segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Pedras No Espelho

Adoramos condenar o outro por algo que, se estivéssemos na mesma situação, e muito bem o sabemos, certamente faríamos igual. Ou ainda pior.

Gugu Keller

Absurdolândia 29

Já que se mencionou que os "guardadores de carros" que glamourizadamente atuam nesse esquema de "valet" são em regra habilitados, pegamos o gancho para dizer que na Absurdolândia, absurdamente, não existe a mínima seriedade no que se refere às provas aplicadas aos candidatos que pretendem obter habilitação para dirigir. Tamanho é o nível da corrupção que envolve o assunto, e de tal modo isso é sabido de todos, que, quando alguém informalmente, entre amigos, comenta que tirou carta, segue-se obrigatoriamente uma pergunta... "Pagou ou passou?" Na imensa maioria dos casos a resposta será a primeira, até porque a prova é tão distante da realidade das ruas, que é absolutamente óbvio o seu propósito de estimular a propina aprovatória. A minoria que prefere não pagar costuma ter grandes dificuldades. Já quem paga, a esmagadora maioria, não apenas não tem nenhuma dificuldade para passar como, no mais das vezes, sequer precisa fazer a prova. Se faz é, como em muitas situações, já o vimos, em nome do princípio da hipocrisia, uma mera encenação. Tão fácil e corriqueiro é comprar uma carta de motorista na Absurdolândia, mesmo sem sequer a presença do comprador, que uma equipe de televisão que certa vez fez uma reportagem a respeito não teve nenhum dificuldade em conseguir uma para um cego. Mostrada a matéria à autoridade governamental responsável, esta, como não poderia deixar de ser, sempre e novamente em nome do princípio da hipocrisia, disse-se extremamente indignada e surpresa, jamais tendo ouvido falar sobre tal situação, o que equivale a alguém dentro de uma piscina afirmar não ter reparado que está molhado. De todo modo, também decerto por amor ao princípio, prometeu a seguir providências enérgicas, incluindo punição exemplar para os responsáveis. Enquanto isso, os números referentes às mortes e mutilações no trânsito absurdo são os que vimos alguns capítulos acima.

Gugu Keller  

domingo, 29 de setembro de 2013

Corrupção

Mais do que o hediondo traz-me assombro o crime hipócrita.

Gugu Keller

Absurdolândia 28

Hodiernamente, numa espécie de glamourização da defesa do princípio do absurdo com tanta efetividade operada pelos chamados "guardadores de carros", tem igualmente proliferado, sobretudo nos grandes centros da Absurdolândia, uma versão dessa modalidade de extorsão bastante mais elegante e organizada, e, também, por outro lado, muito mais cara, ainda mais lesiva, portanto, aos (pseudo) cidadãos absurdos. É que, absurdamente, os comerciantes que atuam em bares, restaurantes, boates, estabelecimentos, enfim, destinados à diversão pública em cujo entorno, como se disse, os "guardadores" mais agem, pereceberam que, mais até do que estes, também eles podem lucrar expressivamente com esse tipo de desrespeito àquele que com suor paga tantos tributos para ter o seu veículo. Sim. Criou-se assim um serviço conhecido como "valet", que consiste em se manter uma equipe de "guardadores de carros" bem vestidos, engravatos, habilitados para dirigir e que trabalham mantendo vínculo com esses estabelecimentos. Ilegalmente, até porque isso na Absurdolândia é irrelevante, colocam uma mesinha na calçada e distribuem senhas para os "clientes" que aos seus cuidados, obviamente por total falta de opção, deixam os seus automóveis. É claro que, assim como no caso dos "guardadores", a imprensa amiúde o mostra, trata-se de um aviltante e deslavado engodo. Convictamente promete-se ao proprietário que o carro será guardado numa garagem coberta quando todo mundo sabe que ficará na rua, não raro em local irregular, sobre calçadas até às vezes, com o risco de vir uma multa, muito se dá, sujeito a ser furtado, comumente também acontece, e a sofrer todos os tipos de avaria a que estaria sujeito se ninguém fingisse estar "tomando conta", restando ao dono, que tantos impostos pagou para o comprar, e que tanto ainda paga para o ter, já que com alguma mínima contrapartida pelo que sistematicamente lhe é às claras surrupiado ele não pode contar, fazê-lo com a sorte. Quanto às autoridades absurdas, que pelo que paga o contribuinte são sustentadas, no que se refere aos tais "valets", sempre em nome do princípio da hipocrisia, procedem à mesma encenação... Numa determinada noite, como se tivessem acabado de descobrir o covarde e lucrativo esquema, fazem, em regra diante de câmeras televisivas, uma barulhenta blitz diante de alguns estabelecimentos onde a extrosão ocorre, prometendo doravante intolerância contínua quanto ao assunto. Mas, invariavelmente, já no dia seguinte tudo volta a como era antes.

Gugu Keller  

sábado, 28 de setembro de 2013

Aprender

Os erros são o caminho até o acerto.

Gugu Keller

Absurdolândia 27

Os "guardadores de carros" são grandes e fiéis defensores do princípio do absurdo que infestam as grandes cidades da Absurdolândia. Trata-se de uma ocupação extremamente comum e rentável, e em franco crescimento a despeito de qualquer crise. Funicona da seguinte forma... Um cidadão absurdo qualquer, esfolado pelos tantos impostos que tem de pagar, estaciona seu carro, que, como já vimos, é o principal fator que a esses tantos impostos o obriga, na vida pública de sua cidade, num ponto onde tal é permitido. Pois bem. Assim que ele conclui a manobra de estacionamento, aparece um "guardador de carros" e lhe cobra uma determinada quantia para "tomar conta" do veículo. Mesmo que o motorista pague o valor solicitado, ele sabe muito bem, todo mundo sabe, que o "guardador", em absoluto, não irá "tomar conta" de nada, até porque, é também notório, a quantidade de furtos de automóveis no país é, não poderia deixar de ser, algo absurdo. Cuida-se, isso sim, numa verdade de conhecimento amplo, geral e irrestrito, de uma descarada extorsão: ou o motorista paga ou tem o carro danificado. Sim. Pinturas riscadas, pneus furados e espelhos retrovisores arrebentados são os danos mais comumente sofridos pelos que ousam deixar de pagar. E os "guardadores" estão em toda parte. Em Paulópolis, por exemplo, conseguir estacionar numa rua livre deles é algo que beira o impossível. Se for à noite, então, em regiões onde haja bares, boates, restaurantes, diversão em geral, pior ainda. Em eventos públicos concorridos, como shows ou jogos de futebol, os preços cobrados costumam disparar. E com dois detalhes... Nesses casos o pagamento é exigido adiantadamente e, tão bem eles "tomam conta" dos carros, que já estão muito longe quando os proprietários os vão buscar para irem embora. Ironizando a sua impotência diante do absurdo, inclusive, muitos motoristas costumam referir-se aos guardadores com "os donos da rua", e é, de fato, exatamente como se o fossem. Mas o mais interessante é como o estado, por sua vez, cumpre o seu papel de fiel defensor do princípio da hipocrisia, na medida em que, sistematicamente, as autoridades afirmam através da imprensa que estão sempre atentas na prevenção e repressão dessa atividade tão flagrantemente ilegal. Os "guardadores" estão em toda parte, sobretudo onde o estacionamento é mais difícil e concorrido, comumente o mesmo "guardador" no mesmo lugar, já que os pontos são disputados e loteados, mas as autoridades, por algum motivo que não se entende, mesmo se dizendo sempre tão atentas, não conseguem fazer com que a coisa diminua. Ao contrário, com o passar do tempo, ela só aumenta. Aliás, mais interessante ainda, numa situação que se pode classificar como "encenação celebrativa da hipocrisia", eventualmente se vê, de fato, a imprensa o registra, algumas operações de combate a essa tão proliferada atividade, em que, diante das lentes televisivas, "guardadores" são detidos, vítimas ouvidas e advertências feitas. Pois bem. O que ocorre na seqüência? Nada. Os mesmos "guardadores" voltam aos mesmos lugares e tudo continua como antes. Como contrapartida aos tantos impostos que paga, ou o motorista paga também o valor cobrado pela extorsão informalmente institucionalizada, ou o prejuízo será ainda maior no reparo de seu veículo. Considerando situações como esta, não parece exagerada a conclusão de que, na Absurdolândia, os impostos são também, qual a ação dos "guardadores de carros", uma extorsão institucionalizada, neste caso dentro da formalidade.

Gugu Keller

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Absurdolândia 26

Os relativos aos automóveis são o melhor exemplo do nível de absurdidade dos impostos na Absurdolândia. Aliás, justamente em função destes, que de novo compõem mais da metade do preço final, lá é onde os carros, mesmo quase que descartáveis no que tange à sua qualidade, têm os preços mais altos do mundo. Sim. Auto-ironicamente, até, os próprios absurdos costumam comentar, apesar de a rigor ser assim com quase tudo, que, quando o assunto é carro, eles pagam por dois para ter um. Mas não é só isso... Além dos absurdos impostos que às vezes chegam a responder por 60%, 70% do preço final de um veículo na Absurdolândia, quem adquire um é também obrigado a doravante pagar continuamente um outro imposto, também absurdamente alto, agora apenas pelo fato de o possuir. Sim. Paga-se um pesado imposto para adquirir e se continua pagando constantemente por ter. E o que se recebe em troca? Uma sucessão de absurdos... Ruas e estradas em deplorável situação país afora, números assustadores no que se refere ao roubo de veículos, fazendo com que seja uma verdadeira loucura possuir um sem fazer uma apólice de seguro, o que, por óbvio, justamente em função desses números, é bastante caro, uma fiscalização que, com o mesmo apetite que o estado que a promove tem para cobrar tributos, multa injusta e industrializadamente com o claro intuito de fazer ainda mais caixa à custa dos contribuintes, uma completa falta de estrutura viária nos grandes centros, a infestação destes pelos chamados "guardadores de carros", alagamentos freqüentes das vias em época de chuvas, enfim, como se disse com respeito aos impostos em geral, uma bela, uma belíssima de uma "banana"! Mas não se deixe de registrar que, se, em regra, as estradas absurdas se apresentam, sempre e cada vez mais, em situação deplorável, esburacadas, mal sinalizadas, cheias de remendos, não raro sequer asfaltadas e em grande parte dominadas pelo crime, há notáveis exceções. Sim. Uma meia dúzia delas são, de fato, verdadeiros tapetes de asfalto. Bem sinalizadas, cuidadas, vigiadas, monitoradas por câmeras, simplesmente perfeitas. Mas com um pequeno detalhe... São estradas privatizadas. Vias públicas que o estado absurdo entregou para serem exploradas pela iniciativa particular, o que, em si, não seria problema se o usuário, que já pagou todos os impostos embutidos no preço do seu automóvel, e que continua a pagar apenas por manter a sua propriedade, como conseqüência não tivesse agora que desembolsar valores absurdos a título de pedágio para poder transitar nessas poucas exceções que, se ele minimamente fosse respeitado como cidadão contribuinte, deveriam ser a regra. E uma regra que, pelos tantos tributos cobrados, já estaria muito bem paga sem pedágio nenhum! Em tempo... O preço dos combustíveis e lubrificantes automotivos na Absurdolândia é altíssimo. Em função de quê? Dos impostos nele embutidos.

Gugu Keller  

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Teu

O vires me desfruta. O ires, amputa.

Gugu Keller

Absurdolândia 25

É claro que não seria tão relevante o fato de a Absurdolândia ser o país onde mais, e do modo mais injusto, se paga impostos no mundo se houvesse uma contrapartida minimamente justa por parte do estado. Mas também é claro que, sendo os princípios basilares da vida no país aqueles que já sabemos, passa-se muito longe disso. Numa típica gíria absurda, o que o povo lá recebe em troca dos pesados tributos que paga é uma bela de uma "banana", ou seja, praticamente nada. Ou, numa outra expressão deles, é tudo "gato por lebre". É certo que, hipocritamente, como não poderia deixar de ser, as leis absurdas, o papel amarelado, garantem de um modo extremamente abrangente a devida contrapartida ao absurdo tanto que o povo paga. Em tese, o estado deve, em troca do que em enxurrada arrecada, oferecer saúde, educação, segurança, saneamento básico, transportes etc. Pois bem. A saúde pública é a de que já se falou aqui. A educação pública, idem. Segurança? Zero! Saneamento? Lixo! Transportes? Gado! E assim por diante item por item. Absurdamente, aliás, como já se referiu acima ao se mencionar a USP, o que o estado absurdo excepcionalmente oferece com alguma qualidade para o seu (pseudo) cidadão acaba, em regra, sempre através de alguma distorção camuflada, beneficiando muito mais os menos necessitados. Assim, a lá muito bem denominada fúria fiscal do estado, sobretudo quando dirigida aos contribuintes representados na bandeira pelas estrelas inferiores, é algo simplesmente insaciável, vampiresco, parasitário. Já quanto à devida retribuição, a fúria é a mesma para a negar. Ademais, em plena atenção ao princípio da hipocrisia, é absolutamente impensável na Absurdolândia questionar judicialmente esse escancarado calote. Tentá-lo equivale a esmurrar uma faca. Sim. Como se disse no capítulo anterior, a legislação tributária absurda, em harmonia com o referido princípio, apenas vale quando o favorecido em questão é o estado. Na situação inversa, quando o contribuinte é quem pretende fazer valer o seu direito à devida contrapartida, a lei volta a ser o que explica o losango da bandeira. E ponto. Então, até novamente numa ilustração didática, podemos traçar uma analogia com aqueles filmes que se passam nos tempos de Robin Hood, em que vemos os soldados do rei literalmente invadirem as casas dos plebeus e as saquearem a pretexto de imposto, levando tudo o que encontram de valor. Na Absurdolândia, em última análise, sob o disfarce de todo um complexo e moderno aparato fiscal, ainda é, a rigor, exatamente o que acontece.

Gugu Keller

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Absurdolândia 24

A Absurdolândia é o país do mundo onde mais se paga impostos. Sempre com alíquotas absurdamente altas, estão embutidos em praticamente tudo. Raríssimo é o comportamento humano que em terras absurdas não gera algum tipo de obrigação tributária. Ademais, com um claro e óbvio intuito de aumentar a absurdidade da coisa, os impostos lá são muitos não apenas no que se refere ao quanto se tem de pagar, mas também no que tange aos seus diferentes tipos, naturezas e denominações. As legilações tributárias absurdas, que, quando para favorecer o estado, numa adequação do amarelo do losango ao princípio maior da hipocrisia, aí sim, incisivamente valem, bem como toda a parte burocrática no que respeita à contabilidade com que se calcula a sua aplicação, são extremamente complexas e confusas, de modo a, hipócrita e absurdamente, dificultar os procedimentos dos excluídos e facilitar os dos caras-de-pau que deles buscam de algum modo se eximir. Assim, para os menos favorecidos, vez que os impostos estão embutidos em em praticamente todos os produtos básicos, comumente, e sorrateiramente, já que o (pseudo) cidadão médio na Absurdolândia sequer tem a devida noção disso, compondo mais da metade de seus preços, não há como fugir desses tributos. Já para os poderosos, que, através do "jeitinho absurdo", como já se viu, sempre levam vantagem em tudo, é extrema e impunemente fácil, em regra via corrupção, elemento primordial do folclore absurdo de que adiante mais detalhadamente se falará, os sonegar. Assim, de novo ao avesso do bom senso, na Absurdolândia quem tem menos paga mais e vice-versa. Até porque  vê-se com clareza, de modo absurdo quem tem menos paga mais justamente para que quem tem mais cada vez mais mais tenha. E novamente vice-versa. É. Hipocrisia e absurdo. Às custas da plebe, a nobreza se empanturra. E, travestida em seriedade, esta daquela o sangue suga. Sim. Na Absurdolândia é assim.

Gugu Keller

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Adultério

A fidelidade só faz sentido se espontânea. Se auto-imposta, é trair em dobro.

Gugu Keller 

Absurdolândia 23

Terá estranhado o leitor dotado de bom senso o fato de, no capítulo anterior, termos nos referido aos representados pelas 26 estrelas abaixo da faixa na bandeira absurda como "excluídos", mesmo decerto já estando mais do que claro que é exatamente o que eles são. É que, compreensivelmente, choca a quem pensa de modo minimamente lógico conceber que em alguma situação os excluídos possam ser a maioria, e uma maioria tão esmagadora. Mas sim. Na Absurdolândia é assim. Em nome dos dois decisivos princípios, que, conforme até aqui temos visto, a tudo lá impregna, a realidade absurda é sempre meio que pelo avesso, ao contrário, distorcida, e, de fato, quando o assunto é cidadania, dignidade, acesso, bem estar, a regra e a exceção são freqüentemente invertidas. Amiúde o que deveria ser uma é a outra, e vice-versa. É que a Absurdolândia, que de um modo absolutamente hipócrita auto-proclama-se uma república democrática, é, na prática, como de fácil constatação, uma plutocrática monarquia absolutista nos exatos moldes do que era comum na idade média, em que toda a não pouco riqueza é destinada exclusivamente à insaciável e nababesca farra dos nobres, ao passo que para a plebe, quando muito, restam migalhas. De sorte que, sim, por estranho que soe, na Absurdolândia a esmagadora maioria eis em flagrante exclusão, enquanto uma pequena minoria, 1/27, empanturra-se de poder ao mesmo tempo em que, competentemente, elabora as sempre mentirosas manobras políticas através das quais mantêm  impecável a aparência de seu óbvio travestismo institucional, a ponto de, como já se viu, com as próprias vítimas, ou hipócritas passivos, os 26/27, tão mais no tão menos, omissivamente poder contar para a, em respeito à bandeira, perene manutenção do absurdo.

Gugu Keller

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Amar

Mesmo com o que faz valer a pena sendo cada vez mais exceção, é excepcional o quanto, cada vez mais, sempre vale a pena.

Gugu Keller

Absurdolândia 22

Não menos comum nos telejornais a que se assiste na Absurdolândia é ouvir que o preço do feijão subiu 8% por causa da entressafra, o dos combustíveis 10% em razão da crise em tal país do Oriente Médio e o dos automóveis 7,5% devido ao aumento da alíquota de determinado imposto, que tem efeito cascata. Depois, duas ou três reportagens adiante, mostra-se que o ministério da fazenda calculou a inflação oficial mensal em 0,3%, sendo que, em algumas capitais, houve deflação. Ou seja, como bem se vê, a aplicação do princípio da hipocrisia, sobretudo nessa área das mentiras governamentais que trazem em si esse tom meio que de gozação, de humor negro, de tripudiação, não respeita sequer a matemática. Na Absurdolândia, quando interessa aos caras-de-pau detentores do poder que dois mais dois sejam cinco, assim é e está acabado. Por mais que alguma lei, seja a constituição, seja qualquer outra, afirme que dois e dois são quatro, a lei é apenas papel amarelado, para fazer pipa, e, hipocritamente, não há nenhum problema em interpretá-la ao completo avesso do que ela diz se for do gosto dos da estrela de cima. Também comum, aliás, ainda quanto às peripécias governamentais no que tange aos números, é, ao mesmo tempo em que a indigência, a miséria, a fome, o endividamento das famílias, o desemprego etc saltam aos olhos dos cidadãos absurdos o tempo todo, não apenas através dos jornais mas também no cotidiano das cidades a poucos palmos de seus narizes, o governo divulgar, incessantemente e aos quatro ventos, o quanto o país, de modo sistemático nos últimos anos, vem crescendo em termos econômicos. Sim. A Absurdolândia tem ocupado posições cada vez mais auspiciosas no ranking mundial referente à riqueza de cada país. Mesmo com toda a fome, todo o analfabetismo, toda a indigência e toda a privação que em praça pública atinge grande parte de sua população, ela é hoje uma das maiores economias do mundo. Altíssimas autoridades o adoram comentar com sorrisos de orelha a orelha. Os problemas citados, como com hipocrisia se costuma dizer, são apenas pontuais, e decerto proximamente desaparecerão. No próximo 30 de fevereiro, já bem se sabe, aliás. Até lá, pontual mas absurdamente, nada disso, dessa riqueza toda que tanto tem elevado o nome do país em termos estatísticos, reverte para os seus excluídos, os na bandeira representados pelos 26 astros abaixo da faixa, que, hipocritamente, de todo modo, novamente abraçando com quase orgulho os dois princípios basilares que lhes guiam, conseguem, principalmente quando seus clubes de coração conquistam o campeonato nacional ou algum outro título expressivo, sentirem-se algo esperançosos diante de tamanho feito. Jumento e cenoura. País do futuro.

Gugu Keller

domingo, 22 de setembro de 2013

Claro Escuro

Nos sonhos eis o que negamos mas tanto intimamente desejamos.

Gugu Keller

Absurdolândia 21

Na Absurdolândia é muito comum então, ainda no gancho dos capítulos anteriores, estar-se assistindo ao telejornal e se ver matérias sobre a sempre calamitosa situação dos hospitais públicos do país, sobretudo os que atendem às regiões metropolitanas mais carentes e populosas. Eis então, como em regra, e em respeito ao princípio do absurdo, é, pessoas doentes a esperar por horas e horas, às vezes dias, em filas lentas e intermináveis e sendo tratadas com desdém e desinformação pelos funcionários, uma flagrante ausência de médicos e enfermeiros, escassez completa de remédios e de aparelhos necessários para diagnósticos e tratamentos, pacientes internados com moléstias graves em macas espalhadas pelos corredores sem nenhuma condição de higiene, feridos trazidos por ambulâncias, não raro baleados, a às vezes também por horas nas próprias esperar por uma vaga, cardíacos com sintomas de infarto sendo dispensados com consultas marcadas para meses adiante, vítimas de coisas simples como apendicite morrendo nas filas por falta de atendimento, ou seja, uma verdadeira e literal situação de guerra. Aí, no intervalo do telejornal, entra no ar uma propaganda política do governo daquele mesmo estado onde fica o hospital que acaba de ser mostrado, e vê-se o sorridente governador, cara-de-pau convicto, a, cumprindo com afinco o princípio da hipocrisia, mostrar os importantes avanços realizados na saúde pública durante a sua gestão. Aparece então um hospital público numa situação maravilhosa. Tudo limpíssimo, brilhando, as coisas funcionando perfeitamente, nenhuma fila, os funcionários felizes, os pacientes dando depoimentos entusiasmados sobre a qualidade do atendimento, e, por fim, ele, o governador, diz que é tudo fruto de um árduo trabalho, mas que muito está valendo a pena, pois ver a alegria dos cidadãos estampada em seus rostos compensa qualquer esforço, já que a sua prioridade como administrador é, mais do que cuidar do estado, cuidar das pessoas com carinho, amor e dignidade. Sim, Exatamente. Ou seja, a coisa parece ter mesmo um certo tom de gozação. Humor negro. E o que faz o povo absurdo diante da aviltante mentira? Em também claro acatamento a ambos os princípios básicos, no máximo externa algumas momentâneas palavras de indignação, comumente autoirônicas, o outro lado da hipocrisia, enquanto continua a, anos afora, compactuar com a permanência perene desses mesmos caras-de-pau no poder, elegendo-os e reelegendo-os de modo contínuo, ou, no mínimo, omitindo-se de qualquer ação minimanente efetiva contra eles.

Gugu Keller

sábado, 21 de setembro de 2013

Concepção

A dor fecunda o amor que o coração ovula, e eis o verso feto nas do poeta mãos de útero.

Gugu Keller

Absurdolândia 20

Mas, por outro lado, paradoxalmente, e a Absurdolândia é sempre pródiga em paradoxos, a imprensa absurda em absoluto não está errada em o tempo todo noticiar o absurdo que lá impera na medida que, hipocritamente, já que nunca faz a respeito nada para que tal de algum modo mude, o povo absurdo adora assistir, ou ler, ou ouvir, consumir, enfim, o que desde sempre já sabe sobre o constante absurdo ao seu redor para, ao menos, e apenas, enquanto o assiste, ou lê, ou ouve, reagir, e eis por que isso também é hipócrita, com uma estridente indignação que, respeitando os princípios, jamais põe em prática em termos de algo concreto. E eis de novo a questão... Vítimas ou hipócritas passivos? De todo modo, sob este aspecto, sim, a imprensa está corretíssima. Se os veículos de imprensa são empresas como quaisquer outras, por óbvio visam o lucro, e, sim, sendo a denúncia para nada dos constantes e sempre bombásticos absurdos de todos os dias na Absurdolândia de um hipócrita e estranho mas extremo agrado do público, é, também, sem dúvida, algo altamente lucrativo. Até porque, vá lá que freqüentemente com personagens e cenários diversos, o roteiro básico é meio que sempre o mesmo... Toma-se o princípio matriz da hipocrisia rumo ao princípio fim do absurdo e em regra via corrupção, desunião, indiferença e desrespeito para com o próximo, temos um vibrante leque que se abre nas inúmeras modalidades de iniqüidade que, dia após dia, povoam os noticiários consumidos com volúpia pelos pseudo-cidadãos absurdos... Violência, roubo, indigência, descaso, injustiça, tragédia, desespero, ganância, mentira, desfaçatez, desvio, impunidade, e eis, repetindo-o, o flagrante paradoxo de um povo que adora olhar num gigantesco espelho em que só enxerga um grande e degradante absurdo, e que nele com raivosa vontade cospe como se não fosse, devido à sua hipócrita omissão doentia, o seu próprio rosto sob a absurdidade ali refletido. É meio como nunca fazer nada diante de algo terrível mais do que sabido, que justamente por esse nada fazer é causado, e de que, num perene ato de hipocrisia masoquista, busca-se sempre saber mais a respeito, para se indignar, e xingar, e cuspir, e, ao mesmo tempo, continuar a, cada vez mais, não fazer absolutamente nada.

Gugu Keller

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Lucidez (Repostagem)

Em luto eu luto a lunofásica luta antiloucura.

Gugu Keller

Absurdolândia 19

Falando em câmera e reportagem, papel interessante desempenha a imprensa na Absurdolândia. É que, hipocritamente, numa estranha mistura de ingenuidade com conivência, ela denuncia, tanto e de modo tão contundente quanto possível, o completo absurdo que, em respeito ao princípio respectivo, impera no país, fazendo-o sempre como se houvesse alguma mínima perspectiva de que, em o denunciando, algo pudesse mudar, ou, em outras palavras, como se ela, imprensa, como instituição, acreditasse que os hipócritas de algum modo se incomodam quando são escancarados os absurdos por que são responsáveis. Assim, e eis o ingênuo como elemento, a imprensa absurda mantêm-se a noticiar, de modo sistemático e não raro como furo de reportagem, em tom de denúncia, de prestação de serviço público, os mesmos absurdos de que todos já estão cansados de saber. É meio como se não houvesse a devida compreensão do óbvio fato de que, sendo a hipocrisia princípio, os caras-de-pau definitivamente não estão preocupados com uma eventual queda de suas máscaras. Não. Mesmo quando as têm espatifadas no chão diante de todos, eles tranqüilamente as continuam negando. Faz parte do princípio. Reforça-o até. Seus rostos sempre sorridentes já são como máscaras. Não há como desmoralizar aquilo cuja desmoralização já é por natureza a sua marca registrada. Como lados de uma mesma moeda, os dois princípios que na Absurdolândia tudo norteiam, hipocrisia e absurdo, estão tão atrelados, tão soldados um ao outro, que simplesmente não há como se romper esse círculo vicioso. Então, sendo o absurdo o normal, a hipocrisia, por mais que absurda seja, também o é, e, por outro lado, sendo a hipocrisia de o negar, ao absurdo, mesmo quando ele é ululantemente óbvio, também normal, ele hipocritamente deixa de soar absurdo, e assim se o torna ainda mais. Ou seja, cai-se num jogo de espelhos absolutamente sem saída. Um exemplo recente ilustra melhor essa questão relativa à imprensa absurda... Uma determinada rede de televisão conseguiu imagens que mostram internos de uma unidade da instituição onde são recolhidos menores infratores na cidade de Paulópolis sendo violenta e covardemente torturados pelos funcionários que os deviam atender. Aí, veiculada a reportagem, um importante membro do ministério público paulopolense dá uma entrevista em tom de extrema indignação afirmando que providências enérgicas serão tomadas prontamente. Pois bem. Na engrenagem do absurdo que impera no país, tudo isso não passa de uma completa encenação. A equipe de televisão que fez a reportagem já deveria de antemão estar ciente de que os fatos mostrados não de modo algum constituem alguma novidade para o ministério público, ou para o poder judiciário, ou para o governador do estado, ou para o secretário da segurança, ou para quem quer que seja. É obviedade escancarada que todo mundo, toda a população está cansada de saber desse tipo de absurdo a ocorrer o tempo todo, assim como muito bem sabe que, por mais que a imprensa o mostre, nada de concreto será feito para que mude. Se, na seqüência da veiculação da matéria, palavras indignadas e promissoras são ditas, petições são protocoladas e novas diretrizes são postas no papel, tudo é apenas uma orquestrada encenação em respeito ao princípio da hipocrisia. Mesmo assim, a ingênua desempenhar o seu papel nessa engrenagem, a imprensa absurda dedica-se incansavelmente à busca desse tipo de pauta, sabendo de antemão que vai noticiar absurdos já sabidos por todos apenas para, afinal, através da reação invariavelmente mentirosa os caras-de-pau responsáveis, reforçar a hipocrisia, e com isso, qual bola de neve, os fazer, aos absurdos, aumentar. Ademais, quando, absurda, a hipocrisia de algum cara-de-pau é que é a notícia da vez, reforça-se ainda mais diante de todos o quanto, como princípio, ela é absurdamente normal, fortalecendo-se, também assim, ainda mais, o absurdo como um todo.

Gugu Keller

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Therefore I Am

Ato não há de mais pleno existir do que o não ato de apenas sentir.

Gugu Keller

Absurdolândia 18

Terão observado não apenas os referidos e explicados vexilologistas, para quem, como se disse, a Absurdolândia é um verdadeiro paraíso, mas também o leitor comum que conosco veio até aqui, o interessantíssimo fato de que, por o retratar com tamanha precisão em sua simbologia, a bandeira do país é a única coisa que a ele se refere que não é hipócrita nem absurda. Tal folclórico paradoxo ficou lá popularmente conhecido como "jeitinho absurdo". Sim. Trata-se de uma expressão auto-referente do povo absurdo que retrata o modo como no dia a dia lá, seguindo e segundo o lábaro, costuma-se agir. Então, numa espécie de ode a esse curioso paradoxo da bandeira, tudo o que se resolve evadindo divisas, burlando a lei, desrespeitando o próximo, aviltando a cidadania dos menos favorecidos e/ou incrementando a prática da hipocrisia e a concretização do absurdo de um modo geral faz parte do chamado "jeitinho absurdo". Coerentemente, diga-se de passagem, os caras-de-pau são os principais usuários e beneficiários desse tal "jeitinho". E são inúmeras as modalidades que o caracterizam... Furar filas, desrespeitar sinalizações de trânsito, estacionar sobre as calçadas ou em vagas reservadas para deficientes, pagar propina para fiscais, subornar agentes públicos em geral, cobrar para emitir notas fiscais, deixar de as emitir, alterar o hodômetro do automóvel para vendê-lo como menos rodado, comprar habilitação para dirigir, falsificar documentos em geral, mentir descaradamente em processos judiciais, fazer consultas médicas através de convênio alheio, comprar produtos piratas com plena ciência disso, furtar objetos da empresa em que se trabalha, não devolver uma carteira perdida ao dono ou devolvê-la sem o dinheiro que nela havia, etc, etc, etc. E é claro que, totalmente alheios que são, conforme já se explicou, a qualquer senso de nação ou de bem estar coletivo, os absurdos não só lançam mão desse seu popular "jeitinho" dioturnamente, como, de modo sintomático, muito orgulham-se disso, crendo-se sempre mais espertos e melhores do que os outros, mais capazes no que tange àquela sua cultura de "levar vantagem em tudo". Por outro lado, em nome do a isso referente princípio, quando alguém é flagrado por uma câmera, uma reportagem ou o que seja praticando o "jeitinho absurdo" em alguma situação, hipocritamente o tenta negar ou, se não for possível, justificar com alguma mentira deslavada.

Gugu Keller

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Divã

Talvez bem lá no fundo esteja enfim o mundo.

Gugu Keller

Absurdolândia 17

Quem nasce na Absurdolândia, e diferente, considerando o quanto já vimos sobre o país, não haveria de ser, é condicionado desde a infância a pensar hipocritamente e a perceber o absurdo como algo normal.  Um exemplo interessante a tanto relativo eis no que se ensina às crianças já a respeito do primeiro capítulo da história do país, o seu descobrimento... Ensina-se, com convicção e seriedade, que o descobrimento da Absurdolândia, em 1° de abril do ano de 1.500, foi algo absolutamente casual, motivado por um curiosíssimo fato: a falta de ventos. Sim. Segundo a versão oficial, desde o primário lecionada à infância absurda, ao menos à minoritária parte dela que tem a oportunidade de freqüentar uma escola, que os navegadores, que saíram da matriz na Europa a caminho das Índias, por acaso chegaram à costa absurda devido a não haver ventos. Ora. Para qualquer cérebro minimamente apto para o que se costuma chamar de pensar, a estranheza disso flagrantemente salta aos olhos. Se esses navegadores quinhentistas iam da Europa à Ásia pelo Atlántico, já que ainda não existia o canal de Suez, então por óbvio margeavam o continente africano até atingirem o cabo da Boa Esperança, que, aliás, é sempre referido neste mesmo capítulo, o primeiro da história absurda, como um importante ponto de referência nesse trajeto, para, então, chegarem ao Índico. Pois bem. Como pode uma falta de vento ser tamanha a ponto de fazer uma frota ter desviado o seu caminho em, no mínimo, cinco mil quilômetros? Provavelmente jamais em toda a história da meteorologia tanto ar ficou parado por tanto tempo...! Ademais, como conceber que tais navegadores não pereceberam que a costa africana, que cabotavam, havia ficado para trás? Não havia uma âncora para ser jogada? Um remo de que se pudesse lançar mão? Ademais, quanto tempo teriam ficado à deriva até chegar à Absurdolândia apenas ao sabor da correnteza, como uma garrafa com um pedido de socorro? São, repita-se, mais de cinco mil quilômetros! Teriam decerto boiado por anos...! Como sobreviveriam? Mas o mais interessante vem depois... Depois de aprenderem sobre esse esdrúxulo descobrimento casual da Absurdolândia, os alunos de lá se deparam com o fato de que havia um tratado segundo o qual as terras absurdas já haviam sido delimitadas seis anos antes!!! Sim, isso mesmo! Parece absurdo? Na Absurdolândia é assim. Que chance terá uma criança de nove ou dez anos que ouve isso da sua professora, e o lê nos livros de história por ela adotados, de questionar que foi assim que aconteceu? E, nessa sorte, subliminarmente, e de modo mais agudo quando quanto ao que lá é oficial no que se refere às suas instituições, os absurdos vão, desde muito cedo, sendo empurrados goelas abaixo, até tornar-se algo absolutamente normal. Se se perguntar país afora quantas pessoas já se deram conta do quanto essa versão oficial do descobrimento é absolutamente inviável, sobretudo em se considerando a contradição desse famoso tratado, o "tratado de Somentiras", decerto pouquíssimos dirão que sim. E assim segue a história da Absurdolândia, uma absurda sucessão de farsas que, hipocritamente transmitidas de geração em geração, acabam se tornando a absurda verdade oficial, quase nunca, em respeito aos lá princípios maiores, questionada por ninguém.

Gugu Keller

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Ex Tunc

À vida que nunca fez sentido o amor um traz retroativo.

Gugu Keller

Absurdolândia 16

Por fim, como último elemento para termos dissecados todos os significados do simbolicamente tão rico lábaro absurdo, temos a cor com que dentro da faixa branca estão escritas as três palavras sagradas, "hipocrisia e absurdo", novamente o verde. Mas este verde, um pouco mais claro do que aquele, nada tem a ver com o do retângulo externo, sobre o qual falamos acima. Não. Este é um verde que simboliza a esperança, a hipócrita esperança do povo da Absurdolândia. Uma popular imagem que, de um modo lúdico até, muito bem explica como este importante elemento, a esperança, decisivamente atua no inconsciente coletivo absurdo é a do sujeito que monta num jumento e o faz andar pondo diante dele uma cenoura pendurada por uma vara de pescar segura pelo próprio montador, de modo que, conforme o jumento anda, a cenoura também anda e ele jamais a alcança, e, jumento que é, continua andando indefinidamente em sua busca. Sim. A esperança do povo absurdo é exatamente assim. A Absurdolândia, numa alusão às suas riquezas infindáveis, que um dia decerto, o de São Nunca, haverão de reverter equanimemente em benefício do seu povo, diz-se orgulhosamente o "país do futuro". Contudo todos sabem que é um futuro que ninguém viverá para ver e que essa apenas mais uma frase de efeito a fazer parte da infindável ladainha que está sempre a hipocritamente justificar tanta injustiça, a hipocritamente justificar o injustificável, a hipocritamente justificar o absurdo. Entra década, sai década, políticos vão e vêm a cumprir mandatos e mais mandatos, todos, aliás, oriundos da elite que exclusivamente representam, a dos da estrela de cima, num teatro de canastrice em que uma situação perene contracena com uma oposição de fachada,  sempre paira no ar um espírito de que "é preciso arrumar a casa", pôr as contas em ordem para que, a médio prazo, a Absurdolândia enfim desponte como o grande país que, para todos os seus filhos, pode e deve ser. E eis, simbolizado no verde com que escritas estão na bandeira as três imaculadas palavras, a esperança do seu povo, a esperança de quem, qual o jumento da cenoura, corre atrás de um horizonte que, obviamente, na mesma velocidade sempre continua a se afastar.

Gugu Keller 

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Somatização

Seguimos a penas psicovencidos por nossos apenas pseudoproblemas.

Gugu Keller

Absurdolândia 15

O penúltimo elemento da bandeira a ser estudado, referente também à faixa elíptica, diz respeito à sua cor, o branco. Em sintonia com os dois princípios sobre ele inscritos, o branco hipocritamente simboliza o fato de tratar-se de uma terra onde impera a paz. E, sim, sempre hipocritamente, a Absurdolândia afirma-se,  com veemência e tradição, um país essencialmente pacífico. Mas é que essa hipocrisia, que, se não fosse trágica beiraria a piada, fraudulentemante apega-se no fato de não ser a Absurdolâdia um país que amiúde se envolva em conflitos externos. De fato, ao longo da sua história, isso pouco aconteceu. Contudo, absurdamente, a violência que desde sempre há em seu território é tamanha que não constitui nenhum exagero classificá-la como um país em constante guerra civil. Para se ter disso uma idéia, anualmente na Absurdolândia o número de homicídios cometidos é superior a 50.000, 136 por dia, sendo fato notório que outros milhares não entram nessa estatística porque, devido à completa desestrutura do estado absurdo, sequer são registrados. Ou seja, números absurdos, que fazem desse país que categoricamente se afirma pacífico um lugar onde se morre de modo violento muito mais do que em qualquer área, por exemplo, do oriente médio. Mas esses números ainda não incluem as mortes no trânsito, que, por si só, equivalem a uma outra guerra civil ano após ano sendo travada na Absurdolândia, já que estamos falando de mais 40.000 mortes anuais, ou 109 diárias, sendo que aqui há também uma gigantesca quantidade de mutilados, que não raro enfrentam a invalidez como conseqüência dessa guerra. Se somarmos o número de homicídios cometidos anualmente na Absurdolândia com o das mortes no trânsito que no mesmo intervalo lá ocorrem, temos a cifra aproximada de 100.000 óbitos por ano diretamente conseqüentes da violência, números que muito bem ilustram a hipocrisia basilar de uma nação que, tradicional e absurdamente, tanto se afirma pacífica, e disso aos quatro ventos se enaltece.

Gugu Keller 

domingo, 15 de setembro de 2013

Ouvindo FGTH

The world is my oyster. The word, my pearl.

Gugu Keller

Absurdolândia 14

Escritos na faixa elíptica da bandeira, então, como em vários momentos o texto já adiantou, os dois princípios que onipresentemente regem a vida na Absurdolândia: "hipocrisia e absurdo". Conforme decerto o leitor já percebeu nas linhas precedentes, tudo na Absurdolândia curva-se a esses princípios. Trata-se de um povo essencialmente hipócrita que perenemente convive com o total absurdo diante de si, fazendo do país um exemplo sem qual no mundo de perfeita sintonia entre a sua realidade e o que a sua bandeira simboliza. Interessante é notar, agora que diretamente se aborda o duplo mandamento do lábaro, que esses dois princípios, como igualmente já terá observado o leitor mais cuidadoso, estão, de modo necessário e indissolúvel, unidos, atrelados um ao outro. Ou seja, a hipocrisia é o que promove, e ao mesmo tempo passivamente aceita, o constante absurdo, que, por sua vez, não existiria nem de longe na proporção em que se verifica se os seus promotores, e passivos receptores, não fossem sempre absolutamente hipócritas, é claro que aqui deixando de lado aquele questionamento acerca de se hipócritas passivos ou apenas vítimas com relação aos segundos. Assim, com, decerto por ser hipócrita, aparente orgulho, o povo absurdo, através dos tempos, e, quer parecer, cada vez mais, conduz a sua vida e a do seu país em perfeita harmonia com as palavras estampadas na sua bandeira, hipocrisia e absurdo. É. Ei-los, sempre e sempre, mergulhados no absurdo de sua realidade a esbanjar hipocrisia em sua atitude. Sempre, sempre e sempre. Ainda com relação à faixa, restam nela dois elementos, os dois últimos da bandeira, para que tenhamos compreendida toda a sua simbologia.

Gugu Keller

sábado, 14 de setembro de 2013

Absurdolândia 13

Ainda que a hipocrisia seja um princípio generalizado e seguido à risca na Absurdolândia, questionam certos estudiosos da vida absurda, não sem razão, se é apropriado classificar os representados pelas vinte e seis estrelas abaixo da faixa como "hipócritas passivos", qual comumente se faz e acima se explicou. Segundo aqueles, apesar da hipocrisia ser inequivocamente desenfreada e absurda no país, os lá menos favorecidos são desde a infância tão massacrados por esse estado de coisas, que, e também por lhes ser negado, como se viu no capítulo anterior, um mínimo em termos de educação, eles seriam muito mais vítimas dessa hipocrisia do que participantes dela a ponto de poderem ser chamados de "hipócritas passivos". De todo modo, mesmo que sob um ponto de vista didático, já que estamos estudando aqui a Absurdolândia, valha a pena mencionar o interessante questionamento, tal não muda nada o que ocorre na prática. A Absurdolânida, e assim tem sido através dos tempos como outra obviedade que clandestinamente ulula, apenas deixaria de seguir os seus basilares princípios e de ser o que é se ocorresse uma entre duas coisas... A primeira seria se a elite absurda, os representados pela estrela de cima, deixasse de lado o seu egoísmo e a sua hipócrita indiferença para com seus compatriotas menos favorecidos e passasse a ter uma atitude altruista desejosa de construir algo que efetivamente se pudesse chamar de "nação". A segunda se operaria  caso a maioria absurdamente oprimida, os das estrelas de baixo, sejam eles hipócritas passivos ou apenas vítimas, tomasse consciência de que, sendo numericamente muito mais do que os seus vampiros parasitas, sem dificuldade poderia reverter a coisa se minimamente se unisse e organizasse para isso. Eis a simples e irrefutável teoria. Em ambos os casos, é nítido que, tendo a Absurdolândia os infindáveis potenciais que tem, tudo mudaria em três tempos. Tristemente, contudo, como a história tem mostrado através dos séculos afora, difícil é dizer qual das duas coisas é menos provável.

Gugu Keller

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Repostagens

Com muita alegria para mim, este meu modesto blog já tem quase 1.500 postagens, ou seja, está meio grandinho. Em razão disso, e considerando que muitos dos meus amigos seguidores são relativamente recentes e que normalmente as pessoas preferem ler apenas o que é mais atual num blog, tive a idéia de resgatar alguns posts meus mais antigos que creio que ficaram bons mas que muita gente que hoje vem aqui não chegou a ler. A partir de agora, então, uma vez por semana, às sextas-feiras, postarei algo que eu já havia postado há tempos atrás para que os visitantes mais novos os conheçam. Serão as minhas semanais repostagens. Espero que gostem...
Bjs a tds! 

Gugu Keller

Absurdolândia 12

Abordando-a de um modo mais específico para que melhor se tenha uma idéia da absurdidade absurda quanto à educação, é interessantíssimo observar coisas que muito provavelmente apenas na Absurdolândia acontecem.  Quem, por exemplo, tendo lido o capítulo anterior, ficou a imaginar que as universidades públicas absurdas são de péssima qualidade, errou por muito. São, ao contrário, em grande parte, excelentes. A USP, Universidade Seletiva de Paulópolis, apenas para uma delas citar, é altissimamente gabaritada mundo afora, e, em comparação com as particulares na própria Absurdolândia, as públicas são a grande maioria entre as de melhor reputação. O que ocorre lá, em nome do princípio do absurdo, é que, absurdamente, no ensino público, apenas o superior é decente. Sim. Hipocritamente, o estado investe generoso nas universidades enquanto deixa à míngua o ensino básico, de sorte que, enquanto aquelas são de excelente padrão, as escolas públicas de primeiro e segundo graus, tirante raríssimas exceções, vitrines da mentira, sabe-se, que no país inteiro conta-se nos dedos, são verdadeiras pocilgas semi-abandonadas onde professores heróis enfrentam todo tipo de carência para, a troco de salários de fome, lograr pouco mais do que alfabetizar os alunos nascidos entre os representados pelas estrelas abaixo da faixa, que não têm como pagar um colégio particular, onde, aí sim, de um modo completamente inverso ao que ocorre no nível superior, o privado, sempre caro e elitizado, inacessível para a gigantesca maioria, 26/27, incomparavelmente supera o público, degradado, deficiente, desnutrido. Mas então é que vem o absurdo mais assustador, ao menos para quem não vive na Absurdolândia, na medida em que, para se ingressar nas renomadas universidades públicas, onde as vagas são obviamente bastante limitadas, há um prova de conhecimentos gerais, o chamado preambular, onde se mede competitivamente a capacidade dos candidatos, em que, é claro, excetuados raríssmos casos de incomensurável esforço pessoal, os que vêm das escolas públicas não têm a mínima chance de concorrer com quem vem das particulares, ou seja, o ensino público de qualidade acaba tendo como beneficiários praticamente apenas os que estão representados pela estrela de cima, já que, através dessa situação absurdamente injusta, elitiza-se o pouco que é gratuito e de qualidade, em perfeita harmonia, assim, com a mentalidade imperante na Absurdolândia. Nas últimas décadas, claramente baseada no princípio da hipocrisia, tem havido uma política de cotas nessas universidades públicas absurdas para alunos vindos das escolas públicas de primeiro e segundo graus, o que, hipocritamente, dá a impressão de haver enfim uma real preocupação em se diminuir esse gigantesco abismo social. Mas, para qualquer observador minimamente atento, fica claro tratar-se de uma farsa palitiva de conseqüências dantescas, afinal como pode alguém cuja base educacional foi extremamente carente acompanhar um curso superior de bom nível? Salvo as referidas raríssimas exceções de gigantesco mérito pessoal, é o mesmo que pretender erguer uma casa sem alicerce. O óbvio ululante, e a Absurdolândia é um país onde as obviedades têm um quê de clandestinas, seria, se se quisesse, numa remota hipótese, contrariar o princípio e diminuir a absurdidade da situação, investir-se de maneira decente na educação pública em todos os níveis, principalmente, até, na mais básica, como aliás, prometem para não cumprir os caras-de-pau que detém o poder há décadas e décadas e décadas. Mas não. Na Absurdolândia não é assim que funciona. Ensino público de boa qualidade lá, só para quem tem dinheiro, para quem nasceu representado pela estrela acima da faixa, um em cada vinte e sete.

Gugu Keller    

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Queda

Só o que se tece amor amortece.

Gugu Keller

Absurdolândia 11

Conforme já referido, dentro do círculo azul da bandeira, que representa o oceano de desunião do povo absurdo, há, como se nele estivessem refletidas, a iludir, tal qual se explicou, tratar-se de um céu, vinte e sete estrelas. A simbologia aqui está na sua disposição. É que o círculo azul é dividido ao meio por uma faixa braca elíptica onde estão escritas as duas palavras, três se contarmos o "e", sendo que, das vinte e sete, apenas uma está colocada acima da faixa. Sim. As outras vinte e seis estrelas estão na parte de baixo. E o significado é bastante simples... Qual dito no capítulo anterior, a população absurda é composta de uma pequena minoria que se aproveita da absurdidade do país para levar uma vida extremamente farta e confortável, os "hipócritas ativos", os ditos "caras-de-pau", e de uma gigantesca maioria, "os hipócritas passivos", que, justamente para sustentar o conforto dos primeiros, vive na dificuldade, na privação, na exclusão, à margem. Pois bem. A disposição das estrelas na bandeia mostra a proporção em que isso ocorre. Sim. Sincronicamente, de um modo bastante próximo da exatidão através dos tempos, temos que, de cada vinte e sete cidadãos da Absurdolândia, apenas um tem acesso ao que se pode classificar como dignidade em termos de cidadania. E observe-se que para estes, os da estrela de cima, a Absurdolândia é um país de primeiro mundo, a ninguém ficando a dever no que se refere a, por exemplo, saúde, educação, possibilidades e qualidade de vida em geral. Ao contrário, o que lá não falta em relação a tais coisas, quando os beneficiários são os da superior estrela solitária, é uma excelência de nível internacionalmente conhecido. Na Absurdolândia, tudo o que deveria ser básico, inclusive com previsão legal para isso, é totalmente elitizado. Aliás, como essa elitização é ao extremo flagrante, talvez mais do que em qualquer outra área, no campo da educação, e isso, obviamente, com base no princípio do absurdo, é proposital, fica muito difícil para quem tem origem nas classes menos favorecidas transcender a faixa central da bandeira e passar a integrar a estrela só da parte de cima, e os poucos que o conseguem, quase sempre artistas, futebolistas ou felizardos da loteria, não raro, hipocritamente, dão as costas para os ficaram na parte de baixo, esnobando-os e se tornando novos caras-de-pau. Por outro lado, é óbvio que, em respeito à hipocrisia mentirosos contumazes, os que detêm o poder afirmam o tempo todo que a proporção das estrelas tem mudado, que, dentro dessa proposta simbólica do lábaro absurdo, várias delas já teriam migrado para o hemisfério norte do mar azul redondo, na medida em que o povo estaria tendo mais acesso a tudo em termos de cidadania. Chegam a afirmar em sua postura de pínóquios sem nariz que, conforme reza a constituição absurda, a busca constante pela diminuição das injustiças sociais está mais do que nunca na ordem do dia. Sempre a pedir votos, o afirmam sorridentes. Mas todos sabem, tanto os que dizem quanto os que ouvem, hipócritas ativos ou passivos, tratar-se da ladainha da perene farsa. Tal ordem do dia é, na verdade, uma constante alusão à data marcada pelo folclore local para que os absurdos não vivam mais oprimidos pelo absurdo, o dia de São Nunca, a se comemorar a 30 de fevereiro do próximo ano que esse dia tiver. Sim. Voltando a falar em termos didáticos, ao analisarmos essa estrutura social do país, tão bem representada na sua bandeira, temos que a Absurdolândia é claramente uma sociedade absolutista que mantém um sistema de exploração dos nascidos com menos sorte quase que medieval, mas que, hipocritamente, conforme lhe é princípio, através de um sistema capitalista selvagem, covarde e ardiloso, traveste-se de democracia a ponto de dela dizer-se orgulhosa.

Gugu Keller

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Absurdolândia 10

Mas o princípio da hipocrisia, que, junto com o do absurdo, norteia a vida na Absurdolândia, tem as suas complexidades, as suas nuances, as suas curiosidades. É que, justamente por se tratar de hipocrisia, ela nunca pode ser assumida. Não. Como faz parte da sua essência, é sempre algo velado, travestido, maquiado. Assim, de tempos em tempos, e aconteceu recentemente a se considerar o momento em que estas linhas são escritas, o povo absurdo manifesta-se em repentinos lampejos de protesto contra o absurdo que é o seu dia a dia. Passeatas são organizadas, inflamados discursos são feitos, greves são articuladas e levadas a cabo e até audiências com altas autoridades são conseguidas. Até à violência, já que, absurdo por absurdo, isso lá é sempre presente, chega-se em nome de uma pretensa busca pela diminuição da absurdidade no país, como se, de fato, assim realmente se quisesse. Mas, conforme sobredito, é apenas uma pitoresca nuance da hipocrisia absurda. Sim, pois, nas poucas vezes em que esse tipo de fenômeno acontece na Absurdolândia, logo se percebe tratar-se de algo raso, vazio, inconsistente, qual uma moda rápida que passa como uma onda, a título de, hipocritamente, fingir-se um pouco que a hipocrisia não é tanta, o que, assim, num circular paradoxo, a ela própria fortalece. De modo que, sempre que tal espírito contestador timidamente dá o ar da graça em terras absurdas, insinuando-se como algo através do que se buscaria afinal, ao contrário do que ilustra a bandeira, alguma união verdadeira e construtiva entre as pessoas, fica logo claro que tudo foi meio que uma encenação, uma farsa facilmente contornada pelos caras-de-pau que detêm o poder, seja com uma pequena concessão irrelevante e paliativa, seja com ameaças covardes nas entrelinhas de seus discursos reticentes, seja através das inúmeras promessas que sempre fazem e nunca cumprem, o que, diga-se de passagem, para o povo absurdo é absolutamente normal, já que esses mesmos promitentes contumazmente indimplentes são de modo contínuo prestigiados, eleitos e reeleitos. É que, por outro lado, novamente em respeito ao princípio da hipocrisia, a mentira é de tal modo oficializada e normal na Absurdolândia que ninguém que lá exerce alguma autoridade se importa se os fatos demonstram claramente o contrário de que é dito, e, como o povo em geral, tão afeito também ao outro princípio, o do absurdo, contra isso não reclama, já que jamais passa de algum eventual agito que não faz mais do que atrapalhar o trânsito aqui ou acolá, que, no fundo, bem se sabe, é apenas mais um tipo de festa onde se dança, canta e requebra, e, sobretudo, avaliza, qual dito, os que comandam a absurdidade desenfreada sempre renovando eleitoralmente os seus mandatos, tudo acaba sendo uma eterna continuidade do que sempre foi, e parece fadado a sempre ser. Didaticamente, é curioso abservar, assim, ainda quanto ao princípio da hipocrisia na Absurdolândia, que dois são os tipos de hipócritas que lá se vê... Os "hipócritas ativos", que meio que se confundem com os "caras-de-pau", a minoria, que nababescamente lucra com o absurdo, e os "hipócritas pasivos", a maioria, que a esse absurdo que tanto os avilta aceita sem nenhum tipo de contestação minimamente séria, quando muito, eventualmente, como houve há pouco, um pequeno vacarnal temporão aqui e ali.

Gugu Keller   

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Absurdolândia 9

Também, e não se pode olvidar, o povo absurdo passa para o mundo uma imagem de unido e solidário, além de extremamente alegre, quando o assunto é festa. Neste ponto, definitivamente, a Absurdolândia é imbatível. O vacarnal, famosíssima festa celebrada no mês de fevereiro, às vezes chegando ao começo de março, é, para muitos, em termos não apenas de entusiasmo e participação popular mas também de organização, o maior espetáculo da terra. Os chamados "colégios do ritmo", agremiações que nessa oportunidade desfilam temas alegóricos competindo entre si pela melhor performance, são entidades quase que sagradas na cultura popular absurda. Trata-se, sem dúvida, de um grande mistério que desafia a compreensão dos estudiosos desse tão pitoresco lugar. Como pode a terra onde o absudo é a regra posar para o mundo de tão feliz? Só o outro princípio que lhes é norte o explica, a hipocrisia, sempre a hipocrisia, a incomensurável hipocrisia do povo absurdo. Sim, pois qualquer país que tivesse os gigantescos potenciais que a Absurdolândia tem e deles construísse apenas o que ela constrói, o completo absurdo, deveria, no mínimo, envergonhar-se diante do resto da humanidade, esconder-se, abster-se, recolher-se num recôndito silêncio que ao menos pudesse disfarçar a sua tão estarrecedora e, aos olhos do bom senso, aviltante realidade. O que será afinal que comemoram tanto? A corrupção desenfreada que os vampiriza? Os caras-de-pau ininterruptamente no poder? A fome que os dizima quando poderiam facilmente produzir o décuplo do que a sua população necessita para se alimentar? O fao de para tanto já produzirem o triplo e a maior parte ser desperdiçada, não chegando às bocas dos famintos? A violência urbana que os condena a um não assumido porém contínuo estado de guerra civil? A completa elitização da saúde e da educação? O completo sucateamento do transporte público, que leva como gado os que ao menos ainda tem a sorte de conseguir embarcar, pagando caro, já o vimos, para tanto? As estradas esburacadas? A merenda escolar apodrecida? Os seus tantos impostos a troco de nada? A tortura que corre solta? O preconceito desenfreado? Os tantos pedintes? Os tantos analfabetos? Os tantos semi-escravos? O coronelismo? Os latifúndios? A pistolagem? É. Eis o mistério. Pois o fato é que, sim, comemoram, e muito. Vacarnal, picareta, meu-bom-boi, São Jasão, parapatins. O mesmo país que sangra, agoniza, rasteja-se e apodrece, ao mesmo tempo dança, rebola, batuca, canta e pula para o mundo ver. É. Bem vindos ao maior show da terra! Loucura? Contrassenso? Absurdo? Na Absurdolândia é assim. E tampouco se olvide que o povo absurdo é apaixonado por futebol. Sim. É absolutamente claro, qualquer um com um mínimo de discernimento sabe, que lá os campeonatos são arranjados, os resultados são manipulados, as arbitragens são mal intencionadas, os interesses das televisões são prioritários, o dinheiro é o que decide e os clubes de maior torcida são descaradamente favorecidos, mas, mesmo assim, o povo absurdo ama incondicionalmente o esporte bretão. São fanáticos a ponto de ser comum que brigas terminem em mortes quando dos grandes jogos, se bem que, a rigor, isso não significa tanto na Absurdolândia, na medida em que lá a vida humana não vale praticamente nada, o abordaremos adiante. Mas, falou em futebol, assim como em vacarnal, falou em Absurdolândia. Sim. Quando o assunto é festa, animação, alegria, comemoração, o princípio da hipocrisia é, de fato, uma vez mais, com decisão levado a cabo naquele país, na medida em que, cheios de alegria, os absurdos negam com admirável desfaçatez a sua flagrante e fatal desunião que, naquele redondo oceano azul, a sua bandeira nacional tão bem simboliza.

Gugu Keller

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Absurdolândia 8

Mas é claro que, por completa hipocrisia, princípio para ele indelével, o povo absurdo faz-se de extremamente unido e solidário para com o seu patrício, e as catástrofes, quando ocorrem na Absurdolândia, quase sempre motivadas pela absurda omissão de suas autoridades em todos os campos relativos a uma mínima política de prevenção, costuma  ser o momento em que os absurdos mais se lançam a esse tipo de fingimento, sempre mandando grandes quantidades de donativos (em regra coisas que não lhes farão nenhuma falta) acompanhados de mensagens cheias de emoção e de preces pelos flagelados atingidos. No verão, por exemplo, quando fortes chuvas atingem muitas regiões do país, e como, ao contrário do que hipocritamente sempre se promete, nada nunca se faz a respeito para o evitar ou minimizar, é bastante comum haver grandes enchentes e devastadores deslizamentos de terra em encostas indevidamente habitadas, que amiúde matam e mutilam centenas de pessoas, além de a milhares desabrigarem e destruírem os seus poucos bens. São esses os momentos que, por óbvio à posteriori, invariavelmente motivam esse tipo de manisfestação, numa clara ação tardia de compensação autodesculposa coletiva diante de uma viciosa omissão flagrantemente matricial. Contudo, sempre de modo hipócrita, é princípio, essas pessoas naturais da Absurdolândia parecem não se dar conta, ou pior, certamente se dão mas fingem que não, de que a verdadeira solidariedade, o verdadeiro espírito de união, de respeito e amor ao próximo, de nação no exato sentido da palavra, de mínima consideração para com o bem estar coletivo jamais será atingido através de esmolas para os menos favorecidos ou de donativos para as vítimas de uma determinada catástrofe, ainda que, como na Absurdolândia em regra é, anunciada, mas, sim, com uma busca contínua e participativa daquilo que legalmente, constitucionalmente lhes é de direito, já que, mesmo lhes sendo as leis, inclusive a maior delas, papel para pipa, eles pagam seus impostos, e como pagam, falar-se-á a respeito adiante. Mas não. Definitivamente não. Nesse tipo de atitude, o povo absurdo é absurdamente tendente ao zero. Não se respeitam, não se unem, não se solidarizam e não cooperam uns com os outros, não se dão as mãos na construção de uma sociedade minimamente digna. São, "da boca pra fora", no chamado "oba-oba", sim, simpáticos, dados, receptivos e calorosos, mas, no fundo, ao mesmo tempo, como diz a referida frase popular, cada um "quer sempre levar vantagem em tudo". Aí, quando ocorrem as grandes tragédias, como incêndios, desabamentos, inundações ou o que seja, em 99% dos casos em razão da mencionada omissão sistemática das autoridades, que, por sua vez, são afinal respaldadas por esse povo já tão afeito ao absurdo, esse mesmo povo, então pretendendo-se solidáiro, humano, unido e patriota, mobiliza-se de imediato num hipocritamente aflito ímpeto de minimizar o que facilmente, desde que houvesse uma mínima preocupação e ação prévia a respeito, poderia ter sido evitado. Sim. Na Absurdolândia é assim. É um povo que, sobretudo motivado pelo calor dos acontecimentos através da sua imprensa absurdamente imediatista, une-se fraternalmente nas tragédias, e daí, hipocritamente, pretende-se solidário, mas é por completo desunido no seu cotidiano, quando poderia, através de uma cultura mínima de respeito ao coletivo, construir uma nação onde esmolas não fossem tão comuns, e nem donativos tão dramaticamente necessários. Eis o oceano no círculo azul da bandeira, com suas ilhas e seus náufragos tão distantes uns dos outros. Eis. Em tempo, nessas ocasiões de catástrofes em que há esse referido grande fluxo de donativos para os necessitados a título de alívio para as consciências, boa parte deles são, em nome do princípio do absurdo, desviados de seu destino, via de regra pelos agentes público que têm a função de os fazer chegar a quem precisa. Sim. Na Absurdolândia é assim.

Gugu Keller

domingo, 8 de setembro de 2013

Ou Morte

A independência é o melhor exemplo daquilo que, quanto mais se busca ter apenas para se o mostrar, menos se tem.

Gugu Keller

Absurdolândia 7

Voltando à bandeira da Absurdolândia, o grande símbolo que tão bem espelha a realidade daquela nação, temos, inserido, por sua vez, dentro do losango amarelo, um círculo azul, em em cujo interior há vinte e sete estrelas. O primeiro engano que aqui o exegeta iniciante da vexilologia costuma cometer é o de pensar tratar-se de uma reresentação do céu, já que, conforme dito, o círculo é azul e contém estrelas. Mas é, na verdade, um erro a que prositadamente se induz, já havendo nisso um relevante significado. É que na Absurdolândia existe, também com base no pricípio da hipocrisia, uma extremamente presente cultura da aparência. Sim. Lá tudo tende a ostentar, principalmente no que diz respeito ao oficial, uma aparência de correto, de sério, de democrático e republicano, de, enfim, algo exatamente oposto ao que de fato é, sempre a rigor um acintoso absurdo. Assim, o fato é que o azul dentro do círculo da bandeira é na verdade um oceano, que fidedignamente representa o imenso mar de desunião que há entre as pessoas na Absurdolândia. Mas alguém perguntará... Se é mar, por que tem estrelas? Porque, justamente simbolizando essa mentalidade de culto à aparência, as estrelas estão apenas refletidas, como se deliberadamente se pretendesse fazer crer que é céu o que em realidade é mar. Em outras palavras, num flagrante paradoxo que novamente muito bem descreve a mentalidade absurda, se todos olharem para o lábaro e acreditarem que o mar é céu, ele terá muito bem cumprido a sua implícita função hipócrita. Pois bem. Os absurdos, então, gozam de uma fama internacional de serem um povo alegre, caloroso, receptivo, cheio de esperança e religiosidade, um povo amigo, simpático e hospitaleiro, e, sob muitos aspectos, todos hipócritas, de fato, ingavelmente, assim é. Contudo, em sua essência, basta um olhar minimamente mais detido para se o perceber, são pessoas totalmente avessas a qualquer senso de nação, que "não estão nem aí" umas para as outras, que são desunidas, egoístas e indeiferentes, e, sobretudo, que não se respeitam mutuamente quanto a seus direitos mais básicos. Numa frase típica por eles mesmos amiúde dita, é uma coletividade onde cada um gosta mesmo é de "levar vantagem em tudo", em nada importando o geral, o coletivo, o nacional, a pátria, o próximo. Na esteira do que hipocritamente primeiro faz o próprio estado, não respeitam as suas leis mas com veemência exigem o seu respeito quando em seu favor. São, em resumo, sempre famintos credores de um todo para o qual nunca fazem a sua parte. Assim, numa feliz interpretação feita por um grande pensador local, os absurdos são, em essência, no meio do oceano que eis no azul na bandeira, "pessoas-ilhas", náufragos em pequenos arquipélagos isolados, em longínquos entre si atóis, tal o nível de sua desunião, tamanha a sua ausência de solidariedade e de respeito para com cidadania alheia.

Gugu Keller

sábado, 7 de setembro de 2013

Runaway

Fugir de si mesmo é o que busca-se a esmo.

Gugu Keller

Absurdolândia 6

Vale a pena ainda, antes de sobre a bandeira absurda irmos adiante, fazermos, mesmo que decerto o leitor mais atento já o tenha bem assimilado, apenas para tanto quanto possível facilitar a compreensão de um texto que procura descrever da melhor maneira possível um lugar cujos costumes o fazem naturalmente difícil de compreender, uma distinção entre a palavra "absurdo" no seu significado mais comum, qual seja, algo que choca pela sua falta de razoabilidade, de bom senso ou de coerência, com a mesma palavra quando se refere àquilo ou a quem é natural da Absurdolândia, o chamado "gentílico". Mesmo sendo uma diferenciação tão básica, é, sim, importante, cremos, fazê-la já no início deste modesto trabalho, na medida em que, sendo o absurdo lá princípio, como veremos melhor seguindo sobre a bandeira, tantos são os absurdos de que falaremos ao discorrer mais sobre esse pitoresco país, que muitas vezes as palavras podem se embolar e confundir o leitor menos avisado. Brincando um pouco com os dois significados, dá para se dizer que são muitos os absurdos absurdos de que aqui falaremos, já que, afinal, para os absurdos os absurdos são o normal. A título de curiosidade, houve recentemente uma proposta de reforma gramatical na Absurdolândia em que se cogitou mudar o gentílico para "absurdolandês" ou "absurdolês", rejeitadas de pronto ambas as formas entretanto. Entendeu-se, não, segundo este ponto de vista, sem razão, que tal mudança afetaria a absurdidade natural da Absurdolândia e do povo absurdo. Assim, para seguirmos, tenhamos em mente que o natural da Absurdolândia é "absurdo", no feminino "absurda", o que, às vezes, tomara não a ponto de comprometer a sua compreensão, pode, já que, repita-se, inúmeras são as coisas absurdas de que falaremos ao descrever a nação absurda, fazer o texto parecer, de um modo eventualmente absurdo para quem não esteja familizarizado com o contexto, algo de clareza duvidosa, o que aliás, diga-se ainda, e aqui novamente resvalamos no outro princípio basilar desse tão diferente ente político, tem tudo a ver com o estilo de vida absurdo.

Gugu Keller 

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Absurdolândia 5

A expressão "cara-de-pau", vale o esclarecer antes de seguirmos com as explicações acerca da simbologia da bandeira absurda, já que tanto nos capítulos anteriores ela apareceu, é algo que remonta a cerca de cinco séculos atrás, época do pós-descobrimento da Absurdolândia, lá pelo século XVI... É que havia naquela época nas terras absurdas com extrema abundância uma árvore chamada "pau-de-coral", que, além de ser uma madeira muito nobre, fornecia uma tinta de cor avermelhada bastante peculiar, muito usada pelos indígenas autóctones em suas pinturas típicas. Até o descobrimento da Absurdolândia, em 1500, uma árvore consideravelmente rara. Jamais até então se a havia visto em tamanha abundância. Pois bem. Esses indígenas, numa tradução literal de seus idiomas, chamavam essa árvore de "pau-brasa", já que a cor da referida tinta que dela se fazia era de um vermelho bastante forte, vivo, meio como brasa mesmo, e muitos deles tinham enorme dificuldade em pronunciar o nome do vegetal no idioma dos descobridores, "pau-de-coral", como se disse. Acabavam falando "pau-de-caral", ou, às vezes, "pau-de-cara", e, curiosissimamente, foi a partir disso que surgiu a expressão "cara-de-pau", que seria, a princípio, o cidadão absurdo, o, como a árvore, natural da Absurdolândia enfim. Contudo, com o passar do tempo, a expressão evoluiu, passando a designar aquele que é absurdo demais, que tem as características absurdas enfatizadas demais em seu modo de proceder. Assim, se a hipocrisia, conforme já se referiu e ver-se-á melhor adiante ainda quanto à simbologia da bandeira, é uma característica onipresente na mentalidade do povo absurdo, nas situações em que o sujeito é tão hipócrita que ultrapassa todos os limites, encarnando, assim, digamos, um, mais do que típico, fanático cidadão absurdo, aí diz-se que ele é um "cara-de-pau". Podemos, assim, dizer que os "caras-de-pau" na Absurdolândia são pessoas que amam demais a sua pátria, a ponto de incorporarem esse princípio moral que com tanta força nela vige, a hipocrisia, de uma maneira praticamente constante em suas vidas. 99%, por exemplo, dos políticos absurdos são caras-de-pau, tanto que Hipocrisília, a capital absurda, costuma-se dizer, é a cidade onde há mais caras-de-pau por metro quadrado em todo o país. Mas eles não são essa gigantesca maioria apenas no campo da política propriamente dita. Todas as funções públicas na Absurdolândia são ocupadas em grande parte por caras-de-pau, o que é de se compreender, já que são, por natureza, pessoas tão patriotas. No empresariado em geral, e em algumas nobilíssimas profissões liberais, como a advocacia ou a medicina, os caras-de-pau compõem também uma boa parcela dos que no país atuam. Pode-se dizer, em resumo, que, no exato sentido do termo, o "cara-de-pau" na Absurdolândia é, de um modo geral, o típico cidadão de classe média/alta que em tudo prestigia os sagrados princípios que o país tem como seu norte. Por fim, por curiosidade vale a notícia de que o pau-de-coral é hoje uma árvore raríssima mesmo na Absurdolândia, praticamente à beira da extinção. É que, ainda que a natureza lá seja, como se disse, em tudo absolutamente exuberante, eles absurdamente a agridem de modo sistemático, de sorte que muitas espécies de animais e plantas, como é o caso do pau-de-coral, já se encontram, sim, infelizmente, quase que de todo extintas.

Gugu Keller

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Absurdolândia 4

Apenas para ilustrar o explicado no capítulo anterior quanto ao, conforme simbolizado no amarelo da bandeira, total aviltamento das leis na Absurdolândia por parte do próprio estado, que é por óbvio quem pretensamente a impõe, podemos dar um exemplo bastante básico, banal até, mas que com precisão o faz... A constituição absurda, e todos bem sabemos que a constituição é a mais alta e importante lei de um país, determina que todo trabalhador tem direito a um salário mínimo capaz de satisfazer as suas necessidades e as de sua família no que diz respeito a alimentação, saúde, higiene, transporte, vestuário, moradia e lazer. Pois bem. O salário mínimo absurdo, sempre, frise-se, fixado pelo governo, é hoje de 600 pau (o dinheiro absurdo é o pau, sendo que não se põe a palavra no plural, ou seja, diz-se um pau, dois pau, três pau etc). Imaginemos um trabalhador que viva em Paulópolis, a maior cidade absurda, onde a tarifa de ônibus é três pau, e que ganhe um salário mínimo. Suponhamos que esse trabalhador tenha três filhos em idade escolar, e que tanto ele para o seu trabalho quanto os filhos para a escola usem um ônibus para ir e um para voltar. Serão oito passagens por dia, ou seja, 24 pau. Se um mês tem 22 dias úteis, a despesa dessa família apenas com o item transporte será de 528 pau mensais, ou 88% do salário! Será que os 12% restantes, 72 pau, bastarão para os demais itens previstos constitucionalmente como direitos do trabalhador e de sua família? Aliás, para se ilustrar ainda melhor o absurdo da coisa, em Paulópolis, por 600 pau mensais não aluga nem barraco em favela. Ou seja, a lei, mesmo a maior e mais importante delas, aquela a que em tese mais se deve respeito, é, como bem simboliza a bandeira absurda, apenas papel velho, sujo, amarelado, enlameado, que, quando muito, serve para se fazer pipa. Alguns estudiosos da Absurdolândia, vale o mencionar como último detalhe desta pequena e básica ilustração, costumam chamar a atenção para o fato de um dos itens elencados no texto constitucional absurdo como direito do trabalhador a ser considerado no poder aquisitivo do salário mínimo é justamente o lazer. Lazer??? Para uma família??? Com 600 pau por mês??? Para tais estudiosos, com probabilíssima razão, a inclusão desse item sugere um elemento de sarcasmo, de humor negro, de ironia esnobe diante da desgraça coletiva, algo que, veremos melhor adiante, faz muito parte da mentalidade na Absurdolândia, onde, como princípio, a hipocrisia é sempre levada ao extremo, ao máximo, às últimas conseqüências, sobretudo, novamente, entre os caras-de-pau.

Gugu Keller   

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Prenda

Ver a mulher amada a sorrindo despir-se cúmplice
É ter que no fim da estrada o mais lindo destino cumpre-se

Gugu Keller

Absurdolândia 3

Inserido no retângulo verde, na parte central da bandeira da Absurdolândia, temos um losango de cor amarela com ângulos agudos na horizontal. É uma referência no lábaro às leis absurdas, ao sistema legal absurdo como um todo, à Absurdolândia, em resumo, como, também já em coro com o "princípio do absurdo" lá vigente, uma espécie de estado de direito às avessas. A simbologia é simples... O amarelo do losango significa que as leis do país não são feitas para serem cumpridas. Não. São, por assim dizer, papel amarelado, inútil, velho, apodrecido, desprezado. E, de fato, na prática assim é. Todo o sistema legal absurdo, a começar por sua constituição, tanto esta como aquele, curiosamente, aliás, decerto para enaltecer o absurdo da coisa, extensos à exaustão, são sistematicamente desprezados, sobretudo por aqueles que hipocritamente (princípio também) os pretendem impor. Para quem nunca leu nada sobre a Absurdolândia, o raciocínio pode parecer complexo, ou mesmo estranho, e é de fato estranho quando a respeito se raciocina com bom senso, mas, e chegaremos às palavras na bandeira, há que se ter em mente, para se compreender esse país tão diferente, que lá o absurdo é princípio, sendo preciso, portanto, para tal compreensão, que esqueçamos por completo tudo o que seja de bom senso.Temos, então, em síntese, um país que formalmente se afirma um estado de direito onde ele próprio, o estado, absurda, hipócrita e continuamente, é o primeiro a fazer questão de descumprir as normas que, por se dizer estado de direito, legitima-se a, "da boca para fora", a todos impor. E, em sendo assim, os cidadãos absurdos, sobretudo os caras-de-pau, tampouco sentem-se compelidos a cumprir a lei, comportamento que, por outro lado, de novo em nome do princípio da hipocrisia, veementemente negam. São, estes, os caras-de-pau, aliás, verdadeiros especialistas em invocar as leis e o estado de direito quando lhes interessa, como se não fossem eles mesmos os primeiros a os aviltar, até porque, ver-se-á adiante, muitos desses ditos caras-de-pau são autoridades que representam o estado. Tão feliz é a ilustração da bandeira no que se refere a esse aspecto da vida na Absurdolândia, que a simbologia não se esgota no amarelo do losango a explicar que as leis são papel velho e inútil, mas reside também no fato de tratar-se de um losango. É que, sendo a grande maioria da infância absurda extremamente pobre, sem acesso à maior parte dos bens de consumo, um de seus brinquedos mais populares é a "pipa", ou "papagaio", ou "quadrado" a depender da região, de modo que o losango significa também que as leis absurdas, quando não são literalmente papel imprestável, servem apenas para fazer "pipa", ou seja, como um brinquedo, como uma diversão, sobretudo nas mentes e bocas dos "caras-de-pau".

Gugu Keller 

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Imagens Urbanas

Haverá algo mais belo e tocante do que a amizade entre um solitário morador de rua e seu cão?

Gugu Keller

Absurdolândia 2

A bandeira da Absurdolândia tem como base um retângulo verde, que, por conter outros elementos dentro de si, acaba sendo também o seu contorno, a sua parte mais externa, a sua borda. O significado deste verde externo, limítrofe, fronteiriço, é o de que, mais do que qualquer lugar do mundo, a Absurdolândia é um campo extremamente fértil, cheio de riquezas inesgotáveis para todos os que de todas partes do mundo a quiserem explorar. Com efeito, trata-se do país mais rico do globo em uma infinidade de recursos naturais. É uma terra abençoada, onde tudo o que se planta dá, com jazidas minerais e recursos hídricos sem comparação planeta afora, fontes de energia das mais diversas, uma biodiversidade incalculável, milhões de quilômetros quadrados de florestas intactas, um potencial turístico sem igual, praias maravilhosas, serras, lagoas, sítios arqueológicos, um clima ameno e generoso etc. Tudo lá, enfim, em termos de natureza, é lindo e exuberante, e, contudo, como o verde na margem da bandeira com perfeição simboliza, é uma riqueza que invariavelmente flui quase toda para fora do país. Desde os tempos em que era oficialmente uma colônia até hoje, quando já, em teoria, é independente há quase duzentos anos, a Absurdolândia foi e continua sendo, dentre todos os países do mundo, aquele que é mais explorado por outros povos. Tanto que, apesar de toda essa riqueza de recursos de que se falou, e aqui, adiantando-nos, já começamos a falar um pouco sobre o "princípio do absurdo", que, também conforme a bandeira, lá vige, a grande maioria do povo absurdo é paupérrimo em função de toda essa evasão. Paupérrimo e muitas vezes faminto. Nem de longe vê a cor de toda essa abundância. Eis, assim, o significado do verde como contorno da bandeira absurda. Muita, muita, muita riqueza. Mas voltada apenas para fora, para o externo, para o estrangeiro, sempre e sempre através dos séculos. Tanto é assim que, mesmo os caras-de-pau, uma pequena mas bastante peculiar parcela da população absurda, de que se falará adiante, esta sim com acesso à riqueza, por motivos vários igualmente adiante abordados, mas, sobretudo, em extremo respeito a esse estado de coisas estampado no verde da bandeira, hipocritamente (outro princípio basilar) guarda a maior parte do muito dinheiro que a acumula em bancos sediados no exterior, fora da Absurdolândia.

Gugu Keller  

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Sobe e Desce

O mais irônico da inequívoca constatação de que a vida é uma gangorra é perceber que invariavelmente somos nós mesmos também do outro lado.

Gugu Keller

Absurdolândia 1

A Absurdolândia é um dos países mais diferentes e pitorescos do mundo, chegando a ser difícil para quem não é de lá conceber o seu modo de vida, os costumes e os valores de seu povo. É o tipo de lugar sobre o qual quando dele se fala as pessoas acabam por se perguntar... "Mas será que isso é verdade mesmo? Ou será apenas lenda?" Para começar, e isso é algo que em muito ajuda a compreender a Absurdolândia, trata-se de um país que, provavelmente como nenhum outro no mundo, é um verdadeiro paraíso para os vexilologistas, que são os estudiosos das bandeiras, símbolos, estandartes e seus significados. De fato, nenhuma outra nação é tão bem refletida nas cores da sua bandeira e de modo tão veemente segue os princípios nela contidos. Aliás, a bandeira da Absurdolândia é uma das poucas do mundo que contêm palavras escritas. São três palavras, ou duas se considerarmos que uma delas, a do meio, é apenas a conjunção aditiva "e" que liga as principais. As palavras escritas na bandeira da Absurdolândia são "HIPOCRISIA E ABSURDO", dois princípios basilares que inexoravelmente norteiam de modo decisivo a vida do seu povo.

Gugu Keller

domingo, 1 de setembro de 2013

Absurdolândia

Tendo concluído aqui no meu blog, como disse, com muita alegria, o meu romance "A Esquina", a partir de amanhã, segunda-feira, dia 2, darei início a um novo projeto, o "Absurdolândia". Trata-se de uma antiga idéia minha que, num primeiro momento, tentei levar a cabo como monólogo teatral, o que acabou não funcionando como eu queria. Farei, então, um livro, que, no blog, será ao mesmo tempo mais curto e mais longo do que "A Esquina". Será mais curto porque os capítulos serão bem menores e eu os postarei todos os dias, e não semanamente como foi com "A Esquina", e mais longo porque serão mais capítulos, prevejo 64. 
Outra diferença fundamental, para quem costuma acompanhar o meu blog, será que, juntamente com os capítulos do "Absurdolândia", continuarei com as frases e versos que costumo postar diariamente, ou seja, enquanto estiver escrevendo o "Absurdolândia", serão dois posts por dia.
O "Absurdolândia", como creio que o nome sugere, será um texto que falará sobre um país imaginário, que em tudo justifica o seu nome, talvez muito parecido com algum por aí que eventualmente os leitores conheçam... Assim como no "A Esquina", ficarei muito grato a quem comentar, criticar ou fizer qualquer sugestão...!
Vamos lá, então... A partir de 02-09-13 no Gugu Keller Blog, "Absurdolândia"!

Bjs a todos!

Gugu Keller