terça-feira, 31 de dezembro de 2013

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Publicado

Com extrema satisfação, informo aos queridos amigos que aqui vêm que, após eu o ter revisado, o meu livro "Absurdolândia", escrito aqui no blog entre setembro e novembro últimos, encontra-se disponível no site do Clube de Autores. Agradeço mais uma vez imensamente a todos os que me incentivaram no projeto. É de grande emoção para quem luta para um dia ser um escritor conseguir pôr mais um filho no mundo. Obrigadíssimo! Beijos a todos!

Gugu Keller

domingo, 29 de dezembro de 2013

O Andares

Transpassa-me lança esse em passos de dança andar teu que faz trança do meu coração.

Gugu Keller

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Votos

Anuente passivo do nosso tácito porém claro pacto de hipocrisia coletiva, a todos os irmãos brasileiros, sobretudo à grande maioria impetuosamente massacrada pelo hipócrita e aviltante estado de coisas em que vivemos, desejo, com a falsa fraternidade de quem, sempre bem instalado em sua confortável covardia, cômoda e cotidianamente cala-se conivente, um feliz natal e, desde já, um próspero ano novo!
 
Gugu Keller 

domingo, 22 de dezembro de 2013

sábado, 21 de dezembro de 2013

Tende Piedade

Se deus existir, não creio, que ante a dor dessa tanta injustiça nos diga a que veio.

Gugu Keller

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

domingo, 15 de dezembro de 2013

Hipocrisia em Crise

Neste mundo em que, cada vez mais, o que importa é a aparência, e no Brasil dos grandes eventos de 2014 e 2016 tal coisa está como nunca na ordem do dia, os tapetes já parecem poucos para tanta e tão densa sujeira.

Gugu Keller

sábado, 14 de dezembro de 2013

Publicado

Desde ontem, com extrema alegria para mim, meu livro "A Esquina", para quem não sabe escrito aqui em capítulos semanais entre setembro/12 e agosto/13, encontra-se disponível no Clube de Autores. Uma vez mais, agradeço imensamente a todos os que me apoiaram nesse projeto.
Bjs!
GK

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Oito

Eu te quero toda
Todo a ti eu quero
Os teus lábios gotas
No meu beijo ferro
Fogo, afago e fosso
Flor do fato ao feto
Farto gosto e gozo
Bicos, boca e reto

Gugu Keller

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Brasil 2014

Uma das coisas que melhor ilustram, tendo a crer, a eternamente atual política de pão e circo sob a qual de modo acintoso cada vez mais vivemos é a boçalidade dos sorrisos que, quase sem exceção, os apresentadores de telejornais põem em seus rostos de plástico quando anunciam que é hora dos gols da rodada. A quem nunca o observou, recomendo-o. É reveladoramente tragicômico.
 
Gugu Keller

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Eu, Brasileiro (Repostagem)

Com meu silêncio alienado
E coração tão corrompido
Eu avalizo envergonhado
Este holocausto travestido

Gugu Keller

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Target

A meta mais sadia e gratificante é a de, em busca de nossos ideais, termos sempre  feito o nosso máximo sem nos preocuparmos com resultados, reconhecimento ou, sobretudo, quaisquer comparações.

Gugu Keller

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Smile

Paradoxalmente, mesmo sendo brancos os nossos dentes, tudo fica mais colorido quando os mostramos.

Gugu Keller

sábado, 30 de novembro de 2013

Chiclete

É nos ocupando o tempo todo com problemas imaginários que covarde e costumeiramente nos evadimos de enfrentar os reais.

Gugu Keller

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Black Friday

O que será mais deprimente no mundo da propaganda? A covarde hipocrisia dos criadores e anunciantes ou a ingênua burrice dos destinatários?

Gugu Keller

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Woman in Chains

Tanto é o masculino o sexo frágil, que disso precisa acusar o oposto.

Gugu Keller

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Homo Querus

Incompletos por natureza, quando nada nos falta, nos falta o que nos falta.

Gugu Keller

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

domingo, 24 de novembro de 2013

sábado, 23 de novembro de 2013

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Alienação Defensiva (Repostagem)

Fingindo-nos imunes, fingimo-nos impunes.

Gugu Keller

Absurdolândia - Agradecimentos

Queridos amigos...

Com o capítulo de ontem, o 64°, tive a felicidade de concluir mais este texto, o "Absurdolândia", na minha modesta vida de escritor. Assim como o anterior, "A Esquina", que igualmente desenvolvi aqui no blog aos olhos de todos, em breve ele estará disponível em forma de livro no "Clube de Autores". Curiosamente, de modo diverso do que se deu com o primeiro, ao mesmo tempo em que quase ninguém o comentou, ele trouxe um sensível aumento no número de visitantes ao blog. Talvez, não sei, tal fato tenha a ver com o fato de os capítulos terem sido diários, quando os do "A Esquina" eram semanais. De todo modo, com ou sem comentários, agradeço imensamente a quem o acompanhou, mesmo que não de modo intergral. Que o texto tenha sido capaz de, como, creio, deve ser sempre o objetivo de quem se arrisca neste fascinante mundo das palavras, em quem o leu provocar a reflexão.

Abraços a todos!

Gugu Keller

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Brave New World

A alienação é a inteligência da burrice.

Gugu Keller

Absurdolândia 64

A nós, brasileiros, nos cabe então, tende este humilde autor a crer, em coerência com a inerente atitude cristã de respeito e amor ao próximo que, por natureza, tanto nos caracteriza, rezar pelos povos que, retrógados decerto na roda da história, não têm tido a sorte de experimentar o quanto é gratificante fazer parte de uma nação de verdade, de uma democracia republicana de que se possa sentir orgulho, de um autêntico estado de direito que proporciona aos seus indivíduos a cidadania em seu estrito conceito, como, bem vimos neste pequeno trabalho, de modo tão estranhamente peculiar, é o caso do absurdo. Oremos, pois, nós, que tão bem louvamos ao fundador do cristianismo seguindo com humildade e submissão extremas as suas palavras de compartilhamento e compaixão, para que a Absurdolândia, terra, como a nossa, tão cheia de uma riqueza humana incomensurável, descubra um dia que as palavras de sua bandeira, a que lá com tanto ardor se devota, não constituem, com o devido respeito, o melhor caminho para a plenitude de sua gente. Sim. Façamos nossas poderosas preces para que lhes chegue o nosso exemplo ordeiro e progressista. Saibamos, estendendo-lhes nossas mãos amorosas sempre abertas para os mais fracos, fazê-los ver que, de braços dados com aqueles a quem representam, instituições públicas sérias e escorreitas, como as que honrada e felizmente temos aqui, são o único caminho para se construir um país pleno, um país que, a despeito de quaisquer dificuldades históricas, pode hoje posicionar-se diante do mundo como um grande e triunfante exemplo a ser seguido, exatamente o caso do Brasil. Se a Absurdolândia, aos quatro ventos, amiúde se apregoa uma nação vitoriosa, celeiro do mundo, o país de um futuro que já começou, o faz, como se mostrou capítulo a capítulo nestas páginas, apenas pelo incondicional fanatismo do seu em grande maioria tão sofrido povo àqueles dois princípios deveras lá festejados, que, contudo, além de dela fazer, qual já nas primeiras linhas atrás se o disse, um verdadeiro paraíso para os vexilologistas, torna-a, a rigor, país de terras tão belas e tão absurdamente o tempo todo vilipendiadas, não mais do que um fantoche grotesco de hipocrisia e mentira. Que deus, este deus tão brasileiro, abençoe também nossos irmãos absurdos e faça com que, se necessário para a lá tão necessária mudança for, numa espécie de reconstrução simbólica, a deles tão sagrada bandeira sofra uma completa revolução na interpretação mítica de seus significados, passando o verde a representar tão somente a riqueza de suas florestas, o amarelo, a de seus inesgotáveis recursos minerais, e o azul não mais um mar refletido, mas apenas o seu lindo céu predominantemente meridional. E que, por fim, as duas palavras, três se com o "e", "hipocrisia e absurdo", sejam trocadas, se não, vez que estas já são nossas, por "ordem e progresso", ao menos por, talvez, "sinceridade e respeito". Sim. Assim seja. Que o bom deus, que tanto abençoa o Brasil, igualmente abençoe a Absurdolândia. Assim seja.

Gugu Keller

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Palavras Placenta

No escrever há farto um quê de parto.

Gugu Keller

Absurdolândia 63

E, por fim, arrematando este conclusivo pequeno embate entre o lá e o cá, temos que, quanto à educação, a situação uma vez mais se repete. Coincidentemente, não se sabe se por motivos a tanto atrelados, provável que não, a educação pública brasileira, que até então tinha considerável qualidade, sofreu um vertiginoso declínio justamente nas décadas em que durou a ditadura militar, a ponto de, quase como na Absurdolândia de hoje, beirar a completa falência. De todo modo, passado passado, de lá para cá, eis também neste importante campo da estrutura social, decerto o mais deles, também uma verdadeira revolução rumo à ordem e ao progresso, fruto da sadia mentalidade brasileira devidamente ecoada no seu sempre escrupuloso comando institucional, se dá, novamente através do sempre fidedigno apregoar público dessas autoridades se o vê, de modo simplesmente meteórico. Sim. O país final e definitivamente assimilou que passa pela educação o caminho para o pleno atingir de todos os objetivos de igualdade e justiça social que de modo veemente norteiam a chamada "brasilidade", e, sobretudo respeitando o principal profissional por ela responsável, o professor, tal revolucionária política pública já tem, como uma implacável avalanche do bem, reduzido a ruínas grande parte de todo esse passado de nefasto débito nesta área que a tanta gente, toda uma geração, tão pesadamente penalizou. Assim, segundo a acima referida tão importante prática de, prestando-lhe contas, informar-se ao povo do estado financiador o que se faz com o que se paga, tanto quanto ocorre na saúde vemos o Brasil como um bólido progredir, o céu é o limite, no que tange à área educacional. Com notáveis investimentos em estrutura e, principalmente, na hoje aqui valorizadíssima carreira do magistério, o Brasil de hoje é um grande exemplo para o mundo, para países como a Absurdolândia sobretudo, do quanto a educação pública de qualidade é sempre o firme alicerce de uma sociedade saudável e bem desenvolvida. Aliás, um pouco esmiuçando o primordial vetor dessa revolução no que toca à sobredita justíssima e necessária valorização do profissional do ensino, temos que tanto se deve, uma vez mais e de modo belo, à total fidelidade do gestor público brasileiro às suas diretrizes constitucionais, na medida em que, impõe a lei a maior do Brasil, a busca da justiça social é inexorável e permanentemente o rumo a ser seguido por quem no timão, e como minimamente obedecer a tal tão claro mandamento senão com uma devida proporcionalidade nos ganhos do funcionalismo público, incluído nele o tão fundamental e heróico professorado? De modo que, depois do advento da constituição-cidadã, o Brasil passou a ser, estrita exemplarmente, um país onde todos os servidores públicos, dentro da lei e das possibilidades do estado, são remunerados de um modo equilibrado e paritário conforme as suas carreiras. Não existe aqui reajuste de vencimentos para deputados, senadores, magistrados ou secretários de estado, ou mesmo para o presidente da república, sem que escriturários, faxineiros, motoristas, coveiros e, é claro, professores que sirvam ao estado sejam na mesmíssima proporção reajustados, e esse simples cumprir do que é tão cristalino na carta magna nacional tem sido, sim, a lei, nas nações onde a ela não se trata como mero material para a confecção de pipas, é pensada para isso, tem se mostrado uma arma de extrema eficácia na condução dessa tão legítima revolução pela ordem e pelo progresso. Ademais, registre-se que, também a somar nessa importante escalada de resgate da cidadania no Brasil via educação, tem o administrador público do país revolucionado também com uma sapientíssima política de cotas que, de novo de uma forma extremamente diversa do que em terras absurdas ocorre, já que, ao invés de, qual lá, como injustamente acusam certos críticos decerto alheios aos ideais maiores de ordem e de progresso, óbvio paliativo, constitui, de modo notoriamente inteligente e coerente, outra forma de se caminhar com vigor na direção do promissor futuro que, como todos sabem, já se faz sentir, tão proximamente ao país aguarda.

Gugu Keller 

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Corda Bamba

Se muito já não há do que ontem era para sempre, bastante ainda resta do que desde então nunca mais.

Gugu Keller

Absurdolândia 62

Por fim, ainda nesta breve comparação entre a Absurdolândia e a pátria do autor destas linhas da primeira a respeito que as finaliza, temos, novamente, uma enorme discrepância entre o que se dá nos dois países, de novo em razão da maneira como em cada caso se aborda os problemas que lhes são comuns, no que respeita aos dois fatores que, ao lado da segurança pública são, muito provavelmente, os principais a se levar em conta ao se avaliar a situação social de um país, quais sejam, a saúde e a educação públicas. E outra vez é a mesma coisa. Lá, como vimos, hipocrisia e absurdo. Cá, ainda que não com o mesmo fanatismo vexilológico, sempre e sempre, ordem e progresso. Então, se na saúde pública brasileira, como amiúde se vê nos jornais, problemas ainda há com filas, demora, falta de médicos, de remédios e desestrutura de um modo geral, a evolução que contra isso se tem visto acontecer baseada no espírito de amor e respeito ao próximo e, sobretudo, de pleno comprometimento institucional com o bem estar coletivo, nos termos exatos do que em muitos momentos de seu texto reza a constituição-cidadã de 1988, cujos escopos, qual já se explicou, são perseguidos com literal obsessão por quem o país comanda, é algo inegavelmente meritório. Sim. E, sem dúvida, o melhor termômetro disso é o que o próprio estado mostra em seus sempre oportunos discursos e propagandas, que, sendo o Brasil, ao contrário da Absurdolândia, até porque verdadeiramente cristã, uma nação totalmente avessa ao demônio da hipocrisia, são em verdade muito menos propagandas do que necessárias e legítimas prestações de conta a uma comunidade pagadora sacrificada de tributos não poucos que, por disso natural conseqüência, tem todo o direito de saber o que lhe é dado em troca, até porque, quanto a isso, já se o disse quando as campanhas eleitorais acima se abordou, a justiça brasileira queda-se sempre extremamente atenta no que se refere a defender o cidadão de quaisquer eventuais inverdades mascaradoras do real, coisa que no Brasil estado democrático de direito em absoluto já não tem vez. Assim, temos que, justificando com plenitude cada centavo tributado, os investimentos públicos na área da sáude tem sido prodigiosos, com vários novos hospitais modernamente equipados inaugurados em frenético ritmo, postos de saúde e laboratórios à disposição da população mais necessitada, profissionais de alto gabarito sendo contratados com uma remuneração digna que os faz trabalhar satisfeitos, benefícios, enfim, que, como bem, nas sobreditas prestações de contas que fazem ao povo, acenam os administradores da coisa pública, sempre muito mais interessados, por força da mentalidade essencialmente includente que cá impera, em de fato fazer pelo povo do que em o iludir com o vil propósito de apenas angariar votos, como tão absurdamente na Absurdolândia se dá, certamente farão com que os eventuais problemas que, aqui ou ali, ainda persistem, em breve estejam por completo dissipados, e isso tudo sem falar nos tão importantes avanços no saneamento básico país afora, área também relativa à saúde em que, como igualmente, e com justificado entusiasmo, explicam os zelosos gestores do Brasil, do mesmo modo o país caminha a passos de gigante. Por outro lado, voltando ao atendimento à população propriamente dito, os chamados "planos de saúde", que muito no país operam, são, de um modo cabalmente garantido por uma fiscalização implacável de um poder público intransigente quando na defesa da cidadania, empresas extremamente respeitosas no que tange a cumprir seus contratos, sempre, também por força da lei, claros, equilibrados e tendentes a proteger o lado mais fraco, de sorte a, também assim, de forma integral e sem qualquer possibilidade de elitização, o que, na maneira de pensar do brasileiro, seria odioso, garantir-se a todos o pleno acesso à saúde no que ela pode oferecer de melhor. Então, se, infelizmente, na Absurdolândia, como vimos, a saúde pública é a que é, no Brasil deste dele sempre orgulhoso modesto organizador de palavras, ela defintivamente é coisa muito séria.

Gugu Keller

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Por Você

Na loucura do amor claro eis
Quão melhor é a não lucidez

Gugu Keller

Absurdolândia 61

Já que, nesta reta final deste humilde trabalho acerca da Absurdolândia e do curioso "modus vivendi" de seu povo, este autor, também humildamente, houve por bem em o comparar com o seu país, o Brasil, ao menos, ou sobretudo, no que tange aos seus principais aspectos acima abordados, verdade é que igualmente não poucos são os problemas brasileiros relativos à punição dos seus criminosos. Sim, também na pátria deste que vos escreve se enfrenta uma situação crítica no que refere-se à realidade carcerária. Problemas como ausência de estrutura adequada para atender aos internos, clamorosa insuficência na assistência jurídica, inexistência quase total de atividades laborais ou educacionais, flagrante degradação de muitas das instalações prisionais, até por isso já claramente impróprias para este fim, e, sobretudo, superlotação, afetam sobremaneira, as autoridades brasileiras, elas que, acima de tudo, prezam a verdade, corajosamente o assumem, o estrito cumprimento do que a respeito do que determina o legal, como, de modo inexorável, é do feitio dos que governam o país. De modo agravante, e novamente com coragem assumido por quem de direito, que, no Brasil, nunca põe panos quentes, o mesmo se dá no que se reporta às instituições responsáveis por abrigar os infratores ainda inimputáveis, leia-se menores de idade, que tristemente constituem uma considerável parcela dos que necessitam de uma atenção institucional que, como, além da lei, prescreve a no país a salutar mentalidade dominante, não os castigue ou discrimine, mas os recupere, os readapte para o convívio social, tal qual, aliás, sábia e humanitariamente, embasa-se a sempre escorreita aplicação do direito penal no país. E, novamente em se falando sobre mentalidade, eis nela, outra vez, também nesta seara, a abissal diferença entre brasileiros e absurdos, entre os da ordem e do progresso e os da hipocrisia e do absurdo. Sim. Se na Absurdolândia, como vimos, as celas superlotadas nada ficam devendo a fornos de campos de concentração nazistas, no Brasil, ainda que os problemas haja, e a superlotação, qual se disse, é um deles, a coisa é bem diferente, já que, empolgado signatário do tratado mundial pelos direitos humanos, nenhum esforço no país se poupa quando o assunto é os garantir, independentemente da classe social ou da ficha criminal de quem se trata. Com uma redação muito similar ao mesmo dispositivo na constituição absurda, a brasileira reza que "todos são iguais perante a lei", e a diferença aqui é a que já vimos, ou seja, se na Absurdolândia a lei é papel para pipa, no Brasil, ao extremo contrário, é coisa seríssima, principalmente se na esfera constitucional, sendo que, ainda na esteira do abordado, também diz a lei maior brasileira que "ninguém será submetido a tratamento desumano ou degradante", e, mesmo nessa problemática esfera penitenciária, notória e fanaticamente assim é. A propósito, se há algo que no Brasil definitivamente não tem vez é a tortura. Impensável. Se isoladamente ela houve no período ditatorial, como afirmam alguns, a história oficial não o confirma, e a história do Brasil, desde o seu descobrimento, é também, registre-se, coisa muito séria, sempre fidedignamente relatada, foi algo que se pode chamar de exceção excepcionalíssima. Ademais, no que mais importa, neste Brasil atual, tão oposto à Absurdolândia, qualquer forma de tortura, por mais sutil que seja, uma vez detectada, é pronta, intransigente e severamente punida pela justiça, sobretudo quando, raríssimo é mas por sadia prevenção sempre se atenta, de modo ainda mais covarde e intolerável, praticada por agentes públicos contra quem sob a sua custódia. Se na Absurdolândia da pseudo-idadania o cidadão é sistematicamente aviltado, no Brasil da constituição cidadã por sua pátria amada ele é ainda mais amado.

Gugu Keller

domingo, 17 de novembro de 2013

Vida

Como pode, no pouco do ser, tanta e tão doída dor caber?

Gugu Keller

Absurdolândia 60

Por outro lado, mesmo que a sua natural impossibilidade de onipresença, somada às ainda deficiências, às vezes técnicas, às vezes humanas, que o estado brasileiro enfrenta no combate aos que cá margeiam a lei façam, como se disse, com que haja um caminho ainda relativamente longo a se percorrer na sua incansável busca pelo ideal positivista de ordem e progresso, se há uma conduta contra a qual a intolerância é total, é a corrupção. Sim. No Brasil estado democrático de direito pós ditadura militar, sob a égide de sua acima aludida constituição-cidadã, o crime do corrupção, tanto a ativa, cometida por quem corrompe, quanto a pior delas, a passiva, cometida pelo agente público que se deixa corromper, ou acena com a disso possibilidade, ou mesmo, pior ainda, de algum modo impõe a sua prática, é execrado e punido quando à tona sempre de maneira severa e exemplar. É que o moderno modo de pensar do brasileiro compreende com clareza que o crime de corrupção é a matriz de todos os outros, e por isso, sabiamente, o abomina como o pior dos cânceres que consomem o seu corpo. Sim, lúcido, o brasileiro indigna-se com o homicídio, o estupro, o latrocínio ou o seqüestro, mas nada golpeia-lhe mais os brios do que a corrupção. No Brasil, definitivamente, não há, e nem funcionaria, aquele providencial desviar de atenção pública que hipocritamente se faz na Absurdolândia para os crimes de sangue em propositado detrimento da para os chamados do colarinho branco. Não. Tanto que, na política brasileira, assim como no seu funcionalismo, aquele que com isso se envolve vê-se definitivamente arruinado. Sendo o brasileiro um povo esclarecido, bem informado e dotado de um senso crítico extremamente apurado, e somando-se a isso o fato de as regras eleitorais no país serem justas, límpidas e impetuosamente democráticas, nos pleitos eleitorais, sempre precedidos de campanhas de altíssimo nível, em que as campanhas dos candidatos são rigorosamente fiscalizadas pelas autoridades competentes de modo a jamais serem enganosas ou ilusórias, dificilmente alguém que um dia tenha se enveredado pelo torpe caminho da corrupção logra alcançar alguma possibilidade de ressurreição moral que lhe traga de volta ao cargo público. Dificílimo. Se, assim como se deu com a Absurdolândia, o Brasil experimentou durante a sua ditadura governos de certo modo escusos sob o ponto de vista democrático, que, mesmo, como vimos, com bom e justo propósito, a história oficial o diz e dela não se duvida, agiam por vezes à margem da lisura sem que, por força da censura, nada se pudesse falar a respeito, ao contrário do que se deu lá, já que são outros os seus princípios, o brasileiro soube fazer da lição um dos motes do seu definitvo despertar ideológico, de modo a, ciente como ninguém do potencial que a mente corrupta tem de solapar o que a duras penas foi conquistado por um povo unido e que sabe o que quer, um povo que não se faz de jumentos a seguir cenouras seguras por varas de pescar nas mãos do quem os monta, em regra nababos tiranos de um absolutismo capitalista covardemente travestido de democracia, não mais permitir que esse tipo de figura tão medievalmente tóxica para o bem estar coletivo volte a de algum modo exercer o seu dantesco e doentio parasitismo.

Gugu Keller

sábado, 16 de novembro de 2013

Aprofundamento

Um mais detido observar torna estranho o familiar.

Gugu Keller

Absurdolândia 59

Sendo árduo apurar onde o fenômeno começou antes, possivelmente em ambos os países na mesma época, omitir-se-á aqui esta informação menos relevante quanto aos chamados "guardadores de carros". O fato é que no Brasil, noutra coincidência sua com a Absurdolândia, sobretudo nas grandes cidades, igualmente há a sua incômoda presença, decerto fruto de dificuldades relativas à educação pública e à criação de empregos dignos para todos. Contudo, novamente, é visceral a diferença entre os dois países no que toca a como lidam com o problema. Enquanto na Absurdolândia as coisas são as que vimos, no Brasil, qual é lá peculiar, as autoridades são absolutamente irredutíveis na constante repressão a esse tipo de atividade, claramente uma extorsão odiosamente disfarçada contra os motoristas que, de modo sacrificado, pagam os seus não poucos tributos financiadores dos entes estatais. Assim, se, como é fato, os guardadores de carros agem em grandes metrópoles brasileiras, como São Paulo, Rio de Janeiro e outras, o fazem apenas porque, infeliz mas compreensivelmente, o estado não tem como estar presente em toda parte o tempo todo. Quando, de qualquer modo, tal tipo de ação é interceptada, seja através de alguma denúncia, seja por um flagrante obtida durante algum patrulhamento de rotina, os criminosos, ou infratores, já que, tristemente, há muitos menores de idade nisso envolvidos, são imediatamente encaminhados para que com rigor se cumpra o que de direito. Sim. Como no Brasil, de modo transversalmente diverso do papel amarelo absurdo, a lei é coisa muito séria, não há nunca nenhum tipo de conivência do estado com qualquer atividade clandestina. Não. As que excepcionalmente sobrevivem, como esta que agora aqui se aborda, o logram apenas em virtude da poucas linhas acima referida impossibilidade de onipresença da autoridade. De toda sorte, outra vez, notório é o extremo respeito das instituições brasileiras ao seu cidadão de bem, já que o seu extremo respeito à lei, como sempre se dá, é, em última instância, a mesma coisa. No Brasil, então, até acontece de eventualmente as autoridades tomarem conhecimento de alguma prática ilegal apenas a partir do trabalho da imprensa, já que, em tão plena democracia, esta realiza um trabalho fiscalizatório de relevantíssima importância. O que não há, nem de longe, de forma alguma, é aquela situação inequivocamente absurda que vimos amiúde dar-se na Absurdolândia, em que inúmeros atentados contra a lei acontecem às claras, nas barbas de todos, das autoridades inclusive, com flagrante prejuízo para o povo absurdo, que, como bem vimos, também com extrema dificuldade paga seus não poucos impostos, sem que se tome qualquer providência repressora, a menos que a imprensa, lá hipocritamente sensacionalista, e que não costuma prezar por nenhum senso de ética quando o assunto é angariar audiência, em tom de cobrança o denuncie. Ademais, se lá, em terras absurdas, mesmo então, no mais das vezes, por amor coletivo aos princípios básicos, dificilmente alguma coisa dá em alguma coisa, no Brasil, onde a lei, como deve ser nos verdadeiros estados de direito, é algo que beira o sagrado, ao contrário, a impunidade é que não tem vez, ao menos no que tange ao que é ilegal e que chega ao conhecimento de suas sempre compenetradas autoridades, sabedoras e cumpridoras fiéis de suas obrigações e severamente avessas a quaisquer acomodações ou panos quentes.

Gugu Keller  

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Programada

Esperando o elevador no saguão do edifício onde trabalho ontem à tarde, casualmente ouvi uma conversa entre dois seguranças que lá prestam serviço, e perguntava um ao outro...

- O feriado amanhã é do que mesmo?

Com um tom de quem se sente orgulhoso por a ter, veio a resposta...

- Programação da república!

Gugu Keller

Absurdolândia 58

País que, como dito, orgulha-se de ser, no exato sentido da palvra, uma verdadeira nação, o preconceito, de qualquer espécie, é algo que no Brasil simplesmente não tem vez, sendo intransigente a intolerância, tanto pública quanto, e principalmente, institucional, contra os poucos que de algum modo, na total contramão da sua hoje invejável evolução civil, ainda o praticam. O racismo, por exemplo, e o Brasil sempre foi um país de forte miscigenação ao longo da sua história, é lá considerado um crime gravíssimo, por exceção constitucionalmente previsto e processualmente inafiançável, sendo que, independente da posição social de quem o pratica, as autoridades locais são inflexíveis na sua repressão, até porque, quanto a este último aspecto, reza também a lei maior brasileira, em solidíssima cláusula pétrea, que "todos são iguais perante a lei", igualdade essa fielmente consagrada em todos os setores do seu cotidiano. Se é certo que, como explicado no capítulo acima, trata-se de um país que, ainda no curso de seu processo evolutivo sempre norteado pela busca incansável da ordem e do progresso em seu lábaro estampados, tem ainda muito a caminhar, haja vista ter passado por dificuldades históricas não poucas, em nada isso impede, insista-se, que questões como as que se referem à igualdade entre as pessoas e ao total repúdio a qualquer tipo de preconceito sejam tratadas de modo tão fanático quanto na Absurdolândia se vê no que tange aos lá princípios da hipocrisia e do absurdo. Então, se a constituição brasileira, a quem o estado brasileiro incondicionalmente se curva como um servo diante de seu mestre, diz que todos são iguais perante a lei, assim é até as últimas conseqüências. De modo que, se no Brasil, assim como na Absurdolândia, os números da violência são, é fato, consideravelmente altos, as autoridades do primeiro não fazem nenhum diferença quanto à condição, a origem ou o habitat de quem em cada circunstância se investiga. Não. Não existe no Brasil, por exemplo, aquele humilhante procedimento de se abordar e revistar pessoas apenas porque são pobres, mal vestidas ou negras. Tal absurdo, comum por princípio na Absurdolândia, é pesadamente repudiado, sobretudo pelo estado. O código de processo penal brasileiro diz que uma revista deve ser sempre precedida de uma fundada suspeita, e religiosamente assim é. Se algum agente público, num insano e injustificável excesso, comete alguma arbitrariedade relativa a esse tipo de situação e preconceituosamente destrata o cidadão, no republicano Brasil sempre a razão de tudo, dura e imediata é a reprimenda que sofre. Em outras palavras, na nação brasileira, estado democrático de direito exemplo para todo o globo, não há aquela coisa absurda que se dá, por exemplo novamente, em terras absurdas de se hostilizar suspeitos intransitivos. Nunca. Jamais. Impensável. De modo algum. No Brasil pós-ditadura militar, da por seu povo orgulhosamente chamada constituição-cidadã, todos são, de modo literal, cabal e inexorável, iguais, sim, perante a lei, e, se ao estado brasileiro ainda não é possível, por fatores que escapam ao claro ansiar benfazejo de seus governantes, atender de forma integral a todos os direitos coletivos que em contrapartida aos tributos que lá se paga seriam natural e legalmente devidos, ao menos, outra vez se insista, o respeito do estado por seus jurisdiconados, todos sem exceção, é sempre algo digno de contínuos e rendidos aplausos, em clima de ordem e de progresso.         

Gugu Keller

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Neuróticos

Quanto menos temos de quê, mais nos queixamos.

Gugu Keller

Absurdolândia 57

A verdade é que o Brasil tem muitos problemas similares aos da Absurdolândia. Contudo, dada a dita notória diferença de mentalidade, lá não há essa atitude típica dos absurdos de, através da hipocrisia princípio, por também princípio manter os absurdos. Não. Muito ao contrário, os brasileiros, unidos que são, lutam com extremo afinco, sobretudo através da atuação de suas exemplares autoridades, para, passo a passo, dia após dia, manter os ideais positivistas constantes da sua bandeira. Então, se, por exemplo, devido a circunstâncias que claramente escapam ao querer dos seus governantes, ou seja, complexas cojunturas macroeconômicas insolúveis senão através de reformas necessariamente gradativas, no Brasil, tanto quanto na Absurdolândia, paga-se muito a título de impostos, é quase que comovente o perene esforço administrativo no sentido de, não apenas o minimizar tanto quanto possível para desonerar a população, mas, pelo seu sempre extremo respeito a esta, fazer com que cada centavo tributado seja devolvido através de uma contraprestação minimamente digna. Assim, no Brasil, se tantos ou tão pesados impostos há quanto na Absurdolândia, de modo algum se os pode classificar como absurdos. São, isso sim, valorosas contribuições com o suor do rosto prestadas pelos cidadãos brasileiros que, orgulhosamente, e com o desprendimento de quem em troca se sente respeitado pela nação de que faz parte, somam seus esforços na busca incansável e contínua da ordem e do progresso. É verdadeiro, ressalte-se, que a referida contraprestação estatal ainda um longo caminho tem a percorrer para chegar ao ideal. Problemas estruturais há no Brasil com relação ao que é público que demandarão ainda anos de esmero administrativo para serem superados. Mas a grande diferença quando se o compara com o que se dá na Absurdolândia, a diferença que, com o perdão da redundância, faz toda a diferença, é, insista-se, o sempre extremo respeito com que a nação brasileira se relaciona com o seu cidadão, que lá é cidadão mesmo, de um modo bastante diverso da absurda e aviltante pseudo-cidadania absurda. Então, se nesta breve comparação entre o país objeto do presente trabalho e o em que vive o seu autor, ambos, em nova coincidência, apresentam um considerável desequilíbrio em termos de estrutura social, a diferença novamente se dá no como com isso se lida... Enquanto na Absurdolândia a entoada luta pela diminuição das desigualdades é uma clara farsa, já que, até pelo lá fanático respeito ao simbolizado na sua bandeira, a disposição das estrelas no céu não pode ser mudada, no Brasil dá-se o extremo oposto... A constituição brasileira afirma com todas as letras que  a busca da justiça social constitui um norte inexorável a ser seguido e, como lá, ao contrário do que se dá com os absurdos, o que se vê é um verdadeiro estado democrático de direito, onde a lei é coisa séria, a constituição principalmente, de mãos dadas governo e nação eis nesse constante desafio comum.

Gugu Keller      

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Absurdolândia 56

Conforme mencionado dois capítulos atrás, o autor destas modestas linhas descritivas da Absurdolândia, cuja motivação, qual dito em seu início, foi apenas o tratar-se de um país fascinantemente pitoresco, tem a sorte de viver no Brasil, nação daquela bastante diversa, sobretudo em termos de mentalidade coletiva, ainda que uma ou outra coincidência valha entre ambas destacar... A maior delas talvez seja a que justamente diz respeito ao aspecto vexilológico, na medida em que, se, qual já sabemos, são pouquíssimos os países do globo que, como a Absurdolândia, têm palavras estampadas em sua bandeira, é também este o caso do Brasil. Sim. Com inspiração no positivismo liderado pelo filósofo Augusto Comte, que, à época da sua adoção, era visto como a corrente ideológica a ser seguida, a bandeira brasileira traz também três palavras em si escritas, igualmente sendo duas se desconsiderarmos a partícula aditiva "e" que liga a primeira à terceira, que são as que de fato têm importância. "Ordem e progresso" é o que eis escrito na bandeira do Brasil, dizer que, ainda que não com o mesmo fanatismo que se vê na Absurdolândia, onde as palavras do lábaro são, como tanto vimos, verdadeiros princípios, constitui um importante norte pelo qual se guia a nação brasileira, esta sim, verdadeiramente, uma nação, sobretudo após o regime militar sob o qual, numa outra coincidência com a Absurdolândia,o país viveu na segunda metade do século XX. De um modo diametralmente contrário ao que se deu com os absurdos, até porque, bem já o sabemos, na terra destes o absurdo é princípio, o regime militar no Brasil transitoriamente instalou-se a partir de uma revolução de cunho absolutamente legítimo. Àquela altura, primeira metade dos anos 60, o país estava à beira de ser entregue aos comunistas, diabólicos malfeitores que, entre outra atrocidades, chegavam, é fato notório, a comer criancinhas. De sorte que, para evitar o pior e, sobretudo, a despeito de qualquer influência externa, fazer valer acima de tudo a vontade do povo, deu-se a vitoriosa revolução, injustamente ainda hoje chamada de golpe por ignorantes da história, desde sempre interessada apenas em afastar o claro e dantesco perigo leninista e, tão logo quanto possível, reestabelecer a ordem, o progresso e a verdadeira democracia. Foi uma transição gradativa, lenta talvez até, mas apenas porque de modo extrema e inequivocamente responsável e equilibrado. Nunca houve, por exemplo, como tanto e tão injustamente alguns acusam, maus tratos contra os opositores que, tresloucadamente, insistiam em manter-se contra o tão popular e justo movimento revolucionário. Se um caso ou outro em que se empregou alguma energia menos moderada excepcionalmente houve, foi por absoluta necessidade relativa à segurança nacional, até porque, honrado signatário do tratado de 1948, o Brasil é desde sempre um país que se orgulha de seu intransigente respeito aos direitos humanos. Foi um período de alguma dificuldade, não se o negue, mas também de uma importantíssima reciclagem após a qual a geração deste autor, a mesma que na Absurdolândia tanto se iludiu por esperanças vãs, foi, sobretudo com a constituição promulgada três anos depois dele findo, presenteada com uma nação de que pode se orgulhar, com um legítimo e verdadeiro estado democrático de direito.

Gugu Keller  

terça-feira, 12 de novembro de 2013

À Deriva

Sem o teu nó que é meu porto, sigo só por insônia não morto.

Gugu Keller

Absurdolândia 55

E acaba que, sendo ela, logo e em definitivo se o percebeu, não apenas perfeitamente compatível com os princípios da hipocrisia e do absurdo, mas, mais ainda, do primeiro até estimulante, a liberdade de expressão é a única peça de real democracia com que o travesti democrático absurdo tanto desfila pelas ilusórias passarelas da falsidade institucional. Sim. Chegando-se lá, numa espécie de insaciável uroboros, ao absurdamente hipócrita, depois da ditadura militar, nesta, que, não militar, já bem vimos, a rigor também o é, todas as escabrosas verdades estão afinal escancaradas ao alcance de todos os olhos e ouvidos e, mesmo assim, hipocrisia até a morte, os caras-de-pau se mantêm a convicta e ininterruptamente as negar, a agir como se elas simplesmente não fossem o que são. Assim, de novo o exemplificando, todos na Absurdolândia sabem que a saúde pública lá é a que é, mas, mesmo diante de irrefutáveis imagens, depoimentos e números que tanto o tempo todo o evidenciam, sim, hipocritamente os caras-de-pau o negam. Mais do que isso, mitômanos incontroláveis, juram o contrário. A quem preso já sem ar debaixo d'água afirmam sorridentes estar tranqüilo o respirar. E o que se dá a despeito? Continuam, na grande vitória do princípio da hipocrisia sobre tudo, o do absurdo, sempre atrelado, igualmente vitorioso, prestigiados, tratados com tapetes vermelhos, tapinhas nas costas e o pronome "excelência", e, sobretudo, sistematicamente eleitos, reeleitos, empossados e reempossados pelos fiéis seguidores da cenoura, meio como se estes confiassem mais em belas palavras vazias do que nos seus próprios sentidos. Educação pública? A mesma coisa. Conforme só piora, e todos o vêem, e, principalmente, o sentem, só se diz que melhora. E, novamente, como se o engole, assim segue. Violência? Enquanto nos jornais só aumenta e a todos cada vez mais assusta, oficialmente só diminui. Mais balas perdidas, mais vidas perdidas, mais absurdos reluzentes, mais mentiras panos quentes. E, assim, de fato, temos que, inegavelmente, como se explicou, no tempo da censura ditatorial, por paradoxal que isso soe, a hipocrisia acabava sendo bem menor. E como ela, a censura, era, explicou-se, o principal garantidor desse princípio naqueles tempos, o seu fim de certo modo fez com que tudo perfeita, triste e ainda mais paradoxalmente, se encaixasse, ou seja, fez-se com que, qual dito, por já não haver censura, a hipocrisia hipocritamente, se é que assim se o pode dizer, pudesse agora ser ainda mais negada, como em essência lhe é peculiar, e ainda mais, se é que, novamente, assim se o pode dizer, se hipocritizasse. Em outras palavras, mesmo que explicitamente tanto desfile com o seu enorme falo plutocrata-absolutista pelas mencionadas passarelas do ilusionismo, o referido travesti hipocritamente agora defende-se de tudo alegando que essa liberdade de expressão pós ditadura garante-lhe a feminilidade democrática que todos bem sabem nele só existir da boca para fora. Em ainda outras palavras, hoje na Absurdolândia todos os inúmeros absurdos podem à vontade ser denunciados que a hipocrisia cara-de-pau sempre apenas e tão somente limitar-se-á a os negar, por mais que escancarados eles  sejam, ou os minimizar, ou, quando muito, a mentirosamente se comprometer a os reverter. E é o que basta. Hipocrisia e absurdo. De sorte que o tempo passa, o segundo continua, a primeira, que continuamente o nega ou afirma sob combate, também, e eis aplicação dos princípios perpetuadas com orgulho. E como, noutra importante maquiagem de que esse hábil transformista lança mão para se passar por um estado de direito, as eleições na Absurdolândia são a farsa que são, com as regras sendo as que são, as propagandas sendo as que são, os candidatos sendo sempre quem são e, sobretudo, os seguidores de cenoura neles votando como votam, eis, cada vez mais, a nação absurda orgulhosa de sua plástica aparência democrática ao mesmo tempo em que, vampiros felizes os da estrela de cima e anêmicos paralisados os da de baixo, com não menos orgulho mantem-se vivos os dizeres e cores da sua bandeira, tão bela a se desfraldar nos alvissareiros ventos do cone sul.

Gugu Keller  

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Cárdio-miopia

O amor mais certo é o pela pessoa errada.

Gugu Keller

Absurdolândia

Queridos amigos...
Cheguei muito tarde em casa hoje, razão por que não foi possível postar o capítulo 55 do "Absurdolândia". Peço desculpas a quem o esperou. Salvo se por algum imprevisto impedimento, amanhã ele estará aqui.
Abs. a todos!
GK

domingo, 10 de novembro de 2013

Manias

Mesmo que o saibamos em vão, tentar ordenar o externo anestesia-nos do caos interno.

Gugu Keller

Absurdolândia 54

Durante mais de vinte anos, entre as décadas de 60 e 80 do século XX, a Absurdolândia viveu sob o crivo de uma tenebrosa ditadura militar, que teve como uma de suas principais características uma rigorosa censura à imprensa e à manifestação do pensamento em geral. De um modo curiosamente interessante, mas depois extremamente frustrante, tal fato criou em toda uma geração, a mesma do autor destas linhas, que, daqui de fora, do Brasil, tanto quanto possível o apurou, uma razoável expectativa de que, findo tal período, em que, ilustre-se, os princípios básicos estampados na bandeira, hipocrisia e absurdo, foram, com a extrema dureza ditatorial, rigorosamente cumpridos, a coisa de algum modo se revertesse. E o esperançoso raciocínio tinha, sim, sua razão... É que, naqueles tempos difíceis, enquanto os absurdos afloravam e proliferavam país afora o tempo todo, a hipocrisia por deles detrás perpetuava-se justa, ou principalmente, através da referida censura de tudo. Perseguia-se, torturava-se, fazia-se sumir, corrompia-se e com a corrupção capitalizava-se, e nada se podia falar ou escrever a respeito. Justificando-o com a extrema necessidade de se eliminar um inimigo absolutamente obscuro, que a rigor jamais existiu, mediante uma violência desproporcional e sanguinária afirmou-se naqueles dias mais do que nunca o capitalismo continuador do absolutismo medieval que tanto até hoje, já o dissemos, tão forte na Absurdolândia impera. Foram duas plúmbeas décadas em que, como jamais, a mentalidade cara-de-pau fez suas raízes fincarem-se profundas no cerne do cotidiano absurdo. Pois bem. Como, qual dito, a hipocrisia se impunha primordialmente pela censura, já que os absurdos por todos sabidos não podiam ser postos à luz, havia essa ingênua crença de que, finda a ditadura, e, com ela, a censura, o princípio hipócrita, ainda que isso significasse mexer na sagrada bandeira, não teria como perdurar. Se, pensava-se, tudo afinal fosse dito às claras, desmascarados e desmoralizados, os caras-de-pau haveriam de de algum modo se acuar. A hipocrisia diminuiria drasticamente, e, no mesmo passo, o absurdo, já que ambos estão sempre necessária e intimamente atrelados. Podendo ser denunciadas, a tortura haveria de diminuir, a corrupção haveria de diminuir, a injustiça haveria de diminuir, a crônica falta de contrapartida estatal às fortunas que a título de tributos o povo absurdo já então pagava haveria de diminuir. De modo que, quando, enfim, após aquelas duas longas décadas, esse difícil período da história do país chegou ao termo, com o fim da ditadura militar e a pretensa volta da democracia, e o conseqüente fim daquela tão entrevadora censura, muita gente, que ingenuamente decerto não concebia o quanto os princípios maiores contidos na faixa da bandeira estão lá sempre acima de quaisquer circunstâncias, teve, sim, a infantil esperança de que tal momento histórico possibilitaria uma afinal mudança no aviltante estado de coisas que temos estudado nestes capítulos modestamente descritores da vida em terras absurdas. Mas, tristemente, óbvio era, deu-se desde logo o extremo contrário. Sim. Tamanha é a força do princípio da hipocrisia no inconsciente coletivo daquele povo, tamanho é o seu enraizamento, que o que então se viu foi, isso sim, o seu, ao lado do do absurdo, ainda aumento, na medida em que tudo aquilo que não podia ser dito, todas as clandestinas verdades apenas sussurradas em clima de medo, de repente passaram a se escancarar sem que nada a rigor mudasse. Paralisantemente, os absurdos antes silenciosos explicitaram-se todos e ainda assim continuaram, ou mesmo aumentaram. Sim. Numa espécie de pesadelo real, com o fim da censura, aumentou a informação, aumentou a crítica, aumentou a denúncia, aumentou a ironia, e, mesmo assim, paradoxal e lastimavelmente, coisas da Absurdolândia, aumentou a injustiça, aumentou a indiferença, aumentou a impunidade, aumentou a corrupção, aumentou a tortura, aumentou a cara-de-pau, aumentou a hipocrisia, aumentou o absurdo. E desaguou, enfim, a referida geração no tristíssimo perceber que, na Absurdolândia, a implacável ditadura dos dois princípios que a tudo abarcam é muito mais poderosa do que quiasquer outras, militares ou não, que podem, mais ou menos censoras dos fatos, história adentro vir e ir sem que ela jamais se abale.     

Gugu Keller

sábado, 9 de novembro de 2013

Almost

Comemorar o quase é ansiedade em árdua fase.

Gugu Keller

Absurdolândia 53

Mas tal violência tão absurdamente impune tem também uma nefasta conseqüência bastante mais sutil, e por isso mesmo mais hipócrita, que, do ponto de vista institucional quanto à contínua aplicação dos dois princípios, é claramente mantenedora perene da mentalidade cara-de-pau prevalente no já tão neste trabalho descrito estado de coisas absurdo... É que, sendo o dia a dia na Absurdolândia o absurdo que é em termos de violência, com tanto sangue a todo o tempo impunemente correr nos noticiários televisivos através de roubos, seqüestros, homicídios, latrocínios, guerras entre quadrilhas, pessoas feitas de tochas e, sobretudo, chacinas, tal coisa reflete no inconsciente popular, ainda mais por ser esse lado do absurdo sempre tão bradado por comunicadores populistas que com ferocidade o reverberam em tom de encolerizada indignação, fazendo com que se lance sobre a lesmaticamente rastejante justiça absurda uma constante e não sem razão descrença no que se refere a essas questões de cunho sanguinolentamente criminal, desviando, assim, a atenção sobre ela quanto àquilo em que ela mais, e de um modo ainda mais prejudicial do ponto de vista do que seria um efetivo estado democrático de direito, como a Absurdolândia hipocritamente se afirma, absurdamente se omite, qual seja, uma efetiva fiscalização e imposição do estritamente legal no que se refere a uma mínima contrapartida ao que o povo tanto, e de modo tão sacrificado, contribui através de pesados tributos, os mais aviltantes do globo. Assim, nos bares, mercados, pontos de taxi, escolas e fábricas, nas mentes e bocas passivamente hipócritas em geral, a jumentice que segue a cenoura muito mais, de modo efervescente até, discute o estupro seguido de morte que vitimou a enteada adolescente do acusado, ou o quanto era perigoso o pedófilo que rondava a escola primária, ou o tiroteio que exterminou doze num baile funk na madrugada anterior do que a contínua omissão estatal quanto à educação pública, à saúde pública, a absurda injustiça social cujo combate é tido na constituição do país como seu norteador objetivo, coisas que, obviamente, ao menos, de novo, em se pensando com o lá tão surrado objetivo, constituem a matriz, a raiz, o primeiro porquê de tantas vidas perdidas, de tantas balas perdidas, do perder perene da dignidade humana para essa tão cruel e hipócrita absurdidade, para essa tão cruel e absurda hipocrisia. Fala-se, assim, o tempo todo sobre o quanto a justiça absurda é complacente com marginais assassinos. Dizem que a polícia os prende para que ela os solte, e muito também se fala da já referida lentidão dessa justiça, onde, de fato, absurda e corriqueiramente, uma ação leva décadas para ser julgada. Mas, de modo bastante conveniente, muito pouco se menciona a sua hipócrita conivência com a ilegalidade, inconstitucionalidade aliás, do próprio estado que, nessa mesma toada de hipocrisia, diz-se aos quatro ventos garantidor intransigente da república democrática, claramente o pior dos seus pecados, ou, do ponto de vista do simbolizado na bandeira, a maior das suas virtudes. Na Absurdolândia, assim, se buscar direitos na justiça é certeza de demora, a ponto de ser comum que devedores que não pretendem saldar suas dívidas ironicamente sugiram a seus redores que nela as vão cobrar, se a causa for contra o estado, por mais que o direito seja, como lá se diz, líqüido e certo, líqüida e certa é também a certeza de  não se os conseguir fazer valer. Inclusive, com decerto inspiração no juízo final cristão, soa lá amiúde, sempre acompanhada de sorrisos acomodadamente hipócritas, uma velha frase que diz que "a justiça tarda mas não falha", e a pseudo-cidadania em geral, tão acostumada a tantas mentiras que, de tão ditas, praticamente tornaram-se verdades, já sequer percebe o quanto, sobretudo nisso, o tardar é uma grave falha. E tudo, não apenas a justiça, que na Absurdolândia é prometido para não falhar mesmo que tarde, segue tardando, até, provavelmente, o próximo 30 de fevereiro, quando, com a bênção de São Nunca, tudo enfim será diferente.

Gugu Keller     

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Tchau Adeus (Repostagem)

A saudade com esperança sugere luta. A sem, luto.

Gugu Keller

Absurdolândia 52

Como natural corolário de toda essa absurda violência hipocritamente impune, temos que a Absurdolândia, como poucos lugares no mundo, é uma terra em que se vive com medo. Sim. Medo, medo, medo, medo, medo. Anda-se com medo, mora-se com medo, respira-se medo, transpira-se medo. Medo de abrir as portas, de abrir as janelas, de atravessar as cancelas e guaritas, de caminhar pelas ruas, pelas praças, de parar nas esquinas, nos semáforos, de viajar pelas estradas, medo do próximo passante em sentido contrário. Sim. A violência assaltante, seqüestradora, homicida ou latrocida eis por lá em toda parte. Entra-se com medo em ônibus e trens. Rodoviárias, parques e banheiros públicos. Sai-se com medo de bancos, lojas e mercados. Estaciona-se o carro com medo e com medo se o apanha para ir embora. É a violência dos tantos excluídos que em seu grito de desespero e ódio descambam para a criminalidade de sangue contra a do estado que a ela responde com a sua ainda mais criminosa, porque hipocritamente afrontadora da lei que ele pretende impor. Algo meio como, pensando-o com vagar, uma guerra sem trégua entre o crime assumido e o dissimulado, o matricial corrupto, respondendo este ao primeiro com as suas mesmas armas de fogo e a sua mesma sêde de sangue, e eis o povo absurdo, pseudo-cidadão, absurdamente acuado no meio do campo de batalha, temendo não raro do mesmo modo os dois lados. Sim. É que, na Absurdolândia, principalmente em grandes cidades como Ribeirão de Março ou Paulópolis, o crime por estratégia infiltra-se nas comunidades de baixa renda, favelas sobretudo, até porque em grande parte de lá brota, de modo a fazer a população descomprometida de escudo protetor, já que o óbvio bom senso imperaria ao estado conter-se diante do claro risco que tal coisa representa. Mas o bom senso, qual tantas vezes acima dito, não costuma ter vez em terras absurdas, e eis a deles literal guerra civil travada em plena rua, em plena luz do dia, ao mesmo tempo em que crianças brincam, mulheres vão às compras e idosos fazem suas caminhadas. E qual o óbvio custo? Mortes e mais mortes e mais mortes e mais mortes. Números para estatística necrológica da em regra impune violência terceiro-mundista. Pessoas que, como explicado, estavam no lugar errado na hora errada. Muito provavelmente também no país errado. Do ponto de vista oficial, de todo modo, quase sempre, ainda que em uníssono toda a comunidade local grite o contrário, criminosos perigosíssimos, mesmo que impúberes. Ou então, na hedionda hipocrisia da auto-impunidade de um estado que, no pouco que age, faz ainda muito pior do que no muito em que se omite, as vítimas vão para a larga conta das balas perdidas. Sim. Em nenhum lugar do mundo há mais balas que voam perdidas até se alojarem em corpos inocentes. Ademais, decerto por obra de uma indústria bélica que religiosamente atende a ambos os princípios maiores lá norte, também nos gatilhos algo de muito errado há, na medida em que o país é também, estranhamente, o lugar no mundo onde mais armas disparam acidentalmente, conforme convictos sempre afirmam os advogados. E eventuais excessos ficam para serem apurados. Sim. Lá é assim. Balas perdidas, gatilhos insubordinados e corpos pelo chão. Sangue, bangue-bangue, morte, chacina. Medo. Hipocrisia, absurdo e medo.

Gugu Keller 

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Flash

Às vezes o que passa mais depressa é o que mais fica.

Gugu Keller

Absurdolândia 51

Conforme esse tão óbvio grito por justiça e igualdade é cada vez menos ouvido, até porque, hipócrita e principalmente, sequer pela torta moral local é entendido como tal, a violência na Absurdolândia só faz aumentar. Quase tanto quanto, qual no capítulo anterior se pincelou, os que praticam os lá piores crimes, os matriciais de tudo, ficam impunes porque não se os quer punir, os criminosos de sangue o ficam pela total falta de estrutura institucional para se aplicar a sempre amarelada lei em que o estado, seu maior descumpridor, da boca para fora tanto diz de modo intransigente se pautar. Absurdamente truculento e despreparado, limita-se ele a, como explicado, com sua desordem falsa imponente da ordem, desrespeitar ainda mais os direitos daqueles a quem desde sempre disso só resta um fiapo, agravando cada vez mais a situação qual se apagasse um incêndio nele jogando gasolina. Trocando em miúdos, no hipócrita cotidiano absurdo, é com violência que tenta combater a violência, gerando ainda mais violência, que de, por essa mentalidade, ainda mais precisará para ser combatida, e eis o ciclo a que acima se referiu. De modo que, cada vez mais, crimes cruéis povoam incessantes os noticiários país afora. Ultimamente, apenas para se ilustrar, até por se falar em gasolina e incêndio, a onda lá é se queimar vivas as pessoas. Sim. Encharca-se de gasolina e ateia-se fogo. Queima-se rivais no tráfico de drogas, queima-se devedores inadimplentes,  credores impacientes, queima-se testemunhas, namoradas traidoras, mulheres adúlteras ou que pedem divórcio a seus companheiros, queima-se putas, queima-se mendigos. Tal como quanto ao absolutismo que lá insiste em imperar, a Absurdolândia mantem-se medieval também nessa lá horrenda volta das fogueiras executórias. Sim. O pseudo-cidadão absurdo hoje literalmente pega fogo. E, em contraponto a esse tão claro grito que, ao mesmo tempo em que exala ódio, inequivocamente pede socorro, pede a enfim extinção do magmático vulcão de iniqüidade de onde jorra incandescente a lava imunda que a todos indistintamente transforma em cinzas, o que se ouve dos caras-de-pau no poder são propostas de ainda mais repressão. É o ódio contra o ódio jogando tênis. Fala-se em pena de morte, que na prática muito já há, fala-se em redução da maioridade penal, como se as entidades onde se recolhe os menores infratores já não fossem, falou-se, postos avançados do inferno que com louvor decerto aprovados por Lúcifer seriam, em prisão perpétua, como se alguém sobrevivesse minimamente são do ponto de vista mental a quinze ou vinte anos numa cadeia absurda, onde um torturante sofrimento como vingança de uma sociedade hipocritamente excludente a quem o condenado ousou desafiar é a única possibilidade no lá dentro tão lento passar do tempo, e outras tantas propostas resgatadas da, na Absurdolândia certamente para muitos saudosa, lei de Talião. Mudar a distribuição das estrelas no céu da pátria? Não. Impensável. Dar educação? Saúde? Igualdade? Oportunidade? Inexeqüível. Violaria o sagrado princípio do absurdo. Cumprir as promessas políticas há tantas décadas  sistematicamente aos quatro ventos apregoadas no triste engodo da farsa eleitoral? Tampouco. Bateria de frente com o da hipocrisia. Combater de um modo minimamente sério a corrupção, o por óbvio mais hediondo dos crimes, para ao menos se ter condições morais de classificar como hediondos os praticados por quem de todo esse odioso contexto inequivocamente primeiro é vítima? Nunca. Na Absurdolândia não é assim que funciona. Lá, hipocrisia e absurdo. Exclusão, sangua, chacina e dor. Círculo, gangorra, espelho, moto perpétuo.

Gugu Keller

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Crasso Embaraço

O que mais precisamos dizer é em regra o que menos sabemos como.

Gugu Keller

Absurdolândia 50

Decerto mantido em respeito aos correlatos princípios contidos na bandeira nacional, esse hipócrita e absurdo estado de coisas no capítulo anterior abordado ainda por cima em nada diminui a gigantesca violência que de modo assustador assola a Absurdolândia, onde, por exemplo, o número de mortes causadas por homicídios é, conforme neste trabalho já se referiu, suficiente para se classificar o país como em meio a uma perene e sangrenta guerra civil. Para se ter uma idéia, tanto quanto para o espanhol a tourada ou para o norte-americano o rodeio, a chacina, assassinato de várias pessoas ao mesmo tempo, é hoje um consagrado elemento cultural do povo absurdo a mundo afora ao país aludir. Sim. Na Absurdolândia, conforme também já dito, a vida não vale nada. Lá se mata por uma carteira com uns poucos pau, dez pau, vinte pau, cinqüenta pau, ou por uma corrente de ouro, ou mesmo de bijuteria, por um anel, um par de brincos, um par de tênis, por um telefone celular, por dívidas irrisórias, por ciúme, para não se pagar pensão alimentícia, por vingança, por capricho, por um olhar mal dirigido, um sorriso para a namorada alheia, uma palavra mal colocada, por futebol, por um pisão no pé, um tropeço, um esbarrão, por tirar se alguém para dançar. Mata-se. Mata-se farta, fácil e futilmente. Ademais, com absurda freqüência lá se morre assassinado por se estar, conforme eles próprios dizem, no lugar errado na hora errada. Sim. É que, por essa lá tradicional cultura da chacina, quando se quer matar alguém, por praticidade mata-se também quem eventualmente estiver junto. Até porque, apesar de tudo o que se falou sobre o inferno das prisões absurdas, autênticas sucursais do inferno na terra, a possibilidade de o autor de um homicídio lá cumprir alguma pena é tão pequena, que a coisa é meio como uma roleta russa com uma única bala num tambor de cem buracos. Aliás, é esta mesma a porcentagem dos homicídios lá cometidos que redundam em cumprimento de pena, 1%. O que se deve sublinhar para um melhor entendimento de mais este absurdo aspecto da nação absurda, é que, hipocritamente, o estado lá parece não perceber que, ao fingir combater essa violência com uma violência ainda maior, e quase sempre mal dirigida, e, sobretudo, descumprindo, com essa sua violência rebote de rebote, de um modo ainda pior do que aqueles a quem a dirige, porque mais hipócrita, fala-se, é claro, novamente, da lei, do papel amarelo, ele a acaba, a toda essa desmedida violência, claramente incitando ainda mais, a uma por em progressão geométrica desmoralizar-se ao pregar o que de forma tão flagrante contraria e, a duas, por, em sempre inflexível respeito ao princípio do absurdo, nada fazer para mudar a situação das estrelas no céu do círculo azul, obviamente a primordial razão de tanta violência, agravada, ainda, aliás, já bem vimos, pela facílima percepção de que lá os crimes mais graves, os matriciais de todo o absurdo, de um modo ainda muito mais acintoso, porque proposital, ficam sempre impunes. De modo que salta aos olhos, e aos ouvidos, ao menos aos de quem não tem o hábito de, como na Absurdolândia é comum, fingir-se de cego, ou de surdo, que toda essa violência que lá impera nada mais é do que um claro grito, mistura de ódio e revolta, que, sendo afinal espalhar sangue a sua única voz, sai das gargantas dos tantos a quem  no país é negado o direito de existir com um mínimo de dignidade. Sim. A violência, infeliz e inegavelmente acaba sendo a única maneira daqueles a quem a sociedade absurda de modo tão triste e hipócrita exclui terem alguma percepção de que dela de alguma forma fazem parte, de que dela de alguma forma, mesmo que definitivamente destrutiva, podem participar. Na Absurdolândia, reverberam salivantes os apresentadores dos noticiários policiais que lá proliferam pelos canais de tv, hoje se mata pelo puro prazer de matar. Mas é mais do que isso... Claramente hoje lá se mata para se existir. E, enquanto a resposta da hipocrisia "high star" for de ainda mais exclusão e violência, tortura, preconceito, humilhação etc, de ainda mais e mais mortes haverá de ser a réplica. Enquanto esse ciclo não se romper, a guerra civil absurda perdurará. Desgraçadamente, para um contínuo custo diário de muitas vidas inocentes, mas, decerto, ao menos, para grande orgulho dos fiéis patriotas cumpridores dos lá princípios maiores, tal rompimento não parece contar com nenhuma perspectiva. Na Absurdolândia é assim. Pátria mãe da chacina. Hipocrisia e absurdo.  

Gugu Keller

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Rest

Só a noite alivia o açoite do dia.

Gugu Keller

Absurdolândia 49

Já quando, por outro lado, são presos na Absurdolândia acusados advindos da camada pobre da população, moradores de periferias, de favelas, de cortiços, pessoas sem estudo, mal vestidas, mal articuladas e, sobretudo, de pele escura, o não cumprimento da lei sofre, com base em ambos os princípios, uma curiosa inversão... É meio como se a pipa, que, no momento da sua aplicação para os caras-de-pau, ascendia no céu, de repente, por força de um golpe do vento do mais injusto preconceito, subitamente mudasse de direção e começasse a cair... Então, a lei que para os caras-de-pau vale quase apenas em seus aspectos garantistas quanto à liberdade do cidadão, quando para os das estrelas de baixo, pseudo-cidadãos,  sabemos, estes, passa a valer apenas no seu aspecto inverso, o acusador, o incriminatório, o repressor. Ou seja, é extremamente curioso, precioso retrato da tão hipócrita mentalidade absurda, o quanto o aparato legal do país pode ser sistematicamente violado, mas, como uma gangorra, de formas diversas dependendo do a quem favorece ou prejudica. Assim, acusado um pseudo-cidadão absurdo de baixa estrela do cometimento de algum crime, não importando o quanto ele seja, porque sempre é, menos lesivo para a comunidade do que o matricial de corrupção, contumazmente o praticado pelos caras-de-pau, ele, que por óbvio não terá diploma em curso superior, já que, sequer, em regra, tem o da educação mais básica, é de pronto jogado numa jaula imunda e superlotada, em condições similares, como já vimos, às de um campo de concentração nazista. Pobre demais para o custear, dificilmente terá algum advogado que o defenda, já que, mesmo a lei local obrigando o estado a nesses casos nomear-lhe um dativo, a completa falta de estrutura institucional faz com que isso em regra não ocorra, ou demore muito para ocorrer. De modo que, na Absurdolândia, muito comumente, a despeito de o acusado ser culpado ou não do que se lhe imputa, por ser pobre, do céu de baixo, ele fica jogado à própria sorte, dependendo de fatores quase que aleatórios para lograr livrar-se de um literal inferno imundo de cimento e ferro, mesmo que legalmente a tanto desde logo tenha direito. Ademais, como acima já se abordou, se a acusação contra o infeliz for de algum crime de cunho sexual, tanto será, no mais das vezes pelos próprios agentes que representam o estado que pretende impor a lei, comunicado a seus companheiros de cela, que, com grande incentivo daqueles, providenciarão uma reprimenda à altura, potencializada conforme a quantidade de justiceiros eretamente prontos para, nesse propício clima caligulesco, despejar seu ódio fruto do ódio fruto do ódio e fazer cumprir a lei não escrita que todos sabem que é a que naquela terra realmente vale. Habeas corpus? Para pobres? Pretos? Maloqueiros? Traficantes? Não. A moral absurda, hipócrita e absurda, há de, um dia, dentro dos lá fingidos preceitos republicanos do direito e da democracia, livrar definitivamente o país dessas tenebrosas chagas humanas que à sociedade tanto afligem, essa maldita bandidagem tão cruel e sem limites. Cadeia neles! Na Absurdolândia é assim.

Gugu Keller

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Desprezo

Na inversão cega com que a paixão nos prega, é sempre a quem nos renega nossa grande entrega.

Gugu Keller

Absurdolândia 48

Nas raríssimas vezes em que um cara-de-pau vai preso na Absurdolândia por alguma prática corrupta, em regra devido a alguma denúncia midiática, já que, misterosamente, lá a imprensa parece ter muito mais capacidade investigativa a tais fatos relativa do que as autoridades a quem tanto teoricamente caberia, quase nunca ele permanece na cadeia mais do que poucos dias. De início, numa básica aplicação do princípio da hipocrisia de que nessas ocasiões não se pode abrir mão, faz-se todo um estardalhaço nos jornais para se passar uma falsa impressão de que o país está mudado e de que a corrupção lá já não tem mais vez. São apresentadas para o público as contas de quanto o estado foi lesado com a vil conduta do acusado, ou acusados, e, num tom de indignação desforrada, os heróicos agentes responsáveis pela prisão vivem o seu momento de salvadores da pátria. Contudo, com o passar dos dias logo se observa, a farsa é sempre a mesma. O papel amarelo, claramente para isso mesmo assim elaborado, oferece uma série de complicações burocráticas multi-interpretáveis que muito favorecem a atuação advocatícia, e, bem pagos, estes profissionais dificilmente deixam de conseguir que seus clientes logo recuperem a liberdade, não raro, com seus discursos alquímicos a transformar verdades óbvias em mentiras caluniosas apenas por eventuais ausências de formalidades irrelevantes, deles fazendo afinal vítimas da situação. Perseguição política, anote-se, alega-se muito e com muita ênfase. Ademais, o hipócrita e evidente medo de que o acusado, se acuado, explique-se apenas uma pequena ponta de um gigatesco iceberg, como em regra ocorre, igualmente muito conta. De modo que, na corriqueira prática, lograda a festiva farsa hipocritamente ilustrativa de que a nação absurda enfim acordou disposta a intoxicar de alho os seus vampiros, dá-se que o acusado passa uns poucos dias numa cela especial, já que, em regra possuindo diploma superior, é beneficiado por aquela odiosa disposição legal aqui já explicada, decerto elaborada em grande celebração do princípio do absurdo que no país vigora e assim reza, e, favorecido por algum habeas corpus que não tarda a vir, logo eis solto, de volta a seus afazeres a, agora vítima, apregoar pelos microfones contra a sua boca estendidos o quanto confia na justiça. Quelonicamente lenta, nesta então passa a correr um processo que, enquanto o episódio é rapidamente esquecido o caso pela dinâmica da mídia e, sobretudo, pela atrás tão referida cenourófila jumentice da gigantesca hipocrisia passiva coletiva, arrastar-se-á por anos a fio, o papel amarelo, que sempre prevê recursos e mais recursos e mais recursos, aliado ao absurdo entulhamento dos tribunais locais hipocritamente promovido pelo próprio estado contumaz descumpridor das leis que diz impor, assim garante, e que dificilmente desaguará em algo que não o vasto oceano da impunidade que caudalosamente banha a Absurdolândia. Nos raríssimos entre raríssimos casos em que alguma condenação definitiva há, ou seu cumprimento efetivo acaba prejudicado pelo decurso de algum lapso prescricional, ou aplica-se alguma pena alternativa, talvez uma prisão domiciliar numa mansão com piscina, ou, quem sabe, já vimos lá haver, uma gorda aposentadoria compulsória, tudo sempre garantido pelos contitucionalíssimos habeas corpus. Com referência a estes, aliás, inclusive, apenas como uma a título de curiosidade última notícia, alguns renomados juristas absurdos, em respeito ao princípios maiores que os regem, defendem a distinção legal no país do "habeas corruptus", na prática dentro da denominação genérica de habeas corpus já tão aplicado nessas situações específicas com muito maior amplitude garantista do que ocorre noutros casos, quando o paciente não é cara-de-pau, não vem da estrela de cima e o crime não é de corrupção, nisto o porquê da proposta especificação.

Gugu Keller 

domingo, 3 de novembro de 2013

Declaro-te-me

De um coração cheio de amor eis no o dizer o exaustor.

Gugu Keller

Absurdolândia 47

Na Absurdolândia o empréstimo de dinheiro a juros abusivos é pela lei considerado uma atividade criminosa, ditos agiotas os que a praticam. Entretanto, como a lei lá, bem já o sabemos, é mero papel amarelado para se fazer pipas, todas as instituições financeiras que no país operam, tanto as domésticas quanto as multinacionais nele instaladas, são, mais do que clara, acintosamente, empresas de agiotagem travestidas de bancos, que, praticando, de um modo não menos do que vampiresco, e com a total conivência do estado, os juros mais altos e imorais do mundo, sugam sem limites até as suas últimas gotas o sofrido sangue da tão perenemente desrespeitada classe média absurda. E, bem ilustrando quão oficial é o absurdo, interessantíssimo é observar como, ininterruptamente no dia a dia midiático absurdo, essas insaciáveis instituições, como que a espalhar cheias de apetitosas iscas suas armadilhas coloridas mentes mais frágeis adentro, apregoam seus valorosos préstimos através de propagandas absurdamente enganosas, em que, sempre com a conivente e lucrativa omissão das autoridades que entrementes se gabam a enaltecer o democrático estado de direito que no país pretendem fazer crer imperar, prometem, pela boca de artistas sorridentes quase que a exibir auréolas divinas sobre seus rostos plásticos de perfeição estética, um falso mundo de vantagens para aqueles que aderirem a seus leoninos contratos covardes e anatocistas. Assim, através desse sistema tão revelador do ser a Absurdolândia possivelmente o maior paraíso terrestre para os que com veemência crêem no capitalismo, esse tão conveniente disfarce com que o absolutismo medieval ainda tão claramente perdura, e como perdura, em pleno século XXI, e, por óbvio, é exatamente esse o caso dos caras-de-pau absurdos, não bastasse os amputantes e inecoantes tributos que lhes são impostos, eis grande parte do povo absurdo afundada em dividas impagáveis que decerto lhes tomarão até o último centavo de seus espólios de miséria para, mais e mais e mais, enriquecer os da estrela mais alta. Na Absurdolândia é assim. Mas tais fatos não se limitam a esses bancos de fachada... Praticamente toda propaganda que lá convida o consumidor de menor poder aquisitivo a financiar algo como se vantagem fosse tem em si embutida uma descarada tentativa de dissimular os referidos juros campeões mundiais. Sim. Tamanha é a coisa que, temente ao princípio do absurdo, há lá, sabe-se, e estes com empregos sempre garantidos, um verdadeiro exército de cérebros especializados em arquitetar tal tipo de engodo. Ademais, e pior ainda, uma vez preso nas redes tecidas dessa violenta fúria creditícia, dessa doentia necessidade cara-de-pau de sugar o próximo muito além da pífia contrapartida que se presta, e isso numa terra que hipocritamente se orgulha de tão cristã, vê-se a vítima, o pobre pseudo-cidadão absurdo sub-estrelado no céu da sua pátria, mergulhada numa literal e gigantesca poça de areia movediça, em que, quanto mais tenta sair, mais afunda, e, quanto mais tenta ainda respirar, mais se sufoca. Na Absurdolândia é assim. Escravidão disfarçada. Extorsão camuflada. Exclusão generalizada.

Gugu Keller

sábado, 2 de novembro de 2013

Finados

Os dias que para o amor vivemos são os únicos em que não morremos.

Gugu Keller

Absurdolândia 46

De mãos dadas com o mesmo tipo de hipocrisia retratada no capítulo anterior, a religiosa, com que tão fielmente na Absurdolândia se cumpre esse lá básico e sagrado princípio prescrito no seu manto maior, deparamo-nos naquele país, diferente não se esperaria, com uma moral extremamente torta, hipócrita e absurda. Em terras absurdas, assim, novamente, já que exemplos são sempre o que melhor ilustra, apenas para o exemplificar, temos que nenhuma ofensa pode ser maior do que se classificar alguém como rebento de uma meretriz. Sim. Ainda que, bem sabemos, este seja um xingamento mundialmente consagrado, na Absurdolândia mais do que em qualquer parte, nada pode ser pior do que ser chamado de "filho da puta". Contudo, pensando-o novamente com o no país de que trata este humilde trabalho tão defenestrado bom senso, que mal fazem essas pessoas, em regra, e lá sobretudo, extremamente sofridas, a quem quer que seja? O que fazem de tão errado para sofrerem tamanha rejeição moral? Não roubam, não machucam, não iludem, não enganam ninguém. Os que as procuram, afinal, óbvio parece, hão de saber muito bem o que estão fazendo. Definitivamente, não há na atividade, a, segundo tanto consta, mais antiga das profissões, nenhum tipo de engodo ou golpe contra quem quer que seja. Muito ao contrário, trata-se de um contrato claro, cristalino, de inequívoco interesse mútuo entre as partes contratantes. Então, principalmente em termos de Absurdolândia, ao menos, insista-se, à luz do lá sempre estrangeiro bom senso, como julgar mulheres que, muitas vezes mães sozinhas, tiram o sustento, seu e de sua prole, de vender seus corpos já tão doloridos, opção não raro única no meio de tanta injustiça, tanta desigualdade, tanto desemprego, tanto sub-emprego, tanta falta de perspectiva, tanta carência educacional, tantos salários de fome, tanta escravidão disfarçada e tanta hipocrisia institucional e social? Mas, como se disse, a impetuosa moral absurda é torta, astigmática, como tudo lá, invertida... Na Absurdolândia, não é vergonha ser filho de alguma autoridade fiscal ou policial envolvida com extorsão, ou de algum político corrupto que na televisão exibe sorridente suas belas e superfaturadas obras pela saúde pública ao mesmo tempo em que os jornais mostram o povo morrendo nas filas ou à espera de uma ambulância, ou, ainda, de alguma autoridade judiciária que adora invocar com palavras difícies as diretrizes democráticas contidas na constituição absurda mas que é totalmente conivente em suas decisões com a acintosa falta de contrapartida aos escorchantes impostos que no país se paga. Não. Na Absurdolândia, como já mencionado, os lá dito caras-de-pau são winners. Caminham sobre tapetes vermelhos com pompa e circunstância, são chamados de "excelência" e cercados por sorrisos, apertos de mão e tapinhas nas costas. Na distorcida moral absurda, as "putas" é que são a escória. Esfolam-se de sofrimento para ao menos sobreviveram sem precisar chegar ao crime, sem ferir nem enganar ninguém, comumente até tornando-se um importante esteio para muitas vítimas da solidão urbana, como bem se sabe, e, mesmo assim, são, elas e não os mantenedores de toda a injustiça social que ironicamente é afinal o que para isso as empurra, o lixo humano, a degradação, as em que se deve cuspir, as decerto culpadas de tudo. Sim. Na Absurdolândia é assim. Lá impera implacável uma sólida moral. Uma sólida, hipócrita, míope, disforme, invertida, mentirosa e absurda moral. Uma moral que inapelavelmente condena vítimas e entusiasticamente festeja malfeitores. Sim. Na Absurdolâdia é assim.

Gugu Keller    

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Absurdolândia 45

Árdua tarefa é, e, modestamente se espera, este breve trabalho a seu respeito já o mostrou, na Absurdolândia, assim como no caso do não menos do absurdo, identificar-se qual o melhor exemplo do sempre fiel cumprimento por parte do seu povo do inexorável princípio da hipocrisia. Se não, de todo modo, o melhor, a sua religiosidade constitui a respeito inquivocamente um capítulo relevante. Sim. Como já aludido muitas linhas atrás, predominantemente católico, a nação absurda é um ente político de grande religiosidade. De fato, trata-se de  um dos maiores países do mundo católico, com a grande maioria de sua população católica se afirmando e uma gigantesca quantidade de templos católicos por toda parte, não havendo uma única cidade absurda, por menor que seja, em que não se encontre uma igreja ou capela na praça central. Ademais, nessa Absurdolândia tão católica pulula uma infindável variedade de santos de devoção, pelos quais ardorosas demonstrações de fé eclodem em várias datas do ano. Sim. O povo absurdo é profícuo na realização festiva de procissões, rezas, romarias, homenagens a padroeiros e padroeiras, sacrifícios, oferendas, pagamentos de promessas etc, havendo lá, também, em conseqüência disso tudo, uma ingerência permanente de autoridades clericais na política, apesar de o país oficialmente se definir como laico. É uma igreja católica, enfim, realmente grande e presente nação afora. Por outro lado, em se tomando o cristianismo de um modo geral, isso fica ainda maior na medida em que, mesmo por ora em menor quantidade numérica, vertiginoso tem sido em terras absurdas o crescimento das igrejas evangélicas, com seus cultos e dízimos, já também angariando em seu rebanho uma considerável fatia da população do país. Pois bem. Para com clareza se compreender o fiel cumprimento do princípio da hipocrisia neste campo, basta imaginar como reagiria o criador do cristianismo, ou aquele por quem se o criou, que supostamente morreu na cruz para depois ressuscitar e subir aos céus, se de lá ele descesse e tomasse pé de como vive e, sobretudo, como age esse povo que tanto e com tanta energia invoca o seu nome... Tamanha é a indiferença, tamanho é o descaso, o desamor, o desrespeito entre as pessoas que ele encontraria, tamanha é a falta de piedade, de compaixão e de solidariedade que veria, tamanho é o grau de preconceito, de discriminação, de exploração, de manipulação que testemunharia, tanta é a mentira, a corrupção, a ganância, o egoísmo que observaria, tal é o nível da violência, do sarcasmo, da tortura com que se depararia, tão pesado é o ódio no ar que respiraria, que decerto copiosamente ele choraria. Sim. Derramarria lágrimas de sangue ao ter que, justamente onde os que o dizem seguir são tão absoluta maioria, praticamente ninguém entendeu nada da sua lição, ou, pior, entenderam, hipocritamente falam dela o tempo todo, juram por ela o tempo todo, e o tempo todo tanto lhes dão as costas. Sim. Diante de tão absurda hipocrisia, o sangue decerto correria de seus olhos muito mais do que o feito brotar por uma coroa de espinhos na cabeça encravada. Ele, que, ao menos o afirmam as escrituras tão alardeadas pelos que o seguem, ou, no caso da Absurdolândia, fingem seguir, tantas vezes teria dito "hipócritas, ai de vós...".

Gugu Keller

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Opino

A deprimente reação do dito rei à publicação de sua biografia não autorizada fez de seu autor, tendo a crer, definitivamente desde já o melhor de seus biógrafos, na medida em que descortinou diante do público muito mais sobre a personalidade e os valores de sua majestade do que centenas de biografias, autorizadas ou não, poderiam ou algum dia poderão fazer.

Gugu Keller

Roedor

Raquítico a ratear rápido, meu coração é um rato errático no do teu rasgo rastro e rapto.

Gugu Keller

Bem

Felizmente melhorei. Hoje voltei a trabalhar e amanhã retomo aqui o "Absurdolândia".
Bjs a tds!
GK

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Mal

Queridos amigos...
Este outubro não tem sido dos melhores para mim. Além de alguma coisa ter gravemente me intoxicado, tive uma recaída daquela gripe e não estou nada bem, razão por que não tenho escrito aqui. Assim que melhorar, eu volto, tá?
GK

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

EuuE

Na parede do banheiro, traiçoeiro eis o vespeiro.

Gugu Keller

Absurdolândia 44

Ainda sobre essas tão discriminatórias abordagens, costumeiras em bairros pobres, periferias, favelas, conjuntos habitacionais desestruturados etc, a primeira coisa que a autoridade policial solicita ao "suspeito" abordado após o revistar é um documento, sendo a eventual falta deste um dos principais pretextos para a chamada "detenção para averiguações". Contudo, curiosamente, não há na lei absurda nenhum dispositivo que obrigue alguém a, a menos que esteja na condução de um veículo, portar documentos, sendo que, outra vez naquele hipócrita espírito de humor negro, a constituição local com todas as letras afirma que "ninguém é obrigado a nada senão em virtude de lei", ou seja, de novo, flagrantemente, no com perfeição simbolizado na bandeira, papel amarelo para se fazer pipa. De um modo resumido, aliás, em clara reverência a ambos os princípios alicerces, pode-se dizer que, na Absurdolândia, a lei que pune, que condena, que cobra, vale apenas para os representados pelas estrelas inferiores, ao passo que a que protege, que garante direitos e prerrogativas, apenas para a minoria oposta, os caras-de-pau e afins em geral. Assim, em larga escala, para os socialmente oprimidos que, muitas vezes por razões famélicas, arriscam-se em condutas criminosas, como o furto, o roubo ou o tráfico de entorpecentes, o inferno dos campos de concentração travestidos de penitenciárias onde se buscaria ressocializar o ser humano. Já para os do polo inverso, velejadores no mar de corrupção que a tudo destrutivamente inunda país afora, claramente, porque matricial, ao menos aos olhos do bom senso, o mais grave dos crimes, uma infinidade de artifícios e prerrogativas legais que tornam raríssima a prisão de algum deles. Apenas para se ilustrar o nível de absurdidade a tal respeito, a lei, e esta vale, e como vale, garante aos acusados de alguma conduta criminosa que possuam diploma em curso superior o direito a uma cela especial, apartada, portanto, dos referidos fornos nazistas. Parece absurdo? Odioso até? Na Absurdolândia é assim. E a explicação é extremamente simples... Os caras-de-pau que legislam no país, muito bem sabedores das condições das suas cadeias, preferiram proteger-se, e aos seus companheiros de estrela, de qualquer risco de vir a cair numa delas, até porque, no fundo, hipócritas, são também muito bem sabedores de o seu crime, a corrupção, efetiva ou por conivência, é, como a grande matriz de todo o absurdo, a rigor o mais grave. Noutro exemplo fantástico, na Absurdoândia magistrados que são condenados por corrupção praticada através da venda de sentenças, habeas corpus etc, como se isso não fosse a pior e mais torpe das ofensas a um sistema que se pretende democrático de direito, ao menos, novamente, ressalta-se, aos olhos do velho, pobre e tão surrado bom senso, recebem como punição legalmente prevista uma gorda aposentadoria compulsória. Absurdo? Aviltante? Pois lá é assim. De modo que, de novo ressaltando-se a precisão com que esta pitoresca nação é simbolizada em sua bandeira, é como se a lei-pipa na Absurdolândia sempre e hipocritamente se empinasse alta, podendo assim, ser vista e invocada apenas por quem, na mesma bandeira, alto eis no céu.

Gugu Keller

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Infinito Manancial

Apaixonar-se é por outrem descobrir o mais belo em si mesmo.

Gugu Keller

Absurdolândia 43

Tamanho é o preconceito a imperar na Absurdolândia que, voltando a ele, há lá uma figura cotidianamente presente nos jornais que dão ênfase às notícias de cunho policial: o suspeito. Sim. Sobretudo nas vastas e pobres periferias das metrópoles absurdas, as autoridades policiais dedicam boa parte de suas ações à abordagem e revista de suspeitos e, com considerável freqüência, à sua prisão para averiguações. Pois bem. Considerando-se que esse rotineiro procedimento do aparato de segurança do estado absurdo também, como não poderia deixar de ser, com requinte homenageia ambos os princípios basilares  nacionais, temos, a respeito, dois importantes aspectos que se destacam no o explicar... O primeiro é que, de modo bastante curioso, na Absurdolândia, grande parte desses "suspeitos" contra quem o estado opera essa sua corriqueira peneira preventiva o são de um modo intransitivo, ou seja, não são suspeitos de terem cometido algo, algum crime ou infração, mas apenas suspeitos. Intransitivamente suspeitos. E a explicação desse absurdo não apenas é simples como de conhecimento de qualquer cidadão absurdo minimamente informado... É que, na Absurdolândia, como se disse acima, tamanho é, em nome do princípio do absurdo, o preconceito que se respira por toda parte, que é a aparência da pessoa, onde ela mora, por onde transita, como fala, como se veste e, sobretudo, a cor da sua pele, o que a torna suspeita, passível de abordagens imotivadas, incoerentes e muitas vezes humilhantes pelos beleguins dessa mentalidade que impera a serviço. Então, em terras absurdas, se alguém é negro, se se veste com simplicidade, se tem um linguajar ruim, se vive numa favela ou sequer moradia tem, é suspeita, visto como uma constante ameaça aos cidadãos de bem. O segundo aspecto, de não menos curiosidade, diz respeito ao fato de, agora de modo mais diretamente ligado ao outro princípio, o da hipocrisia, a constituição absurda, expressão maior do lúdico losango amarelo, além de garantir a todos, entre muitos outros, o pleno direito à intimidade e à dignidade, afirmar claramente, de novo com aquele já explicado espírito de humor negro, que ninguém pode ser preso a não ser em flagrante delito ou mediante mandado judicial. Diz outra importante lei local, ainda, que alguém só pode ser revistado quando houver uma fundada suspeita que o justifique. Será a cor da pele de alguém ou seu modo de se vestir ou falar fundamento para uma suspeita? Poucos dentes na boca talvez? De todo modo, em fidedigno cumprimento dos princípios maiores, bem como em respeito ao amarelo da bandeira, vê-se nos jornais todos os dias que suspeitos foram abordados e detidos para averiguações. Os próprios agentes públicos, sem nenhuma cerimônia, o declaram diante de quaisquer microfones ou lentes. A lei? A constituição? Sobretudo para quem está representado pelas 26 estrelas abaixo da faixa naquele céu tão azul, mero papel para fazer pipa que o envolve. Na Absurdolândia é assim. Preconceito 10 X 0 Dignidade Humana. Em tempo, outra grande curiosidade relativa a esse tema é o fato de, apesar de ser gritantemente óbvio que os piores criminosos absurdos, os mais nocivos, os mais covardes, os mais vis, são justamente os caras-de-pau praticantes da corrupção, o de tudo crime-matriz, não se tem qualquer notícia de que eles sejam abordados, revistados e levados para averiguações em chiqueirinhos de camburões. É como se, além de todo o preconceito que na Absurdolândia absurdamente há, existisse ainda um seu avesso de certo modo até mais perverso em termos de conseqüências, na medida em que lá se tende a ver o bem nascido, por mais que baixo e sujo seja, como alguém a ser sempre reverencialmente respeitado.

Gugu Keller

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Chronos

Com amor, o tempo passa. Sem, se arrasta.

Gugu Keller

Absurdolândia 42

O sistema eleitoral absurdo é tão absurdo que nele há várias armadilhas criadas com o literal propósito de enganar o eleitor, já sempre tão enganado no tanto que o estado absurdo de modo sistemático lhe surrupia. Então, apenas para dar um exemplo, lá é extremamente comum que partidos comandados por políticos já desgastados perante a opinião pública após décadas de contínua prática corrupta, lancem, paralelamente às destes, candidaturas de figuras populares folclóricas, como dançarinas eróticas, mágicos ilusionistas ou palhaços de circo, ou, ainda, não raro, apresentadores de programas televisivos, sambistas e jogadores de futebol. O que se dá é que, na infantil crença de que o voto é afinal o único meio de se mudar alguma coisa na Absurdolândia, muitas pessoas votam nesses candidatos exóticos justamente como uma forma de protestar contra aqueles primeiros, sem saber que, com isso, numa espécie de carona eleitoral em que essa armadilha consiste, continuam a reeleger aqueles seus mesmos carrascos de sempre, contra quem pensavam estar protestando ao votar dessa forma. Sim. Na Absurdolândia é assim. Ademais, num dos mais solenes dentre os vários brindes que, conforme temos nos referido, perenemente se faz país afora ao seu tão cultuado princípio da hipocrisia, imortalizado ao lado do outro, o de absurdo, na bandeira nacional, as épocas que precedem os pleitos eleitorais são lá, sem sombra de dúvida, o maior desfile de mentiras deslavadas de que na história da humanidade alguma vez se teve notícia. Sim. A capacidade dos caras-de-pau de nesses momentos mentir com ainda maior convicção é, ao menos para quem, novamente se em termos de Absurdolândia, de modo ingênuo ainda acredita que a espécie humana possa se caracterizar por um mínimo de ética para com o próximo, para com o coletivo, algo simplesmente assustador. E não menos assustador é que, inexplicável e absurdamente, dá resultado. Sim. Por incrível que a olhos estrangeiros possa parecer, as vítimas, ou hipócritas passivos, não importa, mantêm-se sempre a passivamente seguir a cenoura sustentada pela vara de pescar. E nesses engodos eleitorais, pasme-se, mais ainda! É meio como se houvesse, e muitos até o afirmam, uma espécie de mística em tudo o que a bandeira absurda simboliza que faz com que, talvez numa espécie de transe a dominar o inconsciente coletivo daquele povo, tudo sempre se mantenha como é, perenize-se, recuse-se a evoluir. Tudo lá se mantém hipócrita. Tudo lá se mantém absurdo. Sempre perdem a esperança, a perspectiva e o trabalho. Sempre vencem a promessa, a manipulação e a exploração. Corrupção. Sempre triunfa a corrupção. Corrupção hipócrita, corrupção absurda. E, enquanto isso, no embalo do multicolorido mentiroshow pré-eleitoral local, com seus comícios, debates, jingles e bordões, sem falar na tragipatética propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão, a grande maioria dos 26/27 do sul celeste, ou seja, a grande maioria da grande maioria, crendo sorridentes com seus poucos dentes estar decisivamente participando da grande e cívica festa da democracia, exercem, como gado de tração, o seu obrigatório direito de voto, legitimando enganados a continuidade de sua prórpria ruína, comumente incentivados ainda por presentes de grande valia, como bonés, chinelos, camisetas, canetas, cestas básicas, quentinhas, café, queijadinhas, fatias de pudim ou maria-mole, ou, ainda, principalmente, transporte em caminhões do tipo pau-de-arara no dia do pleito, benesses que fazem não restar dúvida de que, de fato, pessoa boníssima, aquele é o melhor candidato, até porque, num seu raciocínio típico, é inteligentíssimo votar em quem decerto vai ganhar. Grande e cívica festa. Cínica festa. Na Absurdolândia é assim.

Gugu Keller 

terça-feira, 22 de outubro de 2013

És

Se eu te dissesse o que se pudesse diria, tu te saberias a que me enlouquece poesia.

Gugu Keller

Absurdolândia 41

Qualquer pessoa que possua um mínimo de discernimento acerca do que seja uma democracia, tanto em termos de conceito quanto na prática, sabe perfeitamente bem que não existe dela nenhum exemplo sério mundo afora em que nas eleições o voto seja obrigatório. Mas na Absurdolândia, onde tudo, como aqui já repisado, é sempre pelo avesso, não é assim que acontece. Trata-se, então, hipocritamente, de um país que se auto-proclama um extremo exemplo de democracia, a por todo o planeta ser seguido, ao mesmo tempo em que lá, de novo a socar a cara de quem ingenuamente ainda o tenta pensar com bom senso, o voto é obrigatório, situação tão bizarra que equivaleria, numa bastante ilustrativa analogia, a forçar todos a caminhar diariamente uma determinada distância pretendendo-se com isso alardear a solidez do direito de ir e vir. Aliás, outra vez num brinde ao princípio da hipocrisia, o estado absurdo, comente-se de passagem, lança mão não raro em propagandas televisivas da sua justiça eleitoral de um slogan em que afirma que votar é um direito antes de ser um dever. Direito obrigatório, então, engula-se. De todo modo, analisando mais este gritante absurdo absurdo, neste texto que modesta, já que de fora, e talvez, qual se aludiu há pouco, ingenuamente permite-se o fazer com algum bom senso, é de fácil percepção o porquê disso... É que sendo a Absurdolândia, conforme já se explicou aqui, um flagrante exemplo de estado ainda medievalmente absolutista mas de modo hábil travestido da mais moderna democracia, faz-se necessário para uma prudente minimização de quaisquer críticas a essa aviltante farsa, um, mesmo que claramente viciado, periódico endosso eleitoral da plebe parasitada, dos, de que tanto já falamos, representados pelas 26 estrelas sub-faixa. Mas é absolutamente óbvio, todos sabem, sempre souberam e decerto para sempre lá saberão, fala-se novamente dos com um mínimo de bom senso, que esses pleitos são totalmente inúteis no que diz respeito a qualquer possibilidade, mesmo que onírica, de mudança na mentalidade simbolizada na bandeira. A rigor, os caras-de-pau apenas se revezam no poder, na medida em que, flagrante e escancaradamente, as oposições políticas absurdas são apenas de fachada. O que há, isso sim, são meras disputas entre diferentes flancos da "nobreza" representada pela estrela superior, de modo que, conforme os mandatos se alternam entre uns e outros, aqueles ou estes conseguem aumentar a sua cota do sangue sugado da maioria excluída a cada período. E como por óbvio ser-lhes-ia constrangedora a gigantesca abstinência que com grande probabilidade haveria caso se aplicasse a democraticamente básica regra do voto facultativo, mantêm-se, mediante as mais estapafúrdias justificativas, a obrigatoriedade do voto na Absurdolândia, na tão exemplar democracia absurda.

Gugu Keller