quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Opino

A deprimente reação do dito rei à publicação de sua biografia não autorizada fez de seu autor, tendo a crer, definitivamente desde já o melhor de seus biógrafos, na medida em que descortinou diante do público muito mais sobre a personalidade e os valores de sua majestade do que centenas de biografias, autorizadas ou não, poderiam ou algum dia poderão fazer.

Gugu Keller

Roedor

Raquítico a ratear rápido, meu coração é um rato errático no do teu rasgo rastro e rapto.

Gugu Keller

Bem

Felizmente melhorei. Hoje voltei a trabalhar e amanhã retomo aqui o "Absurdolândia".
Bjs a tds!
GK

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Mal

Queridos amigos...
Este outubro não tem sido dos melhores para mim. Além de alguma coisa ter gravemente me intoxicado, tive uma recaída daquela gripe e não estou nada bem, razão por que não tenho escrito aqui. Assim que melhorar, eu volto, tá?
GK

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

EuuE

Na parede do banheiro, traiçoeiro eis o vespeiro.

Gugu Keller

Absurdolândia 44

Ainda sobre essas tão discriminatórias abordagens, costumeiras em bairros pobres, periferias, favelas, conjuntos habitacionais desestruturados etc, a primeira coisa que a autoridade policial solicita ao "suspeito" abordado após o revistar é um documento, sendo a eventual falta deste um dos principais pretextos para a chamada "detenção para averiguações". Contudo, curiosamente, não há na lei absurda nenhum dispositivo que obrigue alguém a, a menos que esteja na condução de um veículo, portar documentos, sendo que, outra vez naquele hipócrita espírito de humor negro, a constituição local com todas as letras afirma que "ninguém é obrigado a nada senão em virtude de lei", ou seja, de novo, flagrantemente, no com perfeição simbolizado na bandeira, papel amarelo para se fazer pipa. De um modo resumido, aliás, em clara reverência a ambos os princípios alicerces, pode-se dizer que, na Absurdolândia, a lei que pune, que condena, que cobra, vale apenas para os representados pelas estrelas inferiores, ao passo que a que protege, que garante direitos e prerrogativas, apenas para a minoria oposta, os caras-de-pau e afins em geral. Assim, em larga escala, para os socialmente oprimidos que, muitas vezes por razões famélicas, arriscam-se em condutas criminosas, como o furto, o roubo ou o tráfico de entorpecentes, o inferno dos campos de concentração travestidos de penitenciárias onde se buscaria ressocializar o ser humano. Já para os do polo inverso, velejadores no mar de corrupção que a tudo destrutivamente inunda país afora, claramente, porque matricial, ao menos aos olhos do bom senso, o mais grave dos crimes, uma infinidade de artifícios e prerrogativas legais que tornam raríssima a prisão de algum deles. Apenas para se ilustrar o nível de absurdidade a tal respeito, a lei, e esta vale, e como vale, garante aos acusados de alguma conduta criminosa que possuam diploma em curso superior o direito a uma cela especial, apartada, portanto, dos referidos fornos nazistas. Parece absurdo? Odioso até? Na Absurdolândia é assim. E a explicação é extremamente simples... Os caras-de-pau que legislam no país, muito bem sabedores das condições das suas cadeias, preferiram proteger-se, e aos seus companheiros de estrela, de qualquer risco de vir a cair numa delas, até porque, no fundo, hipócritas, são também muito bem sabedores de o seu crime, a corrupção, efetiva ou por conivência, é, como a grande matriz de todo o absurdo, a rigor o mais grave. Noutro exemplo fantástico, na Absurdoândia magistrados que são condenados por corrupção praticada através da venda de sentenças, habeas corpus etc, como se isso não fosse a pior e mais torpe das ofensas a um sistema que se pretende democrático de direito, ao menos, novamente, ressalta-se, aos olhos do velho, pobre e tão surrado bom senso, recebem como punição legalmente prevista uma gorda aposentadoria compulsória. Absurdo? Aviltante? Pois lá é assim. De modo que, de novo ressaltando-se a precisão com que esta pitoresca nação é simbolizada em sua bandeira, é como se a lei-pipa na Absurdolândia sempre e hipocritamente se empinasse alta, podendo assim, ser vista e invocada apenas por quem, na mesma bandeira, alto eis no céu.

Gugu Keller

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Infinito Manancial

Apaixonar-se é por outrem descobrir o mais belo em si mesmo.

Gugu Keller

Absurdolândia 43

Tamanho é o preconceito a imperar na Absurdolândia que, voltando a ele, há lá uma figura cotidianamente presente nos jornais que dão ênfase às notícias de cunho policial: o suspeito. Sim. Sobretudo nas vastas e pobres periferias das metrópoles absurdas, as autoridades policiais dedicam boa parte de suas ações à abordagem e revista de suspeitos e, com considerável freqüência, à sua prisão para averiguações. Pois bem. Considerando-se que esse rotineiro procedimento do aparato de segurança do estado absurdo também, como não poderia deixar de ser, com requinte homenageia ambos os princípios basilares  nacionais, temos, a respeito, dois importantes aspectos que se destacam no o explicar... O primeiro é que, de modo bastante curioso, na Absurdolândia, grande parte desses "suspeitos" contra quem o estado opera essa sua corriqueira peneira preventiva o são de um modo intransitivo, ou seja, não são suspeitos de terem cometido algo, algum crime ou infração, mas apenas suspeitos. Intransitivamente suspeitos. E a explicação desse absurdo não apenas é simples como de conhecimento de qualquer cidadão absurdo minimamente informado... É que, na Absurdolândia, como se disse acima, tamanho é, em nome do princípio do absurdo, o preconceito que se respira por toda parte, que é a aparência da pessoa, onde ela mora, por onde transita, como fala, como se veste e, sobretudo, a cor da sua pele, o que a torna suspeita, passível de abordagens imotivadas, incoerentes e muitas vezes humilhantes pelos beleguins dessa mentalidade que impera a serviço. Então, em terras absurdas, se alguém é negro, se se veste com simplicidade, se tem um linguajar ruim, se vive numa favela ou sequer moradia tem, é suspeita, visto como uma constante ameaça aos cidadãos de bem. O segundo aspecto, de não menos curiosidade, diz respeito ao fato de, agora de modo mais diretamente ligado ao outro princípio, o da hipocrisia, a constituição absurda, expressão maior do lúdico losango amarelo, além de garantir a todos, entre muitos outros, o pleno direito à intimidade e à dignidade, afirmar claramente, de novo com aquele já explicado espírito de humor negro, que ninguém pode ser preso a não ser em flagrante delito ou mediante mandado judicial. Diz outra importante lei local, ainda, que alguém só pode ser revistado quando houver uma fundada suspeita que o justifique. Será a cor da pele de alguém ou seu modo de se vestir ou falar fundamento para uma suspeita? Poucos dentes na boca talvez? De todo modo, em fidedigno cumprimento dos princípios maiores, bem como em respeito ao amarelo da bandeira, vê-se nos jornais todos os dias que suspeitos foram abordados e detidos para averiguações. Os próprios agentes públicos, sem nenhuma cerimônia, o declaram diante de quaisquer microfones ou lentes. A lei? A constituição? Sobretudo para quem está representado pelas 26 estrelas abaixo da faixa naquele céu tão azul, mero papel para fazer pipa que o envolve. Na Absurdolândia é assim. Preconceito 10 X 0 Dignidade Humana. Em tempo, outra grande curiosidade relativa a esse tema é o fato de, apesar de ser gritantemente óbvio que os piores criminosos absurdos, os mais nocivos, os mais covardes, os mais vis, são justamente os caras-de-pau praticantes da corrupção, o de tudo crime-matriz, não se tem qualquer notícia de que eles sejam abordados, revistados e levados para averiguações em chiqueirinhos de camburões. É como se, além de todo o preconceito que na Absurdolândia absurdamente há, existisse ainda um seu avesso de certo modo até mais perverso em termos de conseqüências, na medida em que lá se tende a ver o bem nascido, por mais que baixo e sujo seja, como alguém a ser sempre reverencialmente respeitado.

Gugu Keller

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Chronos

Com amor, o tempo passa. Sem, se arrasta.

Gugu Keller

Absurdolândia 42

O sistema eleitoral absurdo é tão absurdo que nele há várias armadilhas criadas com o literal propósito de enganar o eleitor, já sempre tão enganado no tanto que o estado absurdo de modo sistemático lhe surrupia. Então, apenas para dar um exemplo, lá é extremamente comum que partidos comandados por políticos já desgastados perante a opinião pública após décadas de contínua prática corrupta, lancem, paralelamente às destes, candidaturas de figuras populares folclóricas, como dançarinas eróticas, mágicos ilusionistas ou palhaços de circo, ou, ainda, não raro, apresentadores de programas televisivos, sambistas e jogadores de futebol. O que se dá é que, na infantil crença de que o voto é afinal o único meio de se mudar alguma coisa na Absurdolândia, muitas pessoas votam nesses candidatos exóticos justamente como uma forma de protestar contra aqueles primeiros, sem saber que, com isso, numa espécie de carona eleitoral em que essa armadilha consiste, continuam a reeleger aqueles seus mesmos carrascos de sempre, contra quem pensavam estar protestando ao votar dessa forma. Sim. Na Absurdolândia é assim. Ademais, num dos mais solenes dentre os vários brindes que, conforme temos nos referido, perenemente se faz país afora ao seu tão cultuado princípio da hipocrisia, imortalizado ao lado do outro, o de absurdo, na bandeira nacional, as épocas que precedem os pleitos eleitorais são lá, sem sombra de dúvida, o maior desfile de mentiras deslavadas de que na história da humanidade alguma vez se teve notícia. Sim. A capacidade dos caras-de-pau de nesses momentos mentir com ainda maior convicção é, ao menos para quem, novamente se em termos de Absurdolândia, de modo ingênuo ainda acredita que a espécie humana possa se caracterizar por um mínimo de ética para com o próximo, para com o coletivo, algo simplesmente assustador. E não menos assustador é que, inexplicável e absurdamente, dá resultado. Sim. Por incrível que a olhos estrangeiros possa parecer, as vítimas, ou hipócritas passivos, não importa, mantêm-se sempre a passivamente seguir a cenoura sustentada pela vara de pescar. E nesses engodos eleitorais, pasme-se, mais ainda! É meio como se houvesse, e muitos até o afirmam, uma espécie de mística em tudo o que a bandeira absurda simboliza que faz com que, talvez numa espécie de transe a dominar o inconsciente coletivo daquele povo, tudo sempre se mantenha como é, perenize-se, recuse-se a evoluir. Tudo lá se mantém hipócrita. Tudo lá se mantém absurdo. Sempre perdem a esperança, a perspectiva e o trabalho. Sempre vencem a promessa, a manipulação e a exploração. Corrupção. Sempre triunfa a corrupção. Corrupção hipócrita, corrupção absurda. E, enquanto isso, no embalo do multicolorido mentiroshow pré-eleitoral local, com seus comícios, debates, jingles e bordões, sem falar na tragipatética propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão, a grande maioria dos 26/27 do sul celeste, ou seja, a grande maioria da grande maioria, crendo sorridentes com seus poucos dentes estar decisivamente participando da grande e cívica festa da democracia, exercem, como gado de tração, o seu obrigatório direito de voto, legitimando enganados a continuidade de sua prórpria ruína, comumente incentivados ainda por presentes de grande valia, como bonés, chinelos, camisetas, canetas, cestas básicas, quentinhas, café, queijadinhas, fatias de pudim ou maria-mole, ou, ainda, principalmente, transporte em caminhões do tipo pau-de-arara no dia do pleito, benesses que fazem não restar dúvida de que, de fato, pessoa boníssima, aquele é o melhor candidato, até porque, num seu raciocínio típico, é inteligentíssimo votar em quem decerto vai ganhar. Grande e cívica festa. Cínica festa. Na Absurdolândia é assim.

Gugu Keller 

terça-feira, 22 de outubro de 2013

És

Se eu te dissesse o que se pudesse diria, tu te saberias a que me enlouquece poesia.

Gugu Keller

Absurdolândia 41

Qualquer pessoa que possua um mínimo de discernimento acerca do que seja uma democracia, tanto em termos de conceito quanto na prática, sabe perfeitamente bem que não existe dela nenhum exemplo sério mundo afora em que nas eleições o voto seja obrigatório. Mas na Absurdolândia, onde tudo, como aqui já repisado, é sempre pelo avesso, não é assim que acontece. Trata-se, então, hipocritamente, de um país que se auto-proclama um extremo exemplo de democracia, a por todo o planeta ser seguido, ao mesmo tempo em que lá, de novo a socar a cara de quem ingenuamente ainda o tenta pensar com bom senso, o voto é obrigatório, situação tão bizarra que equivaleria, numa bastante ilustrativa analogia, a forçar todos a caminhar diariamente uma determinada distância pretendendo-se com isso alardear a solidez do direito de ir e vir. Aliás, outra vez num brinde ao princípio da hipocrisia, o estado absurdo, comente-se de passagem, lança mão não raro em propagandas televisivas da sua justiça eleitoral de um slogan em que afirma que votar é um direito antes de ser um dever. Direito obrigatório, então, engula-se. De todo modo, analisando mais este gritante absurdo absurdo, neste texto que modesta, já que de fora, e talvez, qual se aludiu há pouco, ingenuamente permite-se o fazer com algum bom senso, é de fácil percepção o porquê disso... É que sendo a Absurdolândia, conforme já se explicou aqui, um flagrante exemplo de estado ainda medievalmente absolutista mas de modo hábil travestido da mais moderna democracia, faz-se necessário para uma prudente minimização de quaisquer críticas a essa aviltante farsa, um, mesmo que claramente viciado, periódico endosso eleitoral da plebe parasitada, dos, de que tanto já falamos, representados pelas 26 estrelas sub-faixa. Mas é absolutamente óbvio, todos sabem, sempre souberam e decerto para sempre lá saberão, fala-se novamente dos com um mínimo de bom senso, que esses pleitos são totalmente inúteis no que diz respeito a qualquer possibilidade, mesmo que onírica, de mudança na mentalidade simbolizada na bandeira. A rigor, os caras-de-pau apenas se revezam no poder, na medida em que, flagrante e escancaradamente, as oposições políticas absurdas são apenas de fachada. O que há, isso sim, são meras disputas entre diferentes flancos da "nobreza" representada pela estrela superior, de modo que, conforme os mandatos se alternam entre uns e outros, aqueles ou estes conseguem aumentar a sua cota do sangue sugado da maioria excluída a cada período. E como por óbvio ser-lhes-ia constrangedora a gigantesca abstinência que com grande probabilidade haveria caso se aplicasse a democraticamente básica regra do voto facultativo, mantêm-se, mediante as mais estapafúrdias justificativas, a obrigatoriedade do voto na Absurdolândia, na tão exemplar democracia absurda.

Gugu Keller 

domingo, 20 de outubro de 2013

Absurdolândia

Queridos amigos...
Recebi uma proposta para um trabalho como "ghost writer" que vai me render um bom dinheiro, razão por que, infelizmente, terei de rever a cronologia do "Absurdolândia". Amanhã, segunda-feira, dia 21, postarei aqui como será. Peço desculpas a quem está acompanhando. Mas fiquem tranqüilos! Não deixarei de concluir o texto.
Grato.
GK
 

Opinião

Sou a favor de que produtos químicos em geral sejam testados nas pessoas que acham que eles devem ser testados em animais.
 
Gugu Keller

Eye of the Tiger

Desistir do que se deseja equivale a, diariamente doravante, comparecer vivo ao próprio velório.
 
Gugu Keller

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Seios dos Meus Anseios (Repostagem)

Pelo da musa sob a blusa, do poeta a verve ferve.

Gugu Keller

Absurdolândia 40

Assim como os nobres ingleses do polo a cavalo, os caras-de-pau detentores do poder na Absurdolândia são fanáticos entusiastas de um jogo por eles praticado em grande difusão país afora, sendo que, curiosamente, também aqui há embutida uma reverente referência aos princípios contidos no lábaro nacional, já que a vexilologia, como temos visto, de fato espelha a realidade absurda com uma fidedignidade sem par no planeta. Trata-se de um jogo que não constitui em verdade um esporte ou um passatempo, mas também uma outra prática lá comum a corroborar com a hipócrita mantença das aparências institucionais quando estas são de algum modo ameaçadas... Falamos do na Absurdolândia muito comum "jogo de empurra". Funciona da seguinte forma... As autoridades absurdas sempre chamam para si a responsabilidade sobre os diferentes âmbitos da gestão pública quando se trata de através dela de alguma forma arrecadar, tributar, locupletar-se, vampirizar, enfim, os representados pelas estrelas abaixo da faixa. Por outro lado, sempre fazem de tudo para livrarem-se dela quando algo causado pela sua contínua omissão redunda em algum dano midiaticamente bombástico. Ocorre amiúde quando de grandes catástrofes, como desastres aéreos, explosões em instalações industriais, desabamentos ou incêndios, qual recentemente ocorreu numa boate no sul do país, vitimando fatalmente centenas de jovens. Então, como as fiscalizações na Absurdolândia não têm a mínima seriedade, são apenas, em regra, encenações que servem de pretexto para o bom funcionamento da nacionalmente sempre celebrada indústria da corrupção, sobretudo quando o que se busca com elas preservar é a vida humana, que lá não vale nada, quando alguma tragédia, como o referido incêndio, ocorre e a imprensa se mobiliza de uma maneira que pode manchar a aparência de algum cara-de-pau ou grupo deles, é aí que começa o jogo de empurra. E como ele se dá? Simples... As autoridades municipais dizem que a responsabilidade é das estaduais, as estaduais dizem que é das federais, a polícia diz é dos bombeiros, os bombeiros dizem que é do conselho regional, e assim um vai empurrando para o outro sem que ninguém seja de fato responsabilizado por nada. Aliás, nas mazelas das saúde e da educação públicas na Absurdolândia, de que no presente trabalho já tanto se falou, também muito ocorre este entre os lá "nobres" festejado jogo de empurra. Quando candidatos a cargos públicos, quaisquer que sejam, os caras-de-pau sempre chamam para si a responsabilidade. Uma vez eleitos, e absurdamente sempre se elegem, começam o jogo de empurra, que normalmente praticam até o fim de seus mandatos. E se empurra, se empurra, se empurra e se empurra. Voltando às tantas tragédias anunciadas que igualmente dão ensejo ao jogo de empurra, joga-se em regra até que elas sejam esquecidas pela mídia, que naturalmente logo já se interessa por outras mais atuais, e tragédia na Absurdolândia é o que não falta, até que as responsabilidades, sejam afinal de quem forem, estejam juridicamente prescritas. Ademais, ainda durante a prática do jogo de empurra nessas situações, muito comumente surgem, em regra com extremo sucesso, advogados a afirmar que tudo não passou de uma terrível fatalidade. Sim. O único jogo que em terras absurdas se pratica tanto quanto o de empurra é o futebol.

Gugu Keller 

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Tempo

Envelhecer é sonhar com mais pressa.

Gugu Keller

Absurdolândia 39

A Absurdolândia adora vender a imagem de ser o país onde, dada a grande miscigenação que através dos tempos compôs o seu povo, brancos e negros melhor convivem no mundo. Uma vez mais, contudo, como bem sinaliza a bandeira, trata-se de pura hipocrisia. Não apenas a realidade lá é o extremo oposto de tal falso auto-retrato, como, de maneira ainda mais hipócrita, o racismo lá, mesmo gigantesco e onipresente, opera-se de um modo subliminar, de um modo velado, camuflado. É, no preciso dizer de alguns que bem observam, um racismo quase que cordial. Então, na Absurdolândia ninguém é assumidamente racista. Não. Tal coisa, aliás, irônica e hipocritamente, o papel amarelo em losango até prevê como crime inafiançável. O racismo absurdo está muito mais nas atitudes, nos pensamentos, nos comentários, nas piadas, nos olhares, nos hábitos. Ele não se dá através de ofensas claras e diretas, até porque, crime, qual dito, ninguém o assume. Dá-se, isso sim, numa peculiar e ácida mistura de sutileza e crueldade, na exclusão, na indiferença, no esnobismo e, sobretudo, nos números. Sim. Se os negros, ou mulatos, os afrodescendentes, enfim, como se diz, na Absurdolândia são cerca de metade da população, rarissimamente se vê um deles entre os representados pela estrela de cima. Quase apenas esportistas e artistas o conseguem. É bastante incomum, sobretudo em se considerando que, como dito, eles são a metade da população do país, que negros absurdos tornem-se médicos, ou engenheiros, ou advogados, ou sejam aprovados em concursos públicos de bom nível, até porque, proporcionalmente em relação aos brancos, pouquíssimos chegam ao ensino superior. Os que o conseguem, ademais, dentro do espírito acima referido, freqüentemente viram alvo de uma zombaria crônica e perversa que, pelas suas costas, nos ambientes privados sai sem piedade de muitas bocas comandadas por cérebros moldados com a mentalidade cara-de-pau, sendo que, quando alguém lembra que tal conduta é inafiançavelmente criminosa, não raro, com muito mais ironia, faz-se ainda outra piada em cima. Por outro lado, se os afrodescendentes são a metade do povo absurdo, basta ver a sua proporção entre os famintos, entre os moradores de rua, entre os que não têm acesso à educação, ao saneamento básico, entre os analfabetos, os presos, os mortos pela polícia, os suspeitos levados para averiguação, os excluídos, enfim, de um modo geral, e tem-se que, aí sim, essa metade não apenas aparece, como torna-se sempre a grande maioria. Na Absurdolândia é assim. Na imagem que se vende, raças múltiplas integradas em perfeita confraternização. Na verdade do dia a dia, racismo velado e deslavada desunião.

Gugu Keller

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Nuvem

A calcinha é o véu em que o céu se adivinha.

Gugu Keller

Absurdolândia 38

Voltando à corrupção, prática que sistematicamente melhor garante o perene cumprimento do sagrado princípio da hipocrisia na Absurdolândia, temos, com relação a ela, um interessantíssimo expediente de defesa da imagem das instituições, claramente também baseado no mesmo princípio, de que, quando necessário, igualmente de modo sistemático se lança mão... Trata-se da aos quatro ventos alegada "impossibilidade de generalização". Assim, lá, por mais que, como com freqüência ocorre, notoriamente se saiba que determinada instituição, ou classe, ou partido, ou grupo, esteja até o pescoço afundada(o) em práticas corruptas, e tal por alguma conjuntura midiática venha à tona, sempre se ergue alguma voz austera para defensivamente a todos fazer lembrar que nunca se pode generalizar, afinal, como bem se sabe, em todo seguimento há os bons e os maus profissionais e a generalização de qualquer má conduta é sempre leviana e perigosa, podendo injustamente jogar na lama o nome de pessoas sérias e honradas. É claro que, muitas vezes, a alegação não deixa de ser verdadeira. Contudo, na Absurdolândia, principalmente através do ululante fenômeno do chamado corporativismo que predomina em todas as esferas onde prevalece a mentalidade cara-de-pau, é curiosíssimo o quanto os que não estão diretamente envolvidos com a corrupção em qualquer seara, e que por isso mesmo a bater no peito exigem a não generalização, acabam sendo hipocritamente tolerantes com os que estão. Curiosíssimo e estranhíssimo, na medida em que, por bom senso, caberia àqueles mais do que a ninguém pretender uma severa e exemplar punição destes para que de vez se limpasse o nome da instituição ou classe em pauta. Mas não. Ao contrário. Meio por medo, meio por comodismo, até porque o medo é sempre meio cômodo, ao mesmo tempo em que invariavelmente se invoca essa sempre tão providencial impossibilidade de generalização, jamais se vê as pedras supostamente legítimas intressadas em fazer passar a peneira de um modo efetivo para que a areia suja se vá com a corrente. Não. Nunca se pode generalizar e ponto. Pára-se por aí. Assim é e assim fica. Para se poupar o pouco trigo de acusações levianas, poupa-se, em nome da gloriosa plantação, também o gigantesco joio, afinal, bem já o sabemos, a Absurdolândia é um país onde a regra e a exceção são sempre invertidas, e, absurdamente, ainda quanto a joio e trigo, não parece haver qualquer disposição lavoura adentro em se os separar. De todo modo, como mais uma obviedade clandestina e incômoda, fica a pergunta... Até que ponto a conivência não é também uma forma de participação? Sendo, como nessas situações parece óbvio, sequer procederia, novamente em se pensando com bom senso, essa tão alegada "impossibilidade de generalização". Mas bom senso? Não. A Absurdolândia é a Absurdolândia. Não se pode generalizar e ponto. Finge-se, isso sim, que a regra é exceção que deveria ser e ponto. E vice-versa. E ponto. Ademais, como, por outro lado, criticar a hipocrisia dos coniventes específicos quando tamanha e tão absurda é a não menos hipócrita conivência geral?

Gugu Keller

Retomando

Amigos...
Ainda não me recuperei totalmente da forte gripe que me pegou, tanto que já faz uma semana que não trabalho e nem saio de casa para nada que não seja ir ao médico ou ao hospital. Contudo, tentarei, a partir de hoje, retomar o "Absurdolândia", postando, daqui a pouco, o capítulo 38. Quando estiver melhor e mais produtivo, postarei mais de um por dia até recuperar o tempo perdido, de modo a concluí-lo no prazo prometido.
Mais uma vez, muitíssimo obrigado a quem me mandou votos de recuperação!
GK

terça-feira, 15 de outubro de 2013

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Playground

Indiferença e desespero em mim brincam de gangorra, e pulam, e copulam, até que, pelos meus olhos, o nela dele quente escorra.
 
Gugu Keller

domingo, 13 de outubro de 2013

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Fiapos

A vida amiúde é, através das frestas que os sonhos abrem entre os nossos medos, espiar, derrotados e frustrados, o que sem eles, os segundos, muito provavelmente seríamos.

Gugu Keller

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Pausa

Queridos amigos...

Estou de cama com uma gripe horrível, razão por que não postarei o capítulo de hoje de "Absurdolândia". Assim que melhorar, eu continuo.

GK

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Torpor

Há dores que já não doem. Dormem.

Gugu Keller

Absurdolândia 37

Não. As prisões absurdas em nada ficam devendo a fornos nazistas, ou a porões de navios negreiros, ou a masmorras medievais. São, em sua grande maioria, constituídas de cubículos fétidos, úmidos e desprovidos de ventilação adequada onde, como ratos, seres humanos são trancafiados por anos, às vezes décadas, numa escancarada situação de tortura contínua, sob o cínico pretexto de que com isso se busca a sua ressocialização. Prende-se quarenta onde cabem cinco, serve-se uma lavagem como refeição e, ao invés de vasos sanitários, há apenas um buraco no chão. Isso sem falar na gigantesca violência entre os próprios detidos, que mata e sevicia da forma mais brutal os que no ambiente são mais fracos, ou, por qualquer motivo, perseguidos, com a total conivência do estado que lhes custodia. Os que são presos por crimes sexuais, inclusive, por exemplo, de modo absolutamente claro, ostensivo e até estimulado por bocas amiúde que se dizem zeladoras de um igualitário estado de direito, têm como destino serem sodomizados à exaustão e depois mortos de maneira lenta e cruel, não raro com canetas até o fim fincadas em seu duto auditivo. Ademais, além da inequívoca tortura que, qual acima dito, caracteriza-se com a mera estadia numa dessas autênticas sucursais do inferno, há, ainda, em nome do princípio do absurdo, muitas outras formas de tortura mais assumidas, efetivas, diretas, como o emprego do chamado "pau-de-arara", os choques elétricos, as surras com barras de ferro, o arrancamento de unhas, a introdução de toda sorte de objetos no ânus do torturado, golpes violentos em sua genitália, o afogamento, tudo, enfim, que o mais primitivo sadismo humano possa conceber. Enquanto isso, hipocritamente, é claro, as autoridades do país, mesmo tratando-se de algo absolutamente notório e apregoado aos quatro ventos, negam veementemente que tal tipo de coisa ocorra na Absurdolândia, e, conforme se viu alguns capítulos atrás, afirmam-se extremamente surpresas e indignadas quando algum veículo de imprensa mostra alguma imagem que o comprova. São, então, aplicando-se de pronto o princípio da hipocrisia, prometidas providências enérgicas contra os responsáveis. Qual se disse, petições são protocoladas, diligências efetuadas e diretrizes revisadas. Ações que, invariavelmente, com o passar dos dias, das semanas, não dão em nada. Teatro, pantomima, encenação. Ode à hipocrisia. Tudo, jumentos, cenouras, tortura, tertúlia, sempre continua na mesma. Na Absurdolândia absurda e hipócrita, relembra-se com freqüência, enaltecendo-se a importância de tal lembrança com o firme propósito de que nunca mais se repita, o tempo em que o país era uma ditadura militar e os presos políticos eram barbaramente torturados, mortos e tinham seus corpos desaparecidos, ao mesmo tempo em que, e todos disso sabem, o presidente sabe, os governadores sabem, os ministros de estado sabem, os secretários de segurança sabem, os juízes e promotores públicos sabem, hoje, agora, neste exato momento, enquanto o travesti da democracia desfila rebolativo e purpurinado pela passarela da aparência, tais coisas acontece com muito mais freqüência e intensidade, com a única diferença de que não mais contra artistas e intelectuais questionadores da ideologia, mas contra os representados pelas estrelas abaixo da faixa que de algum modo não baixaram sua cabeça diante da grande farsa. Sim. Hoje muito mais do que ontem, na Absurdolândia é assim.

Gugu Keller  

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Porcelana

Ao ires em cacos fazes meu peito pires.

Gugu Keller

Absurdolândia 36

Tendo sido citados como bodes expiatórios da tragédia absurda seqüestradores, assaltantes à mão armada, cafetões, estupradores e pedófilos, prositadamente se omitiu, para os abordar num capítulo à parte, os traficantes de drogas. Sim. Sobre os ombros destes, mais do que dos de ninguém, num claro desviar de foco planejado e efetivado com maestria, todo o peso de na Absurdolândia hipocritamente imperar a crença de que são eles, e não os corruptos, os grandes responsáveis pela generalizada hecatombe social, de que, é claro, excetuam-se estes últimos, caras-de-pau da estrela de cima, por acaso, ao menos à luz do óbvio, os verdadeiros culpados. Assim, se nas cadeias absurdas não há nenhum corrupto, e tal é, há traficantes a superlotá-las a ponto de as tornar verdadeiros infernos na terra, fato orinudo de uma mentalidade que, sempre fomentada por discursos inflamados cheios da moral torta a que se referiu, parece ignorar a incômoda obviedade de que jovens que nascem na miséria e na privação, sem acesso à educação, à cidadania e muito menos aos bens materiais que uma sociedade extremamente consumista o tempo todo lhes esfrega na cara, acabam inevitavelmente encontrando no tráfico de drogas o único caminho. Ignora também que a busca de uma determinada porcentagem da população pelo entorpecente é uma constante antropológica, algo que faz parte da natureza humana, que sempre ocorreu e sempre ocorrerá em todas as sociedades mundo afora. Assim, em outras palavras, considerando-se as necessidades de parte a parte, fala-se de um comércio simplesmente irreprimível, que sempre existirá, e muito mais em situação de tamanha desigualdade social como se dá na Absurdolândia. Condená-lo como lá se faz equivale a punir seres que vivem no deserto por beberem água num oásis. Mas, conforme sobredito, em domínios absurdos muito interessa não apenas que o tráfico de drogas seja tratado como um crime bárbaro, mas também, e principalmente, cultivar a imagem do traficante como sendo o grande crápula da sociedade. Qualquer pessoa que tenha um mínimo de massa cinzenta dentro do crânio percebe que um político que desvia milhões da saúde e da educação públicas é muito mais nocivo para uma sociedade do que um jovem que vende cigarros de maconha numa esquina. Mas na Absurdolândia, de moral torta e hipócrita, sempre impera o absurdo. Lá o inimigo oficial é o maconheiro, o "nóia", o "olheiro", o "avião", o traficante enfim. Ignora-se a obviedade de que quem se droga é porque quer. Divulga-se, isso sim, a infantil idéia de que os traficantes fazem a pessoas se drogarem à força para depois as viciar e explorar. Assim, com tal tipo de raciocínio conto da carochinha, temos o perfeito boi-de-piranha para desviar a atenção dos caras-de-pau que se lambuzam a roubar o povo, e, graças a tanto, estes eis a desfilar sobre tapetes vermelhos e em seus carros de luxo a prova de balas, ao passo que aqueles amontoam-se em celas imundas, que nada ficam devendo a fornos nazistas. Na Absurdolândia é assim. Aos hipócritas causadores do mal, piscinas, praias, festas e grand monde. Às vítimas que de algum modo se rebelam, muros, grades, correntes e cassetetes.

Gugu Keller  

domingo, 6 de outubro de 2013

Dilema

Sobre a vida uma grande questão é se mais dói vivê-la ou mais não.

Gugu Keller

Absurdolândia 35

Sendo a corrupção na Absurdolândia, como claramente é, o principal conceito através do qual lá se exerce o princípio da hipocrisia e se estabelece o do absurdo, é óbvio que, hipocritamente, para uma vez mais esbofetear o rosto de quem, ao contrário da corrente que corre forte, tenta pensar o país com algum bom senso, ela, na letra da lei, a feita para ser descumprida lei absurda, é prevista como crime. Sim. E é óbvio também, que, para de novo indignar quem se atreve a pensar com bom senso, é o lá mais grave, na medida em que salta aos olhos ser ela, a corrupção, o crime matriz de praticamente todos os outros, afinal, se à população absurda em geral fosse oferecido um mínimo em termos de educação e de outros direitos básicos, o que não acontece justamente em razão da corrupção, a criminalidade lá não seria o absurdo que é. Em outras palavras, não é nenhum exagero afirmar-se que 99% dos (pseudo) cidadãos absurdos que praticam crimes diversos da corrupção são primeiro vítimas dela, e são conseqüência dela, corolário lógico da sua prática sistemática. Contudo, em perfeita sintonia com a mentalidade basilarmente hipócrita que lá impera, a corrupção, apesar do sobredito, é um crime rarissimamente punido em terras absurdas. Visando-o, inclusive, claramente há toda uma uma manipulação sensacionalista, bastante bem pensada e operada, que faz despertar o ódio represado do povo absurdo muito mais contra os autores de crimes violentos. Lá, assim, faz-se dos assaltantes à mão armada, dos seqüestradores, dos cafetões, dos estupradores ou pedófilos os grandes vilões da sociedade, e, como se nisso estivesse a solução das tantas mazelas do país, tais são caçados impetuosamente, não raro linchados e executados em praça pública. Já os corruptos, ululantemente o elemento matricial do gigantesco e sanguinolento submundo que há na Absurdolândia, quase nunca sofrem algum tipo de punição minimamente séria por seus contínuos atos semeadores da tragédia coletiva. Ao contrário, como se disse acima, são festejados, admirados, aplaudidos, eleitos, reeleitos e, como lá hodiernamente se costuma dizer, sempre blindados pelo odioso corporativismo dos caras-de-pau em praticamente todas as esferas. Nas pouquíssimas vezes em que algum corrupto tem problemas com a polícia ou a justiça na Absurdolândia, no mais das vezes graças à imprensa, com a aplicação do princípio da hipocrisia através de esfarrapadas desculpas e deslavadas mentiras, e contando ainda com o simbolizado pelo losango amarelo da bandeira, em regra, não apenas escapa impune, como, ainda, moralmente, no tortuoso ver de uma moral hipócrita e doente, com freqüência torna-se a vítima. Na Absurdolândia é assim.

Gugu Keller   

sábado, 5 de outubro de 2013

Fissura

Façamos deste agora urgente um outrora a ficar na mente.

Gugu Keller

Absurdolândia 34

De novo com aquele quê de humor negro, de sadismo, com que os caras-de-pau costumam praticar a sua constante obediência ao princípio da hipocrisia, a sua contumaz conduta corrupta faz da Absurdolândia, meio como que a estapear o rosto da enorme maioria renegada, o país do mundo onde mais os agentes públicos em geral ostentam patrimônios absolutamente incompatíveis com os seus ganhos oficiais. Então, num crudelíssimo e odioso esnobismo hipócrita, temos com exatidão o oposto do que ocorre aos das estrelas de baixo, que, com seus salários de fome, o mínimo, vimos, inconstitucionalmente de fome, frio e sarjeta, são obrigados a operar sacrificadas mágicas para sobreviver, já que, no caso dos primeiros, caras-de-pau, estrela superior, o já muito que ganham parece magicamente se multiplicar, de sorte que, lá, um deputado, ou um fiscal de rendas, ou um secretário de estado, com extrema facilidade e naturalidade adquire bens que são dez, vinte, cem, quinhentas vezes mais valiosos do que os seus ganhos legais, justificando-o, nas raríssimas vezes em que necessário, com as mais hipócritas e esfarrapadas desculpas. Isso sem falar no também contínuo cumprimento do que reza o verde da bandeira, ou seja, incalculável é a quantia que, fruto da corrupção, da Absurdolândia sangra, e este é termo, "sangra", rumo ao exterior. E, como, em regra, é a outros caras-de-pau que compete fiscalizar os caras-de-pau, um patrimônio escandalosamente incompatível com o salário a ninguém compromete. Muito ao contrário, na eterna festa da hipocrisia absurda, é, isso sim, sinal de status, de capacidade, de inteligência de alguém que soube aproveitar as oportunidades da vida para progredir e se tornar um vencedor. Na Absurdolândia, se um agente público, diretor de um hospital público, por exemplo, adquire um patrimônio imobiliário cujo valor com o seu líqüido no holerite ele levaria trezentos anos para perceber, palmas para ele. Trata-se de um vencedor, de um grande homem, um winner, arrojado e competente. Sim. Na Absurdolândia é assim. Enquanto isso, aos 26/27 sub faixa, não raro tidos como folgados, vagabundos, encostados, burros, iletrados, pedintes, analfabetos, paraíbas, molengas, bêbados, bandidos ou ignorantes, como se, quando esses adjetivos até são verdades, fosse culpa deles, a eles, jumentos a seguir cenouras móveis, migalhas, esmolas, promessas, privação. Hipocrisia. Absurdo.

Gugu Keller   

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Absurdolândia 33

Outros setores de atividade que na Absurdolândia são absolutamente impregnados pelo lá sagrado culto à corrupção, são, por exemplo, a aplicação e cobrança das multas de trânsito, bem como o julgamento dos recursos contra elas interpostos e a aplicação de outras sanções aos motoristas, além, sobretudo, da destinação dada aos recursos arrecadados, as obras de construção e manutenção das vias públicas, as licitações em geral, os concursos para provimento de cargos públicos, a distribuição dos de confiança ou de comissão, as verbas de gabinete e os demais auxílios nababescos, a distribuição de quantias para entidades não governamentais que atuam em colaboração com os poderes executivos, as coligações partidárias, a elaboração das sempre obscuras normas eleitorais referentes à distribuição dos votos entre os partidos políticos ou dentro deles, as votações, muitas vezes secretas, nas várias câmaras legislativas, assim como os orçamentos por elas endossados, a emissão de precatórios para o pagamento de dívidas públicas, as concessões televisivas e de rádio em geral, a exploração dos direitos de transmissão de eventos esportivos, principalmente os de grande interesse, a previdência social, os programas de auxílio aos mais necessitados, as relações entre as igrejas e o fisco, a especulação imobiliária, as desapropriações, a política bancária, sobretudo no que tange aos juros, a administração dos presídios, dos pedágios, dos portos e aeroportos, o controle do tráfego aéreo, a exploração petrolífera e das jazidas minerias em geral, a distribuição da merenda e do material escolar nas escolas públicas, os cálculos dos impostos, a definição de suas alíquotas e a fiscalização dos contribuintes, a coleta de lixo, a telefonia, a fiscalização nas alfândegas, os leilões e privatizações, as loterias, a administração dos cemitérios e serviço funerário em geral, a distribuição de material nos hospitais públicos, as filas dos transplantes de órgãos, a regulamentação dos planos de saúde etc, etc, etc... Como se disse acima, árdua missão é encontrar um único ramo da atividade humana que na Absurdolândia não seja corroído pela corrupção, sobretudo quando de algum modo ligado à atuação do estado, de um estado que por nada abre mão da aplicação contínua dos dois princípios estampados na faixa da sua bandeira. E é claro que, hipocritamente, entra ano, sai ano, entra mandato, sai mandato, entra década, sai década, entra geração, sai geração, os caras-de-pau o tempo todo juram-se numa perene luta pelo fim dessa lá tão cultural corrupção, e que, absurdamente, quanto mais se o jura, anos, mandatos, décadas, legislaturas, mais e mais ela aumenta. Prolifera. Na Absurdolândia, em política, promete-se o que não será feito, não se o faz, diz-se feito e, com sorrisos hipócritas, promete-se ainda mais, também para não fazer. Na Absurdolândia é assim.

Gugu Keller

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

She

Minha vida é um sem sela cadê ela.

Gugu Keller

Absurdolândia 32

Outra literal encenação que, novamente num autêntico ode ao princípio da hipocrisia, é com freqüência protagonizada pelas autoridades na Absurdolândia relaciona-se com a questão dos chamados "produtos piratas", que são produtos falsificados ou copiados, às vezes contrabandeados de outros países, às vezes de modo clandestino feitos lá mesmo... Preocupadas sobretudo com o que deixam de arrecadar com essa "pirataria", as autoridades absurdas sistematicamente apregoam o quanto tais produtos são nocivos não apenas à economia local, inclusive, e principalmente, no que tange à criação e manutenção de empregos, mas também à saúde e à segurança do consumidor. Como, clandestinas, essas mercadorias estão livres dos absurdos impostos absurdos, mesmo em se considerando a qualidade inferior, elas são absurdamente mais baratas, o que, por óbvio, as fazem as preferidas de grande parte dos representados pelas estrelas de baixo da bandeira, ou mesmo, já que o salário mínimo absurdo é o que já vimos, as únicas àqueles acessíveis. Contudo, absurda e curiosamente, numa espécie de, qual diz uma antiga expressão absurda, "samba do crioulo doido", ao mesmo tempo em que são à exaustão condenados via mídia, inclusive, no caso dos cds e dvds, com a participação incisiva de artistas que apelam aos seus fãs para que não comprem essas cópias a todos tão prejudiciais, a venda desses "produtos piratas" é feita absolutamente às claras, em plena luz do dia, nos centros de praticamente todas as cidades do país, com fiscais e policiais hipócrita e passivamente perambulando o tempo entre os vendedores, quase que tropeçando em suas barracas, esteiras, mesas e mostruários. Em Paulópolis, tomando a maior cidade absurda de novo como exemplo, há, inclusive, ruas  conhecidas nacionalmente pelo fartíssimo comércio de produtos piratas, com lojas e galerias que já chegam a ser tradicionais. Mas aí é que vem a grande encenação, o grande número do teatro oficial da hipocrisia que o país domina... De tempos em tempos, num dia qualquer, liga-se a televisão na Absurdolândia e dá-se com a notícia de que autoridades fiscais e policiais, como se tivessem acabado de ficar sabendo da sua existência, fazem uma blitz num desses centros populares de pirataria, apreendendo toneladas de mercadorias e detendo dezenas de pessoas envolvidas. Pois bem. Algum estrangeiro que, de passagem pela Absurdolândia, visse esse noticiário, imaginaria decerto que, ao menos ali, onde deu-se a tal tão rigorosa blitz, a pirataria acabou para sempre. Mas qual nada. Hipócrita, absurda e, para quem não é de lá e não está acostumado com essa maneira de ser das coisas, inconcebivelmente, no dia seguinte tudo volta ao que era. Nos mesmos lugares, nas mesmas condições, com as mesmas pessoas e a mesma visibilidade, segue próspero o comércio pirata, que, aliás, apenas como uma última pertinente observação para que se entenda o tamanho do contrasenso, na Absurdolândia, nos termos do papel amarelado, constitui crime. E todo mundo, ou ao menos os com um mínimo de discernimento, sabe que o elemento através do qual a hipocrisia e o absurdo, como sempre lá atrelados, fazem-se princípios tão presentes nesse tipo de situação, bem como na dos "gaurdadores de carros", "de rua" ou "valets", atrás citados, é a corrupção. Sim. A na Absurdolândia tão básica, essencial e onipresente corrupção, tão hipócrita e absurdamente praticada, tão hipócrita e absurdamente aceita.

Gugu Keller

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Vox

Cego decerto de menos, indigno-me e o digo.

Gugu Keller

Absurdolândia 31

Falando em educação, as autoridades absurdas, em estrito cumprimento do princípio do absurdo, preocupadas com os, apesar da sua notoriamente péssima qualidade, altos índices de reprovação nas escolas públicas de ensino básico e médio país afora, criaram, há coisa de poucos anos, um inteligentíssimo método para, mais do que diminuir, erradicar o problema de uma vez por todas... Através de lei, acabaram com a reprovação. Sim. Exatamente isso. Então, desde que tal legislação entrou em vigor, não se pode mais reprovar ninguém nas escolas públicas absurdas, independentemente de aproveitamento, avaliações ou o que seja. Em outras palavras, mesmo que um aluno tire zero em todas as matérias durante o correr do ano letivo, ele estará aprovado, e, portanto, apto para se matricular na série seguinte. A conclusão óbvia disso é a de que na Absurdolândia é perfeitamente possível que alguém conclua o colégio sem saber ler ou escrever. Ou mais... Se a ídéia se expandir para as universidades, e lá o absurdo é sempre o mais provável, e, ainda, considerando-se já referida a política de cotas nas universidades para alunos vindos das escolas públicas, não é impossível que, brevemente, pessoas se formem também em cursos superiores sem saberem ler ou escrever. Parece absurdo? É para ser absurdo. O absurdo é princípio. Sim. Na Absurdolândia é assim. Correm boatos, ademais, dando conta de que, animados com o sucesso da idéia, já que hoje nas escolas públicas do país ninguém mais é reprovado, ou seja, simplesmente não há mais esse problema, algumas autoridades locais cogitam expandir o espírito da idéia para outras áreas problemáticas... Pensa-se, por exemplo, para se combater o avanço da dengue, doença cada vez mais freqüente no país, em se acabar com os exames que a diagnosticam. Sim. Rapidamente, aproveitando o ministério da saúde o tão bem sucedido conceito aplicado pelo da educação, a doença estará, acredita-se, por completo erradicada da Absurdolândia. O autor destas linhas modestamente ainda observa que, na mesma toada, eles poderiam eliminar o gigantesco número de homicídios que, por falta de estrutura investigativa, lá ficam sem solução... Bastaria deixar de considerar o homicídio um crime... Ora... Sem crime, não haverá o que se solucionar...! Não é uma beleza?  

Gugu Keller

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Profundezas

Quando sincero, um "eu te amo" é uma ponta de iceberg.

Gugu Keller

Absurdolândia 30

A corrupção, já que a situação dos exames para obtenção de habilitação automotiva na Absurdolândia acima referida trouxe o assunto, é o principal modo, e, ao mesmo tempo, motivo, através e pelo qual o princípio da hipocrisia é sistematicamente lá mantido, cultuado e aperfeiçoado, nos termos exatos do que simboliza a sua bandeira. Sim. No mais profundo âmago da sua essência, a Absurdolândia é um país corrupto. E é justamente no contínuo negar dessa sua característica tão essencial que o princípio melhor se cumpre. Árdua missão é encontrar um único ramo de atividade humana que na Absurdolândia não seja impregnado pela corrupção, sobretudo quando de algum modo atrelado à atuação do estado. Quanto à política absurda propriamente dita, então, pode-se afirmar que pensá-la distante da idéia de corrupção é o mesmo que imaginar futebol sem bola. Essência, raiz, dna. E é muito mais do que os fatos em si. É toda uma cultura, toda uma filosofia, toda uma mentalidade generalizada e secular. O conteúdo simbólico da bandeira absurda, inclusive, aliás, de que em detalhes tratamos no início deste trabalho, está intimamente ligado ao fenômeno da corrupção. É simultânea e intrinsicamente o seu por quê e o seu porquê. As riquezas absurdas não seriam voltadas para enriquecer o externo se não fosse a corrupção. Sem ela, tampouco as leis seriam papel amarelado para se fazer pipa ou a cidadania exclusividade dos poucos representados pela estrela acima da faixa. Na Absurdolândia, a corrupção está em tudo, explica tudo e justifica tudo. Por que na Absurdolândia se paga os mais altos impostos do mundo sem uma mínima contrapartida decente? Por causa da corrupção absurda e hipócrita. Por que num país tão rico há tanta miséria e tanta injustiça social? Por causa da corrupção absurda e hipócrita. E, principalmente, por que toda essa corrupção absurda e hipócrita é na Absurdolândia do pleno conhecimento de todos e a grande maioria que sofre por causa dela não faz nada para que isso mude? Porque, devido a ela própria, a toda essa corrupção hipócrita, absurda, cruel e degradante, aos que por causa dela sofrem é negado, vimos, um mínimo, também, e sobretudo, em termos de educação, de modo que não conseguem sequer refletir a respeito com algum senso e muito menos de algum modo articular qualquer perspectiva de mudança minimamente factível. Sim. Não. Círculo vicioso. Vítimas ou hipócritas passivos, os das estrelas de baixo, "sub-estrelas", continuam a ouvir as perenes falácias entre empolgados perdigotos verbalizadas pelos caras-de-pau no poder, os "bem estrelados", hipócritas ativos, absurdos com orgulho, e, vislumbrando um horizonte promissor que passo a passo sempre se afasta, 30 de fevereiro, a caminhar rumo ao nada tentando alcançar a suculenta cenoura suspensa pela vara de pescar. Jumentos.

Gugu Keller