sexta-feira, 17 de abril de 2015

Motivo 8

Não creio que, como argumentam alguns, a legalização do comércio e do consumo de drogas, com o de tanto consequente fim do seu tráfico, em nada contribuiria para a redução da criminalidade de um modo geral na medida em que haveria uma migração dos traficantes para outros crimes. Não. É claro que, em alguma escala, até haveria, mas num universo quantitativo muito menor. O que ocorre, a mim me parece de tranqüila observação, é que o tráfico de drogas, da maneira como as coisas são hoje em dia, excetuadas, é claro, as situações de transporte, às vezes internacional, de grandes quantidades, quando há que se ter habilidade para driblar as fiscalizações, ou, mais comum, cacife para as subornar, é um crime muito fácil de se cometer. Falamos de um comércio que já está muito bem instalado em toda parte, e tudo o que o vendedor da droga tem a fazer é instalar-se em sua "boca" e esperar que o cliente venha comprar a mercadoria, como sempre, constante antropológica, muito vem. Não há o mesmo risco que se enfrenta num assalto a banco, ou a uma empresa ou carro forte, ou num seqüestro com o fim de extorsão ou mesmo ao se bater uma carteira, quando nunca se sabe que tipo de reação pode haver por parte da vítima, ou de outrem que eventualmente apareça na cena. Não. A venda de drogas não tem vítima. Só compra drogas quem quer. Ou será que alguém ainda acredita naquela "história da carochinha" em que o traficante é um sujeito que dá a droga à criança inocente de modo a viciá-la e partir daí lucrar cada vez mais enquanto a pobre se afunda rumo à irreversível autodestruição. Por outro lado, de novo quanto à irracionalidade com que se trata a questão, ao menos aqui no Brasil, a nesse campo brutalmente severa legislação faz com que praticamente todo usuário acabe também se tornando um traficante, por menos que queira desse mercado auferir algum ganho, já que, pelo seu texto, qualquer tipo de fornecimento de substância entorpecente é considerado tráfico, ou seja, se um usuário num dia dá um cigarro de maconha para o seu amigo também usuário e, no outro dia, este ao primeiro retribui, os dois já serão considerados traficantes, praticantes, aliás, de um crime processualmente equiparado aos hediondos, como o estupro ou o latrocínio, e estarão por isso sujeitos a uma pena pesadíssima, a ser cumprida em algum estabelecimento como os a que me referi no "motivo" anterior, como se estivessem prejudicando alguém além deles mesmos, como se soltos fossem uma grande ameaça para a nossa tão justa e pacífica sociedade, como se isso fizesse de algum modo algum sentido.
 
Gugu Keller

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