segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

sábado, 29 de dezembro de 2012

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

A Esquina - Capítulo 17

Aflitíssima, Ana Clara levou exatos 35 minutos para chegar do consultório do dr. Clóvis na casa de sua irmã. Por mais que dirigisse tão depressa quanto podia, o trânsito paulistano não lhe permitiu ser mais breve. Apenas na esquina entre as ruas Hermann e Violeta, a cerca de oito quarteirões do prédio de Ana Cláudia, ela ficou retida mais da metade desse tempo, já que o mvimento ali é muito grande durante a tarde e o semáforo estava programado de um modo que claramente desfavorecia quem vinha por onde ela vinha. Por sorte, ao menos, não teve dificuldade para achar uma vaga para estacionar, como é comum acontecer naquela região naquele horário.

Ana Clara aperta o botão do sétimo andar com o coração a quase lhe saltar pela boca. O que pode ter acontecido? O nervosismo de sua irmã ao telefone era algo simplesmente indescritível. Já não basta, pensa, toda a situação por que ela, Ana Clara, está passando e a dura decisão que acaba de tomar, que envolverá revelar a Ana Cláudia algo tão complicado como o que ela veio a saber sobre o cunhado? Quinto, sexto, sétimo andar. Ana Clara toca a campainha. Ainda não imagina que, afinal, já não mais terá que fazer a tão difícil revelação...

Com o rosto avermelhado e tomado de lágrimas, Ana Cláudia abre a porta e se joga nos braços da irmã. Compulsiva e ruidosamente chora. Não resta a Ana Clara outra opção que não seja a de recebê-la com tanto conforto quanto lhe é possível, experimentando uma estranha sensação ao se ver na mesmíssima situação em que sua vizinha, dona Helena, esteve quando era ela, Ana Clara, quem aos prantos se punha a desesperadamente a abraçar.

Mas Ana Clara, mesmo tentando acudir a irmã como lhe é possível, ainda, e ainda mais, está também nervosíssima, na medida em que não sabe o que aconteceu. Terá morrido alguém? Sua mãe, como novamente chega a pensar? Terá algo grave acontecido com sua sobrinha? As duas entram e Ana Clara, sempre abraçando Ana Cláudia, fecha a porta por dentro. É quando observa que a sala do apartamento, além de totalmente bagunçada, está cheia de objetos quebrados, arrebentados, como se um furacão tivesse passado por ali. O que terá, deus meu, pensa ela, acontecido? Um assalto? Um arrastão?

- Claudinha... Pelo amor de deus... Tenta se acalmar e me fala o quê que aconteceu para eu poder te ajudar...!

Às lágrimas, Ana Cláudia expele um xingamento cheio de ódio...

- Porco! Porco imundo! Eu odeio aquele porco imundo!

Pausa.

- De quem você está falando, Claudinha? Quem que você odeia?

- Eu odeeeeeio! Desgraçado! Filho de uma puta!

Ana Clara a segura pelo rosto molhado de lágrimas e a encara bem nos olhos...

- De quem você está falando, minha irmã? Fala para mim, que eu quero te ajudar...!

Ana Cláudia volta a ter profuso um choro que não havia parado, mas um pouco diminuído. Com dificuldade, quase que sem conseguir retribuir o olhar da irmã, enfim diz...

- O Gladston... Eu odeio o Gladston! Ele é um porco! Um nojento! Um desgraçado!

Ao mesmo tempo em que sente um tranco no peito ao ouvir o nome do cunhado, Ana Clara ao menos começa a compreender a situação. Algo aconteceu entre o casal. O estado em que se encontra o apartamento não é decorrência de um assalto, mas de uma briga entre Ana Cláudia e Gladston, e, pelo que conhece da irmã e, sobretudo, está vendo diante de seus olhos, a coisa foi bastante séria.

De certo modo aliviada por ter apurado que ninguém morreu ou está morrendo, Ana Clara dedica os próximos quinze minutos a acalmar a irmã. Chega a fazê-la entrar debaixo do chuveiro e lhe dá um comprimido do ansiolítico que, receitado pelo dr. Clóvis, está tomando, cuja caixa estava em sua bolsa. Com água com açúcar, Ana Cláudia o ingere. Finalmente, mesmo que algumas lágrimas ainda lhe insistam, esta consegue ao menos organizar suas idéias o suficiente para relatar à irmã o quanto se passou. Ladeadas por objetos quebrados e atirados ao chão, as duas se sentam no sofá da sala e Ana Cláudia apanha da mesa de centro uma media de dvd, com a qual gesticula enquanto fala para Ana Clara...

- Sabe o que é isso, Clarinha?

- Um cd...?

- Não! Um dvd!

- Um dvd? Que dvd?

- Um dvd, minha irmã, que siginifica o fim do meu casamento! O triste e definitivo fim do meu casamento!

Ana Cláudia sente um novo tranco no peito. Pensa no dr. Clóvis e, outra vez, em toda a situação por que está passando. Será que as coisas poderiam se encaminhar de uma nova e inesperada maneira? Mais alguns segundos e ela teria que sim...

- Por que, Claudinha? O quê que tem nesse dvd?

Pausa.

- Lembra daquela tarde em que você esteve aqui e eu te falei sobre aqueles problemas?

- Sim, claro! Você disse que o teu marido estava meio frio, meio distante...

- Exatamente!

- Você estava pensando se podia ser só uma fase...

- Sim! Só que foi piorando, Clarinha... Cada vez mais ele se afastava... Nem lembrava mais que eu existia, sabe? Aí, uma idéia começou a me incomodar... E eu resolvi pagar para ver... 

- Como assim, Claudinha? O quê que você fez?

- Eu comecei a achar que ele tinha outra, sabe? Que estava me traindo... Era a única coisa que poderia explicar o que estava acontecendo...

Pausa.

- E...?

- Como eu te disse, eu resolvi pagar para ver, Clarinha! Resolvi tirar a limpo!

- Como? O que exatamente você fez, minha irmã?

- Eu contratei um detetive para descobrir...!

Gugu Keller

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Resoluções

Determinar um momento futuro para começar algo apenas por tratar-se de uma data "redonda", ou simbólica, ou que de algum modo marque a mudança de um dígito numérico, como é bastante comum fazermos quando está para se iniciar um novo ano, é claramente um mero artifício psicológico que usamos para aplacar a culpa que sentimos pela nossa inércia diante dos nossos próprios sonhos. E normalmente, bem sabemos, não dá certo. A data fica para trás, nós não começamos, ou começamos e logo paramos, e ficamos a esperar uma outra data, como um aniversário, uma mudança de estação ou o que seja. E aí, os anos vão se passando e a coisa tende a tornar-se cíclica. Ou nos damos conta de que a hora é sempre e apenas agora, ou esse vicioso ciclo de auto-engodo e frustrações inevitavelmente nos acompanhará pelo resto de nossos dias.
 
Gugu Keller
 

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Papai Noel

Para serem mais convincentes, as grandes mentiras abusam do colorido.

Gugu Keller

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Feliz Natal!

E cá estamos de novo nesta data em que, entre presépios, manjedouras e reis magos, e com a sempre doce e mágica onipresença do bom velhinho, alegres renovamos, como de costume, o nosso tácito porém inquebrantável pacto de hipocrisia coletiva. Feliz natal a todos!

Gugu Keller

domingo, 23 de dezembro de 2012

sábado, 22 de dezembro de 2012

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

A Esquina - Capítulo 16

Na sexta-feira, dois dias após ela ter tido alta do hospital e recebido a notícia acerca da grave situação de Fernando, Natália foi, acompanhada de seus pais e de sua amiga Carolina, ao consultório do traumatologista que o atendeu. Aproximava-se, entendia-se, a hora dela pela primeira vez o ver, e o médico a chamou para uma conversa que cria necessária a respeito de como seria a vida do marido doravante, a partir do momento em que também deixasse o hospital.

É claro que Natália sabia muito bem o significado da palavra "tetraplégico", que lhe foi anunciada na antevéspera como a condição em que Fernando se encontrava após o acidente. E já não lhe saía da mente, apesar de então ainda futura, a constante imagem dele numa cadeira de rodas. Mas ela, até pelo recente de tudo aquilo, ou talvez numa espécie de auto-defesa psicológica, não havia, por exemplo, concebido que ele, conforme agora lhe seria explicado, havia perdido também o movimento dos membros superiores. A rigor, ela agora o saberia, Fernando estava totalmente imobilizado do pescoço para baixo, sem, pelo menos dentro das atuais possibilidades da medicina, qualquer chance de reversão desse quadro.

Providenciou-se para que os quatro pudessem se sentar diante da mesa do médico, de modo que Natália eis ali ladeada por seus pais à esquerda e pela grande amiga à direita. O profissional começou a falar...

- Bem, sra. Natália... Parece-me que os srs. seus pais aqui presentes por cima já a puseram a par da situação do sr. seu marido...

Com dificuldade, ela praticamente balbuciou...

- Sim... Eles me disseram... Que o Fernando está tetraplégico...

- Sim, é verdade! - disse o médico. - O sr. Fernando teve uma grave lesão cervical. Na verdade, três lesões. Todas entre a primeira e a sétima vértebra. Num caso assim, infelizmente, temos, como conseqüência, um quadro de tetraplegia bastante severo!

Pausa. Natália chora. A mãe e a amiga lhe acariciam ombros e mãos. Ainda meio balbuciando, ela tenta continuar a dialogar com o médico...

- Isso quer dizer, dr.... Que ele não pode mais andar...? Está condenado a uma cadeira de rodas...? É isso...?

Consternado, apesar de sua considerável experiência em condições análogas, o especialista troca um grave olhar com os pais de Natália antes de responder...

- Na verdade, sra. Natália, é bem mais do que isso...

- Como assim, dr.?

Pausa.

O sr. Fernando não perdeu apenas os movimentos das pernas, como a sra. está imaginando... Infelizmente, ele perdeu todos os movimentos e a sensibilidade do pescoço para baixo...!

Natália sente um tranco no peito seguido de uma súbita tontura. Apesar do sedativo que ainda toma, as lágrimas correm por seu rosto enquanto ela se sente tomada de um completo desespero...

- O sr. quer dizer que...

- Sim! Ele perdeu não apenas os movimentos das pernas, mas também os dos braços! Como eu disse, do pescoço para baixo, ele está imóvel e insensível...!

- Meu deus, mas...

- Infelzimente, sra. Natália, o seu marido está incapacitado para todas as atividades do dia a dia, por mais simples que sejam...! Pelo resto de sua vida, ele precisará ser alimentado, vestido, transportado, precisará que alguém lhe dê banho, escove os dentes etc, e não terá mais nenhum controle sobre as suas necessidades fisiológicas...!

- Ai, meu deus! Meu deus do céu! O que foi que eu fiz, meu deus?!?

Os três acompanhantes já choram junto com Natália, e, ainda que a percebendo num verdadeiro estado de terror, o médico, por crer melhor que tudo seja dito de uma vez ao invés de aos poucos, refere-se enfim a algo que possivelmente ela  já tenha concluído...

- E tem mais uma coisa, sra. Natália... Algo que, como esposa do paciente, e sra. deve desde já ficar ciente...

Tremendo e chorando, ela, que, na verdade, devido a todo o contexto, ainda não havia atinado o quanto está para ser dito, pergunta, já pensando que nada pode ser pior do que tudo o que já ouviu...

- O que, dr.?

- Infelizmente, o seu marido está incapacitado para a intimidade conjugal...!

Ela quase gagueja...

- O sr. está falando... O sr. está falando...?

- Sim, sra. Natália! Eu estou falando sobre sexo! Infelizmente, o seu marido, o sr. Fernando, não pode mais fazer sexo...!

Gugu Keller

 

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

9.871

O capitalismo é o sistema através do qual o absolutismo travestiu-se de democracia.

Gugu Keller

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Incidadãos

Costumamos, via omissão, ser os primeiros a desrespeitar nossos próprios direitos.

Gugu Keller

sábado, 15 de dezembro de 2012

Quanto Vale a Vida?

Com o novo massacre ocorrido ontem nos Estados Unidos, volta à tona o debate sobre a facilidade de se adquirir armas naquele país, tema que, apesar de aqui a questão ser diferente no aspecto legal, tem tudo a ver conosco, que somos um país tão violento, e com o mundo inteiro. E aí eu fico pensando, sabem? Se a vida humana tivesse um mínimo valor diante dos grandes interesses econômicos, armas de fogo sequer deveriam poder ser fabricadas! E muito menos de qualquer modo comercializadas! Ou será que falo besteira?

Gugu Keller 

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

A Esquina - Capítulo 15

Cinco anos haviam se passado, 20 de julho de 2003, 19 de julho de 2008, desde que, algumas semanas após ter recebido aquele inesperado telefonema do dr. João Silas, Rodrigo afinal concordou em ir vê-lo e dele recebeu aquela notícia que mudou tudo a respeito de Raquel, fazendo com que para ele, Rodrigo, o verdadeiro pesadelo começasse. E, em virtude justamente do quanto ouviu do ex-sogro naquele domingo, naquele maldito 20 de julho, faz também, pela diferença de apenas um dia, quase exatos cinco anos, um lustro, como dizem os rebuscados, que Rodrigo não vê diante de si, como vê agora, ainda com a calcinha dela numa de suas mãos, a de Natália, uma vagina. Uma linda, rósea, úmida, apetitosa, peluda na medida certa, a exalar seu típico e convidativo aroma e para ele aberta a se ofertar, vagina. Por uma fração de segundo, Rodrigo pensa em Flávia, dona da última que, cinco anos atrás, ele viu e chupou, e em Raquel, da que mais as duas coisas fez. Mas ainda no mesmo segundo ele volta a Natália, a dona desta, a da festa, e da outra festa, e com quem ele está nesta, que há de de algum modo ser eterna, a dois festa afinal.

A calcinha branca toca o branco da parede, que atinge antes de, após o arremesso, ir ao carpete que cobre o chão. Rodrigo e Natália, ela deitada, ele ainda de joelhos sobre a cama dela diante, trocam um novo olhar que mais do que trocam. Sim. Seus olhos se trocam, se tocam e se devoram. Atravessam-se, transpõem-se e saem cada qual pela nuca do outro. Não, nunca ninguém se olhou assim e tampouco a outrem um olhar assim retribuiu. Sobrevivente do deserto a contemplar no oásis a linda lagoa, de onde em instantes beberá a mais pura das águas, Rodrigo baixa seu corpo deitando-se e se ajeitando entre as pernas dela, cuja abertura ela aumenta para o melhor aceitar. Ele a abraça pelas coxas e, a meio palmo de seu rosto, e ele ainda a contempla antes de a tocar, eis, divina e definitiva, a vagina de Natália. O púbis, os pêlos, o grelo. O branco das virilhas, o róseo da mucosa. A forma dos lábios, o cume do clitóris. O aroma, o perfume, o hálito. Vagina. Vagina de Natália. Chulamente, a xana, xoxota, boceta de Natália. Sim. É. Eis Natália ali, pronta, aberta, oferta, a mostrar-lhe escancarado o seu íntimo e palpitante coração vulvar.

Tão vagarosamente quanto possível, Rodrigo aproxima sua boca entreaberta da porta do céu destrancada diante de si. Devagar, devagar, devagar, devagar. Bem sobre o vão, e bem de leve, primeiro o superior e depois o inferior, os lábios enfim tocam os lábios, e sentem os pêlos, a mucosa a suave tocar a mucosa. Antes de qualquer movimento, ele a deixa a sentir apenas o seu sobre ela respirar. Mais pela boca, ele respira quente, insinuante, salivante. A ponta do seu nariz, também bem de leve, entrementes também toca a vulva, e nele ele também sente os pêlos, e, com ele, dela sente o cheiro. Chuveiro. Cheiro cheio de chama. No chulo, cheiro de xana. Cinco anos, Raquel, Flávia, Natália. Cheiro, choro, chama. Vulva. Válvula a revolver a vida.

Com a lentidão de uma lesma, bem sobre onde os moleques em seu chulo chamam lesma, Rodrigo faz sua língua surgir entre seus lábios. Devagar, devagar, devagar. Toque, choque, e Natália estremece. Leve. Ponta da língua, pontada, coração.

Gugu Keller

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Canal Lacan

É preciso que o amor, para um profundo e pleno gozo
Seja um perigo proibido e com um quê de pesaroso

Gugu Keller

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Sonhos

Mesmo que já seja tarde para se dizer que é cedo, ainda é muito cedo para se pensar que é tarde.

Gugu Keller

domingo, 9 de dezembro de 2012

Radar Nada

A solidão nos é, a rigor, inerente, e o externo, a respeito, irrelevante.

Gugu Keller

sábado, 8 de dezembro de 2012

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

A Esquina - Capítulo 14

Pensativo e preocupado, com uma feição extremamente séria, o dr. Clóvis encarou Ana Clara por vários segundos antes de dizer qualquer coisa após o que dela ouviu. Com uma expressão de quem agora chora seco por ter exauridas as glândulas lacrimais, sentada numa cadeira diante da mesa dele, ela lhe devolve à altura o pesado do olhar. Finalmente, sem a julgar em sua decisão mas buscando fazer com que ela ao menos não se precipite, ele pergunta...

- Você tem certeza?

Pausa e, segura em sua areia movediça, ela responde...

- Sim, tenho! A decisão está tomada!

Ele pensa um pouco mais. Como se cada palavra pronunciada fosse um mover de peça num tabuleiro de xadrez, fala devagar...

- Bem... Eu não preciso te dizer nada quanto às eventuais conseqüências dessa tua decisão...

- É claro que não, Clóvis! Você sabe que eu estou perfeitamente ciente! Mas eu não tenho escolha, entende? Ou faço isso, ou enlouqueço...!

De uma jarra incolor posta numa bandeja sobre a sua mesa, o psiquiatra/psicólogo serve água em dois copos. Estende um para ela, que o apanha de bom grado, e depois do seu toma um gole.

- E quando você pretende falar com ela?

Ela também bebe.

- O quanto antes! Hoje, se for possível!

- Não quer pensar um pouco mais?

- Não posso, Clóvis! A vida dela está em jogo!

- Veja bem, Ana Clara... Eu não estou censurando a sua decisão! Você é suficientemente madura e esclarecida para saber o que faz! Eu apenas não quero que se precipite...

- Eu sei, Clóvis! Eu entendo e agradeço! Mas o problema é que, cada vez que ela faz sexo com aquele maldito, ela está exposta a se contaminar... Você entende isso? Um dia pode fazer a diferença! Teve aquela absurda coincidência dela ter feito o teste para acompanhar o amigo, lembra que eu te contei?

- Claro!

- Pois então... Isso faz seis semanas, e ela não estava infectada! Ou seja, não há tempo a perder!

- Entendi, Ana Clara... Entendi...

Sempre pensativo, o dr. Clóvis bebe. Já quase liqüida o copo. Pausa e, diante da firme decisão de Ana Clara de passar por cima do sigilo profissional e contar à irmã sobre o relacionamento entre Gladston e o travesti, ele decide abordar um outro aspecto da questão...

- Quando será a próxima sessão com a Andréa?

- Eu estive com ela anteontem... Daqui a cinco dias!

- E como você vai proceder com relação a ela?

Pausa. Ana Clara se sente extremamente desconfortável. É como se se lembrasse, não que o tivesse esquecido, do enorme problema que tem acessório ao problema gigante. Expira.

- Eu ainda não sei, Clóvis... Sinceramente, eu ainda não sei...

Ele olha. Não diz nada. Ela continua...

- Não sei se vou contar para ela... Se não vou... Se vou continuar a atendê-la... Se invento uma desculpa para não continuar... Também não sei exatamente como a Ana Cláudia vai regair quando eu der a notícia... Ela vai ficar desesperada e eu não sei se ela vai conseguir omitir do Gladston que soube de tudo através de mim... Eu não sei, Clóvis... Sinceramente, eu não sei!

Faz-se uma pausa longa. O dr. Clóvis novamente encara a sua amiga e discípula, que, desta vez, não lhe retribui o olhar, mas, dando um gole em sua água, olha para o chão. Ele diz afinal...

- Tá certo, Ana! Se você decidiu contar para a sua irmã, vá e faça isso! Com relação ao atendimento, depois você pensa com calma no que fazer... Vai ser tão difícil o que você vai passar quando puser a Ana Cláudia a par de tudo, que não faz mesmo sentido você decidir isso agora...! No momento certo, você decide... É o mais sensato! Um passo de cada vez!

- Sim! É isso! É o que eu vou fazer!

Contudo, já que se há algo em que o destino é profícuo é em caprichos, o celular de Ana Clara toca e tudo repentinamente começa a mudar de rumo com relação ao que ela com tanto dilema e sofrimento decidira. Pelo visor do aparelho, ela vê que é justamente sua irmã quem chama...

- É ela, Clóvis! A Ana Cláudia!

Atende.

- Alô!

Susto.

- Claudinha??? Mas o quê que foi??? O quê que você tem???

O dr. Clóvis sente o problema e acompanha preocupado. Ana Clara olha para ele enquanto fala...

- Calma, Claudinha!!! Fica calma!!! É alguma coisa com a Manú??? Não, tudo bem! Tá, eu tô indo! Em meia hora eu tô aí! Mas fica calma, pelo amor de deus!!!

Desliga.

- Meu deus do céu, Clóvis!!!

- O quê que aconteceu???

- Ela não disse! Mas estava em prantos! Pediu para eu ir para a casa dela agora!

- Mas o que pode ser?!?

- Ela disse que com a minha sobrinha está tudo bem... Estou preocupada que seja algo com a minha mãe...

Ana Clara liqüida o copo d'água, pega sua bolsa e já vai sair...

- Você vai bem? - pergunta o dr. Clóvis atencioso.

- Sim, vou! Depois eu te ligo para dar notícias...

- Tá! Qualquer coisa, liga mesmo!

- Tchau!

- Tchau!

Nervosamente, Ana Clara se vai. Preocupadamente, o dr. Clóvis pensa.

Gugu Keller

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

domingo, 2 de dezembro de 2012

Querida...

Adora-te sem dor o em mim que aflora a tua flor enquanto amornas-me de amor.

Gugu Keller

sábado, 1 de dezembro de 2012

Koalas

Num abraço sempre atentamos para o calor dos braços e para o contato entre os rostos, mas é interessante observar como também é o momento em que dois corações batem mais próximos um do outro.
 
Gugu Keller

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

A Esquina - Capítulo 13

Rasgos de si, Natália dirige. Ruas, esquinas, luzes, faróis. Festa, Camila, espelho retrovisor. Culpa. Como nunca antes em sua vida, culpa. Como, já, para sempre doravante, culpa. Dirige. Ruas. Ri de si mesma em silêncio e, em silêncio, por si mesma chora. Ri. Ridículo. Ridícula. Mas não, não pode negar. O cartão dentro da bolsa ao seu lado sobre o banco do carona ainda a rasga. Ela ainda não o rasgou como pretende e, por conseqüência, sim, ele ainda a rasga. É claro, já está mais do que decidido, que jamais voltará a ver o tal Rodrigo. Perguntar sobre ele para Camila? Nunca. Impensável. Ligar para o número do cartão? Jamais. Inconcebível. Natália pensa em Fernando, a trabalho ainda no Rio, e, não, nunca, sempre, é ridículo, sim, rasgar-se assim.

Um cruzamento. Dois, três. Farol vermelho. Natália decide. Sim. Tirar o cartão da bolsa e o jogar pela janela do carro. É feio jogar um papel assim na rua, mas não importa. Precisa, decide, livrar-se daquilo. Até porque sequer o leu, ou seja, não teria como gravar o número mentalmente, como, apenas em seu mais profundo íntimo, deseja, basta rasgá-lo e eis em si a costura para o rasgo. E, sim, dadas as circunstâncias do momento, jogá-lo pela janela sem dúvida equivale a o rasgar. Tanto ela fez por seu casamento, que não o quer, o casamento, pela janela por causa de um desejo repentino por um homem tão claramente pretencioso. Não. Loucura. Sim. Decide. Abre a bolsa e procura. Dois, três, cinco segundos. Não acha. Dez segundos. Nada do cartão. Natália pensa em jogar tudo o que há na bolsa sobre o assento do carona. Nervosa, procura. Ou tudo já direto pela janela. Nervosa loucura. Não. Controla-se. Com a mão no fundo da bolsa, ainda procura. Doze segundos. O farol abre. Natália não anda. O carro parado atrás dá um sinal de luz alta. Natália não anda. O carro atrás buzina. Natália se assusta e, desistindo por ora de procurar o cartão, toca adiante. Ruas, Rodrigo, rasgos. Riso, ridícula, espelho retrovisor.

Indecisa, Natália decide não decidir. É, voltou atrás. Jogar fora o cartão? Para quê? Não está nem aí para esse Rodrigo mesmo! Sujeito presunçoso, convencido, arrogante... Pensa o quê? Que pode seduzi-la, uma mulher bem casada com ela, em questão de alguns minutos? Nunca. Ridículo. Em casa, Natália esvazia a bolsa. É uma bolsa mais para festas, não a usa sempre. Já não rasgada, ou, ao menos, com cuspe colada, ela tira a carteira, o estojo de maquiagem, o pequeno pacote de absorventes íntimos e o que mais há ali. E eis finalmente o cartão. Jogá-lo fora? Rasgá-lo? Para quê, se é tão inofensivo? Perdida a para si mesma fingir-se no caminho, Natália defende-se atacando. Já não indecisa, decide com decisão. Simplesmente não tira o cartão da bolsa. Guarda-a, isso sim, no armário respectivo, apenas com ele dentro dela, como se, numa paradoxal distração proposital, simplesmente o esquecesse ali. Defendendo-se depois de já atacada e derrotada, a seguir Natália entra no banheiro para lavar o rosto, mas, decerto para não se ver em tantos pedaços, não chega a encarar o espelho sobre a pia.

Fernando chegou do Rio na tarde de sábado e, meio a contragosto da esposa, preocupada com o fato de ele ter engordado visivelmente nos últimos meses, ambos foram jantar com outros três casais, dois dos homens e uma das mulheres colegas profissionais de Fernando, numa churrascaria. Empanturrado de tanta carne, ele mais tarde o usou como desculpa para não fazer sexo com ela naquela noite, e Natália adormeceu no escuro após três horas o ouvindo roncar enquanto, nos intervalos no barulho, parecia ecoar em seu íntimo...

- Amanhã é sábado! Você vai fazer alguma coisa? Tem algum compromisso?... Amanhã é sábado! Você vai fazer alguma coisa? Tem algum compromisso?... Amanhã é sábado! Você vai fazer alguma coisa? Tem algum compromisso?

Quando, na manhã de domingo, oito dias após ter acontecido pela última vez, Fernando está sobre a esposa a penetrá-la, ele agora já menos a penetra do que a rasga. Sim, não, ela não está ali. Muito menos lubrificada do que outrora, ele o sente mas não ousa comentar, a penetração é muito menos intensa, muito menos densa, muito menos prazerosa. É quase uma dor, e não, seca, árida, ela já não está ali. Quando encara o marido, que às vezes a beija, Natália sorri, ou apenas mostra os dentes. Quando escapa e pode olhar para o nada por sobre um dos ombros dele, descobre que sabe sorrir às avessas, e, se mostrasse os dentes, seria apenas para morder a si mesma de tanta culpa. Rasgada na vagina e no que imagina, resta a Natália fechar os olhos, enquanto é agora uma outra frase que ecoa em seu íntimo, esta sim, dita com um lindo sorriso, possivelmente o mais belo que ela já viu...

- Eu não imaginava que a minha prima tivesse uma amiga tão linda...

São dez da noite ainda deste domingo quando, tendo Fernando ido agora jogar sinuca na casa de um amigo, Natália, mais do que rasgada, picotada por dentro, abre o armário, vai à bolsa e apanha o cartão. Lê. O nome inteiro de Rodrigo e um número que, pelos algarismos iniciais, parece-lhe ser de um celular. Pensa. Hesita. Culpa-se. De culpa, catapulta-se. Um rio de incerteza passa pelo agora largo rasgo dentro dela e deságua aquoso em seu já vasto oceano de indecisão. No seu celular, ela digita o primeiro dos oito algarismos e pára. Depois chega ao segundo e novamente aborta. No total, começa dezesseis vezes sem chegar ao fim, até que, com o coração a bater forte, o perigo retrai, o perigo atrai, disca o número todo e deixa tocar. Um toque, dois, três...

- Alô!

Natália estremece. Sim, reconheceu a voz. Coração. Culpa. Gostou e não gostou de ter gostado. Não diz nada. Dois segundos, três, quatro. Rodrigo diz de novo...

- Alô!

Silêncio. Ela não diz nada. Quatro segundos, cinco seis, até que, para ao mesmo tempo assustá-la e definitivamente a conquistar, ela o ouve dizer...

- Natália? É você?

Ela desliga sem dizer nada. Fecha os olhos e sente-se trêmula. Depois os abre e olha para o cartão. Fecha-os novamente enquanto, quase que modo inconsciente, encosta-o, por sobre a calcinha que sob uma saia usa, em sua vagina rasgada.

Rodrigo ouve que ela desligou. Com convicção, registra o número em seu celular como sendo o de Natália. Possivelmente, pensa, se ela não ligar de novo, ele tente ligar para ela ao cabo de alguns dias. Mas não. Engana-se. Já no dia seguinte, segunda-feira, ele receberia um outro telefonema, de uma outra pessoa, que mudaria muitas coisas em sua vida.

Gugu Keller 

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Parede

As únicas barreiras intransponíveis são as que por medo transpor não tentamos.

Gugu Keller

terça-feira, 27 de novembro de 2012

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Paixão Paradoxo

Subliminarmente visceral e silenciosamente sensual, ela é diabolicamente angelical.

Gugu Keller

domingo, 25 de novembro de 2012

Adiante Mutante

Quanto mais tentamos traçar a melhor rota, mais mudam as condições do terreno.

Gugu Keller

sábado, 24 de novembro de 2012

Tears For Fears - São Paulo 22/11/12

Atendendo ao pedido das leitoras F. Carolina e Jéssica, hoje vou falar sobre o show de anteontem do Tears For Fears aqui em São Paulo, em que tive o prazer de estar...
 
Foi a primeira vez em que estive na casa de espetáculos "Espaço das Américas". Excelente! Fácil acesso, muito espaço, palco excelente, funcionários educados e preço razoável para se comprar cerveja, água ou refrigerante. O público que esteve no show também era bastante educado e bem comportado. Não houve nenhum empurra-empurra nem qualquer tipo de tumulto. O ingesso do show foi bem caro, R$300,00 na pista premium, mais perto do palco (fiquei a uns seis metros deles), mas, quanto ao conforto, valeu a pena!
 
E muito mais valeu a pena quanto ao show em si! Maravilhoso, indescritível, perfeito! Qualidade do som excelente, músicos extremamente competentes e iluminação muito bem executada! Ademais, Roland Orzabal e Curt Smith esbanjaram carisma e simpatia. Orzabal falou muitas coisas em português. Curt Smith nem tanto. Mas, de todo modo, mesmo quando falavam em inglês, o faziam com uma clareza fantástica. Grande parte da platéia, percebia-se, os entendiam com perfeição.
 
Surpreendentemente, ao menos para mim, eles abriram o show com "Everybody Wants To Rule The World", o que já deixou o público extremamente excitado e participativo. Todo mundo cantou junto, para, notou-se bem, extrema alegria da dupla. Já no terceiro número, tocaram "Sowing The Seeds Of Love". Impressionante foi a reação da platéia a "Head Over Heels", a última antes do bis. De fato, foi inacreditável como e com que energia o público cantou, a ponto de Orzabal parar de cantar apenas para, sorrindo, nos ouvir.
 
Extremamente competente e carismática era a vocalista que os acompanhava, Carina Round. Arrasou. Quando cantou com Roland "Woman In Chains", a primeira música do bis, foi simplesmente apoteótico! Depois, para terminar, como não poderia deixar de ser, "Shout"!
 
Do primeiro álbum, "The Hurting", eles tocaram "Mad World", "Pale Shelter", "Memories Fade" e "Change". Do "Songs From The Big Chair", "Everybody Wants To Rule The World", "Head Over Heels" e "Shout". Do "Seeds Of Love", além de "Sowing The Seeds Of Love" e "Woman In Chains", tocaram "Advice For The Young At Heart" e, surpreendentemente, "Badman Song". Do álbum "Elemental", tocaram "Break It Down Again". Ademais, tocaram seis faixas de seu trabalho mais recente, o "Everybody Loves A Happy Ending", e, por fim, como a grande surpresa da noite, "Billie Jean", de Michel Jackson.
 
Foi maravilhoso! Extasiante! Fantástico! Obrigado, Roland & Curt! Se eles voltarem, recomendo a todos que não percam. Que foi, sabe o quanto valeu a pena...!
 
Gugu Keller  

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

A Esquina - Capítulo 12

Mesmo desde logo disposta a seguir o conselho do dr. Clóvis, Ana Clara levou seis sessões, ou seis semanas, para apurar junto a Andréa informações que pudessem confirmar que o amante desta, Gladston, era, de fato, como ela suspeitava, o seu cunhado. É que durante cinco sessões o travesti falou muito sobre a sua infância, a sua família, sua opção por tornar-se o que é e o quanto para tanto enfrentou, e, como Ana Clara, ainda que extremante ansiosa a respeito, tenha, talvez numa atitude inconscientemente defensiva, evitado forçar qualquer coisa, apenas nesta sétima sessão ele voltou a falar sobre a aids e sobre o seu relacionamento com o tal Gladston, "Glad", como agora revelou intimamente o chamar, e, desgraçadamente para a psicóloga, em poucos minutos não restaria nenhuma dúvida quanto ao que se buscava confirmar...

Primeiro, ao, como calhou, descrevê-lo fisicamente, Andréa falou sobre a cicatriz que Gladston tem no rosto, fruto de uma navalhada que levou durante uma briga na adolescência. Falou também sobre o cavanhaque que usa, a pequena calva no cocuruto e, de quebra, ainda mencionou o carro que possui, um gol preto com rodas rebaixadas e teto solar.

Ademais, como se não bastasse, para liqüidar de ver com qualquer dúvida que, numa eventual tentativa de tapar o sol com a peneira, o psicológico de Ana Clara ainda pudesse ter, Andréa disse-lhe enfim...

- ... e sabe, doutora, uma coisa que é uma coincidência muito louca, que eu pensei desde o primeiro dia em que vim aqui?

- O que, Andréa?

- É que a mulher dele tem o nome muito parecido com o teu!

Tremendo por conta do quanto já fôra dito, Ana Clara, apesar do providencial efeito do ansiolítico, sentiu um seco pontapé de adrenalina na boca de seu estômago.

- Então você sabe até o nome da mulher dele?

- Sim! Sabe como é?

- Hum?

- Ana Cláudia! Quase igual ao teu, né?

Ana Clara sentiu seu corpo reagir como jamais antes. A descarga de stress foi tamanha que ela teve a nítida sensação de que desmaiaria. Instintivamente sua mão foi trêmula em busca do copo d'água na pequena mesa ao seu lado e o levou à sua boca. Andréa ainda falava mas Ana já não ouvia. Tremia, suava, sumia, surtava. E o travesti falando já sobre como Gladston, desde a primeira vez, insistiu em não usar camisinha, propondo-se inclusive a, para isso, pagar em dobro o valor do programa. Apenas quando dos olhos já rubros da terapeuta rolou um par de lágrimas, foi que Andréa percebeu que algo estava errado.

- Doutora... Doutora... Você está bem? - disse Andréa a Ana Clara indo já da sua poltrona nela. 

- Desculpe... Não é nada! Você se importa se continuarmos na semana que vem? Eu não vou te cobrar esta sessão... - disse Ana tentando se controlar o quanto possível, já com o travesti a atenciosamente segurar-lhe uma das mãos.

- Claro! Tudo bem! Mas o quê que aconteceu? Você está se sentindo mal?

Chorando, Ana Clara olhou no fundo dos olhos acolhedores e preocupados de Andréa, por quem já tinha muito do enorme carinho que nutre por todos os seus pacientes e, após pensar por alguns segundos de um ainda pequeno oásis de lucidez no meio de seu enorme deserto de desespero, disse-lhe como desculpa...

- Desculpe, Andréa! É que o meu gato morreu ontem...!

Às lágrimas e soluços, Ana Clara sentou-se ao volante de seu carro e pôs-se a dirigir. Rumou para sua casa mais por reflexo condicionado do que por o decidir. Sim, ia mas, não, nem sabia. Dirigia. Apenas dirigia. Câmbio, acelerador, rua, esquina. Dirigia. E chorava. Na sua mente, já não pensamentos, mas retalhos, imagens, referências. Medo, desespero, abismo. Foice, foi-se, fim. Câmbio, acelerador, farol vermelho. Dr. Clóvis, primeiro confirmar, não pode. Sigilo, ética, código. Normas, dogmas, ansiolítico. Conselho Regional de Psicologia. Câmbio, acelerador, espelho retrovisor. Ah, minha pobre irmã, como eu te amo! Ah, Gladston, seu filho da puta, como eu te odeio! Eu nunca gostei de você e eu estava certa! Eu te odeio, seu puto! Seu imbecil irresponsável! Sua bicha enrustida! Ah, Gladston Celso de Arruda, como eu te odeio! Glad, né? Filho da puta! Com todas as minhas forças te odeio! Também te odeio, dr. Clóvis! É! Odeio todos vocês! Odeeeeeeeeeio!

Ana Clara entra em casa e acende a luz da sala. De medo e nervoso, sente-se bêbada e drogada. Joga a bolsa sobre o sofá e, quase sem sair do lugar, anda em círculos. Parada, mexe-se. Três segundos, cinco e decide. Vai até o telefone. Começa a discar. Desiste. Pára. Vai até a garrafa de uísque e serve num copo. Gole. Volta ao telefone. Pega. Disca. Desiste. Pára. Bebe. Anda. Pára. Volta. Outro gole, meio copo. Se pudesse, sente, seria uma bomba e explodiria. Granada auto-deflagradora. Senta-se. Levanta. Gole. Mata o copo. Vai servir mais. Pára. Bebe no gargalo. Pensa em Andréa, ou João Felipe, que fez hoje a sétima sessão, e depois em Natália, paciente nova, que ontem fez a terceira. Sim. Horários todos tomados. Ela está indo bem. Mas e daí? Ela agora odeia tudo. E todos. E bebe. E anda. E tropeça. Apóia-se na estante de livros. Sente-se zonza. Chora. Puxa-os, quase todos de psicologia, e os joga no chão. Livros. Ama-os tanto. E agora os odeia. Anda para trás e tropeça de novo, mas cai sentada no sofá. Chora. Treme. Quer pedir socorro mas não tem a quem. O dr. Clóvis? Odeia-o. Polícia? Bombeiros? Resgate? Levanta. Garrafa. Bebe. Olha para as três caricaturas na parede. Chora, bebe, olha e mira. Um segundo, dois, três e voa a garrafa na direção de Freud. Barulho. Cacos. Da garrafa e do quadro, cacos. Tontura, loucura, abismo. Ela avança contra a segunda caricatura e, de mão fechada, esmurra a cara de Jung. Mais cacos. Sangue. Uísque. Eis Lacan, o terceiro, ao lado dela na parede. Ela o arranca e ei-lo a voar na direção do bar. E outra garrafa, esta de vinho, eis também com o quadro em cacos. Uísque, vidro, sangue, vinho tinto. Lágrimas, líqüido, luto. E Ana chora. E chora. E chora. E cai de joelhos sobre os livros no chão. E chora. E sua mão direita sangra. A manchar um livro sobre a ética na prática clínica, sangra. E chora. E sangra. E chora. E sangra. E, quando, após alguns instantes, alguém toca a campainha, ainda chora. E ainda sangra.   

Zonza e cambaleante, mas agora mais com medo do dr. Clóvis do que a o odiar, Ana Clara se levanta e vai à porta. Abre e dá com sua vizinha, dona Helena, que, preocupadíssima, e de pronto ainda mais por a ver naquele estado, pergunta...

- Ana Clara! Pelo amor de deus! O que é que está acontecendo?!?

Como se eles fossem o confortável passado de até sete semanas atrás, Ana Clara joga-se nos braços da vizinha, que, atônita, cada vez mais preocupada e sem outra opção, corresponde-lhe com calor ao abraço. E Ana Clara a abraça forte. E lhe molha o ombro esquerdo de lágrimas. E de sangue mancha-lhe a roupa no direito.

- O quê que foi, minha filha? O quê que aconteceu? - insiste dona Helena.

De novo pensando no dr. Clóvis, e de novo dele com mais medo do que ódio, Ana Clara mente pela segunda vez em menos de uma hora. E novamente é uma mentira em que ela mata...

- Um amigo meu... Um grande amigo meu...!

- O quê que tem o seu amigo, Ana Clara?

- Morreu, dona Helena! Morreu!

- Morreu como?

- Um acidente, dona Helena! Bateu o carro numa esquina e morreu!

As duas se abraçam. Ana chora. E sangra. E sequer imagina o quanto foi auto-profética.

Gugu Keller

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Obrigado!

Hoje é um dia muito feliz! Pela terceira vez em minha vida (a primeira foi em 1990 e a segunda em 1996), hoje à noite assistirei, no Espaço das Américas, aqui em São Paulo, a um show ao vivo com a minha banda favorita, o Tears For Fears!

De modo que, alegre que estou, hoje posto aqui de um modo diferente... Quero apenas agradecer aos amigos que prestigiam este blog com sua presença e seus comentários que sempre me causam emoção e proporcionam-me importantes reflexões para continuamente melhorar no quanto escrevo! Agradeço a todos os que têm aderido ao blog, e o número de seguidores tem aumentado bastante, e também, neste momento, uma vez mais, aos que têm acompanhando o meu projeto "A Esquina"! Obrigadíssimo a todos!

Agradeço ainda, de um modo especial, a meu grande amigo Luís Tabelião, parceiro de tantos anos, que também é fã do Tears For Fears, que esteve comigo nos shows de 90 e 96, e que novamente hoje estará lá ao meu lado! Obrigado por tudo, amigo! E todas as vezes em que eles vierem, lá nós estaremos! 

Que esta doce bruma, que, a envolver meu coração, suave sopra no além, nunca mais se dissipe, e que, com a banda favorita, possamos juntos sempre cantar e gritar... Shout! Shout! Lei it all out!

Gugu Keller

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Dizer-te

Mesmo em muitos trechos falho e esburacado, a palavra é o principal caminho entre os sentimentos e o mundo.

Gugu Keller

terça-feira, 20 de novembro de 2012

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

A Esquina - Capítulo 11

Quando, na quarta-feira, 23 de julho, três dias após o acidente, Natália, com uma perna fraturada e ainda vários hematomas pelo corpo, recebeu alta do hospital, seus familiares já haviam se reunido e decidido não lhe dar as duas notícias de uma vez, até porque, como ponderou o médico que a atendeu, ela possivelmente sequer se lembraria com clareza, ao menos por algum tempo, de todo o acontecido, ou como tudo aconteceu. Assim, num primeiro momento, acordou-se, ela "apenas" ficaria a par da gravíssima situação do marido. 

Sentada numa confortável poltrona, com o pé engessado a descansar sobre um apoio posto para tanto diante de si, eis Natália, com o rosto ainda bastante inchado e sob o indispensável efeito de um calmante, cercada por seus pais, um tio, uma tia e sua grande amiga de faculdade, Carolina. Com muito jeito, a cuidadosamente escolher as palavras, seu pai introduziu o quanto havia de ser dito...

- Natália, minha querida... Nós precisamos conversar um pouco com você...

Com um olhar de ainda confusão, ela assentiu com a cabeça. Ele continuou...

- Você se lembra, minha filha, do que aconteceu na madrugada de sábado para domingo?

Pausa. Natália deixa correr uma lágrima e se mostra aflita. A mãe lhe acode a acariciar a cabeça. Ela meio que balbucia...

- Eu... Eu lembro de uma festa... Eu... A gente foi embora... Aí, eu não sei... Eu lembro de uma luz piscando...

Sempre falando devagar e com tanta doçura na voz quanto lhe é possível, o pai de Natália segue...

- Minha querida... Houve um acidente.

- Um acidente? Que acidente?

- Talvez devamos esperar um pouco mais para termos essa conversa com ela... - intervêm preocupada a mãe.

- Não! Eu quero saber! Que acidente foi esse? - insiste ela mostrando emergir depressa do estado de confusão em que ainda estava.

Seguiu o pai...

- Você e o Fernando estavam voltando para casa depois da festa...

- A festa! Sim, eu me lembro... Estávamos na festa, sim!

- A festa do Dudú, Natália! Lembra? - ajuda Carolina.

- A festa do Dudú! Sim, eu me lembro! Foi ontem, não foi?

- Não, querida! - continua o pai. - A festa foi no sábado à noite! Hoje já é quarta-feira!

- Quarta-feira? Que horas são?

- Cinco da tarde agora, Natália! - participa o tio.

- Cinco da tarde? Então eu devia estar trabalhando...

- Não, querida! - diz de novo o pai. - Lá no teu trabalho eles sabem que você está descansando, que está se recuperando...

- Sim! - acrescenta a mãe. - Estão todos torcendo para que você logo fique boa...!

Pausa. De repente, Natália se agita...

- Mas e o Fernando? Ele estava comigo, então? Não estava?

Todos se entreolham.

- Sim, querida! - diz-lhe o pai. - Vocês estavam voltando para casa depois da festa...!

- E então a gente sofreu um acidente?

- Sim, meu amor! - responde a mãe dela. - Infelizmente! Um grave acidente!

- E onde ele está? Onde está o Fernando?

Pausa. Responde o pai...

- Ele está num outro hospital, Natália.

- Mas ele está muito machucado?

Todos novamente se entreolham.

- Minha filha... Você vai precisar ser muito forte...

- Por que, pai? O quê que aconteceu com o Fernando?!?

Pausa. Nervosismo. Hesitação.

- Fala, pai! O quê que aconteceu com ele? Foi nesse acidente que sofremos?

- Sim, querida. Foi nesse acidente...

- E como ele está? Me fala, pelo amor de deus!!!

Outra pausa e ele diz enfim...

- Querida... O Fernando não vai mais poder andar...!

- Como é??? Não vai mais poder andar???

- Não, querida! Ele não vai mais poder andar e nem fazer muitas outras coisas...! Ele está tetraplégico!

Gugu Keller

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

terça-feira, 13 de novembro de 2012

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Flor

Eu quero o cáustico crístico cálido do teu ínfimo íntimo hálito.

Gugu Keller

domingo, 11 de novembro de 2012

Rimando-te

Tu és na noite fria o meio-dia. No céu que estia, a estrela guia. Da poesia, a melodia.

Gugu Keller

sábado, 10 de novembro de 2012

Heartbeat

Antes de ti, meu coração batia aflito. Agora, a te sentir, bate agradecido.

Gugu Keller

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

A Esquina - Capítulo 10

Como se fosse o primeiro de uma longa vida dele à espera, ou o último de uma por ele em completa quimera, Natália entrega-se ao beijo quente e molhado de Rodrigo. De um modo que jamais concebeu-se capaz de ao que quer que seja se entregar, entrega-se. Definitivamente, pensa, nem à polícia, a deus ou às drogas, jamais ninguém se entregou assim. Entrega, entranha, rasgo, rendição. Coração a gangorrear, ela alterna sentir sua alma pela boca fugir rumo à dele com com a dele voltar de mãos dadas no rumo da sua. Sente. Boca, bocas, baque, batida. Lábios, lascívia, loucura, saliva. Barba, bebida, buzina, explosão.

Conforme, após apertar-lhe os ombros, com ambas as mãos ela a puxa para baixo, Rodrigo os braços abaixa e, beijando-a, da camisa, em que agora quase pisa, livre eis enfim. Sem que as bocas se desgrudem, todo nu ele então a apalpa nas nádegas, e com carinho as envolve, e revolve, explora. Beijando-o, o glúteo tomado de arrepio, Natália de novo o aperta nos ombros, e o alisa nas costas, e já o tem pelo pescoço, cabelos, nuca, e pele, e pêlos. E beijo. E beijo. E beijo. Mil beijos num só. Só num beijos mil.

Dois minutos, três, cinco. Acima lá vêm as mãos de Rodrigo. Nádegas, cóccix, dedo médio na fenda. Vêm, vêm, vêm, vêm. Rins, rio, rumo, chakra. Trinta, Rio, risco, cartão. Vêm, vêm, vêm. Sutiã, dedo médio no fecho. Tenta, tenta, alisa. Outra mão, dedo médio, dedão. Abriu, saiu, caiu. Peitos, sutiã, chão. Alisa, quase pisa. Beijo, línguas, labareda. Lábios, loucura, mansidão.

Natália se deita na cama de braços abertos. Flutuando sobre o lençol, sente um estranho paradoxo, mistura de acabar de nascer com enfim chegar lá. Não, não sabe se está nascendo, ou renascendo, ou diante de uma morte que enfim leva tudo ou enfim tudo traz. Quando Rodrigo, após ambos trocarem um olhar como só entre vesgos, leva as mãos às alças laterias da sua calcinha, ela vê da janela da sua vida em chamas os bombeiros chegando, e correndo, e gritando, e subindo, e salvando. E as mãos dele puxam. E puxam. E puxam. Vagarosamente puxam. Milímetro, milímetro, pele, pêlos. Vão, vão, vão, vão. Vão, verbo ir. Vão a se abrir. Terceira campainha. Atores a postos. A cortina se move. Luzes. Escuro. Música. Silêncio. Na luz do escuro, a música do silêncio. E Natália sente. Sim. É possível. Não. Não é como ela, lembra-se bem, com tanta emoção disse à dra. Ana Clara. É possível, sim, abrir-se a ponto de, nu a bater, exibir o coração. Descortinar. Ei-la, Natália, cinco anos depois do pesadelo, 20 de julho de 2003, 19 de julho de 2008, como se se levantasse de uma cadeira de rodas e caminhasse rumo ao céu, a poucos milímetros de exibir, via vagina, para todo o mundo, Rodrigo é o mundo, nu a bater, o seu tão ao mesmo tempo forte, frágil e febrilento coração.

Gugu Keller

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

domingo, 4 de novembro de 2012

Beijar-te

Quando os lábios se tocam e as línguas invadem, as almas espocam e os céus se nos abrem.

Gugu Keller

sábado, 3 de novembro de 2012

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

A Esquina - Capítulo 9

Psiquiatra e psicólogo, homem culto, inteligente e, acima de tudo, experiente, supervisor de todos os atendimentos de Ana Clara, o dr. Clóvis atentamente a ouviu narrar tudo quanto se passou desde que, quatro dias antes, o paciente João Felipe Cordeiro dos Santos, socialmente Andréa, adentrou o seu consultório. Pensativo, antes de dizer qualquer coisa, ele a ela estendeu uma caixa de lenços de papel, vez que lágrimas vinham-lhe aos olhos. As mãos trêmulas se serviram de um punhado e, com o nariz tomado de vermelhidão, Ana enxugou-se o quanto possível. Sempre sensato e equilibrado, a ela ele disse enfim... 

- Vamos tentar manter a calma e dar um passo de cada vez!

Ana Clara busca forças numa profunda inspiração. Expira também com intensidade e assente com a cabeça. O dr. Clóvis acrescenta...

- A primeira coisa a fazer, Ana, é confirmar a situação...!

- Confirmar?

- Sim! Confirmar que o Gladston, amante da Andréa, é o mesmo Gladston, teu cunhado! É claro que, como você disse, pelas informações que já tem e sendo esse nome, Gladston, tão incomum, tudo leva a crer que sim... Mas, enquanto não tivermos certeza, não faz sentido pensarmos em nada...! Concorda?

- Sim! Você está certo! Mas como teremos essa certeza?

- Conforme a Andréa for falando nas sessões, vá colhendo mais informações... Quem sabe ela diz como ele é fisicamente, como se veste, que carro tem...

- Entendi. Mas vou ser sincera com você, Clóvis... Estou com medo de não conseguir...

- De não conseguir o quê?

- De não conseguir continuar atendendo normalmente a Andréa, como se nada estivesse acontecendo... Afinal, eu não posso deixar transparecer para ela este estado de tensão em que me encontro...

- Você vai ter que ser forte, minha querida! Muito forte!

Pausa.

- Eu pensei em te pedir alguma coisa para tomar... Um ansiolítico! Ao menos para que eu consiga dormir...

- Eu vou te dar!

O dr. Clóvis começa a escrever uma receita. Ana Clara novamente respira fundo angustiada. Leva as mãos abertas com as palmas juntas diante de sua boca e comenta, meio que para si mesma, meio que para ele...

- E ainda essa coincidência da Ana Cláudia ter feito esse exame por causa do amigo...! Que ironia, meu deus! Que situação mais absurda!

- Que bom que ela não está contaminada!

- Sim! Claro! Mas é como se isso aumentasse a minha responsabilidade, entende?

Entregando-lhe a receita, ele declara peremptório...

- Você não tem nenhuma responsabilidade, Ana Clara!

Ela apanha o papel. Suas mãos ainda tremem e ela não consegue segurar uma nova lágrima quente e ácida que lhe brota de um dos olhos. Corroída de ansiedade, de novo meio para si e meio para ele, deixa escapar uma pergunta àquela altura já quase sem sentido...

- Se for ele, Clóvis... O quê que eu vou fazer?

Com um olhar que mistura uma profunda compaixão, fruto do enorme carinho que tem por ela, ao seu gigantesco senso de seriedade profissional, o psiquiatra diz a Ana o que ela já sabe mas claramente precisa dele então ouvir...

- Se for ele, não sabemos ainda o que fazer! Mas sabemos, dra. Ana Clara Wilson, o que não podemos fazer!

Ela entende de pronto a clara alusão à indeclinabilidade do sigilo profissional do psicólogo. Como uma frágil folha de receituário, ou um pequeno cartão de visita, sente-se ser rasgada ao meio pelas inconsenqüentes mãos de um destino injusto e cruel. Chora.

- Meu deus! É simplesmente a vida da minha irmã que está em jogo...!

Seríssimo, observa o dr. Clóvis...

- E simplesmente é também a tua carreira, pela qual você tanto lutou, que está em jogo!

Ana Clara ouve aquilo e chora mais. Chora um choro há quatro dias contido, que, com lágrimas e fluídos nasais, qual lava de um vulcão agora incontrolavelmente se faz liberar. Resta ao dr. Clóvis voltar a lhe dizer...

- Um passo de cada vez, Ana! Primeiro vamos confirmar...

Enquanto uma lágrima passa ao lado do seu queixo e já lhe escorre pelo pescoço, Ana Clara outra vez assente com um leve gesto de cabeça. E chora. E chora. E respira fundo.

Gugu Keller

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Boca

Qual sempre, engoles com gula
Qual nunca, eu suo na nuca
E, aos goles da láctea chuva
Teus lábios de ácido açúcar

Gugu Keller

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

A Esquina - Capítulo 8

Ao menos pelo que se lembra, aquela festa do trígésimo aniversário de sua grande amiga Carolina, uma amizade dos tempos de colégio, foi o primeiro evento social a que Natália foi sem a companhia de Fernando desde que, exatos três anos antes, em maio de 1999, eles se casaram. Com efeito, até então, sempre foram juntos a todas as festas, jantares, reuniões familiares, o que fosse. Não que tivessem uma vida social muito intensa. Não. Natália nunca foi de muita agitação. Contudo, àquela festa que marcava uma data tão especial na vida da grande amiga, Natália não poderia deixar de comparecer, até porque ela própria completaria a mesma idade no próximo setembro e igualmente esperava os amigos em sua comemoração. E, não tendo Fernando conseguido voltar da viagem de trabalho que fizera ao Rio, eis Natália, por volta das dez horas da noite daquela sexta-feira, a caminho do salão de festas de um clube alugado por Carolina.

Também ao menos pelo que se lembra, Natália jamais ouviu Carolina lhe falar sobre um primo seu chamado Rodrigo, e, quando este se aproximou se apresentando, com uma disfarçada empolgação ela se surpreendeu ao ouvir que, qual ela, tampouco ele estava acompanhado. É que, ainda que seu superegóico subconsciente rapidamente já tivesse se encarregado de a fazer o negar para si mesma, ela já havia, desde logo, reparado naquela inequívoca beleza masculina. 34 anos, divorciado, analista de sistemas.

- E você, quantos anos tem, Natália?

- 29!

- E conhece a Carol de onde?

- Estudamos juntas no colégio!

Meia hora de conversa. Quarenta minutos, uma. Onze da noite, meia-noite. Quinze para uma, uma. Drinques, música, alegria. Reencontros, abraços, cumprimentos, risadas. Presentes, luzes, pista de dança. Natália e Rodrigo seguem conversando. Blá, blá, blá, blá, blá. Ei-los agora numa varanda onde ninguém os vê. Pausa momentânea. Rodrigo dá um gole e, olhando-a bem nos olhos, diz...

- Eu não imaginava que a minha prima tivesse uma amiga tão linda...

Natália ouve aquilo e, de pronto, sente um golpe duplo em seu corpo. Um, de adrenalina, na boca do seu estômago. Outro, de progesterona, no vão entre as suas pernas. E, numa estranha combustão entre ambos, a seguir, um outro golpe, este mais incisivo, seco, amargo, contundente, o golpe da culpa. Pela primeira vez, culpa. Como nunca antes, culpa. Como para sempre doravante, culpa. 2002, 2003, culpa. 2004, 2005, 2006, 2007, 2008. Fernando, trabalho, casamento, família. Rio de Janeiro, festa, desacompanhada, primo. "Tão linda", culpa. Sim, Natália gostou do que ouviu. Mas, não, não gostou. Gostou e não gostou de ter gostado. E gostou de não ter gostado de ter gostado. Mas não gostou disso tampouco e, culpada, desgostosa de si por tamanho inequívoco gosto, disse enfim...

- Eu preciso ir...

- Mas já?

- Já é tarde...

Rodrigo novamente olhou bem dentro dos seus olhos.

- Não quer uma carona?

Outro golpe duplo. Triplo. Trava. Tranco.

- Obrigada! Eu estou de carro!

Com a mão que não segura o copo de que ele bebe, Rodrigo segura uma das dela, que já deixou o de que bebia sobre uma mesa ali ao lado.

- E amanhã?

Novo olhar. Adrenalina. Progesterona.

- Amanhã o quê?

- Amanhã é sábado! Você vai fazer alguma coisa? Tem algum compromisso?

Ela não larga a mão dele. Rasgando-se ao meio, sente que algo aconteceu, algo está acontecendo, ou que, pior, algo inevitavelmente acontecerá. Mas não. Não. Culpa. Ela não pode. Jamais lhe passou pela cabeça. Diz a ele enfim...

- Escuta, eu...

Pára. Hesita. Luta. Rasga-se.

- Você...?

Cola-se.

- Eu sou casada!

"Casada" é a penúltima palavra entre ambos dita naquela noite. Um segundo, dois, três e, após fazer o seu copo igualmente descansar sobre a mesma mesa, Rodrigo, sem largar a mão de Natália que segura, com a outra agora livre a envolve por trás da cabeça. Cabelos, nuca e, aproximando seu rosto do dela, beija-a terna e lentamente na bochecha esquerda. Ela sente os lábios quentes, a pele grossa da barba de um dia, e arrepia. Culpa, Rio, rasgo, saliva.

Os rostos se afastam. As mãos enfim se soltam. Olhar. Olhar. Olhar. O perigo retrai. O perigo atrai. Pecado, culpa, dúvida. Adulterar, adulta, trinta, adultério. Natália não diz nada. Vira-se e se põe a ir para sempre. Um passo, dois, e ela ouve a entre ambos última palavra da noite...

- Espera!

Natália pára. Rasga-se de novo. Hesita. Voltar ou não ao que acaba de deixar para trás para sempre? Rasgada, volta. Ao menos uma das suas metades volta-se e olha. Rodrigo leva a mão ao bolso e tira a carteira. Apanha um cartão e o estende.

Novamente ela se rasga. Quer pegar o cartão e não quer. Quer e não quer querer. Quer e não quer querer não querer. Pegar? Não pegar? Pegar e rasgar? Não pegar e rasgar-se?

Natália baixa os seus olhos. Não volta a olhar diretamente nos de Rodrigo. Apanha o cartão e, mesmo ainda pensando em rasgar-se e o rasgar, mete-o na bolsa. Sem dizer nada, vira-se e se vai. Apressa o passo. Some festa adentro e, despedindo-se de Carolina, em seguida, festa afora. Adrenalina, adultério, culpa. Progesterona, umidade, medo. Testosterona, cartão, ereção.

Gugu Keller

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

terça-feira, 23 de outubro de 2012

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

sábado, 20 de outubro de 2012

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

A Esquina - Capítulo 7

Tensa, praticamente sem ter dormido nos últimos três dias, Ana Clara aperta o botão do sétimo andar no elevador do prédio onde mora sua irmã, Ana Cláudia, que, juntamente com sua mãe, Eneida, a espera para um bolo e um café. Numa das suas mãos, um pacote colorido envolve um presente, um par de tênis côr-de-rosa com motivos infantis para sua sobrinha e afilhada, a pequena Manoela. O elevador fecha a porta e começa a subir. Primeiro andar, segundo. Será o seu cunhado o amante de Andréa? Terceiro. Sim, São Paulo é uma cidade gigantesca, mas haverá por aí um outro sujeito de nome Gladston, com a mesma idade, 34, também casado e também com uma filha de um ano e meio? Quarto andar. E se for mesmo ele? O que fazer? Quinto, sexto. Angústia. Apenas amanhã Ana Clara terá com Clóvis, o único que pode lhe ajudar, o único que pode lhe aconselhar, o único, sobretudo, com quem pode desabafar. O que fazer? O que fazer? Deus, o que fazer? Sétimo andar. O elevador pára e a porta se abre. Hall. Apartamento 71. Campainha. Medo. Ânsia. Angústia.

- Oi, minha filha! - diz dona Eneida abrindo a porta.

- Oi, mãe!

Mãe e filha trocam beijos. Ana Cláudia aparece em seguida e as irmãs o mesmo.

- E a Manú?

- Tá dormindo! Mas daqui a pouco a gente acorda ela pra tomar o mingau...

Ana Clara entrega à irmã o presente. Esta adora e agradece. De repente, após uma pergunta absolutamente inocente, com a imediata resposta da mãe a terapeuta leva um enorme susto, um indescritível tranco na boca de seu estômago, soco, murro, um sem chão sob os seus pés...

- E aí? Quais são as novidades?

E diz-lhe dona Eneida...

- Novidades? Tua irmã não tem aids!

De fato, o golpe de adrenalina é fortíssimo. Ana Clara chega a sentir uma brusca tontura lhe tomar o corpo. Mas como??? Então o amante do travesti é mesmo o seu cunhado??? E sua irmã e sua mãe já sabem??? E Ana Cláudia já foi até fazer o teste do hiv???

Tentando disfarçar o absurdo susto, resta a Ana Clara perguntar pasma...

- Como assim, mãe?!?

É Ana Cláudia quem explica...

- Lembra do Peninha, meu amigo?

- Aquele que é gay?

- Sim! Bem gay!

- O quê que tem ele?

- Ele estava querendo fazer o exame, o teste lá do hiv... Mas estava com medo, sabe? Aí, como eu já tinha feito quando fiquei grávida da Manoela, eu falei que fazia junto, pra dar uma força...!

- Sim! - participa dona Eneida. - E hoje eles pegaram o resultado...

- É! - conclui Ana Cláudia. - Não estamos infectados! Nem ele, nem eu!

Tudo explicado, ao cabo de menos de um segundo, Ana Clara sente sua cabeça dar um nó. De repente ela percebe que, se é ótimo saber que sua irmã não está infectada pelo hiv, ao mesmo tempo, se o Gladston, seu cunhado, for o mesmo Gladston, ela está correndo um sério risco, e, se vier a se infectar, tal se dará com ela, Ana Clara, ciente da situação, já ciente do risco, da probabilidade até. Medo, angústia, ânsia, desespero. O que fazer? O que fazer? Deus, o que fazer, porra?

Pior ainda, para decerto garantir que Ana Clara não dormirá pela quarta noite consecutiva, sua irmã aproveita a ida da mãe até a cozinha por alguns minutos para abordar-lhe de um modo reservado...

- Ai, Clara... Será que qualquer hora a gente podia bater um papo? Eu queria te pedir uns conselhos... Afinal, além de minha irmã mais velha, você é psicóloga, né?

- Claro, Claudinha! Mas o quê que está acontecendo?

Ana Cláudia muda o tom.

- É o Gladston, sabe?

Ana Clara sente um frio na espinha.

- O quê que tem ele?

- Sei lá, minha irmã... Eu não sei se é só impressão minha... Mas, de uns meses pra cá, eu tô achando ele tão estranho... Parece que tá meio frio, meio distante... Quando a gente transa, parece que não é a mesma coisa... Eu queria que você me dissesse se eu devo ficar preocupada ou se de repente é só uma fase que faz parte da vida de um casal...

Gugu Keller

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

terça-feira, 16 de outubro de 2012

A Esquina - Correções

Queridos amigos...

Este post é apenas para agradecer os que estão acompanhando o "A Esquina". Agradeço imensamente tanto quem tem comentado quanto quem prefere acompanhar sem o fazer. E aproveito também para pedir desculpas pelo fato de que, por estar eu a postar cada capítulo imediatamente após os ter escrito, num primeiro momento às vezes algum erro de digitação acaba passando. Ontem, por exemplo, relendo o sexto capítulo, além de ter dado uma pequena mexida num dos parágrafos, vi uma palavra em que faltava uma letra. Desculpem-me, então, por isso. Pode até parecer bobagem da minha parte, sobretudo porque faz parte da proposta isso de escrever "junto" com os leitores, mas é que sou muito perfeccionista com o que escrevo, sabem? Sim, doentiamente perfeccionista! Ficarei grato, de todo modo, se, além das críticas e comentários, alguém me apontar algum erro que eventualmente encontre para que eu o possa corrigir, ok?

Obrigado mais uma vez a todos os que estão acompanhando! É sempre uma honra e uma grande alegria tê-los no meu blog!

Gugu Keller

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Bandeira 2

O estares longe dispara em meu peito o taxímetro da saudade. E bate. E bate. Num doido doído, bate. E, no visor úmido dos meus olhos tristes, eis o quanto já está cara, milionária, a corrida.

Gugu Keller

domingo, 14 de outubro de 2012

Penitenciária

Se ficas a remoer o passado, estás algemado. Se tens medo, encarcerado. E, ainda, se te importas com expectativas alheias, estás nada menos do que acorrentado.

Gugu Keller

sábado, 13 de outubro de 2012

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

A Esquina - Capítulo 6

Tanto o pênis de Rodrigo vai-lhe fundo boca adentro, garganta, goela, gárgula, úvula, que à mente de Natália entrementes vem a lembrança daquela incisa e ansiosa ânsia de vômito. E vem-lhe aquela tarde, o cinza, o concreto, o túmulo, família Wilson, o coveiro e as flores vomitadas. Culpada, chupando e chupando, em prazerosa fúria chupando, ela com clareza compreende o quanto é doentio simultaneamente pensar naquilo tudo, naquela tão inversa à deste momento catarse. E Natália tenta de certo modo negar a lembrança. Mas, de certo modo, num a seguir quase imediato, desiste. Atina, num desespero enfim agora conformado, que, hora após hora, dia após dia, meses, anos, três, cinco, tudo o que tem feito é tentar negar pensamentos que afinal o tempo todo lhe vêm, o tempo todo tem, o tempo todo lhe têm.  Atina enfim que tentar esquecer assim é pensar mais, ou que os tentar de algum modo evitar depois que a rigor já vieram é pior. Dobra-os, multiplica-os, potencializa-os. Sim, compreendeu. Tentar negar o que é, o reafirma. Então, mesmo com culpa, resta-lhe, chupa. Copioso prazer culpado. Como se novamente vomitasse sobre as flores, culpa. Como se quando a se masturbar na cadeira de rodas, chupa. Mesmo em copiosa culpa, chupa. Mesmo em copioso prazer chupando, sente vorazmente chupar-lhe a sua tão sua cópia culpa.

Sentindo que, a continuar ela naquela toada poderá logo já lhe vir o gozo, Rodrigo carinhosamente traz para cima a cabeça de Natália, sinalizando-lhe tacitamente que de sexo oral ele está satisfeito. Num último movimento, ela faz o pênis entrar até o fim por sua boca, possivelmente ganhando-lhe já o início do esôfago enquanto sua testa e nariz tocam o púbis, pêlos a lhe cutucar os agora também por isso quase lacrimejantes olhos abertos. Dois segundos, três, cinco, e, centímetro a centímetro, para depois engolir toda a sua saliva cheia daquele gosto, ela enfim o faz vir para fora. Dirigindo ela ao parceiro um olhar de presa agonizante, a que ele reribui com um de predador faminto, ambos lenta e ofegantemente expiram. A seguir, como num novo gesto de, mais do que entrega, adoração, Natália, agora de olhos fechados, encosta o pênis na lateral do seu rosto e a ele envolve com uma das mãos, abraçando-o, acolhendo-o, com ele dançando parada uma silenciosa música lenta, trazendo-o o máximo possível para o máximo possível do seu íntimo. Com a outra mão, com carinhoso cuidado, por baixo envolve os testículos.

Novamente a conduzindo pelas axilas, Rodrigo pede sem fala a Natália que se levante. Ela o faz. Ei-la já não mais de joelhos, mas diante dele de pé. Erguendo seu tronco, ei-lo, por seu turno, sentado na cama com as pernas para fora diante dela. Como a um papagaio, num estender de mão ele a ela pede o pé. Entendendo-o de pronto, e já sem tentar evitar lembrar o tombo daquela tarde após o vômito, ela se apóia com as mãos nos ombros dele e lhe leva o esquerdo. Ele lhe tira o sapato e, com ele, ela o sente, ou tenta sentir, o "c" da palavra culpa, atira-o num canto do quarto. Tira-lhe a meia e, após um leve beijo no pé, com a letra "u" também a atira. Os olhos conversam e eis Natália com o pé descalço no chão e o direito nas mãos de Rodrigo. E vai-se o sapato ao mesmo canto com a letra "l", e, após também um beijo, a segunda meia a levar a letra "p". E eis Natália descalça. E Rodrigo agora a puxa pelos quadris contra si e, mesmo por sobre a calça jeans, leva-lhe a boca sobre a vagina. Com a força exata para que ela sutilmente o sinta, ele morde, mordisca, pressiona de leve com os dentes. Natália o envolve pelos cabelos e, enlouquecida de desejo, expira...

- Ahhh...!

Olhos. Quase fora das órbitas, olhos e olhares. Rodrigo desabotoa o cinto e a calça de Natália. Baixa-lhe o zíper. Puxa. Revela-se a calcinha branca. As coxas. Os joelhos. Pernas. Tornozelos. Apoiando-se novamente nele, Natália ergue um dos pés, agora primeiro o direito, e pensa no tombo, depois o outro, o esquerdo, pensa, e eis a calça e o cinto, como que a roubar do gemido de há pouco a letra "a" que completa a palavra, também voando junto ao resto rumo ao canto. E, na cabeça de Natália, voa tudo. Voam destroços, vidro, sangue, vida, flores. Cadeiras de rodas. Morte, morgue, mordaça, sucção.

Rodrigo se levanta. Olhos eis desorbitados frente a frente. Próximo ao umbigo, o pênis ereto e úmido de saliva toca-a no ventre. Rodrigo ainda tem no corpo a camisa desabotoada. Natália, a calcinha e o sutiã. Três passos para o paraíso. Três peças para o paraíso. Três sessões de psicoterapia e ei-la, Natália, feita de culpa e vazia dela, a uma esquina do doce inferno do seu paraíso. Olhares, ósculo, hóstia. Esquina, escolha, hospital, hospício.

Gugu Keller 

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

terça-feira, 9 de outubro de 2012

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Mentalidade Capitalista

Para vários problemas coletivos, sabe-se há muito, existem soluções definitivas possíveis que apenas não são adotadas para que se possa lucrativamente vender as paliativas ou temporárias.

Gugu Keller

domingo, 7 de outubro de 2012

Olhar

Freqüentemente, por mais que possa falar, gritar, sorrir, morder e cuspir, a boca não diz tanto quanto os olhos.

Gugu Keller

sábado, 6 de outubro de 2012

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

A Esquina - Capítulo 5

- Eu sou soropositiva! Eu tenho aids!

Sem desviar seus olhos dos olhos verdes do travesti, Ana Clara fez, não o pode evitar, uma pequena pausa. Tendo já, também por conta de sua experiência na entidade em que paralelamente ao consultório atua, atendido pacientes soropositivos, ela sabia que a sua primeira reação àquela tão complicada revelação seria de suma importância para a continuidade do trabalho que, naquele momento, com aquela primeira entrevista, se iniciava. Contudo, apesar da óbvia gravidade do quanto lhe fora confidenciado por Andréa, esta não parecia a respeito tão abalada como, de modo tristemente marcante, Ana Clara vira outros estarem ao lhe relatar a mesma situação. Assim, após aquele silêncio de talvez um segundo e meio, com o máximo de naturalidade possível, perguntou a terapeuta ao travesti...

- Há quanto tempo?

- Dois anos, mais ou menos...

- Você está com que idade?

- 24!

- E como você descobriu?

Andréa explicou que, juntamente com outro travesti, Mércia, com quem divide um apartamento, costumava, desde que começou a se prostituir, aos 18 anos, semestralmente fazer o teste. Até que, no momento por ela acima referido, deu positivo. Disse que sempre usou camisinha com os seus clientes, mas que, de vez em quando, aparecia um ou outro que insistia no contrário, oferecendo para tanto quantias irrecusáveis, e que, provavelmente, foi num desses tiros a esmo, não raro embalados por maconha, álcool e anfetaminas, que ela se contaminou. Questionada por Ana Clara, ainda que neste primeiro momento apenas de modo superficial, acerca de sua opção pela prostituição, Andréa explicou que a dura realidade dos travestis não costuma lhes oferecer muitas outras.

- Se eu tivesse outro caminho, - arrematou - jamais teria entrado nesta vida de fazer programas!

Intuitiva, Ana Clara observava. Disse então...

- Mas, pelo menos, Andréa, com relação a ser soropositiva, você me parece bem... Quero dizer, ao menos você está com um aspecto bastante saudável...!

- Ah, sim! Graças a deus! Estou bem! Carga viral indetectável!

- Que ótimo! Você se trata, então? Toma um antiretroviral?

- Sim! O Kaletra!

- Maravilha! Que bom que você está bem!

Andréa então explicou a Ana Clara que o que a levou a procurar uma terapia não foi em si o fato de ela estar contaminada, com isso ela até tem lidado razoavelmente bem. O problema, um árduo dilema em seu íntimo, é um relacionamento que ela vem mantendo nos últimos meses com um homem casado, no princípio mais um cliente, mas hoje já parceiro de uma mútua e ardente paixão.

- Ele está apaixonado, doutora! Está louco por mim!

- E você?

- É... Acho que eu sinto o mesmo...

- E então ele é casado?

- Sim!

- Quantos anos ele tem?

- 34!

- E há quanto tempo ele é casado?

- Parece que uns três anos...

- Tem filhos?

- Tem uma filha pequena... Nenê... Uma ano e pouco, acho...

Ana Clara pensava. Analisava. Sobretudo, como sempre lhe foi peculiar, observava.

- Bom... - comentou então - Acho que isso é bastante comum, não?

- Ah, sim! Muito! Muito mesmo!

- E o quê que tá pegando, Andréa? Por que essa relação com esse homem fez você procurar uma terapia? Você está apaixonada e fica imaginando se um dia ele vai te assumir ou algo assim?

- Não, não é isso! O problema é o que eu te contei agora há pouco... O hiv!

De pronto Ana Clara entendeu. E fez a pergunta que cabia...

- Vocês não usam camisinha?

Ajudando com um leve movimento de cabeça, Andréa respondeu agora com um pequeno quê de auto-reprovação...

- Não!

Pausa.

- E você não disse a ele que tem o hiv?

Lentamente, Andréa repetiu o movimento e a expressão.

- Não!

Pausa.

- E tem medo de dizer?

Tudo igual para o positivo.

- Sim!

Pausa.

- E também tem medo de contaminá-lo? Ou de já o ter contaminado?

Idem.

- Sim!

Ana fez uma nova pausa. Sempre a observar a paciente novata, decidiu uma linha de abordagem para saber mais sobre aquela situação. A resposta à primeira pergunta que para tanto fez, todavia, instalaria em seu íntimo uma brusca e inesperada tensão, a ponto de, o que é raríssimo, inédito quase, fazê-la perder a concentração numa primeira entrevista...

- Como é o nome dele?

O travesti voltou a relaxar um pouco após a tensão de ter entrado no assunto que lhe era motivo de tudo e, com agora um quase sorriso na boca, explicou...

- Ele tem um nome diferente, sabe? Um nome meio esquisito... Tanto que, no começo, ele me disse um nome falso, Roberto... Mas, depois, na terceira ou quarta vez que a gente saiu, ele me disse o nome verdadeiro...

- E como é o nome?

- Gladston!

Gugu Keller