sexta-feira, 31 de maio de 2013

A Esquina - Capítulo 39

Secretamente inspirado na morte do pequeno Calú, o plano, apesar de bastante simples, pareceu a Natália, que antes de o executar muito a respeito pensou, absolutamente perfeito.

Apenas por uma questão de, talvez exagerada, prevenção, ela esperou passarem-se as semanas até que fosse agosto, o mês do aniversário dele, assim, não que isso fosse necessariamente preciso, teria um argumento a mais com que se defender caso inquirida fosse quanto ao porquê da comilança programada. Desde o acidente, ilustre-se, Fernando tomou horror por qualquer tipo de festa, e uma ceia a dois vinha sendo então o que marcava a sua mudança de idade.

Naquela sexta-feira, ainda durante o dia, a enfermeira Rosa atendeu vários telefonemas através dos quais, via "viva-voz", Fernando recebeu calorosas congratulações de parentes e amigos pela data. Também à noite, enquanto Natália concluia a preparação do jantar, as ligações continuavam a chegar. Mas o plano, com ela a muito caprichar na cozinha, já ia em franco andamento. Era o 36° e último aniversário de Fernando.

- O jantar está pronto, querido! Vamos lá?

Natália o ajeitou sentado numa poltrona na sala e começou a trazer a comida. O prato principal era uma macarronada bastante pesada, mas havia outros itens complementares não menos calóricos e de difícil digestão. Ademais, tanto quanto possível, apesar das recomendações médicas contrárias ao álcool, já que ele tomava vários remédios, o antidepressivo inclusive, ela o fez beber vinho. Com mais disposição do que nunca, Natália levou pacientemente o garfo à boca do marido inúmeras vezes, até que ele estivesse literalmente empanturrado de comida. Depois, a cantar alegremente "Parabéns a Você", ela apareceu com um cremoso e suculento bolo de chocolate, do qual serviu-lhe um exagerado pedaço, a ponto de ele quase recusar degustá-lo, sempre através das solícitas mãos dela, até o fim. Se eram dez horas quando o jantar começou, às onze e quinze Fernando estava absolutamente entupido de comida, vinho e refrigerante. E ela ainda o fez tomar uma generosa e bem açucarada xícara de café.

Após toda a operação que, exceto para Rosa, tão acostumada, é sempre árdua para uma pessoa só, de devolver Fernando à cama via cadeira de rodas, ei-lo, afinal, quase à meia-noite, deitado com a cabeça apoiada em seu travesseiro. Já fazia um bom tempo que o telefone não tocava. Àquela altura da noite, quem houvesse de ligar para dar os parabéns já o teria feito. Sim, comida pesada a lotar o estômago, era a hora.

Natália entra no banheiro e se olha no espelho. Vem-lhe à mente aquela noite em que se masturbou com a cadeira de rodas e, culpada como nunca, e como sempre, ela sente algo estranho ao rememorar que foi justamente então que teve a sinistra idéia que vai levar a cabo agora ao cabo de segundos. Ela pensa em Rodrigo e o ponteiro pênis do seu grau de culpa entra no vermelho do conta-giros. Na dra. Ana Clara e racha-se o visor semáforo do mostrador. Finalmente, ela pensa em Sâmia, que, numa fração de segundo, eis de novo no mesmo espelho a lhe mostrar os peitos, e, afinal, estranha e indescritivelmente, Natália sente pela prima de Fernando um ao mesmo tempo culpado e desesperado quê de cumplicidade. Sâmia, Ana Clara, Natália. Peitos nos peitos nos peitos.

Afinal, após apanhar a colher de pau e o saco plástico com um barbante previamente ali deixados e os meter no bolso de trás da calça que usa, ela, como tem sido quase raro ultimamente, vê a si mesma só no espelho. Sim. Como nunca, como sempre, ei-la só naquele banheiro. Ei-la só na vida, ei-la só no mundo. Vida, culpa, vácuo. Só. Só. Só. Ei-la só a sobreviver naquela esquina. E, a defender-se daquela culpa esquina que há muito já lhe saltou painel na cara e lhe fundiu o motor, porrada, morte, morgue, aleijão, cu, manopla, boceta, gozo, Natália diz, olhos nos olhos com o espelho, uma frase que, tanto quanto ela ainda consiga mentir para si mesma, haverá de, de algum modo, de algum improvável modo, isentá-la alheia um dia daquilo tudo...

- É o que ele quer!

Natália eis decidida de volta ao quarto. Olha para Fernando ali deitado e sorri para ele, que lhe diz...

- Nossa, Natália! Acho que eu comi demais...!

Ela não diz nada. Vai nele e ajoelha-se sobre a cama como se montasse sobre a sua barriga. Fernando não entende, mas imagina que ela, até em função da data, queira novamente beijá-lo e pôr a vagina em sua boca para que ele a chupe. Dado o exagero da tão recente comilança, a idéia parece-lhe algo desconfortável para o momento, mas também ele sorri para ela na medida em que, com a mão esquerda, ela carinhosamente lhe toca no rosto, também ainda sorrindo ela. Após alguns segundos, diz-lhe romântico ele então...

- Obrigado pelo jantar, querida! Estava delicioso!

Pausa. Ela olha bem para ele.

- Você gostou?

Ele continua sorrindo.

- Adorei! Tanto que até comi um pouco demais...! Obrigado, Natália! Obrigado por tudo, meu amor!

O casal troca mais um sorriso e ela, então, ainda com a mão esquerda sobre o rosto dele, aperta-lhe as bochechas de modo que o faz abrir a boca. Ele estranha mas não tem tempo de dizer nada. Com a mão direita, ela saca a colher de pau do bolso traseiro e a enfia rápida e bruscamente pela sua goela, tão fundo quanto consegue.

- Aaaahhh...!

Obviamente assustado, Fernando tenta se desvencilhar mas não tem como. Ela o agarra com a mão esquerda agora pelos cabelos, impedindo que ele agite a cabeça, e, tão forte quanto pode, continua a com a direita forçar a colher contra a garganta do marido. Sequer cinco segundos se passam e, conforme ela planejara, o vômito comparece à cena. Dada a fartura da recém-finda refeição, os jatos são fortes e pesados. O plano vai de vento em popa. Resta apenas a conclusão...

Natália afinal tira a colher de pau da boca de Fernando, que já vomitou bastante, e, ato contínuo, saca agora o saco plástico de seu bolso. Ele olha para ela com os olhos esbugalhados, tossindo, engasgando e ainda vomitando. Ele então mete-lhe o saco plástico na cabeça e, com o barbante, amarra-o no pescoço. Agora é só esperar enquanto ele se sufoca. Um minuto, dois, três, quatro, cinco. Pacientemente, Natália se mantem sentada sobre a barriga de Fernando até estar-lhe claro que ele em definitivo já não respira. Feito.

Lenta e cuidadosamente, meia-noite e quinze agora quase, Natália tira o saco plástico da cabeça do marido e ei-lo diante dela morto com os olhos entreabertos. Ela vai ao banheiro, onde lava o saco plástico e, a seguir, com uma tesoura, o picota em dezenas de pedaços, que joga na privada e dá a descarga. Na seqüência, lava bem a colher de pau e a devolve à sua respectiva gaveta na cozinha. Depois lava também a tesoura e a pia, de modo que nenhum resquício do vômito restará fora da cama. O plano, adiante-se, daria certo. Tragicamente, Fernando terá morrido afogado com o próprio vômito após ter comido e bebido demais na noite do seu aniversário. Pela cabeça de ninguém jamais passará a hipótese de ter sido um homicídio.

Natália apaga as luzes e se deita ao lado do cadáver ainda quente. Agora é esperar amanhecer e telefonar para os pais dele e para os seus relatando a terrível cena com que dará ao acordar. Mas, no escuro, eis clara, como sempre, como nunca, a sua infindável, e doravante decerto ainda mais dilacerante, culpa, e ela pensa na frase dita por Fernando quando este lhe contou sobre a traição de Rodrigo com a intercambista...

"Nunca mais saiu da minha boca o gosto amargo da palavra 'traição'."

Ironicamente, o mesmo Rodrigo com quem ela o traiu. E por quem o entrevou. E agora, há minutos, o matou. E ei-lo, Fernando, morto com, de vômito, traído, para sempre a boca amarga. Culpa.

Mas, como pode, Natália ainda tenta se defender, e, quase com sua voz, diz para si mesma a mesma sua frase de há pouco diante do espelho, apenas agora noutro tempo verbal...

- Era o que ele queria!

Eis Natália no escuro. Deitada ao lado da planta. Ao lado da coisa que ela mesma plantou. Ao lado do corpo. Ao lado. Morgue. E de novo ela pensa na dra. Ana Clara. E no seu próprio vômito naquela tarde tão triste. Morta. Morto. Motor. Morte.

Gugu Keller

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Queimando Pneu

Pretender diminuir a violência que nos assola com medidas repressivas, qual, como tanto se tem cogitado, a diminuição da maioridade penal, ao mesmo tempo em que cada vez mais se perpetuam os flagrantes e perversos contextos que a fomentam, como a elitização, a exclusão e a hipocrisia institucional, equivale, inclino-me a crer, a tentar frear um carro ao mesmo tempo em que se pisa fundo no seu acelerador.
 
Gugu Keller

terça-feira, 28 de maio de 2013

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Inalcance

A palavra é o que vai mais longe, mas mesmo ela só chega ao quase.

Gugu Keller

domingo, 26 de maio de 2013

Sintoma Claro

Enquanto a verdade for inconveniente, o ser humano ainda estará doente.

Gugu Keller

sábado, 25 de maio de 2013

sexta-feira, 24 de maio de 2013

A Esquina - Capítulo 38

Terceira sessão de Natália com a dra. Ana Clara. Sexta-feira, 18 de julho de 2003.

- ...

- Então ele deve estar nessa festa de depois de amanhã, nessa mansão do Dudú?

- A Carol ouviu a Camila dizer que vai!

- A Camila era a dona da festa em que você o conheceu, não é isso?

- Exatamente! O Rodrigo é primo dela!

- E como você está se sentindo com essa perspectiva de encontrá-lo depois de amanhã?

- Ai, dra.... Nem sei te dizer... Estou muito aflita... Muito ansiosa... O coração batendo a mil...!

- O Fernando vai com você nessa festa, eu imagino...

- Sim, vai!

- É... Isso complica um pouco, né?

- Demais!

- Mas esse lugar, essa tal "mansão do Dudú", é uma mansão mesmo?

- Sim! É uma casa gigantesca!

- Bom... Isso pode facilitar que você converse com o Rodrigo, pelo menos um pouco, sem que o Fernando veja...

- Sabe que aconteceu uma coisa que de repente pode ajudar?

- O que?

- O Fernando torceu o pé jogando futebol com os amigos... Rompeu os ligamentos e tudo...!

- É mesmo?

- É! Tá andando de muleta!

- Entendi! Isso significa que provavelmente ele vai passar a maior parte da festa sentado, o que pode facilitar que você converse com o Rodrigo sem que ele saiba...?

- Sim! Foi exatamente o que eu pensei!

- Então... Viva o futebol!

- Tá! Tudo bem! Mas aí eu fico remoendo, sabe? Se eu conseguir convesar com ele a sós, o que exatamente eu vou dizer? Eu não posso chegar e ir me abrindo...! Por outro lado, não sei quando eu terei outra oportunidade... Aí eu já fico neste dilema, entende?

- Você não precisa ir se abrindo, Natália! Insinue-se aos poucos e use a sua sensibilidade de mulher para captar como ele reage...!

- É, né?

- Claro! Não dá para montar um roteiro na sua cabeça sem saber como que o outro vai reagir a cada passo...!

- E eu também fico pensando muito nessa coisa de ele e o Fernando serem inimigos... Talvez ele possa me evitar por conta disso...

- Ou talvez, ao contrário, possa, justamente por conta disso, querer se aproximar de você...

- É... Pode ser...

- Por que eles são tão inimigos, Natália?

- Bom... Eu nunca ouvi a versão do Rodrigo, é claro... Mas o que o Fernando me contou foi o seguinte...

- Hum?

- Eles eram grandes amigos! O melhor amigo um do outro! Aí, houve uma tal intercambista que ficou um tempo na casa do Fernando...

- Intercambista?

- Sim! Uma australiana!

- Sei...

- E o Fernando se apaixonou perdidamente por essa intercambista...

- É mesmo?

- Ele me confessou que foi a pessoa que ele mais amou antes de me conhecer...!

- Nossa!

- Mas, aí, o que aconteceu? Além de não ter correspondido ao sentimento dele, ele descobriu que ela estava ficando com o Rodrigo, que sabia que ele era louco por ela... O Rodrigo era o confidente dele...!

- E ele ficou com raiva do Rodrigo...?

- Ah! Para o Fernando isso foi uma traição imperdoável! A ponto de ele mudar a faculdade para a noite só para não ter que encontrar mais o Rodrigo...!

- Eles estudavam juntos então?

- Fizeram o colégio juntos e entraram juntos na mesma faculdade!

- Entendi! E em que momento o Fernando te contou essa história?

- Foi uma grande e terrível coincidência...

- Hum?

- Então... Como eu te expliquei, eu conheci o Rodrigo naquela festa da Camila em que eu fui sozinha porque o Fernando estava no Rio...

- Sim! Quando ele te deu o cartão...

- Isso! Aí, eu liguei alguns dias depois...

- E não teve coragem de dizer nada... Mas ele sabia que era você...

- Exatamente! Nossa! Você sempre consegue guardar assim tudo que os teus pacientes te falam?

- Digamos que quase tudo...! Mas e aí?

- Bom... Depois disso, ele tentou me ligar... Umas três ou quatro vezes...

- O Rodrigo tentou te ligar? E você atendeu?

- Não! Eu só sabia que era ele por causa da bina do celular...!

- Certo! Ele pegou o teu número na bina dele, e você via que era ele na tua bina...!

- É! Aí, passaram-se alguns dias e eu estava com o Fernando num museu... Um típico passeio de domingo, sabe? E quem aparece bem diante de nós?

- O próprio!

- Sim! E foi então que, obviamente sem saber que eu o conhecia, o Fernando me contou essa história toda... Eu jamais imaginaria que eles se conheciam... E muito menos que tinham sido grandes amigos...

- Entendi! E depois disso? O Rodrigo tentou te ligar? Ou você para ele?

- Não! Nunca mais! Eu nunca mais tive coragem...!

- Ou seja, se você conseguir conversar com ele depois de amanhã, será a primeira vez desde quando o conheceu?

- Sim! A rigor, é isso mesmo!

- Quer dizer, esse seu sentimento, apesar de tão intenso, é por alguém que, na verdade, você mal conhece?

-  É, dra.! Eu sei que louco mas é isso mesmo! Tanto que estou aqui com você, né?

- Bem, minha querida... Eu acho que o mais importante então seria você aproveitar esse encontro de depois de amanhã para, acima de tudo, procurar avaliar esse sentimento, entende? Tente observar a si mesma, observar como você reage na presença do Rodrigo, para, a partir daí, a gente trabalhar no que virá depois... O que você acha?

- É... Acho que é por aí mesmo, dra....!

- Como você mesma disse na nossa primeira sessão, o seu casamento já vem se desgastando há algum tempo, desde antes de você conhecer o Rodrigo e se apaixonar assim... Vamos então tentar apurar se essa paixão é algo que pode desaguar num amor de verdade, ou se é um sentimento projetivo, fugidio, talvez até de certo modo simbólico, fruto desse desgaste do seu casamento...!

- Certo!

- Aguardemos então, Natália, o seu reencontro com o Rodrigo, depois de amanhã, na festa na mansão do Dudú...!

Gugu Keller

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Erros / Capítulo 37

A quem está acompanhando "A Esquina" peço desculpas pelos erros de digitação que passaram quando postei o capítulo 37, no último domingo. Eu já havia feito este mesmo pedido após o sexto capítulo, já que, como disse então, o fato de este ser um trabalho em que me proponho a publicar os capítulos logo que escrevo, esse tipo de coisa pode, infelizmente, ser freqüente. Não sei se, por ter sido um capítulo extremamente intenso, que desgastou-me bastante em sua elaboração, o 37 talvez tenha sido o capítulo em que mais esses pequenos erros houve, razão por que, repito, peço desculpas a quem o leu e os percebeu. Creio a esta altura já os ter corrigido todos, mas fico grato a quem ainda eventualmente encontrar algum se me avisar. Muitos dirão, acredito, que é besteira eu me preocupar tanto com isso, a ponto de escrever o presente post. Talvez tenham razão. Mas é que sou assim mesmo, sabem? Quando o assunto é escrever, de fato sofro de um perfeccionismo que beira o doentio.

Bjs a todos!

Gugu Keller

terça-feira, 21 de maio de 2013

Jornais de Ontem em SP

"Segundo autoridades, número de ocorrências de atrações culturais durante a Virada da Violência ficou dentro do normal."

Gugu Keller

segunda-feira, 20 de maio de 2013

domingo, 19 de maio de 2013

A Esquina - Capítulo 37

Natália hesita. Como em tudo há tanto tempo, assim tem sido, em sua vida, um ano, outro ano, outro ano, hesita. Hesita, hesita, hesita, hesita, hesita. Mas mesmo tanto hesitando, tamanha é a ânsia desta feita que ela apenas por alguns segundos o evita. Sim, a idéia assusta, mas, sim, mesmo que depois a angústia a leve ao suicídio, o de fato a o daquela noite, simbólico, completar, sim, por deus, ela o fará. "Oi, Sâmia! Quanto tempo! É, aqui estou! Sim, agora eu te entendo! A gente perde mesmo o controle, não é? Sim, entendo-te perfeitamente! Muito, muito triste! Sim, é verdade! Arrependo-me imensamente por tê-la julgado tão desequilibrada! Sim, pois é! Olha agora como eu estou!"

Eis Rodrigo no espelho de pau duro, na festa, na mansão, a lhe sorrir. Eis Natália no banheiro, suada, excitada, arrepiada, a sozinha quase ainda e já chorar. Num último segundo antes do que pretende, não sua mente mas seu corpo, independente hoje a ponto de ter, e lhe impor, idéias como esta, ela ainda pensa nas inúmeras vezes em que pensou em comprar num sex shop algo mais apropriado, o que, sempre, como parte do castigo tão severamente auto-imposto por seus crimes, dois num, jamais se permitiu. Por outro lado, ainda neste último instante, mesmo a idéia lhe parecendo tão insana, a ponto de tanto a remeter a Sâmia, Natália ainda encontra, decerto vinda do mais recôndito de seu inconsciente, seja ele mental ou corpóreo, uma pequena afinal hipótese de atenuante, na medida em que, de certo modo, de muitos modos, dos mais tristes e pesarosos modos, é, não se negue, Fernando, seu único e legítimo esposo, mesmo sendo Rodrigo atrás do pau duro no espelho, quem, ao cabo de mais alguns segundos daquele descobrir o que é ser dois sendo só um, dentro dela afinal estará. 

Trêmula, trôpega, trapo, Natália, nua e descalça, ergue a perna direita até ter o pé apoiado sobre a pia. O pé no chão, bem como todo o seu corpo, ela então inclina para o seu lado esquerdo, onde, a poucos centímetros, eis a cadeira de rodas. Com o braço esquerdo, ela a toca na manopla direita e a puxa, manobrando-a devagar até que venha até a posição que permita o pretendido. Um segundo, três, cinco, e, feito, eis a cadeira vazia com as costas voltadas para Natália, de modo que a manopla, a mesma, a direita, a poucos centímetros eis da sua vagina. Tremores, Eros, Tânatos, tesão.

Natália dá uma última olhada para o espelho, onde Rodrigo desfaz o sorriso e, com uma expressão de desejo enquanto brande o pênis na sua direção, diz-lhe assertivo... "Vem!" Ela então fecha os olhos e vê Fernando, que deixou, como sempre, imóvel sobre a cama, a ainda pedir-lhe que ponha a vagina sobre a sua boca, dizendo igualmente... "Vem!" E, rasgada, sem saber se é o pênis que tanto deseja ou a língua que tanto agora deseja desejar, ela começa a introduzir a manopla em si. Vai Fernando, cadeira de rodas, seu marido, boceta adentro. Vai Rodrigo, seu louco e proibido amor, a roda da vida, boceta adentro. E ei-la, Natália, tão louca, ou mais, do que Sâmia naquela tarde tão triste, a se masturbar com a cadeira de rodas de seu marido tetraplégico. Manopla na vagina. Manopla na xana. Manopla na boceta. Eis o metal coberto pela borracha negra e dura cruzando os pêlos e lábios e invadindo bem-vindo a encharcada mucosa rosa.

Movimentando o seu quadril apoiada sobretudo na perna que tem no chão, a esquerda, Natália vai aos poucos acelerando o movimento. Brusca, tomada, possuída, fora de si, logo toda a borracha da manopla eis dentro dela, por volta de quinze centímetros. E ela vai, e vem, e vai, e vem, e pensa em Rodrigo, e em Fernando, e em Rodrigo, e em Fernando, e, culpada, em Rodrigo, e, ainda mais culpada, em Fernando, e pênis, e língua, e festa, e cama, espelho, esperma, esquina, bebida, boceta, "Vem, Rodrigo! Me fode!", "Vem, Fernando! Me chupa!", "Eu te amo!", "Eu te odeio!", "Eu te amo!", "Eu me odeio!", enfia, mete, fode, rasga, "Vai, arregaça!", e Natália agarra firme a cadeira de rodas como se ela fosse o último homem do mundo, agarra-a pela outra manopla e pelo ferro abaixo da que lhe entra, e a balança, agita, puxa, empurra, e vai, e vem, e vai, e vem, e abre os olhos, Rodrigo, e fecha os olhos, Fernando, e aperta a certa altura os arrepiadíssimos próprios peitos, e novamente Sâmia eis. Sim. Peitos e Sâmia eis. Sâmia, morte, morgue, peitos, fundo, medo, mundo, mastro, pau. Um minuto, dois, três, Natália vai gozar. Quase, quase, quase, mas não, não consegue decidir. Gozar pensando em Fernando? Ou em Rodrigo? Dilema, dois, dor. Drama, dicotomia, duplo. De repente, como se abrisse a porta e a flagrasse naquela situação inexplicável, decerto fruto daquela sua dúvida a culpa entra em cena e atinge Natália com um forte golpe no peito. Acusando-o de pronto, ei-la um passo atrás e a manopla vagina afora. Culpa, culpa, culpa, culpa, culpa. Não, ela não pode gozar com a cadeira de rodas seu marido, aleijado por culpa dela, e ainda a pensar, ainda que com nele alternadamente, em quem foi o motivo. Não. Um segundo, dois, cinco, e ei-la, sem ter gozado, ou, de certo modo, agora gozando quente pelos olhos, novamente sentada nua na privada. Outro segundo. Dois. Três. Natália ofega. E se odeia. Mas seus peitos arrepiados com lágrimas nas mãos ainda esfrega.

Natália se levanta novamente. Como quem encara deus, que fixamente lhe olha enquanto segura uma ficha de antecedentes, ela se observa com pena. E com ódio. E vergonha. E medo. E dor. E coragem. E determinação. E enfrentamento. E evasão. E ela hesita. E hesita. E hesita. Ainda gozar evita. Solidão. Mas não. Ela fecha os olhos por um momento e, quando volta a os abrir e olhar para o espelho, de novo lá eis Rodrigo, ainda de pau duro, tampouco ele gozou, e novamente ele lhe diz... "Vem!" Culpa. De novo ela fecha os olhos e procura Fernando. Não. Ei-lo deitado, entrevado, plantado. Quase definitivamente enterrado. Culpa, culpa, culpa. Ela volta a abrir os olhos e ao espelho. Susto. É Sâmia quem agora lá está, trajando uma blusa roxa, que logo abre e, a sorrir-lhe mostrando os peitos, diz... "Dá o cu pra ele, Natália!"

Natália jamais fez sexo anal em sua vida. Contudo, sem jamais o ter dito para ninguém, nem mesmo para a dra. Ana Clara, sempre o desejou. Certa vez, quando Fernando e ela ainda eram namorados, ele o tentou e ela recusou. Mas foi uma espécie de manha, de truque, de charme. Natália apenas quis fazer ao parceiro parecer que não seria tão fácil, mas sempre esperou que ele tentasse de novo, para que, aos poucos, devagar, a coisa acontecesse. Mas não. Tímido talvez, nunca mais Fernando tentou e, tímida decerto, tampouco ela o pediu, ou sequer insinuou, e, agora, no meio de toda esta tempestade catártica, abrupto cataclisma de emoções e sentimentos, era Sâmia, logo ela, quem, do quase sobrenatural labirinto daquele espelho, dizia-lhe peremptória... "Dá o cu pra ele, Natália!"

Mas quem seria ele? Fernando ou Rodrigo? Não, já não importava, concluíu Natália, até porque, de certo modos, de muitos modos, de todos os modos, ambos já eram um mesmo, já eram o mesmo, já  a esmo ela eram. Ambos pênis, ambos um pênis. Ambos culpa, manopla, dor e prazer. Ela então desta vez leva a outra perna, a esquerda, pia acima. Por um instante, indaga de si mesma se é melhor usar a mesma manopla ou a outra, também a esquerda. Fica com a primeira opção na medida em que calcula que a lubrificação vaginal que decerto nela ficou haverá de facilitar o quanto agora quer. E eis Natália, mistura homogênea de prazer e culpa, de dor e gozo, de morte e vida, a introduzir a manopla direita da cadeira de rodas de Fernando em seu ânus virgem. Vai, vai, vai, foi.

A do mesmo modo mover os quadris, eis então Natália em novo vai-e-vem, agora com a manopla não boceta, mas cu adentro. Dói mas ela gosta e faz vir mais, mais, e mais, e ela geme, e se contorce, e sua, e baba, e, segurando a base da manopla com a mão esquerda, ela agora leva a direita à vagina, e, com o dedo médio, acaricia o clitóris hirto a ponto de explodir. De soslaio, dá uma nova olhada para o espelho, onde ainda eis Sâmia, agora com Calú nos braços a lhe dar o peito. E o garoto mama enquanto Natália afinal decide... Rodrigo eis a lhe tirar o cabaço do cu enquanto Fernando, ajoelhado no chão e a abri-la com os dedos que livremente move, chupa-lhe a boceta. Um segundo, seis, sete, onze, vinte, e, soltando um grito que mistura homogêneos desespero e alívio, Natália goza o maior gozo de sua vida. Goza, goza, goza, goza, goza. Sim. Como se estivesse a desencarnar naquela esquina, naquela noite, naquele dois, ela, leve, livre, em gozo, deixa afinal o seu corpo trapo, trôpego, trêmulo, que, então, observa afinal ela mesma de dentro do espelho.

Após lavar bem com água e sabão a manopla da cadeira de rodas, a enfermeira no dia seguinte a empurrará, Natália volta para o quarto onde, à meia-luz do abajur, Fernando jaz deitado planta em seu lado vaso da cama estufa. Sem saber por quê, quase, após tudo, não está ali, ela olha para a porta do armário onde guardado na gaveta o revólver eis. É quando Sâmia, agora sem espelho, novamente aparece em sua mente, sorrindo e ainda a amamentar o pequeno Calú. E a Natália uma nova idéia assusta. Não menos insana, definitivamente, esta, sim, a idéia.

Gugu Keller

sábado, 18 de maio de 2013

Intimidade

O amor e a loucura sempre foram namorados. Ei-los dor sem cura sempre quando separados.

Gugu Keller

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Atraso

Queridos amigos...

Cheguei tarde e muito cansado nesta sexta-feira, razão por que não postarei hoje o capítulo de "A Esquina"... Peço desculpas a quem ficou esperando e prometo postá-lo até o domingo...!

Abs a todos!

GK

quinta-feira, 16 de maio de 2013

O Presente

Ao mesmo tempo em que já é hoje, hoje, lembremo-nos sempre, sempre é apenas hoje.

Gugu Keller

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Vila Belga

Nos úmidos brilhos dos ao teu útero trilhos, idílios e estribilho vai veloz meu trem sem quem.

Gugu Keller

terça-feira, 14 de maio de 2013

segunda-feira, 13 de maio de 2013

domingo, 12 de maio de 2013

sábado, 11 de maio de 2013

48

Que, na nova idade que chega hoje, eu tenha força e inspiração para escrever mais e melhor!
Obrigadíssimo a todos os amigos que estão telefonando e mandando e-mails pela data!
Bjs a todos! Amo-vos!

Gugu Keller

sexta-feira, 10 de maio de 2013

A Esquina - Capítulo 36

Domingo, 27 de julho.

Pensava-se em se esperar um pouco mais, mas mudou-se de idéia. Se, num primeiro momento, parecia mais prudente dar a Natália a notícia sobre o falecimento da ocupante do outro carro apenas algum tempo após ela haver digerido a gravíssima situação do marido, para que, a seu momento, com mais calma, também isso ela digerir pudesse, concluiu-se, após muito se o discutir, que melhor seria enfim já logo o relatar, de modo que, praticamente de uma tirada só, ainda que a carga ficasse decerto mais pesada, tudo fosse por ela enfrentado, sem que nada ficasse para depois. A revelação representaria certamente mais um baque para a sua por óbvio já fragilizada estrutura psicológica, com qualquer um tal se daria, mas, dito e feito, melhor mesmo que soubesse de uma vez. Assim, naquele domingo, uma semana após o acidente e quatro dias após ela ter tido ciência da horrenda seqüela que, em virtude dele, Fernando carregaria pelo resto de seus dias, eis, novamente, a convite dos pais de Natália, seu tio e sua tia mais próximos e sua melhor amiga, Carolina, presentes para o almoço, após o qual, escolhido o momento mais propício, o pai de Natália adentrou o assunto...

- Natália, a que horas você quer ir ao hospital ver o Fernando? 

Sob o efeito de tranqüilizantes a ela ministrados desde que soube da tetraplegia do marido, ela responde lenta...

- Ah, papai... A hora que você quiser ir, para mim está bom...!

- Você vem conosco, Carol, visitar o Fernando? - pergunta a mãe de Natália.

- Claro! Vou, sim!

- Obrigada mais uma vez por tudo, viu, amiga? - a Carolina diz Natália.

- Ah, sua boba! Amiga é a para essas coisas!

Faz-se uma pausa. Os pais e tios de Natália trocam olhares. Enfim o pai dela vai ao ponto...

- Minha filha, sua mãe e eu, e também os seus tios aqui, e certamente também a Carolina... Todos nós estamos com você neste momento tão difícil... Nem sei se nós temos condições de avaliar o que você deve estar passando, mas, enfim, nós imaginamos o quanto deve estar sendo extremamente difícil para você ter que enfrentar essa situação do Fernando... Sabemos o quanto é terrível, tenebroso, tudo isso que aconteceu...

- Eu pequei, meu pai! Pequei feio quando saí bêbada daquela festa sabendo que ia ter que dirigir...! E agora vou ter que carregar essa cruz pelo resto da minha vida... É isso! Acho que isso resume tudo...!

Faz-se outra pausa. Um indescritível mal estar toma conta do ambiente diante do peso das palavras. De todo modo, conforme lhe é possível, o pai de Natália segue na difícil introdução do quanto ainda precisa ser dito...

- Pois é, Natália... Mas há mais uma coisa sobre o acidente... Uma coisa que você ainda não sabe... E precisa saber!

Natália se assusta.

- Sobre o acidente?!? O quê, papai?

A mãe dela fala...

Nós íamos esperar um pouco mais para te contar, minha filha... Esperar que você assimilasse um pouco mais o que aconteceu com o Fernando, para depois falarmos sobre isso...

- Sim! - completa o pai - Mas depois pensamos e chegamos à conclusão de que é melhor que você já saiba de tudo e enfrente tudo de uma vez por todas...!

- Pelo amor de deus, gente! Falem logo! Isto é uma tortura!

- É que o outro carro, minha filha... - segue ele - O outro carro que se envolveu no acidente... O carro em que você bateu naquele cruzamento...

Cada vez mais assustada, Natália demonstra uma enorme ânsia...

- O quê que tem, papai??? O quê que tem o outro carro???

- Era uma moça que dirigia o outro carro, Natália! - participa o tio.

- Uma moça??? E como ela está???

Pausa. Novos olhares são trocados. Já intuindo a resposta sem o aceitar, Natália repete aflitíssima a pergunta...

- Como ela está, gente???

Carolina segura com carinho uma das mãos da amiga antes que esta ouça do pai a breve e terrível frase...

- Ela faleceu, minha filha!

Sentindo seu peito implodir, Natália leva à boca a mão outra da que Carolina segura, enquanto exclama já a verter lágrimas...
- Faleceu??? Meu deus!!! Eu matei uma pessoa?!? Eu matei uma pessoa?!?

Ao cabo de segundos, todo o sexteto eis em prantos.

- Calma, Natália! Foi um acidente!

- Sim! E ainda não se sabe de quem foi a culpa...

- Foi minha culpa! - diz ela a chorar - Foi minha culpa! Eu deixei o meu marido aleijado, e ainda matei uma pessoa!!! Foi minha culpa!

- Ela também estava correndo, Natália! Talvez a culpa tenha sido dela...

- Mas eu estava bêbada, porra!

- Mas ainda não se sabe qual das duas avançou o sinal...!

- É?

- É! Ambos os carros vinham em alta velocidade! Quando o sinal mudou, o carro para quem ele fechou, não parou, e o outro, para quem ele tinha acabado de abrir, foi com tudo...!

Natália treme.

- Então a culpa é daquele que avançou o sinal vermelho, que pegou o "rabo do sinal"...! Será que fui eu, meu deus??? Eu não me lembro! Eu não me lembro de nada!

- Não se sabe, Natália! Aquele cruzamento não tem uma câmera e a única testemunha é um senhor de idade que vende balas ali, mas ele disse para a polícia que tinha bebido pinga e que não sabe ao certo para quem o sinal abriu e para quem o sinal fechou...!

- Talvez nunca se saiba para quem o sinal estava fechado no instante exato do acidente, Natália...

- Gente! Será que eu posso ser presa por ter matado uma pessoa?!? 

- É claro que não, querida! Pode ficar tranqüila quanto a isso! Como advogada, você mesma sabe muito bem como essas coisas funcionam...!

Natália chora copiosamente.

- Meu deus! Eu matei uma pessoa! Eu matei uma pessoa! Eu sou uma assassina! Eu estava dirigindo bêbada e matei uma pessoa...!

- Shhhh! Não diga bobagens, amiga! - diz Carolina acolhendo-a nos braços - Foi um acidente! E talvez, mesmo você tendo bebido, a culpa nem tenha sido sua...!

- Quantos anos tinha essa moça? Era muito moça?

- 32 anos, minha filha!

- Meu deus! Meu deus! Era casada? Tinha filhos?

- Não, querida! Era solteira e não tinha filhos!

A mãe e a tia de Natália preparam-lhe um chá no intuito de minimamente a acalmar. Ao menos agora ela já sabia de tudo. Mais tarde, todos os seis foram juntos ao hospital visitar Fernando, que, ainda grogue por sedativos na cama, sequer tinha noção do acontecido e muito menos da gravidade de seu estado. Ainda não se sabia tetraplégico. Quanto ao nome da vítima fatal, Natália, por um compreensível instinto defensivo, prefriu não perguntar, e tampouco seus pais ou tios o mencionaram. Oxalá, passou-lhe pela mente num rápido reflexo do mesmo instinto, jamais viesse a saber. Mas não. Ela sabia que haveria um inquérito em que teria que depor, e certamente seria impossível fugir desta tão nefasta informação. Mesmo por ora sem nome, Natália agora tinha uma vítima fatal na sua vida. E, deu-lhe ele um sobrenome, ainda um mutilado para sempre aos seus cuidados. Muito mais para mergulhar num escuro oceano de tristeza e culpa do que para dormir, Natália deitou-se em sua cama naquela noite, não pregando o olho até o raiar do dia. Pensou na falecida, no mutilado, na família da falecida, no ser ela própria, Natália, a família do mutilado, no velório da falecida, nele no hospital sem ainda ter ciência do gigantesco sofrimento que o espera, no enterro da falecida, na sua culpa, na sua agora condição de assassina, e de mutiladora, e na bebida, uísque, vódca, caipirinha, e no carro, ela dirigindo, futebol maldito, na esquina, festa do Dudu, e pensou no pênis de Rodrigo, e que ele poderia ter gozado na sua boca, e, chorando, pensou no que fez, numa única noite, com toda a porra da sua vida. Pensou enfim, já o sol a entrar pelas frestas da janela, na dra. Ana Clara, a quem ainda não avisou sobre o acidente, e de quem, muito mais do que poderia imaginar nas três sessões iniciais que até aqui com ela fez, doravante desesperadamente precisará.

A mãe e a tia de Natália prepararam-lhe um chá no intuito de minimamente a acalmar, e comentaram entre si que agora ao menos ela já sabia de tudo. Mas se enganaram. Às dez horas da manhã da segunda-feira, dia 28, o celular dela tocou...

- Alô!

- Alô! Bom dia!

- Bom dia!

- É a senhora Natália Cristina Lemos Brito?

- Sim! Sou eu!

- A senhora não me conhece! Meu nome é dr. Clóvis Hernandez! Infelizmente eu tenho uma notícia muito triste para a senhora...

Gugu Keller

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Pomar Brasil

Sementes de ganância, árvores de incoerência, folhas de discrepância, frutos de violência.

Gugu Keller

terça-feira, 7 de maio de 2013

Fashion

Vestir-se conforme a moda equivale a, além de fazer parte de um lucrativo gado, ainda exibir com orgulho a marca feita a ferro em brasa.

Gugu Keller

domingo, 5 de maio de 2013

sábado, 4 de maio de 2013

Aborígenes

Que o às vezes tão torto bumerangue do amar um dia oxalá saibamos jogar.

Gugu Keller

sexta-feira, 3 de maio de 2013

A Esquina - Capítulo 35

Uma semana havia se passado desde aquela noite. Na manhã seguinte, Natália devolveu a arma à caixa verde e esta ao fundo da mesma gaveta, e no assunto não mais se falou. Como jamais antes desde o acidente, Fernando esteve quieto durante esses sete dias. Como nunca, portou-se como auto-ironicamente se define, uma planta. Os raros e monossilábicos diálogos que houve diziam respeito apenas a pequenas coisas que a ela ele tem que pedir, como de comer, de beber, ou para trocar o canal da televisão, ou a ligar ou desligar. Quanto a Natália, triste, amarga e perdida, tampouco ela parecia encontrar algum assunto com que driblar o seu desde então constante temor de que ele novamente surtasse e voltasse a lhe pedir que o matasse. Com o aval do médico, a dose do antidepressivo foi, conforme aventado durante aquela cena de tragédia, algo aumentada, e, contudo, a despeito ou de todo modo, o clima veio vindo apavorante, sobretudo quando ao lado dele ela vinha deitar-se para dormir. Noite após noite, era como se ambos esperassem um do outro pela palavra que, como uma bomba a despencar do céu, cedo ou tarde, não se sabia a que altura estava e a que velocidade, a trazer muita dor enfim chegaria ao chão. Todavia, em completo contrário ao que Natália temia, quando Fernando, na noite de hoje, uma semana depois, afinal menciona o acontecido, não é, não que não mais o queira, para dizer que quer morrer, que precisa que ela o mate, ou, como não raro diz, acabe de matar. Não. Ele reporta-se àquela noite trazendo algo que para Natália passou praticamente despercebido, mas em que ele, em seu silêncio botânico, muito pensou durante essa sua primeira semana de suicida sem como assumido...

- Natália...

Ela está deitada de costas para ele com os olhos abertos, seu abajur no criado-mudo aceso, o dele não.

- Hum?

- Eu fiquei pensando, sabe?

- Sobre o que, Fernando?

A conversa é pausada e em voz baixa. Agora que vai entrar no assunto, ele dá uma pausa ainda maior...

- Hoje faz uma semana... Uma semana desde aquela noite em que eu te pedi aquilo...

Natália sente um nó no abdômen. Já imagina que ele vai voltar à carga. Talvez, pensa, devesse ter dado cabo do revólver. Tenta ser assertiva...

- Não vamos mais falar sobre isso, Fernando!

Pausa.

- Mas é que eu fiquei pensando uma coisa, sabe?

Pausa. Ela se vira para ele.

- Por favor, Fernando... Nunca mais me peça aquilo!

Outra pausa. Ele também, o quanto pode, vira o rosto para o lado dela.

- Eu quero te pedir uma coisa, Natália... Mas é uma outra coisa! Não é o que você está pensando! É que eu não sei se você reparou...

- Reparei no que?

- Que, naquela noite, meu amor, uma semana atrás, foi a primeira vez, desde o acidente, que você me beijou na boca... Você reparou?

Natália sente algo estranho, que não saberia dizer se é bom ou ruim, se lhe alegra ou entristece. Mas o fato é que ele está certíssimo. Sim, foi a primeira vez desde aquela trágica madrugada em que se tocaram as mucosas labiais dele e dela. Sequer ela assimilou ele o ter dito, e já se emenda o pedido anunciado...

- Você me beijaria de novo, Natália?

Natália sente-se confusa e já ainda mais confusa por confusa se sentir. Que pode haver de mais natural do que um casal, marido e mulher, beijar-se na boca? Nada, é claro, pensa ela. Todavia tudo se tornou tão turvo, tão curvo, tão lúteo. Quando fez aquele juramento sobre o túmulo da sua outra vítima, ela própria, Natália, havia, de certo modo, de muitos modos, dado-se como morta também ela, também vítima. Homens, nunca mais. Sexo, nunca mais. E ela havia, agora o percebe, de modo inconsciente, desde que o médico o declarou, como tetraplégico, incapacitado para o sexo, dado também Fernando, de certo modo, de muitos modos, do principal modo, como morto. Os três todos de muitos modos mortos naquela esquina. Sem sexo. Sem nexo. Sem plexo. E agora ele vem com essa? Beijar na boca? É! Sim! Vivo afinal, ele ainda tem boca! E pede de novo...

- Me beija, Natália! Me beija, meu amor!

Eis Natália deitada sobre Fernando com os lábios nos seus lábios. Ei-la a, dentro da boca onde há uma semana meteu o cano de um revólver, meter a língua. E quente pulsa a, por obra sua, planta de carne. E ela o beija, e o apalpa no rosto, e nos cabelos, e na nuca. E o que era nunca agora é nuca. E, quando, minutos passados, ela enfim o permite, ele lhe diz com os olhos marejados...

- Eu te amo, Natália! Eu te amo muito!

Ela quase deixa escapar o "eu também". Segura-o a tempo ao a tempo constatá-lo apenas por culpa, sem qualquer mínimo não nada de sinceridade. De todo modo, também os olhos dela eis agora carregados, avermelhados, até que, ambos face a face à meia luz do abajur, ela derrama uma lágrima sobre o canto de um dos olhos dele, que já ia por seu turno verter uma, de modo que é uma lágrima mistura das de ambos que então escorre pelo rosto dele. E novamente eles se beijam. Dez segundos, quinze, vinte, e, ofegando, diz ele a ela então...

- Deixa eu te chupar!

Ela de novo sente um nó no abdômen. Cego. O que foi que ele disse???

- Chupar??? Você quer me chupar???

- É! Quero! Vem! Tira a roupa e deixa eu te chupar!

Desgovernado e sem freio, vai o trole morro abaixo. Medo, descontrole, temor, trepidação. Acelera, acelera, acelera. O descarrilamento é iminente. Natália, meio sobre o túmulo e meio a o negar, livra-se de sua camisola. A seguir, como jamais pensou, e jurou que não faria, novamente fazer diante de um homem, ei-la a, surpreendentemente diante do seu próprio, tirar a sua calcinha. Tarado entrevado, Fernando a observa. Um fio de saliva, a buscar o caminho da lágrima duas, verte de um dos cantos de sua boca. A descida se ingremiza. A velocidade aumenta. A paisagem se distorce. Meia luz, abajur. Natália puxa o corpo de Fernando um pouco para baixo em relação à cama e vem de pernas abertas contra a sua boca. Qual de tamanduá num formigueiro, ei-la, a língua, voraz a cavoucar. Onde uma semana antes revólver, clitóris, pêlos, lágrimas e saliva.

- Isso!... Isso, querido!... Chupa!... Assim!... Ai... Ai, que gostoso!...

Tarada travada, Natália vai se excitando. Mais, mais, mais, mais, mais, até que, intruso, vilão, maldito, demônio, desgraçado, Rodrigo surge na cena, e surge, pensamento, em forma de pênis, em forma de pau, de pica, rola, piroca, cacete. E, quase tanto quanto o deseja, Natália o odeia. E, quase tanto quanto odeia Fernando, e a si por o odiar e desejar Rodrigo, Natália deseja, e, de olhos agora fechados, fantasia, que seja ele, Rodrigo, o dono daquela língua desesperada dentro dela.

Mas Natália luta. Com honra jurou sobre aquele túmulo e, não, não vai se entregar. Sim, seu marido ainda está vivo. Não, ela não o matou por um pênis alheio. Com um gozo vindouro que ela sabe mais fruto do outro homem em sua mente do que do seu dela debaixo, ela luta. E decide agora. Sim, o seu marido tem um pênis. Quem sabe, a medicina tanto avança, ainda haja um jeito de o fazer enrijecer, ou, talvez, ainda que Fernando não o sinta, ele possa, o pênis, - por que não perguntar ao médico? - enrijecer-se de modo espontâneo esporadicamente. E ela luta. Contra Rodrigo e, de certo modo, de muitos modos, de todos os modos, contra si mesma, luta, e, lutando, vira-se sobre Fernando e, de novo a, agora ao contrário, deixar a vagina sobre a sua boca para que ele a continue chupando, dispõe-se a, mesmo mole, abocanhar seu pênis. É. Fernando é o seu marido. E Rodrigo, por mais que, dele sim, seja ainda duro o pênis, é afinal em quem ela deveria atirar com aquela arma, maldita arma, ali dentro da caixa verde, ali dentro da gaveta, a da esquerda, no fundo.

Mas a luta é inglória. Natália baixa a calça de moleton que Fernando usa e depois a fralda. Excitadíssima, leva a boca ao pênis disposta a ignorar o fato de ele parecer estar menor do que nunca, murcho, flácido e enrugado. Chega a tocá-lo com os lábios mas de repente pára, quando um odor forte e repugnante lhe invade as narinas. Podridão. Ao mesmo tempo, urina e fezes. Atina então para o quanto a fralda está suja e, qual naquela tarde sobre o túmulo, vem-lhe uma repentina vontade de vomitar. Sem dizer nada para Fernando, e já vomitando a cântaros pelos olhos, Natália se levanta rápida e corre para o banheiro. Fecha a porta por dentro e ajoelha-se diante do vaso. O vômito não chega a vir. Apenas lágrimas latrina abaixo.

Natália inspira. Expira. Inspira. Expira. Luta. Luto. Luta. Luto. Luta em luto. Enluta-se em luta. Pensa em gritar. Não grita. Pensa em sangrar. Não sangra. Pensa em matar. O revólver na caixa verde. Pensa em morrer. Na gaveta da esquerda, no fundo. Pensa que já matou. Já mutilou. Transformou em planta. E pensa em Rodrigo. Odeia-o. Odeia-se. Deseja-o. Deseja. Déjà vu. Leva então o dedo médio da mão direita à sua vagina ainda molhada. Enfia-o e depois o tira e mete na boca para sentir o gosto de sua execrável excitação. Ofegante, rendida, fim de luta, nocaute, seu dedo oxalá um pênis, começa a repetir em voz baixa para si...

- Eu quero um caralho grande e duro...! Eu quero um caralho grande e duro...! Eu quero um caralho grande e duro...!

Três minutos, cinco, e Natália se levanta. Nua, encara-se no espelho. Também lá, também nu, Rodrigo. Nela, dela, de muitos modos, com muitos medos dele ela, Rodrigo. Nocaute, maca, morgue, podridão. Extremo, entranha, estranha extrema-unção.

À esquerda de Natália, ao lado da pia, a cadeira de rodas que a enfermeira usa para dar banho em Fernando. Natália a observa. Atenta para as manoplas. De repente, uma idéia a assusta. Será capaz? Ela se lembra de Sâmia. Fará ela, Natália, algo ainda mais louco, mais nefasto, mais pungente? Algo ainda mais tristemente insano do que o que todos viram naquela tarde, naquela cena tão chocante? Natália olha de novo para o espelho e lá está Rodrigo, agora de pau duro na mansão, na festa do Dudú. Sim, ela o fará. Homicida sem como, o fará. Seis anos se passaram desde aquele momento, pobre pequeno Calú, e Natália, a um passo de superar Sâmia em desespero e descontrole, concebe hoje um pouco mais o que foi aquela dor.

Gugu Keller

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Sermão

Só porque você jamais experimentou um mínimo de dignidade na sua vida; só porque passar fome e outras necessidades sempre foi a sua rotina e você nunca teve acesso a nada em termos de educação ou de saúde; só porque você nunca conheceu o seu pai, e a sua mãe, que se prostituia a troco de miséria, morreu esfaqueada por um cafetão; só porque seus irmãos foram fuzilados em chacinas bárbaras e covardes, sendo que você próprio por pouco escapou de várias delas; apenas porque você tantas vezes apanhou da polícia e foi parar em instituições públicas para menores onde foi sistematicamente violentado e torturado; apenas porque nunca teve possibilidade de comprar um par de tênis ou uma roupa nova ao mesmo tempo em que as tentações do mundo materialista sempre foram esfregadas impetuosamente na sua cara; apenas porque todos lhe olham diferente, desconfiados por causa da sua cor e da sua sujeira, já que você  nunca teve um  lar decente onde pudesse se alimentar, se abrigar e fazer a sua higiene; somente porque você passa frio nas noites de inverno, fazendo uso muitas vezes de álcool e de outras drogas apenas para aquecer um pouco o seu parco corpo; somente porque você não tem nem uma escova de dentes, até porque já quase nem tem dentes, e vive de migalhas, sobras, esmolas e restos tirados do lixo ao mesmo tempo em que tanto ouve falar sobre uma tal de corrupção, que faz com que os ricos fiquem cada vez mais ricos e que os que são como você vivam cada vez mais como você vive; só por isso, apenas por causa disso, você quer vir com essa história de violência??? Essa não, hein??? Vê se anda na linha, senão nós te condenamos e te jogamos numa cela podre, imunda e superlotada, onde você vai padecer por anos e anos e anos, até aprender que este é um estado democrático de direito e que as leis estão aí para serem cumpridas! Deu para entender? Hum? Deu? 

Gugu Keller