpos já num plano abaixo em lágrimas afogados, elevam-se e, na emoção etérea de um divino reencontro, devagar trocam palavras como quem troca a mortalidade pelo eterno.

- Ele te contou, né?

Ele se assusta.

- Você... Você sabia???

- Na verdade... Na verdade eu soube ontem, Rodrigo...!

- Ontem???

- É... O Dudú esteve no velório...

Ele compreende.

- Ah... Então ele te contou...?

- Sim...! Contou...!

Pausa longa.

- E ele te contou o quanto eu te procurei depois que eu soube...?

O choro agora vem tão forte que ela não consegue responder, a não ser, afirmativamente, com a cabeça. Ele pergunta então...

- Você estava na Europa? Era a única informação que eu tinha... A de que você tinha ido para a Europa...

- Eu... Eu fiquei um tempo na Europa... Até 2003...

- 2003?

- É... 2003... Depois eu me mudei...

- Para onde?

- Austrália!

- Austrália? Não acredito! Que cidade? Sidney? Melbourne?

- Perth!

- Perth???

- Sim! Na costa do Índico!

- E... E como você foi parar lá?!?

- Eu conheci alguém na Inglaterra... Ele é de lá... Aí, nós fomos para lá...!

Pausa longa. Rodrigo a quer abraçar como nunca, nem a ela própria, ninguém jamais ele abraçou. Mas o que ela acaba de dizer traz-lhe um temor súbito, forte como tampouco ele jamais temeu. Trêmulo, pergunta-lhe afinal...

- E você... Você... Você ainda está com essa pessoa...?

Primeiro novamente com a cabeça, mas desta vez em seguida com a palavra propícia, ela responde, agora negativamente...

- Não! Ficamos juntos até 2004...! Ele se casou há seis meses...!

Alívio. Ele chora mas, de súbito todo dentes, seu coração a galope sorri.

- E mesmo assim você continuou lá em Perth?

- Sim!

- Por que?

- É um lugar muito bom para se viver... Eu tenho um bom emprego... Bons amigos...

- Entendi...

A conversa tem uma nova longa pausa. A maior até aqui. É que, meio que magicamente, ambos se dão conta, tudo que era tão complicado, de repente, de um modo rápido, está explicado. Ele chora. Ela mais. Ele ainda mais. Ela muito mais. Estudam-se. Olham-se. Definitivamente, sentem, adoram-se. Inseguro contudo, sobretudo ali, naquele lugar, naquele momento, ele imagina quanto do pranto dela seria em virtude da morte do pai, e não do fato de o reencontrar, a ele, Rodrigo. Insegura igualmente, ela por seu turno imagina que o fato de ele a ter ido procurar ali, naquele lugar, naquele momento, pode ser um sinal de que, sim, ele ainda a ama tanto quanto ela a ele, mas ainda tem medo, muito medo, de acreditar. Ele daria o mundo para a abraçar. Ela, a vida por um abraço dele. Mas ele apenas, ao menos por enquanto, o mausoléu por testemunha, tem coragem de lhe estender abertas e voltadas para cima ambas as mãos e lhe dizer, meio que em interrogação...

- Volta pra mim...?

Um segundo que, levando dez anos, dá a volta ao mundo, América do Sul, Europa, Oceania, e Raquel estende as suas mãos e segura as dele. Uma década e ei-los enfim a se tocar. Vermelhos, quentes e úmidos, os olhos se olham profundamente. De muitos modos também se tocam, fundem-se, atravessam-se. Cinco segundos, dez, quinze e, antes de dizer qualquer coisa, ela surpreendentemente tira os olhos dele e os lança à volta. Parece procurar algo, que logo acha e por uma das mãos ela agora o puxa. Ele não entende.

- O que foi? Você quer sair daqui para a gente conversar?

Mas, puxando-o com decisão, ela diz apenas...

- Vem aqui!

Ela o traz até uma árvore que, entre algumas outras, rapidamente escolheu a cerca de quinze metros do mausoléu. Olhando novamente de modo fixo para os olhos de Rodrigo, que, dejà vú, estremece ao antever o quanto vai se passar, ela no tronco se encosta e, lentamente, baixa o zíper da jaqueta de couro que veste. Depois, ele de novo com as pernas a bambear, ela abre um por um os botões de sua blusa, e, exatamente como naquela tarde, naquele sítio, o sutiã que ela usa tem um fecho frontal.

Raquel desabotoa o sutiã e, agora sorrindo entre as lágrimas, a Rodrigo, exatamente como naquela tarde, naquele sítio, oferece os peitos. Um segundo, dois, três e, como num lago alguém que correu vários metros com o corpo em chamas, o rosto ele neles mergulha um mergulho de volta à vida.

- Eu te amo! Eu te amo! Eu te amo! - diz ele a abraçando, e nos seios a mordendo, e beijando, e chupando, e sovendo, e chorando.

- Eu também! Eu também! Eu também! - responde ela com os braços o acolhendo, e o recebendo, e se abrindo, escancarando ao vento frio o seu só dele coração.

Ambos agora ajoelhados ao lado da árvore às costas dela, Rodrigo afoga-se naqueles mágicos dois volumes enquanto ela, como uma idosa solitária ao pequinês amigo único doente, afaga-lhe os cabelos, a nuca e o pescoço, até que, a certa altura, tamanha é a catarse de emoções, que Rodrigo sente uma acidez quente subir-lhe pelo esôfago intrusa às avessas. Sim, a bebedeira da noite em claro, aditivada pelo estresse daquela angústia em sua vida sem precedentes, emergia para cobrar a sua conta, e eis Rodrigo, entre beijos, chupões, mordidas e um louco desejo de de algum modo os transfixar com sua língua, vomitando sobre os mais do que nunca lindos peitos de Raquel. Quentes e ácidos, bile, malte e suco gástrico. E o vômito escorre. Mamilos, ventre, umbigo, chão.

De certo modo envergonhado mas de muitos outros não, Rodrigo olha turvo bem dentro dos olhos de seu grande amor e diz...

- Desculpe! Eu estava tão ansioso... Tão tenso... Tão angustiado por pensar que ia te ver hoje... Que passei a noite sem dormir... E bebi... Bebi muito escutando as nossas músicas... E acho que nem me lembrei de comer nada...

Perdoando o maior perdão de sua vida, comparável apenas ao que dele recebeu naquele domingo em que seu pai lhe explicou tudo, ela responde...

- Tudo bem, meu amor! Pode pôr tudo pra fora! Vem! Põe pra fora essa bebida como se fosse aquela que você bebeu naquela noite horrível, naquele dia maldito em que aquele desgraçado te entregou aquele vídeo!

Ele fecha os olhos e vomita mais sobre os seios desnudos. Soluça, engasga, baba, chora. Ela acrescenta...

- Aliás, tem uma coisa maravilhosa, sabe? Não sei se o meu pai chegou a te contar... Aquele desgraçado, aquele maldito... Ele morreu! Sim, o filho da puta está morto! Faz coisa de seis anos! É! Teve um câncer no fígado que o levou a uma morte horrível! Sofreu o diabo! Teve o que mereceu o desgraçado! E agora, meu amor, nós estamos juntos para sempre! Eu te amo, Rodrigo! Ah, como eu te amo! Vai! Vomita tudo! Põe tudo pra fora que nada nunca mais vai nos separar...!

Rodrigo lança o último jato. Como, disse-se, nada havia ingerido nas últimas horas, foi um vômito ralo, biliar, suarento, líqüido, e, a seguir, enquanto ele, aliviado como um moribundo que dá com vida do outro lado, respira ofegante a envolver a amada agora pela cintura, ela, como se o sêmem dele fosse, e tomada de um prazer que ninguém além de ambos jamais entenderia, com as mãos espalha pelos peitos o que neles recebeu, sendo que, a certa altura daquele escatológico devaneio de recém resgate, ela pensa que de Rodrigo agora quer logo ter um filho, e chega a imaginá-lo, o filho, como sendo dono daquele vômito de renascimento, que em seus mamilos eis logo após dar de mamar. Colostro.

Ainda arfante, Rodrigo se deixa cair para trás e Raquel, com os peitos abertos e vomitados vem então sobre ele. Náufrago na praia que o salvou, ei-lo deitado sobre o chão cinza do cemitério, quadra 27, com ela, só na ilha há anos, deitada em cima, ambos a se abraçarem. Assim permanecem por vários minutos, ao lado da árvore, ao vento frio.

Numa providencial torneira encontrada ao lado de um cesto de lixo junto ao portão de saída, quase seis da tarde agora, Rodrigo lava o rosto e faz bochechos com abundância. Quando Raquel e ele eis enfim em seu carro, e agora tanto faz para onde vão desde que juntos, longa e apaixonadamente o casal se beija. Um minuto, dois, três, quatro, cinco, até que ela lhe diz com um desejo quase desesperado...

- Eu quero que você faça aquilo...!

Sentindo a bola de ferro de uma máquina demolidora bater em seu estômago ainda sob escombros de pós-revolução, Rodrigo entende de pronto aquela frase tão comum nos tempos de namoro e casamento...

- Por trás?

Com lágrimas que já não correm mas que brilham estrelas em sua aura, ela com a cabeça e um sorriso responde que sim. Ele então pergunta...

- Quando?

Uma pequena pausa e, olhando um olhar de mendigo faminto diante do religioso voluntário que lhe traz um prato de sopa, ela responde...

- Agora!

Gugu Keller 
 

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Paixão

Outrora ego catatônico em tom de auto-negação, a ti num sonho agora entrego o cego cético coração.

Gugu Keller

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Os Dez Mandamentos

Eis aqui a lista dos 10 mandamentos que, ao contrário dos bíblicos, são, de modo fiel e sistemático, cumpridos por praticamente toda a humanidade...

1 - Competição
2 - Covardia
3 - Egoísmo
4 - Ganância
5 - Hipocrisia
6 - Indiferença
7 - Intolerância
8 - Inveja
9 - Ódio
10- Preconceito

Gugu Keller

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Cabeça Erguida

Até para o frustrado num confesso fracasso, o sem cansaço ter tentado é um sucesso.

Gugu Keller

domingo, 18 de agosto de 2013

sábado, 17 de agosto de 2013

Barulho Bucal

Não raro estragamos por palavras inúteis o silêncio com que diríamos tudo.

Gugu Keller

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

A Esquina - Capítulo 50

00:04

Natália e Carolina saem do banheiro e, virando à esquerda num corredor que leva a uma das salas de estar, dão de cara com Rodrigo, que, com um copo de uísque na mão, vinha em sentido contrário.

00:15

Cada um com um copo de uísque na mão, Rodrigo e Natália encontram um lugar razoavelmente discreto para sentarem e conversarem no jardim da mansão, a alguns metros da piscina.

01:23

Rodrigo e Natália conversam e bebem.

01:45

Servem-se de mais uísque. Conversam e bebem.

02:01

Conversam.

02:12

Bebem.

02:15

Peninha está dormindo no sofá da sala. Bêbada, Ana Cláudia passa pelo berço no quarto de Manoela.

02:22

Rodrigo diz a Natália que a mansão de Dudú tem muitos lugares interessantes, como um certo quarto que ele conhece no andar de cima, e pergunta-lhe se ela não gostaria de ir até lá.

02:24

Arrepiada, Natália levanta os braços levando as mãos ao alto da sua própria cabeça, num claro convite para que Rodrigo desabotoe o seu vestido.

02:30

À meia luz que transpassa as frestas das janelas, já que do quarto nenhuma lâmpada eles acenderam, eis Rodrigo e Natália a se beijarem, ela, com o vestido arriado, nua da cintura para cima.

02:33

Natália se deixa cair sobre os joelhos diante de Rodrigo. Decidida, ela leva as mãos ao cinto dele e o desabotoa. E desabotoa o jeans e baixa o zíper.

02:34

Natália abocanha o pênis de Rodrigo e o chupa. Dez segundos, quinze, vinte, vinte e cinco.

02:35

Num gesto que a Rodrigo deixa pasmo, Natália se levanta da posição em que estava a o chupar e, derramando lágrimas de seus olhos, diz-lhe atabalhoada...

- Não!... Não!... Eu não posso!... Desculpe!... Eu não posso!...

E, recompondo-se, ela abre a porta e se vai, os peitos ainda desnudos, os olhos vazando quente.

02:38

Estrangeira na praça central da maior metrópole de um país longínquo, Natália vaga pela festa disfarçando em sorrisos sem dentes suas lágrimas para quem lhe olha. Como um são bernardo com chocolate quente no pescoço, ela agora perdida na neve, um garçom a socorre com outra dose de uísque. Natália bebe. Tudo gira. Tudo menos o mundo, que para ela ainda há pouco parou para sempre.

02:59

Entre lágrimas e gelo, Natália liqüidou o quarto uísque da noite, ou será o quinto, ou o primeiro era vinho, ela já nem sabe. Vai novamente ao banheiro, lava o rosto e se olha no espelho. Como há muito não via, ei-la ali apenas si mesma, de quem sente pena, e ódio, e nojo, e, ao mesmo tempo, um estranho e revolucionário ímpeto de se salvar sem saber bem de quê. Com sua vontade de chorar ainda não totalmente satisfeita tendo definitivamente prevalecido sobre o tesão que há pouco tanto sentia, e precisando  urinar ainda que com disso preguiça, Natália se senta no vaso. Dez segundos, vinte, trinta. Olhando para a sua pequena e elegante bolsa preta, que ficou sobre a pia, ela pensa em pegar o celular e ligar para a dra. Ana Clara. Mas não. Mesmo forte, a bebedeira não a impede de avaliar o quanto o horário é impróprio. Amanhã, decide, decerto. Por ora, afinal, sem qualquer outra opção que não seja o pranto, Natália levanta o vestido, baixa a calcinha até o meio das coxas e urina.

03:00

Frio que fazia naquela madrugada, "seu" Nésio havia tomado uns goles de pinga, nada que lhe tirasse a lucidez bastante para, à luz do poste, começar a montar o quebra-cabeça que havia ganho da dona Escolástica. Cansado por ter vendido balas por horas, poucas as vendas, muitas as horas, ei-lo sentado em seu caixote, diante do qual, num outro caixote, lentamente insinuava-se nos primeiros encaixes a paisagem de montanha. Goles de pinga, peças, goles de pinga, peças, goles de pinga, peças. Àquela altura, já poucos carros passavam pela esquina. Concluiria o quabra-cabeça, decidiu, e recolher-se-ia. Uma peça aqui, outra ali, e devagar a paisagem surgia. Frio e goles de pinga. Rua Hermann, rua Violeta.

03:12

Bêbado, sentado no mesmo sofá onde, devido ao pé torcido, permaneceu praticamente a festa inteira, Fernando fala besteiras e dá gargalhadas com seus amigos Cláudio, Richard e Rafael. Natália, que ele não vê há horas, igualmente bêbada aproxima-se e lhe diz que já é hora de ir embora, com o que ele concorda, pedindo apenas um momento para ir ao banheiro. Cláudio o ajuda com as muletas. Tudo gira. Ato contínuo, ela observa que café está sendo servido numa mesa próxima à porta de saída. Sabendo que tem de dirigir até em casa, pede uma xícara com pouquíssimo açúcar. Enquanto bebe, pensa novamente na dra. Ana Clara. Amanhã decerto, decidido está, telefonar-lhe-á. Uma brisa gelada vem da porta. Natália ainda quer chorar. Frio e café. Pênis, sucção.

03:18

Como um jato de magma que numa expansiva liberação sísmica vem num brusco golpe à superfície, um forte jorro de vômito tira Ana Cláudia de seu estado fronteiriço entre o sono do esgotamento nervoso e o torpor da embriaguez da mistura de bebidas que tomou. Contorcendo-se sobre a cama já lambuzada, ela se vira para a esquerda e no chão despeja o que ainda resta daquele suco amargo de bile, malte e angústia.

03:21

Em ritmo lento, frio, goles, pinga, a paisagem vai surgindo conforme "seu" Nésio acrescenta cada peça. 50% eis encaixado. Vê-se um lago, árvores e flores. Um carro passa pela esquina. Outro minuto e outro. O sinal abre para a rua Violeta e fecha para a Hermann. Outro minuto e vice-versa. Outro e de novo. Ele encaixa outra peça. Outra. Outra. Há neve no topo da montanha.

03:24

Acompanhado por Cláudio e despedindo-se de pessoas aqui e ali, Fernando vem do banheiro apoiado nas muletas. Tendo com Natália ao lado da mesa onde se serve café, também ele pede uma xícara e põe-se a beber. Cláudio lhe pergunta se está podendo dirigir, a que ele responde negativamente deixando claro que em função da contusão e não da bebedeira, mas que está tudo bem porque é a esposa quem hoje dirige. Também de saída, Carolina aparece de mãos dadas com um rapaz que Natália não conhece, decerto, ela imagina, aquele com quem disse que provavelmente "rolaria". Também ambos pedem café. Carol observa que a amiga tem um semblante estranho, pesado, carregado, como se tivesse chorado ou vantade de chorar, ou as duas coisas, e discretamente lhe pergunta se está tudo bem.

- Tudo bem, sim, Carol! Obrigada! Só estou um pouco cansada... Sabe quando bate aquele sono?

- Tomou um café?

- Tomei! Tomei, sim!

- Então vê se se cuida, hein?

- Pode deixar...

03:33

Cláudio ainda não vai embora mas acompanha Fernando e Natália até o portão da mansão.

- Não me despedi do Dudú... - diz Fernando enquanto, dificuldado pelo alto teor alcoólico em sua corrente sangüínea, apóia-se nas muletas para caminhar.

- Não se preocupe... - responde Cláudio - Eu digo que vocês deixaram um abraço...O Dudú é especialista em sumir nas festas dele mesmo...!

- É... - observa Fernando - Deve estar com alguém num daqueles famosos quartos da mansão...

E ambos riem enquanto Natália sente um tranco no ventre e discreta e novamente lacrimeja. Frio.

03:35

O telefone de dona Eneida toca e obviamente assustada ela o atende. Mas muito mais assustada fica ao ouvir o quanto Peninha, sob um fundo de tumulto e gritaria, relata.

03:36

Ao contrário do que se fez na chegada, o álcool consumido agora muito mais o justifica, Fernando fica esperando no portão da mansão enquanto Natália vai buscar o carro. Cláudio se oferece para a acompanhar mas ela o recusa, dizendo-lhe que fique com Fernando. Ei-la então a caminho do Peogeot estacionado a um quarteirão e meio. Passos, frio, pênis, álcool, U2, lágrimas, culpa. Será que ligando para ela amanhã, Natália pensa, a dra. Ana Clara teria como a atender já na segunda-feira?

03:38

Dona Eneida desliga o telefone e, trêmula e às lágrimas, tem como imediata reação ligar para Ana Clara, que certamente poderá chamar aquele médico psiquiatra com quem trabalha.

03:39

Natália chega no Peogeot. Assistida pelo guardador de carros, abre a porta e entra. Ao pegar a chave para pôr no contato, observa-se trêmula. Muito trêmula. Parkinsonianamente trêmula. Lágrimas novamente lhe escapam. Ela olha para a bolsa que jogou no banco do carona. Pensa. Hesita. Decide. Apanha-a e dela tira o celular.

03:40

Após o terceiro toque, Ana Clara atende assustada o telefone...

- Alô!

- Clarinha?

03:41

Natália disca. A dra. Ana Clara afinal é psicóloga. Não haverá de ser a primeira vez que um paciente em desespero telefona para ela de madrugada. Segundos e a ligação se completa, mas dá sinal de ocupado e cai na caixa. Ocupado a esta hora? Será possível? O que fazer? Tentar de novo? Ou deixar um recado? Não. Fernando está esperando. Natália devolve o celular à bolsa e, com as mãos trêmulas, liga o carro. Amanhã, está decidido, assim que acordar, ligará para a terapeuta. Sim, com sorte ela haverá de a poder encaixar em algum horário já na segunda...

03:43

Natália pára o Peogeot diante do portão da mansão e, amparado por Cláudio, lá vem Fernando, que, ajeitando no de trás as muletas, entra e se acomoda no banco do carona. Com o vidro lateral aberto, os dois amigos ainda conversam por alguns instantes, após o que se despedem e Natália toca. Antes da primeira esquina, principalmente por não querer conversar para que ele não perceba o seu contido mas insistente choro, ela aciona o cd player, e, a bom volume, eis o casal a ouvir a parte final de "Enjoy the Silence", com Depeche Mode.

03:45

3/4 do quebra-cabeça estão montados. E a reta final, o "seu" Nésio bem o sabe, vai mais rápido, já que menos peças restam a serem encaixadas. A para ele escalada daquela montanha está quase concluída. Balas, caixotes, pinga, frio e, sim, ele está quase lá. Sinal abre, sinal fecha, pouquíssimo movimento.

03:47

Menos de três minutos após ter falado com a mãe, Ana Clara já vestiu uma roupa e ei-la na garagem de seu prédio manobrando o seu Renault. Segundos e ela já está na rua a caminho do apartamento de Ana Cláudia. A soma de seu nervosismo com o trânsito livre da madrugada resulta em que corre. Enquanto dirige, liga para o dr. Clóvis do seu celular, e chora, e expressa em extrema angústia palavras de auto-condenação pela situação da irmã...

- É minha culpa!... É tudo minha culpa!...

Cinco toques e o dr. Clóvis não atende. A ligação cai na caixa.

- Que droga! Será que ele está dormindo?

Ela tenta de novo. Disca. Chora, condena-se e pisa fundo no acelerador.

- Tudo minha culpa!... Tudo minha culpa!... Eu tinha que ter falado para ela!...

03:48

Faltam menos de dez peças para o quebra-cabeça estar montado. Alegre com isso, "seu" Nésio toma um último e generoso gole da garrafa de pinga.

03:49

Natália e Fernando acabaram de ouvir "Policy of Truth", a faixa 7 do cd "Violator" do Depeche Mode, que tem 9. Natália não gosta tanto das duas últimas, mas adora a primeira, "World in my Eyes". Ela dá então três toques no jump do cd player e eis, como quando saíram de casa para a festa, a faixa 1 começando. O Peogeot entra na rua Christie, uma íngreme descida que vai dar na Violeta. Ansiosa por chegar e se deitar, Natália pisa fundo. Tudo meio que girando, ladeira abaixo é um tobogã. Em voz baixíssima, ela canta junto com a música...

-"Let me take on a trip... Around the world and back..."

03:50

Chorando e repetindo para si mesma que a culpa é sua, Ana Clara pisa fundo no acelerador do Renault enquanto tecla novamente o número do dr. Clóvis...

- Vamos, Clóvis...! Atende, pelo amor de deus...!

Novamente cinco toques e cai na caixa. Ela de novo diz "droga" e vira à direita na rua Hermann. Trânsito livre, pisa fundo. Respira, chora, culpa-se, sofre.

- Eu tinha... Eu tinha que ter falado para ela...! Ah, Gladston, seu maldito...! Como eu te odeio...!

03:51

Fernando chega a pensar em pedir para Natália não correr tanto, ela chegou a 100 na descida da Christie, mas, também ele bêbado, não o faz. Ei-los já na rua Violeta. Natália pisa. E canta...

-"Let me show you the world in my eyes..."

03:52

Ana Clara segue pela rua Hermann. Desespero, angústia, ansiedade, medo. E culpa. Culpa, culpa, culpa, culpa, culpa. Disca novamente o número do dr. Clóvis. A cada algarismo, repete para si...

- É minha culpa!... É minha culpa!... É minha culpa!...

03:53

"Seu" Nésio encaixa a última peça do quebra-cabeça. Eis paisagem completa. Ele sorri e levanta os olhos. Observa dois carros que vêm ao longe. Parecendo ambos em alta velocidade, aproximam-se rápido. Sim, já num instante estão bem próximos, um pela rua Hermann, outro pela Violeta.

...

O Peogeot está a 105km/h. Sentindo o vento frio que entra pelo vão deixado na janela e bate em seu rosto, Fernando tem os olhos fechados. Alcoolizada e amargurada, Natália continua cantando em voz baixa. A música está no verso de que ela mais gosta... 

-"Let me put you on a ship... On a long, long trip... Your lips close to my lips..."

...

O Renault está a 95km/h. Ana Clara discou e o telefone do dr. Clóvis novamente toca. Um toque, dois toques, três toques.

- Atende, por favor!

...

O Peogeot se aproxima do cruzamento. Cinqüenta metros, quarenta, trinta. O sinal está verde. Natália pisa. 105. De repente, o sinal fica amarelo, mas ela calcula que dá para passar e pisa ainda mais fundo. 110, 112, 115.

...

O Renault se aproxima da esquina. Cinqüenta metros, quarenta, trinta. O sinal está fechado. Ana Clara reduz a velocidade. 80, 70, 60.

- Atende, Clóvis! Atende!

Apesar de estar fechado para ela, que vem pela rua Hermann, o ângulo em que o semáforo está posicionado para a Violeta permite a Ana Clara perceber que ele ficou amarelo para quem vem de lá, e de novo ela pisa. 60, 70, 80.

- Atende, Clóvis! Caralho!

...

Antevendo o que vai acontecer, o cérebro de "seu" Nésio, já lento pelo cansaço da idade, e naquele momento muito mais pelos tantos goles de pinga, e peças de quebra-cabeça montanha acima, chega a mandar para o seu corpo uma ordem para que se levante do caixote e faça algum sinal com as mãos. Impossível.

...

No instante exato em que o semáforo muda de amarelo para vermelho para quem vem pela rua Violeta e de vermelho para verde para quem pela Hermann, os dois carros se tocam.

...

O dr. Clóvis Hernandez, que dormia e enfim acordou, atende assustado o telefone... 

- Alô!

Mas, após um barulho forte e estranho, silêncio. Do outro lado ninguém fala nada.

...

Três minutos após ter se deitado em sua cama, Rodrigo tem a impressão de ouvir ao longe uma brecada e uma batida. Ruídos típicos, infelizmente, pensa, da madrugada da grande metrópole. Dez minutos depois, também ao longe, ouve sirenes que a seguir se dissolvem no contínuo rugido urbano que entra pela janela entreaberta apesar do frio. 

Gugu Keller 


terça-feira, 13 de agosto de 2013

Uzi

Contra ela vão certeiros os disparos sempre insanos
Da minha em desespero metralhadora de euteamos

Gugu Keller

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

domingo, 11 de agosto de 2013

sábado, 10 de agosto de 2013

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

A Esquina - Capítulo 49

Rodrigo jamais comentou com ninguém, nem mesmo em terapia com o dr. Clóvis Hernandez, que Raquel e ele, desde os tempos de namoro, incansável e apaixonadamente praticavam sexo anal. De fato, quase 100% das relações que tiveram começavam pelas preliminares, passavam pela penetração vaginal e terminavam no ânus dela, e, numa complexa espécie de nó psicológico consciente mas de muitos modos intocável, mesmo depois de a crer traidora, ele manteve com ela, ou, a rigor, com ele mesmo, um tácito pacto segundo o qual, por mais mulheres que em sua vingança viesse a possuir, e possuiu centenas, com nenhuma delas praticaria aquele ato que com o seu grande amor tornou-se algo sagrado. E, até aquele sábado, 19 de julho de 2008, assim foi. Rodrigo, até então, em toda a sua vida, nunca havia penetrado o ânus de nenhuma mulher que não Raquel.

...

Ana Clara jamais comentou com ninguém, nem mesmo com seu grande amigo e guru dr. Clóvis Hernandez, sobre as incansáveis e para ela insuportáveis investidas de seu cunhado Gladston. Com efeito, desde os tempos em que ele era apenas namorado de Ana Cláudia, esta desde sempre apaixonada, de modo insistente ele assediou a terapeuta. Eram bilhetes, e-mails, piscadelas e inúmeras falas tremendamente inconvenientes. E, para seu enorme conflito, tampouco com a irmã, o que eticamente, ela sempre acreditou, seria o certo, Ana Clara teve coragem de conversar a respeito. Restou-lhe, assim, sempre, desarmar o petulante cunhado com literais patadas, que, por algum tempo, ao menos faziam com que ele quedasse cabisbaixo diante dela. Mas só por algum tempo. Logo ele voltava à carga. Na mais incisiva das tentativas, Gladston mandou-lhe um e-mail com o link de um hotel de altíssimo luxo, onde ele se propunha a pagar pela suíte presidencial caso Ana Clara aceitasse lá com ele ir. Quando o viu, furiosa, ela jurou para si mesma que o mostraria para a irmã, mas novamente refugou da iniciativa. E, quando naquela maldita madrugada de domingo, foi confirmado que Ana Cláudia tinha o hiv, a violenta cachoeira de culpa que desabou sobre a cabeça de Ana Clara já não era apenas por ela ter sabido com antecedência que Gladston era amante de Andréa, que era soropositiva, mas também por se lembrar de que, muito antes, por um para ela constrangedor mas decerto relevantíssimo motivo, poderia já lhe ter aberto os olhos no que tange ao com quem havia se envolvido. 

...

Ao contrário do que Fernando sempre acreditou, morreu acreditando, Rodrigo jamais ficou com Heather. O que ocorreu foi que a intercambista, desconfortável com a ardorosa paixão de seu "irmão brasileiro" por ela, a que nem de longe correspondia, equivocadamente creu uma boa saída inventar tal coisa para ele. E, naquele momento cego de amor pela australiana, por mais que Rodrigo a tenha negado, Fernando levou a história bastante a sério, sentindo-se, assim, contundentemente traído por aquele que até então tinha por melhor amigo, a ponto de, apenas para evitar com ele ter a partir de então, mudar para o turno da noite na faculdade e deixar de participar das comemorações relativas à sua formatura. Tanto pela putativa traição quanto pela não correspondência da intercambista ao seu desejo, Fernando sofreu muito. De Heather apenas se esqueceu completamente quando, já um razoável tempo depois, conheceu Natália, que viria a ser a sua esposa.

...

Considerando que, mesmo extremamente irresponsável, sua conduta naquela madrugada não foi dolosa, que seu próprio marido saiu do acidente tetraplégico, que a vítima fatal que conduzia o outro carro concorreu para o evento dirigindo também de modo imprudente em alta velocidade, e, também, principalmente, que não ficou provado para quem o sinal estava aberto e para quem estava fechado no instante exato da batida, até porque a única testemunha, o sr. Genésio Cícero da Silva, de um modo claramente confuso, não apenas voltou atrás várias vezes no que disse como admitiu-se alcoolizado no momento dos fatos, a justiça houve por bem em conceder a Natália o chamado "perdão judicial", ou seja, ela ficou isenta de qualquer pena, tanto pelo homicídio quanto pelas lesões corporais. E, quanto ao outro homicídio, três anos mais tarde, este sim doloso e premeditado, tampouco ela seria responsabilizada. O plano levado a cabo então daria totalmente certo. Tragicamente, a vítima terá morrido afogada com o próprio vômito após ter comido e bebido demais na noite do seu aniversário, e pela cabeça de ninguém jamais passará a hipótese de ter sido um crime.

...

Quando Andréa começou a perceber que uma considerável parte do dinheiro que ganhava nos programas que fazia estava simplesmente sumindo de sua bolsa, Gladston tentou a fazer crer que Mércia era a responsável. Apaixonada por ele àquela altura, o travesti a princípio chegou a dar-lhe crédito e ficou extremamente abalado por pensar que sua companheira de moradia, em quem até então tanto confiava, pudesse a estar roubando daquela forma. Mércia, vá lá, não tinha tanta sorte quanto Andréa no que se refere à quantidade de clientes, até porque esta sempre foi muito mais atraente, mas daí a pensar que pudesse fazer tal coisa ia uma longa distância. Até que, num momento de inspirada lucidez, Andréa decidiu conversar francamente com a amiga, e, juntas, armando um esquema propício para tanto, ambas apuraram, e para ele provaram a sua conseqüente certeza, que ele, Gladston, era o verdadeiro ladrão. Naquele sábado, 19 de julho, quando ele apareceu no apartamento delas assobiando, como de costume, seu de péssimo gosto pagode em tom de desfaçatez, Andréa e Mércia, após exibirem as inquestionáveis evidências colhidas, deram-lhe a maior surra que em sua vida ele levou. Foram tantos socos e pontapés que Gladston teve muita sorte em em não ver quebrado nenhum osso de seu corpo. Seu rosto, de todo modo, ficou tão coberto de hematomas que, no velório a que iria no dia seguinte, muitos pensariam que ele também estava no acidente que o motivaria. No final da sova, quando os dois travestis literalmente o jogaram dentro do elevador com a paremptória ordem de que nunca mais aparecesse na frente deles, Gladston ainda olhou para Andréa e, tentando causar pena com os supercílios a sangrar, disse...

- Você está sendo muito injusta, Andréa...! Eu amo você!          

O travesti olhou bem para Gladston e, pasmo com o seu ainda cinismo, sem dó cuspiu-lhe branco e verde na cara ensangüentada.

...

Depois daquela, após cinco anos de completa abstinência, tão intensa transa, Rodrigo, na sexta-feira subseqüente, estava disposto a, como a ela ao se despedirem havia prometido, telefonar para Natália e marcar um novo encontro. Desta vez, pensou, além de fazer sexo, podiam jantar, ir ao cinema, ao teatro talvez. Aliás, conforme se mencionou na sessão com o dr. Clóvis posterior ao encontro, seria bastante produtivo se, depois de tantas peripécias, Rodrigo começasse a pensar num novo relacionamento estável, e, sim, Natália, além de, agora ele sabia, competente na cama, parecia uma mulher extremamente inteligente e interessante. Contudo, meio que como para novamente reinverter tudo em sua vida, no momento em que Rodrigo fez menção de pegar o telefone, sexta, dez da noite, dia 25, ele tocou. Rodrigo atendeu. Era Dudú, com uma bombástica notícia de falecimento.

Gugu Keller