domingo, 27 de dezembro de 2009

Toalha

Foi outro dia desses, rememorando-a com alguém a quem eu a tinha contado, que tive a idéia de postar esta história aqui no blog...
Aconteceu já faz um tempinho. Estou no apartamento onde moro há pouco mais do um ano, e essa situação se deu no outro, onde eu morava anteriormente. E é tudo verdade, tá? Não vão pensar que estou inventando...!
É que, naquele prédio onde eu vivia então, as janelas dos banheiros dos apartamentos que ficavam lado a lado no mesmo andar eram muito próximas umas das outras, de modo que, se alguém gritasse ou falasse alto no banheiro do outro apartamento do meu andar, onde morava uma moça, dava para ouvir do banheiro do meu. Pois bem... Um belo dia, estou eu lá no meu banheiro sossegado, quando ouço a vizinha gritar, provavelmente para uma empregada ou diarista...
- Ô, fulana! Pega aí pra mim a toalha de xoxota!
Na hora pensei comigo... "Nossa! será que ouvi direito?" Apurei o ouvido e, como provavelmente a destinatária do pedido tampouco o tinha ouvido bem, veio em seguida em voz ainda mais alta...
- A toalha de xoxota!!!
Fiquei imóvel. Totalmente parado onde eu estava para ver se ainda vinha mais. E então cheguei a ouvir, ainda que agora com menos volume, ela explicando à pessoa que decerto afinal trouxera o solicitado objeto...
- Obrigada! Eu sempre deixo esta toalha pra xoxota! É que esqueci pendurada lá na área...!
E foi isso. Mas o engraçado mesmo era, depois do acontecido, quando eu me encontrava com ela na portaria do prédio ou no elevador, e ela me cumprimentava toda séria...! Eu ficava pensando... "Nossa! Imagina se ela sonha que eu ouvi aquilo..." Ich... E se ela um dia ler este post? Será que vai se lembrar do acontecido e saber que é sobre ela?

Gugu Keller

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

A Importância do Bom Velhinho

Sempre tendi a pensar que fosse uma coisa errada, absurda até, fazer com que as crianças acreditem em coisas como o Papai Noel. Afinal, conforme elas fossem crescendo e percebendo o quanto se trata de uma história não apenas irreal mas absolutamente cheia de despropósitos, tenderiam, acreditava eu, a perceber que simplesmente zombaram de sua inteligência. Sem grandes delongas, como, por exemplo, uma criança que começa a adquirir um pouco de razão pode entender que há tantas outras crianças morrendo de fome e de outras privações mundo afora, como tanto se vê na TV? Se Papai Noel existisse, bastaria que lhe pedissem pelo natal a necessária provisão, não é mesmo? Sim, o problema da fome estaria resolvido, afinal, certamente, pelo seu espírito tão repleto de bondade, o bom velhinho não lhes haveria de negar tal presente...! Era, enfim, por paradoxos racionais com este, que sempre cri que esse tipo de fábula constituisse algo nocivo para as mentes infantis.
Contudo, amigos, este post é para dizer que, sendo eu um brasileiro, radicalmente mudei de idéia. Sim. Hoje, tendo melhor pensado, acredito piamente que, ao contrário, tal tipo de costume é extremamente saudável para as nossas crianças! Explico...
É que neste nosso país, meus amigos, conforme vamos nos tornamos adultos, deparamo-nos com toda uma estrutura hipócrita e fantasiosa, de falácias e mais falácias, em que, para termos um mínimo de paz de espírito, e até de segurança em sentido próprio, somos obrigados, o tempo todo e cada vez mais, a fingir que acreditamos, como se fôssemos absolutamente estúpidos, ou, no mínimo, ingênuos como crianças em idade de um dígito! Então, por mais que no fundo saibamos que, tanto quanto o Papai Noel, é tudo uma grande mentira, acabamos por, sob pena de uma severa exclusão social, ter que aceitar o fingimento coletivo de que somos, por exemplo, uma democracia, um estado de direito, de que somos uma nação solidária, de que todos somos iguais perante a lei, de que as nossas instituições merecem nossos aplausos, de que o nosso congresso é o templo sagrado da vontade popular, de que temos uma constituição que é minimamente levada a sério, e por aí vai...
Portanto, amigos, que fique aqui registrada, e o faço com sincera humildade, a minha radical mudança de opinião... Ensinemos, sim, nossas crianças a acreditar em Papai Noel! Também, tanto quanto possível, em coelhos da páscoa, saci-pererê e o que mais houver...! Isso lhes fará certamente um enorme bem! Tornar-se-ão, decerto, adultos capazes de conviver bem, como nós tanto temos tão bem convivido, com todas essas mentiras, falácias e hipocrisias a um palmo de nossos narizes, sempre sabendo aceitá-las, acatá-las, muitas vezes até defendê-las, sem que isso, de modo algum, possa causar qualquer sentimento de contradição ou crise de consciência!
Feliz natal! Que o Papai Noel seja a todos abundantemente generoso!

Gugu Keller

domingo, 20 de dezembro de 2009

Visita ao Cemitério

Ele aproveitou a fria e cinzenta tarde de domingo para ir ao cemitério, localizado num dos limites da cidade que há dentro do seu pensamento, já longe do coração, o bairro mais central. Cruzou o portão de entrada e pôs-se a caminhar pelas floridas e arborizadas alamedas. Sons, só o do vento, o de um ou outro pássaro aqui ou ali, além do dos seus próprios passos.
Ei-lo diante do túmulo. Não chegou a ajoelhar-se ou fazer alguma oração. Não. Limitou-se a ficar ali olhando e refletindo...
Divagou no fato de que, como se via, as seis gavetas já estavam todas ocupadas... Na primeira, ou naquela com que se estreiou o jazigo, a mais baixa à direita, estava, morta já há 25 anos, quando ele tinha 19, aquela sua velha alegria, sua velha empolgação, que por muito tempo permitiu-lhe saber o que fazer de cada minuto de sua vida, livrando-o, então, assim, naqueles bons tempos, do absurdo do tédio que hoje tanto o sufoca. Na segunda, a mais baixa do lado esquerdo, jazia a sua também velha idéia de que a felicidade existia, morta e sepultada seis anos depois, quando ele ia por seus 25. Na terceira, a do meio da direita, falecida havia 14 anos, jazia sua esperança de econtrar alguém que soubesse amar como ele amava, ou como ao menos achava que amava, e ele não pôde deixar de se lembrar de como chovia na tarde daquele doloroso sepultamento... Na quarta gaveta, a do meio do lado esquerdo, lá estava, morta havia pouco mais de dez anos, a sua esperança no ser humano, que também atendia pelo nome de esperança em que a verdade pudesse enfim vencer a hipocrisia, uma morte, aliás, tão sofrida quanto estúpida...! Na penúltima gaveta, a mais alta da direita, descansava, tendo perecido pouco depois da finada anterior, a sua esperança de um mundo melhor, esta uma morte que ele assimilou com um pouco mais de conformismo, pois, quando aconteceu, parecia mesmo, havia já algum tempo, próxima e inevitável... E, enfim, na última gaveta, lá estava, desde o ano anterior, sepultada como as outras para sempre naquele túmulo, a sua razão para viver, para continuar tentando, para ainda insistir no ato já definitivamente insano de respirar...
Ele quase chorou. Mas não. Meio que já havia se acostumado a sofrer sem lágrimas. Ficou apenas afinal pensando, estando como estava o túmulo repleto, sobre onde haveriam de ser sepultados seu corpo e sua angústia, que tudo levava a crer que, não dali a muito, morreriam juntos, na chamada comoriência. Talvez, atinou, morrendo ambos mesmo juntos, corpo e angústia possam juntos ocupar uma só gaveta, o que, naquele seu jazigo familiar, demandaria afinal apenas uma exumação... Mas não. Talvez não faça sentido. Afinal, naquele mesmo cemitério há tantos túmulos ainda livres, tantas gavetas a esperar de braços abertos... E, ademais, naquela sua gigantesca cidade, a do seu pensamento, há ainda tantos outros tão vastos cemitérios...

Gugu Keller

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Suástica

Outro dia, lendo um artigo referente ao chamado neo-nazismo, deparei-me com uma interessante discussão acerca da proibição de qualquer veiculação da suástica, ou cruz gamada, o principal símbolo nazista enfim. De fato, entre nós, a lei 7716/89, em seu artigo 20, prevê como criminosa tal conduta, prescrevendo para ela uma pena de reclusão de dois a cinco anos, além de multa. Aí, fiquei pensando, sabem? Não que eu seja neo-nazista ou simpatizante desse tipo de coisa, mas é que gosto de refletir sobre algumas incoerências que observo... E então pergunto... Quem matou mais em nome de sua causa absurda? A Alemanha nazista de Hitler ou a igreja católica na época da inquisição? Bem... Para quem tem o mínimo de informação, nem preciso dizer a resposta, não é mesmo? Ademais, apenas como mais um elemento, quem foi mais cruel em seu "modus operandi"? Hum? Sei que pode até parecer uma comparação mórbida, mas tendo a pensar que uma câmara de gás em Auschwitz é um pouco menos doloroso do que ser queimado numa fogueira até a morte, não? E aí, amigos, fico sem entender... Por que será que a divulgação, exibição, qualquer veiculação afinal, da cruz católica, não constitui também um crime grave em nossa legislação? Seria o minimamente coerente, não acham?

Gugu Keller

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Minhas músicas - "Guria Gremista"

Apaixonado que sou pela cultura gaúcha, sempre quis compor algo que a enaltecesse e que tivesse o seu estilo musical, incorporando termos típicos e tal...
Um belo dia, muito empolgado, comecei a divagar na idéia e, para minha grande alegria, veio-me à mente uma melodia que pareceu-me ideal para o que eu queria, restando então agora trabalhar numa letra com as expressões "gauchescas" que buscava...
Algo que sempre me chamou a atenção nos costumes que observo no Rio Grande do Sul é o fato de que lá, muito mais do que aqui em São Paulo, as garotas se interessam por futebol, vindo daí, então, a idéia de "Guria Gremista", já que, dos times gaúchos, o Grêmio é aquele com que mais simpatizo...!
Em alguns dias ficou pronta e, modéstia a parte, adorei o resultado! É uma canção que, quer tocando meu violão, quer "à capela" caminhando pela rua, eu adoro cantar...! Sem dúvida, neste meu lado de compositor, tornou-se um dos meus melhores trabalhos...

GURIA GREMISTA

Quando o vento sopra gelado nos pampas do meu coração
É teu, minha prenda, o abraço apertado, és cuia e calor, chimarrão
Quando a névoa aponta ao largo e aporta no peito a dor
É doce em teus lábios o mate amargo que amorna o minuano de amor

Guria, minha estrela guia
Meu sol de um dia azul
Gaúcha de Santa Maria
Gaudéria cria do sul

Se eu da invernada vou na cavalgada que desce o Cassino ao Chuí
À noite pós pilcha, bombacha, o meu corpo acha o achego em ti
Teus gestos, jeitos, teus peitos perfeitos, conceitos de Serra Geral
Guaíba vermelho na tarde que arde num porto-alegrense postal

Gauchinha linda, tão para mim bem-vinda
És o meu amor meridional
Juntos de mãos dadas vamos pela estrada
Da querência amada sem igual

Gauchinha amiga, guapa tri-querida
Dá-me a pista e vem me cabrestear
Deixa eu conquistar teu coração gremista
Matear sulista e te amar

Gugu Keller

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Planos para depois da morte...

Você, que me lê agora, tem planos para depois da sua morte? Sim, isso mesmo! Planos para depois da sua morte, para depois que você se for, partir desta vida, tem algum? Ahh... Acha absurda a pergunta? Pois olhe... Parei para pensar a respeito e percebi que eu tinha vários...! Sim, é verdade! Afinal, todos os meus planos pelos quais eu não fazia nada só podiam ser para depois que eu morrer, não é mesmo? É! Soa pesado mas é a verdade, ou não? Estou, então, tentando mudar...! Sim! Doravante por tudo o que quero eu luto! Eu tento, eu busco, eu procuro, eu me entrego! Já muito para mim foi o contrário, sabe? É, foi! Quase sem perceber, eu ia deixando muitos desejos para o jamais... Mas não, agora nunca mais! Querer sem tentar nunca mais! Posso até não conseguir mas morro tentando! E, olha, sinto-me muito bem com isso, viu? É muito, muito melhor! Pense nisso você também! Ou vai deixar para depois da sua morte? Ou, pior ainda, continuar cometendo esse suicídio passivo de nem tentar?

Gugu Keller

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Epitáfio

Eu sou feito de escrever. Vivo para escrever e escrevo para viver. Escrevo, escrevo, escrevo, escrevo, escrevo. Sou todo letras, sílabas, palavras. Idéias, versos, diálogos, conceitos. Enredos. Além, é claro, do seu contraponto, ler, é praticamente só o que me interessa. Escrevo acordado, escrevo dormindo, escrevo andando, escrevo parado. Escrevo de cabeça e depois digito. Ou me solto a digitar para ter depois na cabeça. Por escrito, experimento, arrisco, ouso. Tento. Nunca desisto. Preciso, devo, necessito. Sim, meio que vivo por escrito. Livros, peças, poesias, canções. Palavras. Ah, como são mágicas as palavras! Eu como palavras, bebo palavras, digiro-as e delas me faço. Eu sou e suo palavras. Água, sal e palavras. Lágrimas. Palavras, olhos, ouvidos, mentes. Expressão. Palavras podem tudo. Tudo se pode em palavras. Tudo se perde em palavras. E eu por elas tudo posso, tudo perco. Tudo enfim se vai de mim.
Mas façam-me, amigos, um favor... Por mais que eu viva, e por mais que enquanto vivo escreva, façam constar no meu túmulo que não escrevi o bastante, ou, ao menos, não tanto quanto gostaria...
Ah, amigos, se eu pudesse escrever para sempre...

Gugu Keller