quarta-feira, 31 de julho de 2013

terça-feira, 30 de julho de 2013

segunda-feira, 29 de julho de 2013

domingo, 28 de julho de 2013

sexta-feira, 26 de julho de 2013

A Esquina - Capítulo 47

Sábado, 19 de julho de 2003.

18:40

Após muito conversarem, ele a tentando convencer a abrir logo o exame e pôr fim àquela expectativa, Ana Cláudia diz a Peninha que não o abrirá hoje e lhe pede que vá embora. Firme, ele diz que não desgrudará dela até que o envelope seja aberto. Ela se serve de uma bebida.

20:00

O tempo passa. Eles conversam e bebem. Conversam e bebem. Ouvem música.

21:00

Conversam e bebem. Choram.

22:00

Conversam e bebem.

23:00

Conversam.

23:18

Após uma pequena discussão motivada pela demora dela em se arrumar, o que, e ele por óbvio não o poderia saber, explicava-se pela sua ansiedade relativa à possibilidade de lá encontrar Rodrigo, Natália e Fernando saem de casa rumo à badalada festa na mansão de Dudú. Estando ele com o pé esquerdo enfaixado devido a uma contusão adquirida numa partida de futebol com os amigos, em que chegou a romper os ligamentos do tornozelo, é ela quem dirige o Peugeot. No cd player, toca o álbum "Violator", da banda inglesa Depeche Mode, que Natália adora.

23:34

Ao som da canção "Enjoy the Silence", Natália acha uma vaga a um quarteirão e meio da mansão, já que a rua está lotada de carros estacionados. Feita a manobra, ela salta e dá a volta para ajudar o marido a apoiar-se nas muletas que usa em função do pé torcido. Um guardador da carros com um colete laranja se aproxima e Fernando tira uma nota de dez de sua carteira, com que lhe obsequia. O casal põe-se a caminhar rumo à entrada da mansão.

- Eu devia ter te deixado na porta e depois vindo estacionar o carro... 

- Tudo bem, Natália! Eu já estou me acostumando com estas muletas...

23:41

Fernando e Natália entram na festa e são cumprimentados por vários dos convidados de quem são amigos. Muitos brincam com a situação de Fernando, que é logo convidado a se sentar num sofá. Desde logo, Natália sente-se tensa a com os olhos ariscos procurar Rodrigo por todos os cantos, sequer dando a devida atenção às pessoas com quem troca beijos no rosto.

23:45

Ana Cláudia e Peninha bebem.

23:46

Sentado no sofá, ao lado de um velho amigo seu, Cláudio, Fernando é servido com um copo de uísque por um garçom.

23:48

Natália pega uma taça de vinho branco de uma bandeja que passou diante de si enquanto, conversando rapidamente quase sem saber com quem, verifica que naquele primeiro ambiente Rodrigo em definitivo não está. Mas a mansão, ela bem sabe, tem várias outras salas, varandas e espaços descobertos, como o amplo jardim em volta da piscina, e devem ser mais de trezentas as pessoas na festa àquela altura, ou seja, ainda há muito o que olhar para saber se Rodrigo está lá ou não.

23:55

Natália encontra Camila perto da piscina conversando com um paquera. As duas se cumprimentam com alegria. Natália vê passar por sua mente a idéia de perguntar à amiga sobre a presença ou não do primo, mas, sem coragem, refuga. Quando Camila lhe pergunta sobre Fernando, ela explica sobre a sua mobilidade reduzida devido ao futebol. Finalmente, Natália indaga sobre Carolina, a quem Camila diz ter visto há alguns minutos mas não sabe onde está neste momento.

23:59

Num outro ambiente da mansão por onde resolve circular um pouco, Natália encontra Carolina. Cumprimentam-se e esta a chama para com ela ir ao banheiro. Lá, ambas se ajeitam diante do espelho enquanto Carol fala sobre um sujeito com quem empolgadamente está flertando, e com quem acredita que ainda nesta noite "vai rolar". Tendo posto o copo de vinho já quase vazio sobre a pia, Natália pensa na dra. Ana Clara, e, olhando-se no espelho, confessa em silêncio a si mesma uma súbita pequena inveja da amiga, já que, no seu caso, mesmo que, como espera, encontre Rodrigo na festa, não há, mesmo que, como secretamente ela, ele o queira, nenhuma possibilidade de "rolar", ao menos por ora ela assim o imagina. Decerto, de todo modo, precisa, pensa, lembrar-se de falar sobre essa pequena mas por óbvio significativa inveja que sentiu da amiga para a terapeuta na próxima sessão.

Domingo, 20 de julho de 2003.

00:04

Natália e Carolina saem do banheiro e, virando à esquerda num corredor que leva a uma das salas de estar da mansão, dão de cara com Rodrigo, que, com um copo de uísque na mão, vinha em sentido contrário. Sentindo um baque no peito, Natália leva um instante para sorrir. Quando o faz enfim, ele, retribuindo-o de pronto, pergunta-lhe exatamente o mesmo que lhe perguntou por telefone, quando ela, trêmula e de olhos fechados, desligou sem responder...

- Natália? É você?

Sentindo, ainda mais do que então, seu coração disparar, rufar, desembestar, ela novamente quase não sabe como reagir. Talvez, se houvesse um telefone na sua mão que, desligado, fizesse com que ele imediatamente sumisse da sua frente, por mais que o encontrar tivesse sido, paradoxalmente, tudo o que  esperava até então, ela, admite-se, muito provavelmente outra vez desligaria. De todo modo, de algum modo, do melhor dos modos, pensando novamente na dra. Ana Clara, Natália se controla e, fingindo com razoável sucesso um mínimo de naturalidade, diz enfim...

- Tudo bem, Rodrigo?

Pensando no sujeito com quem está a flertar, Carolina pede licença e segue adiante pelo corredor. Após uma promissora pausa, em que são trocados olhares de um desejo não assumida mas sabidamente correspondido, Rodrigo pergunta a Natália se ela aceita uma bebida...

- Eu estava tomando vinho...

- Quer outra taça? Ou me acompanha no uísque?

00:15

Cada um com um copo de uísque na mão, Rodrigo e Natália encontram um lugar razoavelmente discreto para sentarem e conversarem no jardim da mansão, a alguns metros da piscina. Ele, inevitável seria, pergunta a ela sobre o marido, a quem chegou a ver sentado no sofá. Ela lhe explica sobre a torção no futebol, a que, sorrindo, ele propõe um brinde, já que a pouca mobilidade de Fernando obviamente proporciona que eles possam conversar um pouco com alguma liberdade. Por um segundo, ela acha estranha a idéia de celebrar a contusão de seu cônjuge, chegando a sentir um prenúncio de culpa, da culpa que dentro em pouco tanto se agravaria, mas, pensando novamente na terapeuta, chegando a vê-la sorrir em seu pensamento, também ela novamente sorri, e ergue o copo.

- Eu jamais imaginaria... - diz Rodrigo então - ... que você pudesse ser casada com ele...

- Pois é... Depois daquela tarde em que nos encontramos naquele museu, ele me disse que vocês foram colegas... Colegas e grandes amigos...!

- É? E ele disse que eu o traí?

Pausa. Ela olha bem.

- E não traiu?

- Não!

- Não?

- Não! As coisas não se passaram exatamente como ele pensa...

- É? E como as coisas se passaram?

Outra pausa. É ele quem agora olha bem para ela.

- Não importa! Já faz muito tempo! Além disso...

Outra. Ela corresponde ao olhar.

- Além disso...?

- Além disso, talvez eu ainda o traia... A vida, afinal, é cheia de reviravoltas, não?

Ela sente um novo golpe em seu peito, mas, pensando novamente na sessão da antevéspera, parece ainda ouvir a terapeuta dizer "Vamos então tentar apurar se essa paixão é algo que pode desaguar num amor de verdade..." e, bebericando do uísque, com os olhos já cheios de uma adúltera sensualidade, olha ainda mais fundo dentro dos dele.

01:00

O tempo passa. Eles conversam e bebem. Conversam e bebem. Conversam e bebem. A música que toca é pop rock dos anos 80, o que é muito do gosto de ambos. Fernando, por seu turno, bebe uísque com Cláudio e outros amigos, e, já alto, ciente de que Natália tem também muitos amigos na festa na festa, nem se preocupa em saber dela.

01:23

Rodrigo e Natália conversam e bebem.

01:45

Servem-se de mais uísque. Conversam e bebem.

02:01

Conversam.

02:12

Bebem.

02:15

Peninha está dormindo no sofá da sala. Bêbada, Ana Cláudia passa pelo berço no quarto de Manoela, onde como um anjo esta dorme.

02:22

Rodrigo diz a Natália que a mansão do Dudú tem muitos lugares interessantes, como um certo quarto que ele conhece no andar de cima, e lhe pergunta se ela não gostaria de ir até lá. A bombástica mistura de seu desejo proibido com as três doses de uísque, além da taça de vinho, que já tomou desde que chegou na festa, a fazem incapaz de recusar a proposta, e ei-los discretamente a caminho do tal quarto.

02:24

A chave está na porta e Rodrigo a tranca por dentro. Natália vai à janela semi-fechada e espia um pouco a festa lá embaixo. Ele se aproxima dela por trás e a toca nos braços. Arrepiada de pronto, ela os levanta levando as mãos ao alto de sua própria cabeça, num claro convite para que ele desabotoe a alça do seu vestido, o que faz a seguir.

02:27

Ainda por detrás dela, que não usa sutiã, Rodrigo envolve-lhe os peitos carinhosamente com as mãos enquanto toca-lhe a nuca com os lábios. Tendo o pênis dele ereto a entrementes de leve pressionar-lhe as nádegas, ela, por um momento já sem saber se mais seduzida por ele ou pela prazerosa e para si inédita experiência do proibido, descontroladamente leva ao membro a sua mão direita, apalpando-o e sentindo o querer ter naquele momento mais do que a tudo.

02:30

À meia luz que transpassa as frestas das janelas, já que do quarto nenhuma lâmpada eles acenderam, eis Rodrigo e Natália a ardentemente se beijarem, ela, com o vestido arriado, nua da cintura para cima. Na trilha sonora anos 80 que vem lá de baixo, ouve-se agora a canção "Woman in Chains", da banda inglesa Tears For Fears, que Natália simplesmente idolatra. Como nunca antes desde que seu casamento entrou em crise, e pela primeira vez com o máximo de sinceridade para si mesma ela o admite, Natália se sente, enquanto sua língua passeia pelos lábios de Rodrigo, uma mulher que rompe as grades que a aprisionam, e, naquele mesmo momento, pensando ainda uma vez mais na dra. Ana Clara, ela admite também, também com aquele máximo de sinceridade, que, sobretudo quando se está assim, e definitivamente ela o está, apaixonada, é bom, é muito bom trair, e já mais agora, um minuto, dois, quando ele lhe beija os peitos e ela, por trás da sua cabeça, afaga-lhe afoita os cabelos.

02:33

Tomada de um desejo tamanho que quase faz com que não reconheça a si própria, Natália se deixa cair sobre os joelhos diante de Rodrigo. Decidida, mistura inflamável de desinibição etílica com secreção vaginal, ela leva as mãos ao cinto dele e o desabotoa. E desabotoa o jeans, e baixa o zíper, e baixa a cueca, e eis, diante de si, a um palmo de sua boca, pela primeira vez desde que começou a namorar o seu cônjuge, nove anos no total, um pênis que não o dele, um lindo, enorme e, sobretudo, deliciosamente proibido pênis, não dele.

02:34

Com a incontrolável força que leva alguém a fazer aquele algo extremamente errado que tem que ser feito, Natália abocanha o pênis de Rodrigo e, sentindo de pronto, no gosto e na forma, uma mistura irresistível de mucosa, álcool, proibição e alívio, e de verdade, liberdade e psicoterapia, chupa-o. Chupa-o, chupa-o, chupa-o. Chupa, chupa, chupa, chupa, chupa. Com um prazer muito mais pleno do que o que sentiu, não que se lembre, quando tinha três anos e chupou o seu primeiro picolé, chupa. Que doce lhe escorra, pensa, seu enorme picolé de porra! Dez segundos, quinze, vinte, vinte e cinco. Natália chupa. Até que algo  acontece...

02:35

"Woman in Chains" chega ao fim e, mantendo o clima anos 80 da festa, o dj põe para tocar a canção "40", da banda irlandesa U2, a favorita de Fernando. Chupando, Natália ouve e aquela culpa novamente surge e, intrusa, súbita, intensa, de assalto toma-lhe o peito. "Meu deus, o que eu estou fazendo?" E ela chupa e sente culpa. E chupa, e sente culpa. E chupa. E sente culpa. "Mas eu ainda sou casada com ele! Não posso estar fazendo isso!" Chupa. Culpa. Pensa na dra. Ana Clara. "Mas ela disse apenas para eu avaliar este sentimento...!"Culpa, culpa, culpa. "40". U2. "Meu deus! Meu deus! Que loucura! Que loucura é esta, meu deus? O quê que eu estou fazendo" E, na seqüência, mais uma lembrança... Tanto Fernando adora o U2, que, por sua insistência, foi uma outra música deles, "Party Girl", que tocou no casamento, quando Natália, de braços dados com seu pai, adentrava a igreja a caminho do altar. "Meu deus! "Party Girl"?!? "Garota de Festa"?!? E eu aqui?!? Numa festa?!? Fazendo isso enquanto ele está lá embaixo machucado?!?" Chupa, culpa, chupa, culpa, chupa, culpa. Chupou quarenta segundos, culpa, cinqüenta, culpa, um minuto, até que, numa reação que a Rodrigo deixa pasmo, ela se levanta bruscamente e, derramando lágrimas de seus olhos, diz-lhe atabalhoada...

- Não!... Não!... Eu não posso!... Desculpe!... Eu não posso!...

E, recompondo-se aos trancos e barrancos, ela abre a porta e se vai, os peitos ainda desnudos, os olhos vazando quente, quarto afora, festa afora, a vagina ainda melada, e eis Rodrigo, quatro uísques, calça arriada, o pênis duro ainda úmido da saliva dela, ao som de "40", U2, sozinho à meia luz naquele quarto.

Gugu Keller 

quarta-feira, 24 de julho de 2013

terça-feira, 23 de julho de 2013

Mudez

A solidão do não saber dizer é pior do que a do não ter a quem.

Gugu Keller

segunda-feira, 22 de julho de 2013

domingo, 21 de julho de 2013

Conflito

Apenas enquanto dorme o ser humano não briga consigo mesmo. Ou, a depender dos seus sonhos, sequer então.

Gugu Keller

sábado, 20 de julho de 2013

Gangorra

Entre o céu e o chão, entre o claro e o breu, entre o sim e o não, eu.

Gugu Keller

sexta-feira, 19 de julho de 2013

A Esquina - Capítulo 46

O velório estava lotado. A comoção entre parentes e amigos era indescritível. Um clima pesado, plúmbeo, cinzento, trágico. Choros irrompiam e minguavam em cada canto, misturando-se a abraços desconfortáveis, cumprimentos evasivos e comentários redundantes acerca do óbvio, do completo nada que se torna um estranho tudo diante do racionalmente inaceitável.

O dr. Clóvis Hernandez estacionou sua Mercedes Benz prata a um quarteirão de distância. Sem nem ver de que valor, tirou uma nota de sua carteira e a deu para um guardador de carros que ali assistia, pondo-se a seguir a andar contra o vento frio do domingo gelado. Eram ainda, ou já, já nem lhe fazia diferença, duas e meia da tarde. O sepultamento estava marcado para as cinco. Desejando-se naquele momento um novo messias capaz de algum prodígio que a tudo revertesse, o experiente psiquiatra e psicólogo devaneia por um segundo poder caminhar sobre a água, sobre um caudaloso mar de lágrimas que ele não chora mas para que aflui, e, vencida metade da distância até o pórtico, já lhe é, isso sim, como andar debaixo da água salgada, lento, pesado, espesso, escuro, agora talvez messias às avessas, não portador da boa nova mas receptor da pior delas, submerso de ponta-cabeça enquanto pisa a superfície do ar, do seu já tão de mais nada mar infinito. Seculares segundos e ei-lo náufrago à porta, a cuja direita, com letras brancas de plástico coladas em imãs e fixadas sobre uma placa negra de metal, como que a golpear na nuca os entrantes tirando-os de qualquer possibilidade de apenas pesadelo, lia-se o nome dela, seguido do referido horário previsto para o enterro, 17:00.

O dr. Clóvis adentrou o, em razão da quantidade de pessoas ali, aquecido ambiente como quem adentra a geladeira do necrotério. Morgue. Após poucos minutos de cumprimentos em poucas palavras junto aos muitos rostos conhecidos porém algo estranhos àquela meia luz de perplexidade, ele se aproxima, já mais afogado do que apenas náufrago, do caixão morrom-escuro em torno do qual se organizava o recinto. E já não só o mar, nem o ar, mas o mundo todo, horizonte em vertical, ali de ponta-cabeça eis.

Metida num lindo vestido azul-claro, que talvez alguém classificasse como um eufemismo de tecido para a lamentável situação do corpo, lá jazia ela, com seus cabelos negros e lisos, visíveis apenas atrás das orelhas, e sua láctea e suave pele branca. A compor uma aparência quase hollywoodiana de fada violentada por uma súcia de canibais, além do aspecto de cera dado pela já àquela altura considerável rigidez cadavérica, uma touca de esparadrapo e gaze cobria toda a cabeça, cuja parte afundada fôra, via-se, preenchida por algodão. Os olhos inchados e cobertos por arrocheadíssimos hematomas pareciam, em razão da fratura na face, algo fora de prumo um em relação ao outro, e, em virtude do pescoço também quebrado na batida, a cabeça pendia um pouco para o lado direito. Ademais, toda a pele do rosto, e também a das mãos e braços, estava tomada por cortes e esfolamentos, o mesmo se diga dos lábios, costurados com suturas negras os inferiores. Ver aquela criatura tão doce, tão ética e bondosa, ter já encerrada, e de forma tão estapafúrdia, a sua breve passagem neste mundo era algo acintosamente injusto, pensou o dr. Clóvis. O que teria passado pela cabeça das Moiras, ou, para quem prefere a versão romana, das Parcas, desgraçadas sejam?

Minuto a minuto, a tarde avançada hesitante enquanto um ar de mofo viciava-se naquela nova edição da festa maior da tristeza humana. Entre inúmeros comentários em voz baixa, o dr. Clóvis apurava que, a rigor, muito não havia além do que ele já sabia... Eram cerca de quatro da manhã e os dois carros, que vinham em alta velocidade, bateram em cheio na esquina das ruas Hermann e Violeta, sendo que ainda não se sabia para quem o sinal estava aberto e para quem estava fechado no exato momento.

Três e meia agora quase e o dr. Clóvis observa um homem, a aparentar por volta de quarenta anos, que adentra o ambiente, cumprimenta algumas pessoas e logo se põe ao lado do esquife, parecendo, ainda que de um modo algo afetado, sofrer muito pela falecida. Chama a atenção o fato de ter ele, é visível apesar dos óculos escuros que usa, o rosto também coberto por vários hematomas. Os que não o conhecem, como é o caso do dr. Clóvis, perguntam baixo para alguém próximo ou sem voz para si mesmos... "Será uma outra vítima do acidente?" Já os que o conhecem o mesmo fazem numa outra versão... "Mas o Gladston também estava no carro?" O novo na cena mantem-se de cabeça baixa ao lado do corpo, parecendo, repita-se, sofrer muito mas de um modo estranho, os óculos não permitindo ver se chega a chorar. A certa altura, toma a liberdade de acariciar o castigado rosto da morta com as costas dos dedos de sua mão direita.

Mas o que logo mais se comentava ali era a respeito de dona Eneida... Viria ela para o velório e o enterro, ou não? E Ana Cláudia? Recém separada, muitos ouviram falar, como estaria se sentindo neste momento tão difícil? Teriam elas condições de comparecer? Era o que se especulava, e, pelo passar do tempo, queria parecia que não. Contudo, quando já quase se beirava as dezesseis horas, uma bruma de silêncio vinda da porta invadiu o ambiente anunciando que algo acontecia. Amaparadas, Ana por Peninha e dona Eneida por sua melhor amiga, Emma, sim, eram ambas que chegavam para, ao cabo de poucos minutos, protagonizar, Gladston e elas, uma das cenas mais chocantes que o dr. Clóvis testemunharia em toda sua vida, uma cena que para sempre ficaria como uma cicatriz feita pelo mais insano dos destinos na memória de todos ali.

Àquela altura sentado numa das cadeiras dispostas ao redor da sala, o dr. Clóvis viu quando, após o referido silêncio que aos quatro ventos pareceu gritar a sua afinal presença, o quarteto ganhou o ambiente com passos lentos e atolados, qual os de um frustrado deus em desolada inspeção na humanidade. Como se respeitosamente lhes dessem passagem, a reação das pessoas foi a de se afastarem de modo a deixar aberto o caminho até o caixão. Foi quando, ainda amparada por Peninha, Ana Cláudia levantou a cabeça que tinha baixa e viu, agora a dois metros diante de si, o quanto ali se passava. Repentinamente, para uma assustada surpresa geral, ela gritou num quase rompante de histeria...

- Tira já a sua mão dela, seu filho da puta!!!

A estupefação tomou conta do já suficientemente carregado recinto. Ao cabo de poucos segundos doravante o dr. Clóvis concluiria que o sujeito que acariciava o rosto do cadáver era Gladston, que, voltando-se então para a ex-mulher, disse com uma voz de comoção ainda pouco convincente...

- Eu só vim prestar a minha homenagem...! Eu adorava ela, você sabe! Ela foi a irmã que eu nunca tive!

Mas Ana Cláudia, para um cada vez maior assombro coletivo, retruca com ainda mais energia...

- Irmã que você nunca teve o caralho!!! Você matou ela!!!        

Todos agora entendem menos ainda. Então era Gladston quem dirigia o outro carro?!? Era por isso que ele tinha todos aqueles hematomas no rosto?!? Que coincidência mais trágica! Como podia ser algo assim?!?

- Como assim matei ela?!? Do que você está falando?!? - disse ele ainda ao lado do esquife.

Mas não houve muito tempo para novas conjecturas acerca do acidente naquele momento. O assombro geral cresceria ainda mais já no segundo seguinte, quando Ana Cláudia livrou-se de Peninha, que àquela altura já mais a segurava do que amparava, e, literalmente, partiu como uma fera para cima do ex-companheiro, passando a lhe desferir, com tanta força quanto lhe era possível, e aos berros, socos e pontapés...

- Seu filho da puta!... Desgraçado!... Você matou ela!... Você acabou com a minha vida e ainda matou ela!... Mas eu acabo com você!... Eu juro que acabo com você!... Sua bicha louca!... Veado!... Enrustido!...

Obviamente alguns presentes de imediato tiveram o impulso de intervir, mas o espanto era tamanho que, por um instante, uma espécie de paralisia coletiva pareceu se instalar. Gladston, por seu turno, defendia-se como podia dos golpes furiosos da ex-esposa, enquanto que dona Eneida, contida por Emma e agora também por Peninha, ajudava a o xingar...

- Desgraçado!... Maldito!... Demônio!...

E Emma...

- Calma, Eneida! Calma, pelo amor de deus!

E dona Eneida, para novamente incompreensão geral...

- Ele matou as duas!... Esse miserável matou as duas!...

Mas o horror ainda aumentaria... Passados mais alguns daqueles apavorantes segundos e eis Ana Cláudia ofegante parada diante de Gladston, este de frente para ela e agora de costas para a lateral do caixão, logo atrás de si. Com o rosto tomado de um ódio sulfúrico, ela lhe diz assertiva...

- Vai embora daqui agora, seu desgraçado!!!

Afinal sem os óculos escuros, que caíram no chão, ele diz com uma voz melosamente pranteada de quem sem conseguir quer causar piedade...

- Pô, meu amor! Eu só queria me despedir de um membro da família...

Salivante de ira, Ana Cláudia avança novamente sobre Gladston como um rottweiler contra o pescoço de um intruso em seu território...

- Vai emboraaaaaaaaaaaaaaaa!!!

Vindo ela abrupta para cima, ele vem para trás, de modo que o peso de ambos pende sobre o esquife, que acaba virando para a direita e fazendo o corpo despencar no chão. E ei-la, a falecida, de bruços, entre flores e velas que também vieram abaixo, caída no chão do recinto onde era velada. Pior ainda, a touca de esparadrapo e gaze que lhe cobria a cabeça se desprende, revelando não apenas o cocoruto raspado para as fotos da necropsia, mas, sobretudo, os terríveis amassamento e abertura causados pelo impacto do desastre. Dos miolos literalmente à mostra, um pouco de sangue mal coagulado escorre e suja o piso.

O tumulto se instala. As pessoas choram e gritam. As palavras "meu deus" são as que mais se ouve. Peninha volta a Ana Cláudia, que treme como uma chaleira em ebulição, e a ampara. Alguém de bom senso enfim vai a Gladston e começa a puxá-lo para fora da cena. Antes de se deixar levar, contudo, ele ainda pára diante de dona Eneida e lhe pergunta...

- E a minha filha?!? Onde ela está?!? Eu quero a minha filha agora!

Qual fosse ele o animal que a dentadas lhe arrancou os fetos gêmeos de dentro da barriga, dona Eneida encara Gladston olhos nos olhos. Um segundo, dois, três e, mesmo com a boca tomada de uma secura desértica, ela consegue reunir saliva bastante para, com a maior convicção de sua vida, cuspir-lhe na cara.

Gladston é levado velório afora. Desmaiada, dona Eneida eis posta numa maca. Entrementes, dois funcionários do serviço funerário acodem à situação e devolvem o corpo ao caixão, ajeitando-o da melhor maneira possível. Enquanto eles tentam rearrumar as flores, de pé a um metro, o dr. Clóvis, uma mão, parece, a descansar o acolhendo sobre o seu ombro esquerdo, silenciosamente chora.

Gugu Keller
 

quinta-feira, 18 de julho de 2013

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Hipocrisia

Pior do que sermos o que somos, tendo a crer, é o quanto, deslavada e desaforadamente, pretendemo-nos sempre e cheios de empáfia o extremo oposto.
 
Gugu Keller

terça-feira, 16 de julho de 2013

segunda-feira, 15 de julho de 2013

domingo, 14 de julho de 2013

sábado, 13 de julho de 2013

sexta-feira, 12 de julho de 2013

A Esquina - Capítulo 45

Sábado. 19 de julho de 2003.

10:15

Conforme o combinado, Peninha estaciona defronte do prédio de Ana Cláudia e a chama pelo celular. Cinco minutos depois ela desce, entra no carro e ambos seguem para o laboratório, que aos sábados funciona até o meio-dia, onde o resultado do exame deve estar pronto. Ansiosíssima, com o coração a palpitar na garganta, Ana mal abre a boca durante o trajeto. Nas paradas nos semáforos fechados, Peninha leva sua mão direita à esquerda dela, confortando-a e buscando lhe transmitir confiança.

- Vai dar tudo certo, amiga! Você vai ver!

10:55

Peninha estaciona defronte do laboratório. Desliga o motor e vai descer com a amiga, que lhe diz, entretanto, que apenas para retirar o resultado deve ser rápido e lhe pede que espere no carro. Ele hesita mas concorda. Com a boca seca e amarga, ela salta e some porta adentro.

11:06

Ana Cláudia aparece pela porta do laboratório e vem na direção do carro de Peninha. Caminha como se preferisse caminhar para sempre, sem nunca mais chegar a nada, e sem, melhor ainda, que o tempo seguisse a correr. Nas mãos traz o envelope grande típico dos em que os laboratórios lacram resultados de exames. Por fora, sob o logotipo, o nome da paciente, Ana Cláudia Wilson de Arruda. Ela entra no carro e bate a porta. Faz frio. Mesmo com sol, sopra um vento gelado. Peninha olha para ela e lhe pergunta se já quer abrir o resultado, ou se prefere que ele o abra. Ela responde com duas breves palavras...

- Em casa!

12:09

Ana Cláudia abre a porta do seu apartamento e entra junto com o amigo. Põe o envelope sobre uma estante e vê, em seguida, pela janela, que Manoela brinca no playground com a babá. Quando ela, Ana, pega um copo d'água para beber, Peninha observa suas mãos trêmulas, parkinsonianamente trêmulas, e pensa em perguntar se não é melhor, seja por ela mesma, seja por ele, que o exame seja aberto de uma vez para que se ponha fim àquela angustiante tortura. Mas não pergunta. Pesarosamente respeita o drama da sua amada amiga. Respeita o seu ritmo.

13:11

Durante mais de uma hora, Ana Cláudia mantêm um comportamento notoriamente estranho. Com frases vazias e despropositadas, fala sobre coisas desconexas, distantes, quase que desprovidas de qualquer sentido. Visivelmente, para uma crescente preocupação de Peninha, tenta agir como se não estivesse acontecendo nada de relevante consigo, ao mesmo tempo em que treme, sua e não pára de beber água. A certa altura, pega um comprimido de uma cartela e o ingere. A seguir, pergunta ao amigo...

- Amanhã você vai ao cinema com o Evandro?

Peninha responde sério...

- Claudinha... O Evandro está em Nova York!

Ela se toca da situação mas não muda...

- Ah! É mesmo! Bom... Se a Cilene puder ficar com a Manú, ou se der para deixar ela na minha mãe, a gente pode ir junto...!

13:40

Sempre estranha, lutando intensamente em seu interno contra si própria, Ana Cláudia pergunta a Peninha se ele gostaria de sair para almoçar ou de pedir alguma comida para ser entregue. Já também cada vez mais ansioso, ele afinal decide perguntar se ela não vai abrir o exame, ao que, numa mistura de peremptoriedade e evasão, ela responde...

- Daqui a pouco! Estou me preparando psicologicamente...!

14:18

Despropositadamente decidido que almoçarão fora, Ana Cláudia pede licença para tomar um banho. Esperando-a, Peninha vê passar por sua cabeça a idéia de abrir o envelope e ver de uma vez o resultado, o que obviamente não faz, já que ela obviamente perceberia se ele o violasse.

16:28

No restaurante, Ana Cláudia mal consegue tocar a comida e, a certa altura, cai no choro. Peninha diz-lhe assertivo...

- Amiga, vamos voltar para a sua casa e terminar com essa tortura! Você não vê que assim está sendo pior? Além do que, você pode estar sofrendo desse jeito por algo que nem está acontecendo...! Você não está cansada de saber que eu transei com um cara que era soropositivo e não me contaminei?!? Pois então... Isso é perfeitamente possível!!!

17:53

De volta ao apartamento, Ana Cláudia pega o envelope nas mãos. Faz que o vai abrir mas pára. Hesita, refuga, teme, treme. Solidário, Peninha a toca nos ombros.

- Vai, Claudinha! Abre! Eu estou aqui com você!

Pausa. Um segundo. Dois. Três. Outro. Outro.

- Eu... Eu não consigo...!

- Quer que eu abra e veja?

Pausa. Pausa. Pausa.

- Não! Me dá só mais um tempinho, Peninha...!

- Abre, Ana Cláudia! A gente pegou o exame às onze da manhã e vai dar seis da tarde! Já são sete horas nessa tortura! Isso não faz nenhum sentido, amiga!

Ana Cláudia pensa. Pensa, pensa, pensa e diz...

- Acho que vou deixar para amanhã...

- O quê???

- Ou, melhor ainda... Vou pedir para o meu médico abrir! É o certo, afinal, não é?

18:40

Após muito conversarem, ele sempre a tentando convencer a abrir o resultado do exame e pôr fim àquela expectativa, Ana Cláudia diz a Peninha que definitivamente não o fará hoje e lhe pede que vá embora. Firme, ele responde que não desgrudará dela até que o envelope seja aberto. Ela se serve então de uísque e bebe. Referindo-se ao comprimido que a viu engolir, ele questiona, imaginando que não tenha sido o único, se ela não está misturando a bebida com algum calmante. Ela diz que sim mas que não importa. Está precisando beber. Também extremamente angustiado àquela altura, ele desiste de polemizar quanto àquilo e acaba bebendo junto.

20:00

O tempo passa. Eles conversam e bebem, conversam e bebem, conversam e bebem. Ouvem música. Ana Cláudia fala sobre Gladston e Peninha sobre Evandro. Choram juntos e se abraçam.

21:00

Conversam e bebem. Choram.

22:00

Conversam e bebem.

23:00

Conversam.

23:45

Bebem.

Domingo, 20 de julho de 2003

02:15

Peninha está dormindo no sofá da sala. Bêbada, Ana Cláudia passa pelo berço no quarto de Manoela, onde esta como um anjo também dorme. Deita-se, a seguir, ela, Ana Cláudia, na sua cama, ainda, ironicamente, pensa, uma cama de casal. À meia luz, ela olha para o teto e tudo gira. Ódio, medo, aids. Gladston, Andréa, detetive. Peninha, Manú, medo, ódio. Quarto, cama, traição, carrossel. Quem dera dormir. Ainda que pela última vez antes da vez definitiva, dormir, ela pensa, quem dera. Sobre a mesma estante, na sala onde Peninha dorme, com o logotipo do laboratório, lacrado o envelope eis.

03:18

Como um jato de magma que, numa expansiva liberação sísmica, com um brusco golpe vem à superfície, um forte jorro de vômito tira Ana Cláudia de seu fronteiriço estado entre o sono do esgotamento e o torpor da embriaguez da mistura. Contorcendo-se sobre a cama já lambuzada, ela se vira para a esquerda e no chão despeja o que ainda resta daquele suco amargo de bile, malte e angústia. A seguir, tomada de um algo inominável, ela retoma tudo, todo o triste e tormentoso tudo desses últimos tempos, e, ao parecer ouvir vinda das paredes, testemunhas até então silenciosas das tantas vezes em que apaixonadamente ela ali fez amor com o seu marido, aquela frase que naquela noite ele lhe disse, "em boa parte a culpa é sua", ela, ainda mais tomada por aquele inominável algo, põe-se a, novamente, como naquela noite, engatinhar pelo apartamento, com a diferença de que desta feita com as mãos e os joelhos logo sujos do seu próprio vômito. De uma gaveta ainda em seu quarto, Ana Cláudia em tempo apanha aquele mesmo objeto de que então lançara mão e, mesmo a agora o segurar, segue de quatro, animal acuado a afinal fugir para a frente, rumo à sala, rumo à verdade, rumo ao que pode ser enfim o fim daquele sofrimento, ou dele apenas o fim do começo, rumo à estante, rumo enfim ao onde lacrado o envelope eis.

03:35

O telefone de dona Eneida toca e, obviamente assustada em função do horário, ela o atende. Mas muito mais assustada fica ao ouvir o quanto Peninha, sob um fundo de gritaria e tumulto, relata. Além do exame de Ana Cláudia, que durante todo o dia ela relutou em abrir e cismou de o fazer a esta hora da madrugada, ter confirmado a sua contaminação pelo hiv, ela, numa reação assustadoramente histérica, acaba de quebrar inúmeros objetos do apartamento e, entre berros de ódio contra o ex-marido, com uma arma que ele, Peninha, jamais imaginou que ela possuisse, desferir alguns tiros a esmo contra quadros, portas, paredes e janelas. Àquela altura, literalmente segura à força por vizinhos que acudiram, ela tremia e chorava enquanto jurava que não morreria antes de matar Gladston. Ademais, disse a dona Eneida o amigo de sua filha que a polícia estava a caminho, já que alguém, diante dos gritos e do barulho, tiros inclusive, houvera por bem em a acionar. Peninha solicitava, enfim, que a mãe de Ana Cláudia comparecesse imediatamente à grave cena e que, se possível, entrasse em contato com algum médico de seu conhecimento, já que se fazia claramente necessária algum tipo de intervenção através de sedativos. Dona Eneida foi, por fim, tranqüilizada ao menos quanto à situação da neta, que muito chorava ante a confusão mas que estava amparada pela solícita vizinha da porta ao lado. 

03:39

Dona Eneida desliga o telefone e, mesmo trêmula e às lágrimas, tem como imediata reação a de ligar para Ana Clara, que certamente poderá chamar aquele médico psiquiatra com quem trabalha. De tão tensa, disca primeiro o número de Ana Cláudia, de onde Peninha acaba de chamar, mas percebe o erro antes da ligação se completar e disca o número correto.

03:40

Após o terceiro toque, Ana Clara atende assustada o telefone...

- Alô!

- Clarinha?

Ao reconhecer a voz da mãe e, principalmente, ao perceber com clareza que ela chora, Ana Clara sente um baque no peito...

- Mãe??? O quê que aconteceu???

- Clarinha... A tua irmã está com aids!

Gugu Keller


quarta-feira, 10 de julho de 2013

terça-feira, 9 de julho de 2013

Noite Adentro

Os sonhos são trailers prospectivos da longa viagem do auto-conhecimento.

Gugu Keller

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Self Chains

A vida por medo no amor sedentária
É, em segredo, uma penitenciária imaginária

Gugu Keller


domingo, 7 de julho de 2013

Aprender

Às vezes viver é descobrir a cada minuto que até o minuto anterior fazíamos tudo errado.

Gugu Keller

sábado, 6 de julho de 2013

República Federativa do Brasil

Tão clara e generalizada é a farsa, que denunciar as verdades na expectativa de alguma mudança tornou-se algo absolutamente ingênuo.

Gugu Keller

sexta-feira, 5 de julho de 2013

A Esquina - Capítulo 44

O velório estava lotado. A comoção entre parentes e amigos era indescritível. Um clima, pesado, plúmbeo, cinzento, trágico. Choros irrompiam e minguavam em cada canto, misturando-se a abraços desconfortáveis, cumprimentos evasivos e comentários redundantes acerca do óbvio, do completo nada que se torna um estranho tudo diante do racionalmente inaceitável.

Fernando e Natália saíram de São Paulo por volta das dez horas da manhã. Pararam para almoçar num restaurante na beira da estrada e chegaram a São João da Boa Vista às duas e pouco. Estando o enterro, conforme informara o tio Custódio, marcado para as cinco, pareceu-lhes um bom horário para se chegar. Uma vez na cidade, foram direto para o velório, em cujo pórtico, como que a no rosto golpear quem o adentrava, lia-se numa pequena lousa verde escrito com giz branco... "Carlos Aloísio Brito Bruno 17:00"

Após cinco minutos de cumprimentos em poucas palavras junto aos muitos rostos conhecidos porém algo estranhos àquela meia luz de perplexidade, o casal aproximou-se do pequeno caixão branco em torno do qual organizava-se o recinto. Metido num terno mirim também branco, que alguém mais observador talvez dissesse grande para o seu tamanho, e com uma deslocada gravata azul em torno do pescoço, lá jazia, com seus cabelos castanho-alourados e cacheados puxados para trás, o corpo do pequeno Calú. Diante daquela plástica aparência de anjo de cêra, talvez efeito da mistura entre a natureza da "causa mortis" e a já provável rigidez cadavérica, nem Fernando nem Natália conseguiram conter suas lágrimas. Como teria dito o tio Custódio, ver daquele tão pequeno e indefeso ser já encerrado, e de forma tão estapafúrdia, o seu tão breve traslado terrestre, era uma cena indubitavelmente dantesca. O que teria passado pela cabeça das Parcas, ou, para quem prefere a versão grega, das Moiras, malditas sejam?

Minuto a minuto, a tarde avançava ralentando enquanto um ar de mofo viciava-se naquela surreal ode ao absurdo. Entre as inúmeras conversas em voz baixa, Natália e Fernando apuraram que, a rigor, muito não havia para se saber além do que o tio Custódio relatara em seu telefonema... O garoto estava a um mês de completar três anos de idade e um sufocamento com o próprio vômito havia sido a razão do óbito, que ocorrera na creche. Caberia agora às autoridades policiais averiguar as responsabilidades.

Mas o que logo mais se comentava ali era a respeito da mãe... Viria Sâmia para o velório e o enterro, ou não? O seu marido, Mariano, pai do falecido, havia já estado lá antes da chegada de Fernando e Natália, mas, sempre amparado por amigos próximos, tinha ido ao encontro da esposa que, sabia-se, estava medicada com uma forte dose de tranqüilizantes. Teria ela condições de ver o filho morto? Era o que se especulava, e, pelo passar do tempo, parecia que não. Contudo, quando já eram quase dezesseis horas, uma onda de silêncio vinda da porta invadiu o ambiente anunciando que algo acontecia. Sim. Era Sâmia quem, amparada pelo marido e pela sogra, chegava para, ao cabo de alguns minutos, protagonizar uma das cenas mais tristes que São João já registrara em sua história, uma cena que para sempre ficaria marcada como uma tatuagem aplicada pelo mais cruel dos destinos na memória de toda aquela gente...

Àquela altura sentados em duas das cadeiras dispostas ao redor da sala, Fernando e Natália viram quando, após o referido silêncio que alardeantemente pareceu gritar a sua afinal presença, Sâmia adentrou o ambiente com passos lentos e claudicantes, como os de um deus em desolada visita ao inferno. Ainda que um par de grandes óculos escuros, dos que se costuma levar à praia em dias de sol escaldante, cobrisse-lhe boa parte da expressão facial, era fácil notar que, sem qualquer exagero, ela aparentava no mínimo o dobro da sua idade. Como se ensaiada e respeitosamente lhe dessem passagem, a reação das pessoas foi de afastarem-se de modo a deixar aberto o caminho até o caixão. Ainda amparada por Mariano e pela mãe dele, ela chegou a cerca de dois metros do esquife, onde parou e se desvencilhou dos braços dos que a apoiavam, deixando claro que dali queria seguir sozinha. Antes ainda do próximo passo, tirou o par de óculos e o estendeu para trás, para que alguém o recolhesse, a sogra o fez, exibindo afinal diante de todos um assustador semblante de zumbi. Se Sâmia tinha 30 anos, aparentava 70. Ninguém piscava naquela sala, e, dos olhos de Natália, que apertava firme a mão de Fernando, ambos cogitavam uma gravidez para talvez nos próximos três anos, lágrimas corriam cálidas e carregadas, ora alcalinas, ora ácidas.

Lentamente, centímetro a centímetro, Sâmia foi se aproximando do pequeno cadáver. Muito mais do que as lágrimas que igualmente vertia, chamava a atenção o quanto tremia, mãos e rosto sobretudo. Aproximou-se, aproximou-se, aproximou-se. Com olhos onde parecia explodir uma colisão cósmica entre cometas de amor e desespero, já ao lado do caixãozinho branco ela olhou enfim para o rosto do seu anjo ali para sempre abatido. Suas pernas também já visivelmente tremiam, fazendo com que muitos, inclusive Mariano, que agora chorava aos soluços, cogitassem aproximar-se para lhe dar arrimo. Mas ninguém ousou. Um segundo, três, dez, e, com extrema lentidão, Sâmia levou a sua mão direita, dir-se-ia, tal o tremor, a de um parkinsoniano, à testa da cria fria. O silêncio sepulcral, até ali violado apenas pelos soluços de Mariano e por, por toda parte já, muitos outros prantos, foi rompido enfim quando, com uma voz de quem se vê a próxima, ela passou a, numa perdigotejante mistura de gritos e choro, vociferar...

- Meu filho!... Ai, meu filho!... Ai, meu Calú!... Isto não é real!... Isto não pode ser real!... Ah, meu menino!... Meu filho, meu único filho!...

Por volta de 70% dos presentes choravam copiosamente. Natália e Fernando entre eles. Tão cheias de dor soavam aquelas palavras, que pareciam entrar pelos ouvidos de todos como óleo fervente, derretendo tímpanos e entranhas cerebrais como numa coletiva execução medieval, dos tantos olhos vermelhos a lava resto a correr. Mas a cena ainda se faria mais tenebrosa... Ninguém ali, enquanto vivo, esquecerá o quanto estava por vir... 

Após manter a mão sobre a testa de Calú por talvez um minuto, Sâmia novamente a recolheu para junto de seu corpo. As palavras por ora cessam e ei-la ali por alguns instantes parada e calada. Todos mantêm-se a observá-la de um modo "sui generis", como uma platéia diante de uma atriz na parte final do mais denso  dos monólogos teatrais. E o que todos vêem, segundos passados, é algo que, na vida ou teatro, ninguém ali antes jamais concebeu... Um a um, Sâmia põe-se a, de cima para baixo, abrir os botões da blusa que usa. São cinco. Ei-los todos desabotoados e, ato contínuo, ela leva as mãos às próprias costas e solta o fecho do seu sutiã. E ei-lo, o sutiã, no chão. Alguém enfim diz...

- Sâmia!

E outrem...

- Calma, Sâmia! O que você está fazendo?

Mas ela não ouve. De certo modo, de muitos modos, não está lá, mas do outro lado, o que quer que o outro lado seja, mesmo que um grande nada, com seu filho, sua cria, o seu Calú. Então, baixando o tronco sobre o esquife, ao mesmo tempo em que, qual um leitão diante do abate, agora novamente urra e chora, Sâmia leva o seu seio esquerdo ao rosto do cadáver, como se quisesse lhe dar de mamar.

A reação no ambiente é equivalente à de expectadores de um incêndio num edifício que acabam de ver alguém com o corpo em chamas saltar desesperado de um andar bastante alto. De todo modo, em meio àquela paralisante comoção de horror, três ou quatro acabam achando por bem intervir, indo até Sâmia e a puxando da situação...

- Calma, Sâmia!

- Calma, minha filha!

- Calma, Sâmia! Ele está em paz agora! Ele não viu nada!

Entre os que não ousaram chegar perto, a exclamação que entrementes mais se ouve é "meu deus!".

Mas, possuída de uma tristeza tal que praticamente a obsedia, ela não desiste. Livra-se totalmente da blusa, que até aqui havia apenas aberto, e, exibindo seus grandes peitos ali diante daquela platéia tão constrangidamente estupefata, insiste em os dar ao filho morto. Os que a acudiram a tentam deter mas ela literalmente já luta para desvencilhar-se e de novo se curvar sobre o caixão...

-Meu filho!... Meu filho!... Eu quero o meu filho!...

Mas o horror ainda aumentaria, na medida em que, como resultado daquele embate corporal entre a possuída pela emoção e os dignos e eminentes representantes da razão, Sâmia, a certa altura, livra-se abruptamente dos que a tentam conter e acaba caindo com todo o peso do seu corpo sobre o pequeno caixão, fazendo com que este caia no chão e que dele o corpo se desprenda, e eis o pequeno Calú, com o rosto voltado para baixo, caído, entre flores e velas que se esparramaram, no chão do recinto onde estava sendo velado.

Agito, consternação, a confusão se instala. As pessoas gritam, choram e falam umas por cima das outras. Nua da cintura para cima, Sâmia pega o corpo do chão e o traz aos seus peitos, abraçando-o e o embalando. Dois funcionários do serviço funerário intervêm e o tentam tomar dela, que, segura por outras várias mãos, agora grita histericamente...

- Meu filho!... Meu filho!... Meu filhoooooooooo!!!...

E, quando enfim mãe e filho são separados para sempre, ela põe-se a afirmar aos berros...

- Ele não morreu!... Ele não morreu!... Eu sei que ele não morreu!...

Os funcionários devolvem o corpo ao féretro e o ajeitam da melhor maneira possível. Sâmia é levada da sala enquanto, referindo-se ao médico dela, sua sogra grita...

- Dr. Eugênio!... Dr. Eugênio!... Onde está o dr. Eugênio?!?

Uma amiga de Sâmia, Renata, vai atrás dela e dos que a levam com a blusa e o sutiã, que haviam ficado no chão. Ajoelhado diante do esquife, enquanto os funcionários ainda tentam nele rearrumar as flores, Mariano, com o rosto coberto pelas próprias mãos e com várias outras a sobre seus ombros e cabeça o consolar, chora copiosamente. Sobre o ombro de Fernando, escondendo também seu rosto já borrado e inchado de tanto pranto, Natália idem. E ela jamais, ela bem o sabe, como todos ali, todos o sabem, esquecer-se-á desta tarde. Foi a cena mais a um só tempo triste e louca a que ela já assistiu.

Natália apenas ainda não sabe que, anos mais tarde, não sem ainda pensar em Sâmia a mostrar os peitos, ela própria, Natália, no banheiro da sua casa, protagonizaria algo não menos louco e triste. Cadeiras no velório, cadeira de rodas. Vômito, morte, morgue.

Gugu Keller


quinta-feira, 4 de julho de 2013

quarta-feira, 3 de julho de 2013

terça-feira, 2 de julho de 2013

Timidez

Tanto quanto este, que se esconde assim, engana, desesperadamente o outro em mim te ama.

Gugu Keller

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Despercebido

É claro que a vitória da nossa seleção sobre a espanhola na decisão de ontem da Copa das Confederações foi maravilhosa e incontestável. Houve, contudo, e falo aqui a respeito para que os amigos que apreciam futebol o observem e me digam se tenho ou não razão, um erro de arbitragem que decisivamente nos favoreceu e que passou totalmente despercebido. Ao menos, não ouvi ninguém falar a respeito durante a transmissão da Globo e nem ouvi ou li em nenhum outro lugar. É que o primeiro gol foi ilegal. Houve impedimento do Neymar. Dêem uma olhada no lance e observem que, quando Fred cabeceia, o camisa 10 está adiantado em relação ao último defensor, e ele participa da jogada na medida em que a bola bate na sua perna para depois tocar na mão do zagueiro e se oferecer para Fred, deitado, chutar para as redes. Achei muito estranho ninguém ter percebido mas para mim o impedimento foi claro. Revejam, se puderem, o gol e depois digam-me se não estou certo.

Gugu Keller